Capítulo 2 - Perdão.
MEU PEQUENO HERDEIRO
SAKURA
As horas se passavam e a noite caía, enquanto eu continuava trabalhando naquelas papeladas burocráticas. Depois que o Naruto saiu da minha sala, eu atendi alguns pacientes que estavam maus na emergência, e isso me atrasou nos relatórios. A minha cabeça doía, eu estava cansada, mas tinha tantas coisas para fazer que eu resolvi ignorar os protestos do meu corpo que pedia por descanso.
Naruto tinha razão, eu não era mais a mesma Sakura de antes. Eu não era mais feliz. Eu havia me isolado num mundo que eu mesma construí para mim mesma. Um mundo que se eu saísse desmoronaria. Eu tinha vontade de sumir por um tempo, sair da vila, dar um tempo de tudo e de todos para colocar as coisas em ordem na minha cabeça, organizar meus sentimentos que estavam bagunçados e destruídos por certo Uchiha.
Por que eu tinha que ser tão azarada no amor? Porque eu tinha que amar alguém que não me amava? O amor para mim só trouxe dor e decepção, e mais nada.
Eu continuava assinando aqueles relatórios quando a porta de meu consultório foi aberta bruscamente, e por ela entrou Tsunade com uma cara nada boa.
Levantei-me da cadeira preocupada.
— Mestra, aconteceu alguma coisa?
— Sim, aconteceu. - ela disse, me fitando séria. - Eu não quero mais te ver nesse hospital por uma semana.
— O quê? Como assim? - minha voz saiu incrédula com que eu tinha acabado de ouvir.
— Foi o que você ouviu.
— Mas, mestra, eu tenho muitos trabalhos...
Ela me interrompeu com uma carranca que me deu medo.
— Eu não quero saber! - gritou, e me encolhi. - Você está a dias enfurnada neste hospital sem dar as caras em casa. Você quer o quê? Ser um desses pacientes deitada em algum leito? É isso?
— Mestra não é bem assim...
Ela não me deixou falar.
— Eu não quero ouvir desculpas. - ela gesticulava as mãos. - Olha só para você? Cheia de olheiras, e com uma expressão péssima.
— Me desculpe. - sussurrei, abaixando minha cabeça, sentindo-me derrotada.
Ela suspirou e agora falou com mais calma:
— Você não tem que me pedir desculpas. Eu só estou fazendo isso para o seu próprio bem. - eu ergui minha cabeça e a fitei. - Você é como uma filha para mim, Sakura, e eu não quero te ver assim, se destruindo aos poucos. Você é jovem, tem uma vida toda pela frente. Vai viver, vai se divertir. A vida é uma só, desperdiçá-la só vai causar arrependimentos depois.
Sim, Tsunade era como uma mãe para mim, ela sabia o que eu vinha passando com a minha situação com o Uchiha. E ela estava certa. A vida era uma só, e eu tinha que aproveitá-la o máximo que puder. Mas como eu vou aproveitar a vida quando eu estou só os pedaços?
— Tudo bem, eu vou para casa. - disse por fim, dando-me por vencida.
— Isso mesmo, e não se preocupe que eu e a Shizune cuidamos disso aqui. - ela caminhou para detrás da mesa e sentou-se na minha cadeira.
Juntei as minhas coisas e antes de sair da sala eu escuto ela me chamar:
- Sakura.
Virei meu corpo para trás, e a fitei.
— Sim.
— Lembre-se, eu não quero te ver aqui por uma semana. - sua voz saiu séria, seu dedo indicador apontado para mim.
Apenas assenti com a cabeça e saí da minha sala.
Eu andava pelas ruas de Konoha indo para a minha casa. Algumas casas já estavam erguidas e algumas sendo construídas, mas muitas coisas já estavam voltando em seu devido lugar. Eu tinha perdido a minha casa onde morava, e meus pais foram mortos durante a guerra. Eu me sentia muito sozinha, não tinha mais ninguém no mundo, só os meus amigos. As coisas estavam cada dia mais difíceis para mim, mas eu estava levando na medida do possível. Vivendo um dia de cada vez.
Eu caminhava de cabeça baixa por aquela rua pouco movimentada, minha mente estava longe, vagando por tudo que havia acontecido nesses últimos meses. Estava tão distraída do mundo ao meu redor que só voltei a realidade quando esbarrei com alguém sem querer.
— Sakura?
Aquela voz... Era uma voz inconfundível.
Ergui minha cabeça lentamente para cima e meus olhos visualizaram um peitoral coberto por uma camisa cinza de gola alta. Fui subindo o olhar pelo pescoço, queixo, a boca em uma linha reta, nariz, até chegar aos olhos ônix. Aqueles olhos que me deixava maluca. Meu coração traidor acelerou nas batidas, me deixando trêmula por dentro. Os sentimentos vinham com toda a sua força, deixando minhas pernas bambas, só por estar tão próxima dele.
— Sasuke... me desculpe. - sussurrei sem deixar de olhar aquelas orbes negras que me fitavam intensamente.
Sasuke estava mais lindo do que a última vez que o vi. Aqueles cabelos bagunçados que o deixava sexy, seu porte erguido que não estou nem aí era a sua marca registrada. E eu era apaixonada por esse homem.
— Você está péssima. - ele disse com aquele tom de voz fria e sem emoção.
Soltei uma pequena risada de desdém. Se eu estou assim é por sua culpa.
— Você está indo aonde? - ele quis saber, suas expressões ainda eram as mesmas.
Curioso. A curiosidade matou o gato meu bem.
Eu podia falar isso para ele, eu queria ser grossa com ele. Queria o esnobar, o maltratar, o tratar com ignorância como ele fazia comigo, mas eu simplesmente não conseguia. Não conseguia tratar ele da mesma forma que ele me tratava. Sasuke sempre me deixava sem ação, ele me fazia amá-lo ainda mais só por olhar para mim, como ele estava fazendo agora. Eu sei, eu sou uma idiota, uma idiota masoquista.
— Estou indo para casa. - respondi sem quebrar aquele contato visual.
— Hm.
Ele me olhava tão intensamente que eu sentia a minha pele esquentar e sabia que estava corando. Parecia que ele estava estudando os detalhes do meu rosto. Ele estava... sei lá... diferente. De alguma forma ele estava diferente.
Quebrei aquele contato visual, não suportando mais o fitar, era muita dor que eu sentia por estar tão próxima dele. Por sentir um amor que queria explodir em meu peito, mas que não era correspondido.
— Eu tenho que ir. - minha voz saiu como um miado, enquanto desviava de seu corpo e começava a tomar o meu rumo, mas para a minha surpresa, senti a sua mão agarrar o meu braço, impedindo-me de dar mais algum passo. Seu toque fez todo o meu corpo estremecer, o meu coração pulando como se fosse uma britadeira. Virei-me e o fitei, confusa, pouco assustada com seu gesto repentino.
— O que foi?
Ele continuava me olhando, não dizia nada, parecia que estava travando uma batalha interna.
— Eu...
— Você? - motivei a continuar, curiosa e desesperada por saber o que ele tinha para me dizer.
Ele fechou os olhos e soltou um suspiro profundo, voltando a abrir os olhos novamente, me olhando agora determinado.
— Eu quero te pedi perdão. - não pude evitar que meus olhos arregalassem. - Perdão por tudo o que eu te fiz, principalmente por aquele dia...
Ele não terminou a frase, mas nem precisava, pois eu sabia o que ele se referia. Era o dia que ele tentou tirar a minha vida. Eu não disse nada, eu estava completamente paralisada, anestesiada com a sua confissão. Sasuke Uchiha me pedindo perdão? É isso mesmo que eu escutei? Com toda a certeza, Sasuke estava estranho. O Sasuke que eu conheço nunca pediria perdão, principalmente para mim.
— Você está me pedindo perdão? - perguntei baixinho, ainda descrente.
Ele inspirou e suspirou, cansado, balançando a cabeça positivamente.
— Eu não espero que você me perdoe. Eu sei o que fiz foi sério e imperdoável, vou entender se você não me perdoar. Eu só quero retomar a minha vida de novo, sem ódio, e sem rancor.
Eu podia sentir os meus olhos começando a lacrimejar. Eu não podia chorar agora, eu não posso chorar na frente dele.
— Você me magoou muito quando tentou me matar duas vezes. - eu comecei, lutando para não derramar nenhuma lágrima. - Eu só quero que você responda somente uma pergunta.
— E qual seria? - sua expressão era a mesma, séria.
— Você iria mesmo me matar, caso alguém não interferisse?
Eu tinha que saber. Eu necessitava daquela resposta. Eu tinha que tirar aquele peso que eu vinha carregando desde aquele dia.
Sasuke não respondeu, seu rosto estava sem nenhuma expressão. O seu silêncio só demonstrava uma resposta, e era aquela que eu mais temia em ouvir.
Engolindo o choro e ignorando as lágrimas que começaram a cair, disparei:
— Foi o que pensei.
Magoada e amargurada me afastei dele e corri. Corri como se a minha vida dependesse daquilo. Eu queria que essa dor que dilacerava meu peito sumisse. Ter aquela comprovação só piorou o estado emocional em que eu sentia. Só abriu mais o buraco em meu peito, e Sasuke conseguiu abri-lo ainda mais de um jeito cruel.
Cheguei ao meu pequeno apartamento que eu agora morava sozinha, e abri a porta, entrando no cômodo pequeno. Larguei as minhas coisas no chão mesmo, não estava com cabeça para nada. A única coisa que eu queria era cair na minha cama e fechar os olhos e nunca mais acordar.
Tirei as minhas roupas e fui para o banheiro, enquanto a água do chuveiro caía, levava as lágrimas de dor que eram derramadas.
Ele iria me matar.
Era isso que só passava em minha mente. Eu tinha uma pequena esperança de que ele iria dizer que não. Que tinha sentido o chakra de Kakashi e de Naruto na hora do ato, que só tinha me atacado para me afastar, para que eu não fosse atrás dele. Mas uma vez eu tinha sido uma idiota, e me agarrado as minhas fantasias de garota sonhadora.
Burra!
Saí do banheiro e vesti o meu baby-doll bege. Deitei na cama, meu corpo estava tão cansado e eu tão exausto que não percebi quando peguei no sono, ainda chorando.
