Meus agradecimentos a Mellon por seu review e pelo incentivo, já que há tanto tempo eu não escrevia essa fanfic. Na verdade, eu tenho essa história na mente e rascunhos prontos, mas me falta tempo para elaborar. De qualquer forma, eu agradeço o incentivo e a paciência de quem porventura vier a ler esse novo capítulo.
Terminar, eu terminarei, isso eu posso garantir. Vou retomar sempre a ligação com os livros de Tolkien e paralelamente, vou utilizar alguns elementos mitológicos. Um outro dado de inspiração é o Livro Negro de Arda, um livro muito criativo e interessante de origem Russa, sobre a versão de Melkor sobre a história da criação, onde, logicamente, ele que é o mocinho...rs. Não é uma derivação ou criação de Tolkien, mas foi espetacularmente bem elaborado e servirá plenamente aos meus propósitos. (risadinhas maléficas!).
Nota: O nome do navio Nexis foi retirado do nome Nixes, da mitologia escandinava que conta sobre espíritos da água do rio ou do lago podem mudar de forma. Aegir não permite que esses espíritos entrem no mar. Eles são extremamente temperamentais e podem ajudar ou conduzir a perdição.
Silkies: Outra lenda, de origem irlandesa que eu particularmente sempre apreciei. O Silkie é uma velha lenda folclórica irlandesa sobre alma de pessoas afogadas que estão presas em focas, às vezes se transformam em homens e vêm as terras. São atraídos por música e canto. Retiram a pele de foca e andam como homens. Se escolherem uma mulher, a elas emprestarão a pele de foca e levarão para o mar. Esquecem de sua vida na terra, tanto quanto o Silkie esquece sua vida no mar, até que o mar o chame.
Espero que gostem.
------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- A Escuridão e os Sonhos------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Corsários--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
---- O que é exatamente isso? – a voz melódica ecoou as costas de Éomer, mas o tom superior pontuado de arrogância o deixou incerto em como responder.
As missões já eram difíceis por si só. Estar sem Lothíriel ou noticias concretas sobre a saúde dos amigos eram brasas ardentes e contínuas em seu peito. A solidão era profunda, um mar escuro em que Éomer se debatia com pequenas estrelas de esperança. Vagas e esparsas, tal qual o brilho prateado que pontilhava o céu naquela noite.
Mas o pior sempre parecia pronto a surgir. Éomer apoiou os braços na amurada do navio e fitou a espuma que ondulava o mar. Ele sempre fora um homem da terra e, contudo, lá estava ele, jogado ao gosto de Erü, constantemente, em superfície escura, revolta e imprevisível. Sentia falta do cheiro da terra molhada depois da chuva, da lama pisoteada pelos cavalos, do couro das selas, da relva nas noites quentes e do cheiro da comida partilhada entre amigos. O gosto do vinho, a lembrança dos risos, das brincadeiras e dos gritos de guerra dos eorlingas tumultuava seus sonhos e o despertavam para a realidade cruel. Ele vivia aquilo centenas de missões antes, mas seu braço se esticava e encontra algo macio, ouvia um suspiro e o conforto da voz de Lothíriel, aconselhando-o abrir os olhos.
Ele abria e lá estava seu sorriso. Seus beijos, seu corpo morno e convidativo, Éomer esquecia a saudade do lar, porque estava com ela.
O barulho da pequena tripulação fez Éomer piscar ressentido. O peso afundou seu coração e ele exalou o ar rudemente entre os lábios cerrados.
Ele estava completamente sozinho.
O sibilo de alguém irritado tornou a arrancá-lo do seu momento vergonhoso de autopiedade.
Infelizmente, pensou com um pouco de bom humor, Éomer não estava tão sozinho. Mas era como se fosse. Aquilo tudo era uma piada de mau gosto e ele não tinha lá muito senso de humor com piadas ruins.
Erü e suas surpresas! A cada porto, Éomer ansiava por encontrar seus amigos, encontrar Lothíriel! E as surpresas eram tão esmagadoras como ser derrubado pelo próprio éored a galope na direção contrária.
--- Decerto o senhor se recorda das minhas regras e objeções nesta viagem.
Éomer virou o rosto só um pouco e contemplou o belo perfil do jovem. Aquele pensamento o fez rir com o canto da boca. Aquele "jovem" era mais velho que ele, mas, assim era aquela vida.
"Uma bosta", pensou Éomer curtindo o prazer vergonhoso de adotar aquele linguajar, mesmo que em pensamento. Um restinho do Beco parecia ainda adornar sua vida.
O jovem retirou um fio invisível do seu impecável impermeável. Éomer apostava que poderia comprar comida para a tribulação por cinco meses só com as roupas do aristocrata. Só a que ele vestia agora. De nada adiantar explicar ao aristocrata que utilizar o impermeável só conseguiria aumentar as piadas dos tripulantes e estender a já considerável distancia entre ele e os outros.
Ele o ignorou, claro. Não se importava muito em se "enturmar". Éomer chiou entre os dentes cerrados. Erü, ele odiava aquilo. O mar, ser capitão de navio, liderar mercenários e não ter aquelas surpresas.
Sentindo-se rejeitado e um pouco insultado, o jovem estreitou os olhos para o mar e fitou as estrelas.
--- Já que não presta a devida atenção as minhas reclamações pertinentes – reiniciou o jovem, arqueando a sobrancelha em uma constatação que pouco o agradava. – Talvez devesse consultar o navegador. O curso está com erro de 2º a sudoeste.
A informação prática atingiu o objetivo. Éomer fitou o céu e tornou a estudar o perfil do jovem ao seu lado.
--- Você sabe ler o mapa de navegação marítimo? – perguntou Éomer, o tom rouco da voz pouco usada era um contraste nítido com a voz modulada de barítono do aristocrata.
Aparentemente, ambos eram tão diferentes como o vinho e a água, mas ambos usavam disfarces e tinham segredos. Para a tripulação, Éomer era o capitão-de-mar que havia virado as costas para a marinha e se tornado pirata, uma identidade que custara muito dinheiro do cofre outrora polpudo dos amigos da Terra Média. A identidade de Sorin Rávo que usara na última missão havia sido enterrada, junto com um caixão vazio. Rapidamente, seus recursos "naturais" haviam se esgotado na trajetória de busca pelos amigos e resgates dos órfãos, na intrincada tarefa de garantir uma rede de resistência aquela nova ordem. Os homens vazios não morriam facilmente e os demônios liberados na última missão, fontes de fogo e desespero contínuo que consumiam aquela terra constituíam perigos que as mãos vazias não tinham condições de enfrentar.
Éomer tinha experiência naquele terreno. Afinal, ele fora um Marechal de Rohan e depois seu Rei. Conflitos e guerras custavam muito, em matéria de vida humana eram catastróficas, mas a perda financeira também não era pouca. Só que agora, ele não tinha Gondor ou Aragorn, ou aliados, ou a sua própria terra e homens a quem recorrer.
Como diria Merry, a coisa toda seria feita "na raça". Éomer buscou o único consolo daquela missão no convés e encontrou Merry com um lápis entre os dentes e o binóculo de longo alcance com infravermelho à frente do rosto. Os homens riam dele e implicavam, mas ao contrário do aristocrata, Merry era gentil quando queria, encarava as lutas aos socos e continuava rindo, mesmo quando precisava de cuidados médicos ao perder nas lutas.
Éomer maneou a cabeça. Mundo estranho. Ele agora era um corsário. Seu estômago se revirou com a ironia. Flashes do porto e dos corsários de Umbar, do exército dos mortos liderados por Aragorn e da própria batalha em Minas Tirith passaram com lampejos dolorosos na sua mente.
Aragorn diria uma ou outra coisa sobre aquilo, se pudesse.
Diabos, ele odiava o mar! Mas era o único lugar a salvo dos homens vazios e dos demônios que consumiam a terra. O único lugar que poderia abrigar com segurança seus amigos. Ele só esperava que Merry não fosse o único a se recordar rapidamente de tudo.
Com isso, Éomer voltou a prestar atenção as queixas polidas e levemente sarcásticas do passageiro ao seu lado.
Bom, o aristocrata não era exatamente um passageiro. Ele era, para todos efeitos, o ponto alto do seu disfarce, e simultaneamente, o motivo daquela viagem. Mesmo que o rapaz não soubesse (e toda a tripulação também, exceto Merry), aquela viagem era para um resgate e para salvar-lhe a vida. Na verdade, muitas vidas. Porém, fazer as coisas na "raça", como bem pontuava Merry, significava um bocado de mentiras, talento para interpretação e muita banca de maldade.
Junto com o odiado mar, Éomer não conseguia ver como sua situação podia ficar ainda mais detestável.
Ouvindo um assovio longo e provocativo, risadas e comentários picantes dos remadores que subiam ao convés, Éomer se lembrou rapidamente de não mais questionar como as coisas podiam ficar feias.
--- Não vai prender a princesa hoje, capitão? – Lutt chegou arrastando a perna e o hálito peculiar de peixe.
Éomer quase riu ao ver o espaço entre os lábios do jovem se franzir em um ar de nítido descontentamento, mas seus músculos faciais permaneceram rígidos e ele deslocou o corpo de maneira autoritária, bloqueando a passagem do marujo.
Lutt hesitou com o olhar duro e implacável que recebeu, ruminando as risadas abafadas que, sem dúvida, eram agora devido à estremecida perceptível que sua pausa causara no grupo.
O "chefe" o confundia o tempo inteiro. Ele entrara naquela jogada pela grana fácil e um de mar, além da aventura divertida que seria atazanar a vida daquele aristocrata metido, arrancar um pouco de sangue e grana do pai dele. Mas exceto pelo fato que ele tinha o que queria em abundância com a viagem (grana, trabalho fácil, bebida, comida e mulheres no porto, jogo de cartas com os amigos), o capitão não permitia excessos, exigia disciplina e não incentivava a vida alegre e satisfatória da tortura de prisioneiros.
Ele nunca participara de um seqüestro tão aborrecido e politicamente correto, mas os tripulantes do Nixes que encontrara nos portos diziam que não havia navio melhor para trabalhar.
--- Eu não lembro de ter concedido permissão para se aproximar. – o som muito baixo foi levado pelo vento, mas a expressão corporal de Éomer era tão claro como os dias atuais eram escuros.
O grupo silenciou e dispersou, Lutt aquiesceu e tomou o rumo da proa, mas lançou para o jovem um olhar escuro que prometia vingança.
A mente de Éomer ficou enevoada por instantes e ele apertou a amurada com força, até que os nós dos seus dedos ficassem brancos.
A voz do aristocrata foi soprada na sua direção.
--- Não confia nele, por que permite que ele fique no seu navio? – ele se aproximou mais do capitão e considerou, sem o menor resquício de arrogância, medo ou raiva. Era uma simples constatação – Cedo ou tarde, Lutt irá traí-lo ou matá-lo... – ele parou, ponderando, os olhos escuros brilhando – ou matar a mim, depois de me retalhar em muitos pedaços... – o desgosto pontuou um pouco a voz tranqüila, mas logo desapareceu – Só não fez ainda porque sabe que valho mais vivo do que morto. Ou inteiro... Não sei.
Éomer afastou a sensação opressiva lançada pelo confronto e encarou o jovem. Por um instante, era como voltar no tempo e ele desanuviou a expressão.
--- Tenho que admirar a sua coragem... – Éomer engoliu o restante da frase, pois sabia muito bem da coragem do outro e afastou os olhos mais uma vez para o céu. Para todos os efeitos, ele era o vilão e o rapaz não podia confiar nele. Contudo, Éomer jamais dera qualquer indicação que ele deveria temê-lo, embora fosse esse o conselho de Merry.
Ele simplesmente não podia ir tão longe, e sentindo a disposição de Lutt e dos outros, talvez estivesse errado e Merry certo.
--- Você deve voltar para o seu lugar. – ordenou, emprestando uma frieza considerável a suas palavras. O jovem encolheu um pouco os ombros, mas recuperou-se rapidamente, alinhando a coluna em uma postura invejável e endureceu o maxilar.
--- Peço permissão para permanecer um pouco, capitão. – o pedido foi feito com algo de ordem, a força da criação de quem nascera para comandar impelindo as palavras.
Contudo, Éomer sabia que o aposento era pequeno e que teria que trancar a porta. A janela mostrava um mundo escuro que nem mesmo a vontade de Arwen podia iluminar. E sabia o quanto elfos odiavam ficar em espaços confinados, e como tinha que ser cuidadoso ao lidar com aquela paródia de seqüestro. Ele e Merry estavam atentos às reações do elfo, mas concordavam que não podiam mesmo saber até onde aquilo prejudicava de verdade o amigo desmemoriado.
Testando a armadura da identidade que o jovem achava que era sua natureza primordial, Éomer voltou o corpo e apoiou-se na amurada, encarando-o com objetividade. Contra todo seus impulsos naturais, cortou as palavras com um ritmo impiedoso e frio, de quem não se importava com absolutamente nada ou ninguém.
--- Sua presença causa confusão e não posso vigiá-lo. – a implicação de que precisava de defesa fez o jovem se retesar. Satisfeito, Éomer prosseguiu, tornando o humor em um adereço para provocá-lo. – A não ser que prefira continuar algemado e amordaçado, já que suas atitudes e palavras só causam brigas ao meu redor.
O jovem trincou os dentes e direcionou-lhe um olhar furioso. Éomer apostou que se fosse outro alguém, teria muito mais trabalho. Apesar do atordoamento inicial ao encontrar Elladan na pele do filho único de um poderoso industrial e não ver traço algo com o elfo, exceto sua aparência física, Éomer podia ver vislumbres de luz correndo atrás da superfície escura dos olhos cheios de indagações.
A maior parte do tempo, Elladan se comportava como o típico aristocrata nascido e criado para ter seus pensamentos concedidos. Um pé no saco, como diria Merry, quando finalmente haviam conseguido driblar a segurança que envolvia o futuro herdeiro do império do aço e seqüestrá-lo. Contudo, Éomer não se enganava, se não fosse a natureza excêntrica daquela identidade, Elladan jamais estaria ao alcance deles. Embora tivesse todo o impecável verniz da riqueza e da criação que a acompanhava, Elladan ainda era um filho da escuridão, intocável pelas autoridades porque o pai era mais poderoso que todos eles. Elladan tinha dúvidas, Éomer percebia o questionamento corroendo o jovem e adivinhava que como ele e Merry era atormentado por lembranças em forma de sonhos. As enxaquecas eram terríveis e o prostravam por dias, tornando sua pele ainda mais pálida, mas ao contrário de Merry e Éomer, Elladan era um elfo e suas crises o faziam entrar em um choque maior do que identidade. Sua própria natureza era confrontada com a identidade humana.
Ele não esquecia a confusão e o desespero nos olhos do amigo quando conseguira sair daquele transe onírico que é o sonho dos elfos, sua pele cintilando com um brilho pálido, chamando por um nome que não reconhecia, mas fazia sua natureza se revoltar ainda mais. Éomer sentiu medo que Elladan morresse no primeiro dia da viagem, em que sem o saber havia afastado o rapaz das caras substâncias que os seus médicos o dopavam desde a infância. Então, finalmente compreendeu que urgência para salvar Elladan não estava somente relacionada aos homens vazios e os demônios dos senhores escuros. Elladan andava na linha da sanidade rodeada pela loucura, eles precisavam chegar até Elrohir o mais rápido possível, antes que fosse tarde demais.
Como se houvesse sentido a urgência de Éomer em salvar sua vida, intuitivamente Elladan relaxou a postura e voltou o rosto para o mar.
Com a ligação natural entre antigos amigos, Éomer pressentiu que a essência do elfo havia se constrangido e praguejou baixinho contra aquele mundo, aquela missão odiosa que o fazia ser carcereiro dos próprios amigos para tentar salvá-los.
O jovem também sentiu algo se agitando, aquela sensação de que havia mais dentro de si e que as palavras que trocavam escondiam segredos, lembranças. Ele sacudiu a cabeça e esfregou a nuca, subitamente sentindo uma sensação ampla e profunda de vazio.
Éomer queria poder pedir desculpas, mas seria tenebroso, visto que a platéia estava mais concentrada do que nunca no trabalho do convés, o que significava logicamente, que toda a atenção estava na conversa entre eles.
--- Amordaçado não poderia tomar providencias contra o enjôo que sinto nesse lugar fétido – em um piscar de olhos, o jovem reassumiu a postura altiva e aristocrática – A melhor companhia que tenho é a minha... – pontuou, silenciando mais uma vez, pensativo.
Éomer sentiu vontade de gritar de frustração, mas simulou um sorrisinho curto e lançou um olhar indiferente para a tripulação, odiando-se a cada instante.
--- Companhia é que não falta, aparentemente. – a face do jovem ficou pálida e Éomer imaginou que lhe faria pesadelos àquela visão, mas o riso despretensioso no convés bem como uma entabulação de conversa indicou que era o caminho certo a seguir.
Como que pressentindo a dificuldade do amigo, Merry desceu as escadas aos pulos e deu um tapa sonoro nas costas do aristocrata.
--- E aí, silkie, vai querer encarar o pôquer hoje ou está enjoadinho demais? – Merry piscou para Éomer.
A maneira afável e despojada de Merry, como quem fosse o melhor amigo do aristocrata em suas esfarrapadas roupas de marinheiro atiçaram a identidade humana de Elladan.
--- Não me chame assim – corrigiu o jovem, arqueando a sobrancelha escura e fitando o chiclete que rodopiava rapidamente na boca de Merry. Com um suspiro rápido de irritação, Elladan virou-se para sair do amurada.
Éomer cortou o ar com rispidez.
--- Eu não dei ordem para se retirar.
Elladan parou, suas costas se retesando como um arco. Voltou-se lentamente, o rosto perfeito do elfo iluminou-se com o brilho de satisfação em seus olhos escuros.
--- Talvez porque eu não preciso da sua ordem. – tornou Elladan, sua voz cortando o ar com igual rispidez e autoridade, completamente esquecido do seu pedido anterior ao capitão. – Não vou desperdiçar o meu tempo entretendo seus marinheiros... – a cabeça do elfo tombou ligeiramente para o lado, apertando os olhos em duas linhas enviesadas de cílios escuros, completando com polidez e sarcasmo de uma maneira estranhamente educada que somente ele podia fazer – Ou talvez, eu o faça... Amarrado e amordaçado.
Internamente, Éomer sorriu, congratulando o espírito combativo de Elladan no meio daquele ambiente adverso. Elrohir aprovaria. Depois de pular no seu pescoço. Externamente, Éomer sentiu a atenção da tripulação e sua essência de guerreiro experiente adivinhou a atenção de Lutt.
"Sinto muito, Elladan", pediu em silêncio.
--- Que seja feita a sua vontade... – Éomer curvou-se um pouco com ironia – Majestade. – fitou Merry, que tanto quanto ele estava atento ao convés e simulava uma expressão de contentamento – Acho que conseguiu companhia para o jogo hoje, companheiro.
--- Aye. – confirmou Merry, imitando a postura do típico pirata. – Vamos embora, criança, eu acho que você vai me dar sorte hoje. – relanceou um olhar alerta para Éomer e ergueu a voz – E aí, Tibb, Manco e Absinto, topam uma mão?
Os marinheiros olharam para Éomer que aquiesceu, ciente que Merry chamara os mais confiáveis dentro do permitido. Sua visão periférica registrou Lutt e ele relaxou deliberadamente, sem parecer preocupado. Era um jogo perigoso, mas ele já estava acostumado a deparar com possíveis homens vazios na sua trajetória. Algo dizia que Lutt deixaria o maligno tomar conta dele antes do que Éomer previra, mas era melhor que acontecesse embaixo de seus olhos.
Lutt já perseguia Elladan há muito tempo, mesmo sem o saber, e Éomer percebia os sinais de rendição do humano, que não entendia de maneira consciente à vontade de ferir o outro, nas que cedia, dia após dia, o espaço necessário para que as trevas rompessem.
Os marujos riram e ajeitaram caixotes para abrigar o carteado, os corpos e a bebida enfraquecida por água. Éomer não aprovava aquela mania humana de beber a serviço, mas sabia que era um hábito daqueles homens e permitia quando estavam de folga. Notou, satisfeito, que poucos permaneceram para assistir e o restante continuava seus próprios assuntos, suas tarefas, ansiando pelo término e pelo descanso.
--- Que ta valendo? – perguntou Tibb, oferecendo o gargalo para Elladan enquanto Manco embaravalha as cartas.
O grupo rompeu em risadas ruidosas quando Elladan virou o rosto demonstrando nojo.
--- Ah, qual é, silkie, se você beber, pode falar! – gargalhou Mancou aceitando a garrafa.
O maxilar de Elladan rangeu, mas o barulho foi levado pelo vento. Ele se limitou a lançar um olhar neutro para o marinheiro.
--- Podemos apostar essa capa bacana dele, o que acha? – propôs Absinto, a única mulher do grupo, com um olhar que deixava bem claro suas intenções.
--- Sei, a capa! – Tibb separou as cartas e piscou para Elladan com uma intimidade que claramente o rapaz descartou – Quem dera pra você, Abs, se a capa dele fosse a da foca, hein!!!
Elladan ajeitou as costas contra um dos mastros e desviou o olhar para o rosto de Merry. Esticou os dedos contra as pernas e assumiu uma posição relaxada e naturalmente elegante.
Os homens riam com a situação, dividindo a bebida e as cartas, com os olhos pulando de uma expressão a outra, já antevendo jogadas e apreciando a fineza do tecido da capa. Ninguém perguntou se a capa valia mesmo, era notório que Elladan era o prisioneiro e poderia dispor daquela peça de vestuário.
--- Ah, é... – Tibb deu um tapa no ombro de Elladan. O rapaz manteve o corpo imóvel apesar da força do marujo e limitou-se a olhar a mão suja no tecido. Seu suspiro baixo de lamentou aumentou a risada geral. – Abs bem que queria arrancar a capa e todo o resto do seu corpo... nada mal hein?!
Merry havia escolhido os três exatamente por aquilo. Eles achavam os modos do rapaz hilário e exceto um ou outro pecado, não eram do tipo que tiravam as coisas à força ou levariam a situação a algum risco para Elladan.
Ou para eles, completou Merry em pensamento, arrumando as cartas com habilidade. Era uma mão péssima, mas ele não estava ali para ganhar, embora, aquela capa era como uma segunda pele envolvendo o elfo, com um tecido macio, forro quente e corte impecável.
Absinto fez sua jogada recebendo um coro de "ohs" e uma enxurrada de piadas tão sujas que até Merry engoliu em seco, mantendo o sorriso preso no lugar.
Achou por bem lançar mão da carta horrorosa que estragava qualquer chance no jogo e mudar um pouco o foco da conversa.
--- Veja bem, meu querido príncipe, os silkies são do mundo das fadas – entoou Merry, com seu tom de contador de histórias – O mundo deles é o mar, nadando e deslizando por aí, e de vez em quando chegam em terra firme, assumindo a forma humana. – Tibb virou o rosto um pouco e seu olho esquerdo tremeu. Merry praguejou sem emitir som, era um sinal que a mão do outro era boa. Ajeitou-se no banco, fingiu engolir um pouco da bebida aguada e passou para Absinto. – Escondem sua capa preta e lustrosa, esquecem quem são e como amam o mar, saindo para aventuras para a terra...
A expressão impassível de Elladan não se modificou. Merry riu baixinho, ele parecia mesmo um príncipe dos silkies parado ali contra o céu escuro e o mar turbulento. Ficou pensando em como seria depois que Elladan se lembrasse de tudo e o que ele acharia de tudo aquilo.
--- Os silkies têm cabelos escuros, negros como a noite – lembrou Absinto, seus dedos ágeis trocando as cartas. Sua voz que podia ser ríspida ou agradável ecoou a volta deles. – São misteriosos e de uma beleza que supera os humanos – os marujos voltaram a rir ruidosamente, divertindo-se com o olhar da mulher na direção de Elladan. Ela suspirou, encantada com a atenção concentrada dos olhos que a fitavam, agora em tons acinzentados que raiavam o negro costumeiro. Parecia cintilar entre a exasperação e o divertimento. Prosseguiu, em tom delicado ignorando a chacota dos companheiros – Eles vêm a terra, atraindo pela música e pelo canto, escolhem uma mulher e dão a elas a pele de foca. Elas o seguem para o mar e nunca mais volta para casa, esquecem de todos.
Merry tornou a cortar as novas sugestões sexuais antes que elas ganhassem corpo. Elladan continuava rígido feito uma estátua, mas Merry sabia que o elfo, na essência, estaria horrorizado com a natureza grotesca de algumas insinuações.
Limpou a garganta e prosseguiu.
--- Ora ora... diz a lenda que um dia, o príncipe Silkie deixou sua pele de foca e esqueceu de quem era... – Manco torceu o nariz e Merry ficou indeciso se era um cacoete do jogo ou se era simplesmente sujeira. Continuou, em tom descontraído, mas atento ao redor – Apaixonou-se por uma mulher e ela, descobrindo quem ele era escondeu a pele para que ele nunca mais voltasse para o mar...
Os olhos escuros de Elladan ficaram anuviados e a história foi interrompida por uma série de blefes e palavrões. Merry seguiu o ritmo dos marujos e miraculosamente, seu blefe levou a melhor. Manco largou as cartas e apanhou a garrafa.
--- Inferno, garoto, você dá azar! – resmungou Manco, limpando o rastro de bebida da barba.
--- O que aconteceu ao príncipe silkie?
Merry conteve a expressão de surpresa, mas notou o rápido interesse dos marujos. Elladan nunca dirigia a palavra a eles, limitando-se a falar baixo com ele e Éomer, como se ouvisse a voz da intuição, preservando-se de maior atenção do que necessário.
Indiferente a reviravolta do ambiente, Elladan permaneceu com os olhos cravados no rosto de Merry. Sua face havia empalidecido e um brilho fosco emergia da sua pele, o vento fustigava seus cabelos escuros e emprestava uma área de mistério ao seu redor.
--- Ele voltou ao mar? – o timbre inflexível de Elladan devolveu o movimento ao seu redor. O tom autoritário rompeu o encanto da surpresa com o timbre fluído de sua fala anterior.
Merry sentiu que algo não ia sair bem daquilo, porém, não queria desistir. Sua história visava provocar algo em Elladan e parecia que estava tendo sucesso.
Os olhos do elfo perdiam a cada instante o distanciamento da mascara humana.
---- Ah, acho que ele está querendo voltar para a casa! – gracejou Tibb, com um olhar invejoso para a roupa de Elladan. – Deixe a capa e vá em frente, garoto da escuridão.
Merry viu, insatisfeito, o corpo de Elladan se retesar contra o mastro. A sua postura permanecia relaxada, deixando claro que ele ainda era um lutador cuidadoso, cheio de movimentos lentos e bem planejados, porém, estava se enchendo do espírito de luta. Sua bela e exótica aparência eram fatores que ficavam a margem no seu dia a dia de herdeiro do aço, mas Elladan não era nenhum ignorante, ele sabia do que acontecia além do mundo protegido em que vivera antes. Longe do ambiente rico e controlado, ele sentia pela primeira vez a opressão da atenção cruel que o belo povo sofria, mil vezes mais intensa que os nascidos no tempo da escuridão.
Mas Elladan não havia visto o que acontecia, pensou Merry, amargurado, ele sim e não podia deixar as coisas correrem naquela direção. Embora sua vida valesse milhões dentro daquele barco, o preconceito e o medo estavam enraizados pelo mal dos demônios, e não podiam se arriscar a um motim. Estavam em uma missão de resgate, se passando por corsários seqüestradores, mas ainda era um importante resgate.
Manteve o tom leve e descontraído. Era seu melhor blefe até agora.
--- Ela escondeu a capa, mas seguindo o instinto e a própria natureza, o príncipe Silkie acabou encontrando a pele, vestia-a e se transformou, voltando para o mar que chamava por ele...
O semblante de Elladan se anuviou e ele virou o rosto para o mar. O quadro pareceu de uma solidão tão visceral que Merry teve que limpar a garganta para continuar.
Elladan tornou a erguer sua voz e mais uma vez o momento ficou preso num fragmento de mágica. A melancolia e o ritmo da saudade, doce e insuportável se tornaram em um som vibrante ecoados por seus lábios como se fosse uma nota musical especialmente longa.
--- Ele se esqueceu de tudo, não foi, mestre Merry?
Merry engoliu a própria fala. Por um instante, o choque de ouvir a voz de Elladan com o jeito do elfo na sua própria boca quase o arrancou da pele.
--- Sim... – sua voz saiu num murmúrio e Elladan voltou o rosto para Merry.
A profundidade da saudade, do tempo e da essência dos elfos vibrou nos olhos escuros de Elladan. Ele quase podia vê-lo, mais uma vez, durante a batalha, ao lado de Aragon, ombro a ombro com o irmão gêmeo. O tempo rolou nas ondas do mar e em um segundo, inúmera missões, incluindo o desespero no Beco quando o mal ressurgira na Terra rodopiou a cabeça de Merry, como um eco da ânsia torturante em Elladan por se lembrar. Um fragmento daquilo rompeu como um estilhaço, e o ar se tornou denso, até mesmo os marujos sentiram.
Ouve um ar de medo supersticioso quando, inesperadamente, Absinto jogou as cartas na mesa e anunciou que vencera o jogo. A roda quase foi a baixo com palavrões, gritos e socos na madeira.
Merry não desviou os olhos de Elladan, uma figura surreal em um ambiente estranho. O elfo pareceu perder o equilíbrio contra o mastro e por fim, com um gemido agoniado segurou a cabeça com ambas as mãos, inclinando-se para frente.
Absinto parou de gritar com os outros e segurou o ombro de Merry.
--- O que ele tem?
--- Ah, coisa de gente rica – explicou Tibb, voltando a gritar com Absinto e pegando as cartas. A moça explodiu em palavrões e mostraram os dentes um para o outro. Manco se levantou empurrando com o corpanzil.
Merry aproveitou a bagunça e se aproximou de Elladan sob os urros de protesto e insultos dos marujos.
--- Venha, vai passar... – tocou no ombro do rapaz e ele ergueu o rosto, desfigurado. – Venha, anda, você precisa se deitar.
--- É isso que eu sou? – murmurou Elladan, permitindo que Merry o erguesse e colocasse seu braço sobre o ombro. Seus lábios tremeram em um sorriso débil – Ou não sou? Príncipe esquecido?
Tibb apanhou o outro braço de Elladan e desviou da tentativa do elfo em empurrá-lo.
--- Você vai cair de cara no chão e estragar essa cara bonita – explicou, rebocando-o junto com Merry – É péssimo para o resgate.
Absinto passou na frente deles e abriu a porta que levava para o andar de baixo, para os dormitórios.
--- Vamos deixar ele descansar um pouquinho...Depois eu pego a capa – lembrou a moça, com um olhar comprido para o trio que a seguia. O rapaz parecia ainda mais bonito com aquela palidez luminosa que os amaldiçoados tinham. Ela empurrou uma caixa que estava na passagem e parou na frente da porta destinada ao rapaz.
Merry fitou Absinto preocupado com o que via atrás daquele olhar cheio de cobiça, mas estendeu a chave para que ela abrisse a porta. Junto com Tibb, estenderam Elladan na estreita cama do aposento.
--- Preciso da sua capa – avisou Merry, despojando Elladan do vestuário. Foi incrivelmente fácil. Os músculos de Elladan estavam tremendo e ele parecia ser feito de vidro, prestes a se romper em mil pedacinhos. Pegou a capa, rolou o rapaz de costas na cama e engoliu em seco ao ver os olhos escuros rolando nas órbitas. As pestanas de Elladan dardejaram antes de atingirem um ponto semi-aberto. Jogou a capa na direção de Absinto e empurrou os dois para o corredor. – Chame o chefe. – desfechou trancando a porta sem esperar resposta.
Girou a chave e se virou, apoiando o corpo na porta. Aparentemente, ele tinha conseguido o que queria.
O tempo para encontrar Elrohir acabava de se reduzir para o imediatamente.
Elladan estava em transe, misturando e sacudindo fragmentos de memórias.
E entrando em choque.
... Cenas do próximo capítulo.
--- Ah, sim, majestade e como é que homens ricos pegam as mulheres? – questionou Elrohir apertando os olhos com raiva para o espelho que o fitava com superioridade. Sujeitinho do nariz empinado, pensou.
Os marinheiros riram a valer e olharam para Elladan, esperando a reação do "príncipe silkie".
Inabalável, Elladan continuou concentrado nas cartas que tinha em mãos.
--- Em uma Ferrari – respondeu, impassível.
Elrohir arregalou os olhos e jogou a cabeça para trás, rindo gostosamente. O som melodioso e a imprevisível reação bem humorada contaminaram aqueles que assistiam ao duelo. Até mesmo Elladan não pôde deixar de sorrir com o humor instável do seu espelho.
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Reviews para incentivar e encurtar o tempo!!!! Bjus.
