Capítulo 2 -Insanidade.

Conheci Rin naquela noite, a pequena Deusa, de olhos chocolates e cabelos tão negros como o breu. Ela tinha um olhar sedutor, uma expressão pretensiosa, o nariz levemente arrebitado. Mas ainda assim não era petulante e grosseira como eu. Ainda teria de se esforçar muito para chegar a minha postura indomável e gélida. Talvez em outra vida ela conseguisse...

Rin era o tipo de mulher, ou menina-mulher, que você quer conversar a noite inteira sem olhar uma única vez para o relógio. Ela te envolve, te engole. Você se rende aos seus encantos sem que perceba. Ela sempre foi como uma bruxa, uma das mais poderosas e mais cruéis. Poderosa porque lhe hipnotiza e cruel porque está na cara que ela partirá seu coração em mil pedaços sem derramar uma lágrima de piedade.

Cair em seus truques era algo fácil de acontecer. Sua malévola casca de Medusa petrifica quem quer que a fite. Era tão fácil virar uma rocha inerte. Ela me deixa acuado. Me deixa sem respostas. Me faz ficar atordoado, perdido como um menino assustado num labirinto escuro. E essa confusão, esse mistério, essa arte de enganar, foi algo que me fez recuar. Mas recuar nem sempre significa fugir... Recuar pode significar simplesmente dar alguns passos para trás. E era exatamente esse tipo de recuo que eu dei quanto a ela.

...

Continuamos no bar do Temaki, totalmente distantes dos casais falsamente apaixonados e das famílias ricas que ficavam sentadas no coração do restaurante. Ali no bar, sempre ficavam os solitários, as pessoas que não eram muito agradáveis e que dificilmente iriam falar alguma coisa com você a não ser que fosse extremamente necessário.

Bom, mas acabamos quebrando as regras.

Ela virou-se para mim com aqueles olhos terrosos e cruzou as pernas num movimento rápido. Lhe paguei outra taça de vinho e ela riu daquela situação.

-Eu que deveria lhe pagar a bebida que quisesse. –ela riu enquanto levou a taça aos lábios polpudos. –Parece irônico pagar-me à bebida que arruinou com o seu terno.

-Um paradoxo incrível, não? –eu tive de sorrir de leve. –Eu não me importo.

-Então, senhor Sesshoumaru, o quê o senhor faz?

Aquele senhor Sesshoumaru que ela lançou foi como receber um soco no estômago. Aquilo me fez lembrar o quanto nós dois parecíamos estranhos. O quanto eu e ela éramos diferentes... O quanto eu era velho para estar perdendo o meu tempo conversando com uma... Menina?

-Eu sou dono da Siderúrgica Taishou. Provavelmente você já ouviu falar.

-Nossa! –ela quase engasgou com o vinho. –Isso é sério?

-É. –assenti sério. –É verdade.

-Impressionante! –ela riu discretamente e repousou a taça já pela metade na madeira polida. –O senhor deve ser um homem muito ocupado.

-Esqueça esse senhor. Está fazendo com que eu me sinta um dinossauro ao seu lado. –eu tive de admitir nada confortável.

-Ah! Perdão... –ela se retesou um pouco arrependida.

-É tão mais casual e mais leve para mim se me chamasse de você.

-Tudo bem... Sesshoumaru. –ela riu de um jeito divertido, como se estivesse sendo irônica. –Assim está bom pra você?

-Está. –assenti com um sorriso muito mais irônico e maldoso que o dela.

-Sabe, seu trabalho deve ser algo interessante. Ser o seu próprio chefe é algo que todos querem na vida. –ela voltou a tomar o vinho tinto. –É bem melhor quando não há riscos de ser demitido e fazer o que bem entender.

-Ser o chefe tem suas vantagens, admito, mas também não é uma grande maravilha. –acabei rindo com aquelas palavras. –Não. Esqueça o que eu falei.

Ela riu junto comigo. Terminou o seu vinho tinto com um último gole e eu acabei me rendendo a mais uma dose de Whisky. Ao contrário dela, eu não degustava a bebida, tomava em uma única virada. Ela fez cara de dor, ao me ver beber o que me deixou confuso.

-O quê foi?

-Como consegue tomar isso? É tão forte.

-Forte? –sorri repousando o copo na bancada. –Talvez nas primeiras vezes. Depois você se acostuma.

Ela sorriu antes de fixar os olhos de mim e soltar-me a primeira sequência de palavras que me fizeram ficar encantado.

-Sabe, acostumar-se com certas situações talvez não soe tão bom assim. Acostumar-se com o gosto amargo e a ardência, não parece algo agradável. Por que se acostumar com isso? Ninguém precisa se render a isso se não quiser. Acostumar-se a coisas dolorosas com certeza não faz parte de minha meta de vida.

Eu tive de sorrir para fingir que aquelas palavras não surtiram nenhum efeito. Não sei se saiu de maneira convincente, mas foi o melhor que eu pude fazer diante daquele baque.

-Mas e quanto a você, Rin? O quê faz? –tentei mudar de assunto e por sorte consegui.

-Bem, muitas coisas, mas ainda assim creio que não tenho metade da sua ocupação. Eu sou Arquiteta. Trabalho na empresa do meu pai. Ele esperava que eu assumisse a empresa após a morte dele, mas isso é algo que estou dispensando. Ele sabe bem disso. Por isso deve deixar tudo para o meu irmãozinho irresponsável.

-Ah! –soltei um espasmo ao ligar o nome a pessoa. –Mas é claro. Watanabe! Seu pai é Miuga Watanabe, não é?

-Sim. –assentiu sem muito entusiasmo. –O próprio.

-Já encontrei com o senhor Watanabe algumas vezes. Ele é um homem de muito bom gosto.

-É... Uma das qualidades dele sem dúvidas é o bom gosto. –ela sorriu parecendo não muito contente.

-Não se relaciona bem com ele? –arrisquei ao ver a sua expressão.

-Não é isso... É só que... Bem, vamos deixar o meu pai de lado.

-Como quiser. –dei de ombros, aquilo não fazia a menor diferença.

-Então, senh... Digo, Sesshoumaru. –ela corrigiu-se rapidamente de maneira engraçada. –Você vem sempre aqui beber sozinho enquanto alguma maluca desastrada lhe derruba vinho tinto na roupa?

-Não. Essa é a primeira vez. –sorri balançando a cabeça negativamente. –Na verdade, não vim só. Estava acompanhado de uma... Amiga.

-Ah... –ela sorriu divertindo-se com minha hesitação em falar sobre Kagura.

-Ela teve um pequeno imprevisto, acabou indo embora cedo demais.

-As coisas nem sempre saem como esperamos, não é?

-É. –concordei. –E quanto a você? Também costuma vir sozinha aqui e derrubar vinho tinto em homens mais velhos?

-Não. –ela riu com minha provocação e fez exatamente o mesmo que eu. –Vim com um... Amigo.

-E esse amigo também teve um imprevisto? –sugeri erguendo as sobrancelhas de modo irônico.

-Não. Eu o mandei embora. –admitiu sem muitos problemas. –Kohaku, estava muito cansado. Mal conseguia formar frases. Coloquei ele dentro de um táxi e acabei ficando por aqui.

-Uma coincidência notável.

-É...

...

Ora, eu sei. Você deve estar se perguntando porque tive vontade de ficar conversando com ela. Bem, a resposta é simples.

Kagura havia me deixado àquela noite para ver o irmão idiota e viciado dela, pois bem, com ela foi junto a minha diversão do restante da noite. Eu precisava de uma substituta, e como surgiu uma oportunidade resolvi tentar.

Na maioria das vezes era fácil convencer as mulheres de seguirem comigo. Principalmente quando eu lhes dizia quem eu era de verdade, mas com Rin não foi bem da maneira que eu esperava.

Seria só uma noite. Só uma noite e ela iria embora sem olhar para trás. Sem me fitar nos olhos e perguntar se poderíamos fazer alguma outra coisa num outro dia qualquer.

O plano sempre fora esse com todas as mulheres. Nós nos conhecíamos, conversávamos coisas que me deixariam completamente entediado e depois acabaríamos na cama.

E é claro que ela acordaria no dia seguinte sem ninguém ao lado com as coisas já prontas e um carro esperando na porta para levá-la embora para sempre da minha vida.

Era assim.

Com qualquer uma.

Exceto ela.

...

Rin fitou o relógio de pulso e pareceu surpresa ao ver a hora. Ela voltou-se para mim com um sorriso engraçado.

-Bem, eu tenho que ir agora.

-Por que ao invés de ir para sua casa não vamos para outro lugar mais interessante? –eu lhe propus, aquele era sempre o momento certo a fazer aquela pergunta.

-Desculpe, mas eu realmente preciso ir. –ela falou de forma hesitante, com um sorriso meio forçado, como se não tivesse gostado de minha insinuação maldosa.

-Tudo bem. –fiquei incrédulo. –Quer que eu a leve em casa?

-Não, obrigado. Eu vim com o meu carro.

-Ah, claro.

-Bom, foi um prazer conhece-lo, Sesshoumaru. –ela sorriu e estendeu a mão direita na minha direção.

Eu apertei a sua mão um pouco frustrado e acabamos levantando juntos de novo. Mas dessa vez não havia taça nenhuma em suas mãos.

Ficamos mais próximos do que o pretendido. Ela tentou balbuciar alguma coisa, mas acabou se afastando um pouco sem jeito.

-Ainda bem que dessa vez não tinha nada em suas mãos. –eu sorri irônico.

-É. –assentiu concordando. –Mais uma vez desculpe pelo terno.

-Está tudo bem, eu já lhe disse.

-Então... Até qualquer dia.

Eu assenti e ela somente saiu de perto de mim.

Acompanhei com os olhos seus passos até a saída do Temaki. Uma onda me atingiu em cheio, bem no meio do meu peito.

Eu não queria admitir, mas ela havia me impressionado. Me impressionado de verdade! Eu havia até mesmo guardado o seu nome, o que era a coisa mais rara que pode acontecer comigo.

...

A senhorita Watanabe se destacava não somente pela sua beleza e pelo seu jeito elegante de andar e sentar-se à mesa. Ela é incrivelmente passional, educada e jeitosa. Não ri alto, fala sempre olhando nos olhos. Quando sorri evidenciava ironia, provocação, mas não com intenção de demonstrar erotismo barato ou maldade sem sentido, e sim diversão, uma forma brincalhona. Um jeito descontraído que não lhe parece pertencer por debaixo de olhos tão duros e firmes.

Eu gostei dela. Gostei dela de graça, a primeira vista. Nas primeiras conversas.

E ao mesmo tempo a odiei.

Odiei aquele jeito dela. A forma com que me olhava. Com que tomava vinho tinto.

Ah! Era uma coisa estranha. Mas dizem que amor e ódio andam juntos... Não sei bem, só sei que não gostei nenhum pouco de me sentir atraído por ela. De querer passar mais tempo falando bobagens, inutilidade.

Bem, eu não era esse tipo de homem.

Era um homem de negócios.

Um homem frio, gelado, que não saía por ai falando com mulheres mais novas e convidando para um Drink. Foi infantilidade de minha parte. Talvez uma birra com Kagura por ter me deixado sozinho aquela noite. Por ter me trocado pelo irmão alcoólatra e fracassado.

Eu pensei assim por um bom tempo. Talvez eu só tivesse conversado com Rin para afrontar Kagura. Para esfregar na cara dela que não precisava dela, que podia arrumar mulheres mais bonitas... Mais JOVENS.

Ela com certeza, depois de saber disso iria ter uma crise histérica e procurar o primeiro cirurgião plástico para fazer alguma aplicação de Botox ou quem sabe outra plástica. E eu iria rir dela. Iria rir de sua futilidade e vaidade.

Pensei que era implicância da minha parte o que estava preste a fazer. Rin seria mais uma em meu jogo. Mais uma na minha cama e mais uma a ir embora sem choradeira e promessas de amor eterno.

Sim. Ela seria mais uma a fazer Kagura se roer de raiva.

E mais uma a me dar o que eu queria.

Bem, era simples. E a coisa mais normal que eu faria...

...

Eu caminhei até o meu Porshe preto onde um manobrista do Temaki baixo e raquítico abrira a porta do carro para mim.

Não tinha percebido o quanto tinha bebido até começar a ficar tonto. Sabia bem que não iria conseguir dirigir o carro em segurança, e como não estava nenhum pouco a fim de enfiar a cara num poste e morrer, pensei na possibilidade lógica de chamar um táxi.

É... Eu havia exagerado no Whisky.

Assim que resolvi o problema de onde deixar o carro, avistei um Audi prata vindo em minha direção. Os vidros eram tão escuros que não daria para enxergar quem estivesse ali dentro, mesmo se colasse o rosto nas janelas.

O vidro do motorista baixou lentamente e pude ver com clareza os mesmos olhos castanhos terra de antes. Fiquei um pouco atônito quanto a ela possuir um carro tão potente, mas acabei dando de ombros e lançando um sorriso irônico.

-Esse carro é mesmo seu?

-É claro que é meu. Acha que não consigo dirigir? –ela riu irônica.

-Claro que não. –sorri provocativo. –Um carro desses na mão de uma mulher é pior do que a bomba atômica na mão de um louco.

-Obrigado pela parte que me toca. –assentiu de um jeito engraçado. –Quer uma carona?

-Carona? Sua? Acho que não estou pronto para morrer ainda...

-Está brincando? –ela arqueou as sobrancelhas surpresa. –Não tenho esse carro à toa. Entre, ou será que você tem medo de velocidade? Achei que fosse um homem de negócios... Homens de negócios não hesitam nunca.

Ela falou aquilo de um jeito altamente provocativo, como se me conhecesse muito a fundo para fazer uma brincadeira daquele tipo. Mexer com o meu ego não era algo que me agradava. Eu tive de lhe dar um sorriso incrédulo por aquela audácia.

Acabei me rendendo a sua afronta. Dei a volta ainda me sentindo um pouco tonto e entrei no lado do carona.

Ela me deu um sorriso cínico antes de pisar fundo no acelerador.

E eu sabia que tinha feito a coisa mais estúpida dos últimos tempos.

...

Sabe andar a cento e oitenta quilômetros por hora não é grandes coisas. Eu sempre fazia isso nos dias convencionais, de pouco trânsito. Normalmente a hora que eu saía do escritório já não havia muitos carros na rua e eu podia me divertir à vontade, costurando as ruas para chegar mais rápido em casa.

Mas Rin estava andando a duzentos e trinta quilômetros por hora. Eu tive que soltar um espasmo de surpresa. Acho que a adrenalina acabou cortando um pouco do efeito do álcool. Fiquei com os olhos mais abertos do que o normal. Confiar em mim dirigindo era uma coisa... Agora confiar numa distraída tagarela era outra. Acabei me arrependendo de entrar naquele carro.

Ela era louca, sem dúvidas! Cortou todos os carros que encontrou pelo caminho. E dirigia maravilhosamente bem... Não vou dizer que era melhor do que eu porque meu narcisismo e meu orgulho não permitem.

Mas ela era quase como uma corredora de rua. Só faltava o nitro, o néon e uma música agitada do Velozes e Furiosos. Acabei rindo de escárnio ao pensar naquilo.

-O quê foi? Se divertindo? –ela sorriu e me olhou sorrateira.

-É... Um pouco. –assenti. –Você é uma mulher interessante.

-Obrigado! –ela riu enquanto cortava mais um carro e virava a direita. Os pneus gemeram um pouco. –Estamos perto da sua casa?

-Como vou saber? –acabei rindo e dando de ombros. –Eu mal consigo enxergar onde estamos. Está querendo me matar?

-Desculpe se estou indo rápido de mais pra você. –a forma com que ela falou aquelas palavras me intimidou. Ela estava brincando comigo, zombando de mim. Como se eu tivesse ido devagar a noite inteira. Como se eu não a tivesse convencido.

-Está zombando de mim? –balancei a cabeça negativamente adorando aquele jogo. –Não sabe com quem está falando.

-Ah, não? Bem, eu queria saber então com quem eu estou realmente falando. Você não me convenceu com aquele papo de me pagar um drink. Com aquele blá-blá-blá careta de homem sedutor e ao mesmo tempo respeitador! Por que não pediu logo meu telefone? Por que não foi logo ao assunto? Pensei que fosse mais direto. Eu arruinei o seu Armani, como alguém poderia sorrir com uma coisa dessas? Meu pai teria me decapitado se fizesse isso com ele.

-Como é que é? Você está bêbada?

Ela riu e constatei que sim.

Era melhor ter pegado meu táxi.

Ou ter enfiado a cabeça dentro de um liquidificador, o resultado no final teria sido o mesmo.

...

Rin tinha as maçãs do rosto coradas. Assim que parou o Audi no jardim da mansão pareceu cansada de mais para dirigir. Ela recostou mais as costas no banco de couro do carro e cerrou os olhos fortemente.

Já eram três da manhã. E Kagura não me ligou como tinha dito que faria. Quem sabe o irmão dela não tinha morrido? Seria uma benção! Uma notícia boa demais pra ser verdade.

No silêncio do carro, da madrugada, notei que Rin havia apagado com as mãos no volante. Fiquei apavorado quando pensei que isso pudesse ter acontecido enquanto ela estivesse dirigindo. Que tipo de maluca faz uma coisa dessas? Engoli a seco e balancei a cabeça negativamente. E foi a vez de pensar ao contrário: Que tipo de maluco aceita uma carona dessas?

A sacudi de leve e ela nem deu sinal de vida. Suspirei completamente atônito. Não sabia o que fazer em relação a ela.

Tentei de novo acordá-la. Chamei seu nome uma centena de vezes e nada.

Até que por fim ela soltou um murmúrio.

-Me deixe ficar... Sesshoumaru.

Eu acabei rosnando impaciente. A minha vingança contra Kagura tinha se voltado contra

mim. Eu não iria querer ver a cara daquela maluca delinquente de novo. Isso que eu merecia levar por falar tão mal de Naraku. Acabei bêbado e com uma bêbada pior ainda ao meu lado. Que ironia! Seria melhor ainda se ela fosse alcoólatra para ficar mais sarcástico ainda.

Eu não queria concordar com aquela ideia maluca. Não queria de forma alguma levá-la para dentro da minha casa. Ela definitivamente não fazia o meu estilo. Éramos pessoas completamente diferentes e eu realmente agradecia por isso. Tive vontade de largá-la ali mesmo no carro. Com a cara no volante.

Mas algo insuportável gritou dentro de mim.

Eu não conseguiria deixá-la simplesmente ali.

E não me pergunte o porque! Eu realmente não faço ideia porque concordei em levá-la para dentro.

Eu só sei que aquela fragilidade que ela apresentou naqueles minutos de paz dentro do carro me fizeram pensar duas vezes. Era como se ela possuísse alguma força, sobrenatural é claro, que me fez reconsiderar.

Ela tinha me impressionado. E isso era tudo.

A primeira impressão é a que fica, não é mesmo?

Embora ela tenha derrubado vinho tinto no meu Armani, me dito várias palavras irônicas e quase me matado belissimamente em seu Audi prata, eu não consegui simplesmente sentir raiva dela.

E acredite, eu sei bem quando estou com raiva... E você não iria querer estar por perto quando isso acontecesse.

Pois bem, com um suspiro completamente atônito e incrédulo resolvi levá-la para dentro.

Eu a peguei no colo, por sorte era leve e minha sanidade voltava aos poucos. Eu não era do tipo que caía quando bebia. Isso nunca me aconteceu. Só ficava levemente tonto, esse era o máximo de meu efeito.

...

Sabem, teria sido melhor se ela tivesse passado a noite dentro do seu Audi prata. Ele ainda cheirava a carro novo, era confortável e evitaria o seu constrangimento matinal.

Mas por outro lado, não teria sido tão divertido...

É... Eu sei.

Eu sou um milionário excêntrico.

Não sinta inveja da parte do milionário... Talvez um dia você chegue lá... Rá!

...

Pois bem, naquela noite, eu a repousei na minha cama de casal duplo.

Ela não iria se importar com esse pequeno incidente, iria? Bem, eu não estava nem aí.

Ela me devia aquilo até onde eu sabia. Não tinha o direito de exigir onde queria ficar, até onde eu saiba, quando se está dormindo não temos muito direito de escolha.

Tirei seus sapatos levemente e ela só se remexeu um pouco no edredom macio como uma criança. Pareceu balbuciar algumas palavras, mas estava sonolenta e bêbada demais para falar qualquer coisa.

Acabei a fitando um pouco, sobre a luz bruxuleante do meu abajur. Ela estava incrivelmente bonita e totalmente indefesa.

Fiquei pensando se eu fosse um sádico, o que ela iria fazer naquele estado? Quanta maluquice insana! Como pode sair por ai oferecendo caronas a homens como... Como eu?

Ela não lia jornal não? Não via televisão? Que tipo de garota estúpida ela era?

Mas acho que era uma estúpida sortuda. Eu não iria fazer nada contra a vontade dela. Não sou desse tipo...

Acabei tirando meus sapatos, meu terno manchado e minha camisa social. Joguei-me na cama e ela nem se mexeu. Continuou a balbuciar palavras ininteligíveis. Como resmungava quando dormia, Deus!

E foi então que fechei os olhos...

E minha vida tinha sido perdida pra sempre.

...

Eu me levantei antes dela, óbvio.

Fiz toda a higiene matinal e fui para a varanda do meu quarto aproveitar a brisa fresca e o sol quente do verão que eu tanto adorava admirar de dentro do meu escritório com o ar condicionado ligado...

Um dos empregados me trouxe uma bandeja recheada com o meu café da manhã, e deixou sobre a mesa que eu possuía do lado de fora.

Provavelmente tinha feito isso quando eu estava no banheiro. Os empregados sempre foram muito discretos e silenciosos.

Sentei-me na cadeira reclinável e comecei a tomar um pouco de café bem amargo e quente. Descia bem depois de uma noite de bebedeira.

E antes que eu pudesse pegar o jornal, ela surgiu na porta da varanda com os olhos estreitos, quase cerrados. Os cabelos levemente bagunçados e uma cara nada saudável. Não parecia nada bem, nada alegre como na noite anterior. Mas ainda assim ela era uma visão. Ainda possuía uma beleza pura e singela. A beleza de Deusa que eu me referi.

Rin não pareceu satisfeita com a claridade do lado de fora, colocou a mão encima dos olhos para tentar fazer sombra.

-Então a montanha se reergueu. –eu lhe disse irônico.

-Você já teve alguma ressaca de vinho tinto alguma vez na vida? É a pior resseca do mundo...

Ela sentou-se na cadeira do meu lado e me fitou com os olhos pequenos, quase sumindo embaixo de suas pálpebras. Parecia fazer um esforço imenso para me fitar.

-Desculpe por ontem. Eu fiz coisas estúpidas. Deve estar me achando uma maluca.

-É. Estou sim. –assenti sem problemas.

-Eu adoraria que me contasse o que eu fiz... Só me lembro de ter parado o carro, nada mais.

-Ah... Está achando que... –eu sorri brevemente, balancei a cabeça negativamente. –Não. Não houve nada. Eu só a trouxe para o meu quarto.

-Ah, isso é um alívio. –ela suspirou sentindo-se um pouco menos culpada.

-Seria tão terrível assim?

-Seria. –ela assentiu sem pestanejar, mas logo balançou a cabeça negativamente. –Quer dizer... Olha, não se ofenda, está bem? É que só... Eu só... Ah, esqueça.

Eu ri daquela maluquice. Ri do quanto ela era idiotamente estúpida. Se é que isso existe e se existir, pode ter certeza de que é ela.

-Olha, seria ótimo se você...

E antes que eu pudesse falar seria ótimo que você fosse. Um celular tocou alto, parecia emanar do bolso de Rin.

Ela levou um susto assim como eu. Pegou o celular rapidamente, parecia sentir uma dor imensa com aquela melodia. A enxaqueca deveria estar insuportável.

-O quê é? –ela resmungou irritada.

Rin disse algumas palavras como "aham", "é", "não", "está tudo bem", "sim", "depois", "farei o possível" e em seguida desligou. Ela me pareceu tão monossílaba quanto eu ao telefone. Fiquei espantado ao presenciar aquela cena. Será que eu poderia ser tão mais seco do que aquilo? Eu duvidava.

Num minuto ela estava de pé. Caminhou até o parapeito branco da minha varanda e ficou a olhar com dificuldade o meu imenso jardim embaixo de nossos pés. Ela estava quieta, com uma expressão esquisita. Resolvi não perguntar, não era da minha conta e estava ficando impaciente. Queria realmente que ela fosse. Não estava gostando daquilo. Não fazia parte do plano.

-Sabe... –ela começou ainda virada de costas para mim. –A vida é mesmo uma besteira imensa. Um grande vazio. Viver é como morrer todos os dias. Morrer de todas as formas. A cada dia, a cada hora, minuto ou segundo, morremos. Um pouco de nós fica para trás, um pouco de nós deixa de existir. Queria entender tantas coisas, mas não tenho tempo nem pra respirar ar puro. A vida é meu escritório, é aquela empresa sufocante, as pessoas que não suporto... Estou cansada demais. Cansada de tudo isso.

E por um momento eu parei completamente. Se eu tivesse com uma xícara de café na mão sem sombra de dúvidas a teria derrubado ao chão. Estava pasmo demais para falar qualquer coisa. Ela pensava igual a mim, tinha os mesmos problemas, as mesmas dúvidas. Tudo.

Eu vi muito de mim nela. E aquilo me aterrorizou.

-Me desculpe. –ela sorriu desanimada. –Nem sei porque estou falando isso com você. Olha, preciso ir.

Eu engoli a seco e somente assenti.

Ela poderia ter sumido da minha vida depois daquela noite imbecil.

Ter evaporado. Virado cinzas!

Mas ela ainda voltaria pra mim... Voltaria tantas outras vezes.

Aquilo tudo só tinha sido um grande ensaio. Haveria outros encontros.

...

CONTINUA...

Nota da Autora:

Pois é, acabei!

Está aí mais um capítulo!

Bem estou me divertindo muito escrevendo ela, além de estar colocando algumas questões pessoais e conflitos internos, estou simplesmente amando fazer um personagem tão complexo e profundo como o Sesshoumaru. Bom está sendo bom dividir isso aqui com vocês.

Acho que essa foi a Rin mais maluca que já criei na história dos fan fics !

Mas gostei disso.

Ela vai ser muito diferente de todas que já criei. Pensei em colocar uma face aventureira, madura e claro muito louca.

Vamos ver se essa mistura vai dar certo.

Agora irei comentar os comentários anteriores! Nossa Santa Redundância hahaha!

Gente espero que a Fic esteja agradando, qualquer sugestão, dúvida e etc é só me escrever.

Rin Taisho sama – Olá! Obrigada pelo comentário no capítulo passado! Pode deixar que farei de tudo para postar sempre. E será que essa era a Rin que você estava esperando encontrar? Haha acho que não né? Mas olha, tenho certeza que ela vai conseguir mudar um pouquinho esse jeitinho metido e mimado do Sesshy! Beijos!

Nathi –Flor você por aqui! Que felicidade em recebê-la! Poxa obrigada por me acompanhar em tantas fics. Adorei a sua presença. Bem, a ideia de um Sesshoumaru narrando me veio à cabeça de repente. Mas acabei colocando os dois um pouco diferentes do habitual. Um Sesshoumaru mais malicioso e egoísta e uma Rin mais louca e hiperativa. Queria ver se dava certo e até agora tenho me divertindo bastante bancando o Sesshoumaru excêntrico hehe! Sobre ele e a Kagura, bem, ainda tem muita fic pela frente, você vai entender logo a história desses dois. E a palavra exacerbada quer dizer exagerada mesmo, você entendeu da maneira certa. Espero que já esteja se sentindo melhor =/! Odeio ficar doente também... Grande beijo!

Hana-Lis –Olá! Agradeço o seu comentário no outro capítulo! Sabe, essa coisa de narrar como homem é algo muito natural pra mim. Eu sempre preferi narrar personagens masculinos, não sei porque. Acho engraçado bancar alguém que não sou, fazer coisas que eu não faria. Você tem razão quando diz que o desafio de fazer um personagem masculino é deixar ele natural, não fazer com que pareça bobo. Espero que esteja conseguindo colocar minha aura masculina na fic. É a Rin vai aprontar muito ainda com ele, espere pra ver... Beijos!

Anny –Amore! Que bom te ver por aqui também! Poxa, to achando o Sesshoumaru um arraso nessa fic também, super do bad, ganancioso, não se importa com ninguém. E sobre a Rin acho que ela ainda vai dar muito que falar nessa Fic. Com certeza muita coisa ainda tem pra acontecer. Tenho tentado ser o mais rude possível narrando como o Sesshoumaru. Como falei pra Hana é um desafio interessante, fazer com que pareça natural, sem toques femininos. Beijos, amore!

Bem, espero ver vocês de novo por aqui!

ATÉ O CAPÍTULO 3!