N/A:
Este capitulo contém NC nos últimos paragráfos. Bem... Você foi avisado. ;D
Capítulo II - Better Days
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Senti o gramado pinicar minhas costas, deitado sob a lua que se escondia por entre as negras nuvens daquele céu sem estrelas. Enegrecidas e mórbidas. Como eu gostava de admirar aquele céu durante a noite, a brisa suave de outono pairava no bosque e o lago parecia assoviar aos movimentos contidos das mínimas e suaves ondas causadas pelo vento. Ouvi uma batida seca e um sussurro de esforço para arrancar o pedaço ainda preso ao tronco. Separou a viga cuidadosamente e enxugou o suor com um lenço branco de seda, presente de minha mãe.
"Remus, não fique aí deitado até o amanhecer", meu pai bronqueou, em um tom levemente irritado. "Venho me ajudar com a lenha."
"Está bem, papai", me dei por vencido, era a quarta vez que me chamava atenção àquela noite.
Levantei-me, apanhando um machado menor que o dele, o tamanho proporcional
a um garoto do meu tamanho. Era um tanto pesado, mas com certo esforço eu consegui manuseá-lo na direção do tronco, que cedeu. Ao perceber que acertara o meio dele, fitei meu pai que me observava.
"Não sei porque sua mãe insiste em mandá-lo atrás de mim", riu-se, passando as mãos pelo meu cabelo e arrepiando-os levemente. "Você não tem a mínima vocação para carpinteiro."
"Mas não quero ser carpinteiro", devolvi, largando o machado e voltando a deitar sobre a relva prateada, agora iluminada pela lua cheia que apareceu dentre as nuvens. "Mamãe me manda aqui porque sabe sobre meu fascínio pelas estrelas."
"Neste céu não vai encontrar estrela alguma, filho", zombou ele, fincando o machado com força e conseguindo uma nova viga, que se juntou as demais já cortadas.
"Vou sim", repliquei, virando de bruços na grama e fitando-o com um sorriso inocente. "E esta sim é minha vocação, papai."
"Vai ser astrólogo?", perguntou e baixou os olhos para o machado nas mãos. "Sabe que não terá muito dinheiro para os estudos, não é?"
"Eu sei, mas não são as estrelas que me interessam, papai" e virei-me novamente no chão, as mãos sobre a nuca enquanto estreitava os olhos para o céu mais claro. "É a procura delas", uma pausa, e por fim minha conclusão. "Eu vou ser detetive."
"Entendo." falou, ajoelhando-se no chão "Tens boa alma filho, acredito que será um detetive justo e honesto" sorri, ele fez um sinal para que eu me aproximasse "Agora venha ajudar-me com as vigas."
Obedeci, e quando toda a lenha já estava recolhida e segura nos braços dele, pusemo-nos a caminhar de volta à cabana. Podia enxergar a claridade da cozinha através da janela ao longe, mamãe provavelmente nos esperava para acender a lareira e preparar um cozido de ovos, o preferido de meu pai. Eu preferia carne vermelha, mas mamãe costumava pedir para que desse preferência aos legumes, porque favorecia minha saúde. Um grito estridente fez com que papai derrubasse toda a lenha no gramado.
"Sarah!" Ele berrou e a pôs-se a correr em direção a cabana. Segui-o, os passos largos me impedindo de alcançá-lo quando entrou... Uma sombra gigantesca desenhada na parede fez com que minhas pernas perdessem o movimento. Levei às mãos aos ouvidos quando um uivo proliferou pela entrada, e um ruído oco chocando-se com o assoalho de madeira. Sem gritos ou choro. Um cheiro de sangue impregnando o ar, não me movi. Tudo aconteceu rápido demais, o grito, o ruído, o uivo e o sangue. Escorrendo pela minha perna. BAM! Fechei os olhos, e gritei quando senti uma mão segurando meu braço.
"Você está bem menino?" Abri os olhos e fitei enorme criatura caída aos meus pés, imóvel.
Os corpos retalhados e o odor de sangue jamais esvaeceu em minhas lembranças. Podia senti-lo em minha garganta, seu gosto amargo misturando-se à minha saliva... Tomando-me, lua após lua. Podia senti-lo, naquele momento.
E neste.
Respirei fundo, o ar estava pesado, imundo. Abri os olhos e fitei o teto úmido do cômodo. Estava deitado de costas, como em minha lembrança, mas não era gramado sob meu corpo estirado. E com certeza não havia estrelas naquela imensidão negra que eu encarava. Com um movimento rápido, virei o pescoço e identifiquei barras grossas de ferro cercando-me. Uma jaula. O remédio não funcionara?
"Remus?", ouvi um sussurro familiar, o último que lembrava ter ouvido. "Está acordado?"
Levantei-me e reconheci o rosto de Sirius entre as barras que separavam nossas celas. Ainda vestia o conjunto vermelho da festa, os cabelos compridos caindo sobre os ombros eretos. Sorria para mim, e sua pergunta parecia despreocupada, como se eu estivesse despertando na mesma cama em que me deixara. Olhei em volta, procurando alguma resposta para tamanha tranqüilidade. Estávamos numa prisão, definitivamente.
"O que houve?", perguntei por fim, aproximando-me dele.
Moveu os lábios, mas sua resposta foi abafada pelo ruído forte de uma porta de ferro que selava o cômodo. Quatro homens entraram, mas na escuridão era impossível identificar seus rostos. Dois deles abriram a cela de Sirius e um segurou seu braço conduzindo-o para fora, foi quando notei que suas mãos estavam amarradas. Repetiram o ato comigo, mas permitiram que eu mesmo saísse da cela, sem auxílio.
Seguimos para fora do cômodo em silêncio, os guardas dirigiram-nos por um longo corredor, até adentrar uma espécie de escritório, onde um único homem ocupava a poltrona defronte para nós. Era corpulento e calvo; os olhos escuros, assim como a pele e usava vestes neutras, um verde escuro e borrado. Segurava um charuto na mão direita, os coturnos desbotados sobre a escrivaninha a sua frente.
"Deixe-nos", ele ordenou, um dos guardas desamarrou os pulsos de Sirius, antes de seguir os outros para fora. "Não esperava vê-lo tão cedo, jovem Sirius Black", ele comentou num sorriso.
"Eu também não, Kingsley", Sirius devolveu no mesmo tom. "Mas, como pode ver, acusações parecem me perseguir com freqüência."
"Assim como uma confissão que acaba por livrá-lo, estou certo?" E tragou, esperando uma resposta.
"Sim, correto," confirmou. "Creio que dessa vez não tenha provas para me manter aqui."
"Exato", Kingsley levantou-se. "Mas acho que vou manter seu amigo preso um pouco mais." Andou até mim, e deu de ombros quando eu parecia confuso com seu tom acusador. "Para me responder algumas perguntas apenas."
"Sirius?", pedi confuso, ele fez um sinal para que me calasse.
"Já respondi suas perguntas, Kingsley", Sirius interpôs, gesticulando impaciente. "Ele foi encontrado longe da propriedade, inconsciente."
"Fugindo talvez?", sugeriu o homem.
"Ele NÃO é o culpado!", sentenciou Sirius, em tom definitivo. "Dê-me dois dias, eu encontrarei o verdadeiro assassino."
"Com uma história convincente?" Sirius assentiu. "E se eu julgar uma farsa?"
"Pode ter um herdeiro Black ocupando sua cela", o homem andou de um lado para o outro, e voltou a sentar em sua poltrona, o rosto esfumaçado pelo charuto ainda grudado nos lábios.
"Temos um trato", chamou um dos guardas e pediu para nos acompanhar até a saída.
Uma carruagem nos aguardava do lado de fora, Sirius entrou e estendeu a mão para mim. Hesitei um instante, mas aceitei o gesto e logo nos vimos chacoalhando pela estrada de pedra. Algo estava diferente, o ar talvez. Uma fragrância nauseante de álcool, meu olfato aguçado se fazia presente. Não gostaria de saber o porquê eu parecia pressentir notícias ruins seguidas à minha pergunta.
"Pode me dizer o que houve agora?" Silêncio, Sirius pareceu evitar olhar-me, os orbes perdidos em algum ponto da janela aberta.
"Ontem à noite, durante o jantar," baixou os olhos, erguendo-os em seguida na minha direção, "minha família foi assassinada." Engoli em seco.
"Todos eles?", pedi num sussurro e Sirius confirmou com a cabeça. "Mas como...? Quem?"
"Eu não vi seu rosto", respondeu, tenso. "Não creio que fosse humano." A pergunta a seguir me calou de mais suposições: "Acha que consegue descobrir quem foi?"
Eu não necessitava de mais pistas. Levei a mão à testa, fingindo pensar numa resposta para Sirius, que ainda me fitava. Só consegui concluir que ele não conseguira meu medicamento a tempo na noite passada. O corredor, o salão... Por que ninguém correu? Não poderia ter dilacerado todos os presentes em tão pouco tempo. As portas compridas de madeira, as saídas... Uma armadilha. Só poderiam ter sido lacradas para que não houvesse nenhum sobrevivente. Mas quem poderia ter planejado isso? Meu segredo não poderia... Ted. Minha linha de pensamento avançou diretamente para um único rosto.
"Dora..." sussurrei num fio de voz.
"Ela estava..."
"Alguém sobreviveu?", interrompi Sirius, desesperado.
"Eu não..." mas foi interrompido novamente, dessa vez pela parada brusca da carruagem anunciando nossa chegada ao Largo, como pude reconhecer pela janela. Sai desnorteado e corri escada acima, esbarrando em alguns criados que tentavam me impedir. As enormes portas de madeira estavam abertas, mas não precisei chegar até o salão para notar a lamentável resposta para minha pergunta silenciosa.
Corpos... Esparramados por todo o piso de mármore, enquanto o sangue escorria lentamente pelas paredes e cortinas. Era como uma pintura horrenda de campos de batalha ou imagens que só podem se produzir através de pesadelos. Uma carnificina, provocada por algum monstro que não me era desconhecido.
Apoiei as mãos no batente da porta, deixando que lágrimas angustiantes escorressem pelo meu semblante. Solucei, forçando a garganta num vômito, o cheiro de morte impregnado em minha pele. Queria colocar tudo para fora, qualquer resquício humano que ainda me restava naquele corpo. Minha mente parecia ter deixado meu corpo enquanto eu tentava devolver o que havia tomado daqueles corpos. Talvez fosse minha boa alma, clamando por libertação do cadáver podre em que estava presa.
As mãos sobre meus ombros, apertando como se tentasse reduzir meus ossos em frangalhos. Tossi, resmungando sem nexo, quando percebi que Sirius me puxava para longe do salão.
"Não!", consegui berrar, em plenos pulmões. "Você não entende!"
"Remus!", ele pedia, prendendo meus braços com força enquanto eu me debatia, caindo de joelhos em resistência. "Remus!"
"NÃO! Me deixe..."
"MOONY!" Ele gritou, mais alto do que minhas réplicas.
Sua voz ecoou no corredor pelo qual ele tentava me empurrar, nenhum ruído seguiu-se após. Silêncio, imponente. Abri os olhos marejados e notei que os criados em volta nos olhavam, estupefatos e temerosos. Provavelmente imaginavam que um de nós era culpado por toda aquela cena, que agora tinham de esforçar para limpar. Esconder a sujeira dos Black, como diria Sirius provavelmente. Exceto que, dessa vez, não fora causada por eles. Arrastou-me até uma sala vazia, e me conduziu até uma poltrona. Sentei-me, ainda sem reação.
Uma biblioteca, intacta e extremamente organizada. Estantes que iam do assoalho até o teto, capas coloridas preenchendo cada prateleira e várias poltronas e abajures espalhados por todo o tapete de pele no centro do cômodo. Fitei Sirius inexpressivo, ele devolveu numa expressão genuína. A mão direita deslizava pelo queixo, enquanto andava de um lado para o outro, pensativo.
"Como...?", retomei, em tom baixo. "Como pode estar tão calmo?"
"Algum de nós teria de fazê-lo, não?", replicou. "Temos pouco tempo, precisamos de um suspeito."
"Já temos um culpado", anunciei, tomando forças para me levantar, ficando de frente para ele. "Sou eu."
"Não seja ridículo, Remus."
"Você não entende, Black", segurei seu rosto, os narizes quase se tocando. "Quão bem me conhece?", sussurrei, esperando que talvez lesse a verdade nos meus olhos. "Sabe algo sobre mim? Algo da minha vida? Do meu passado?"
Ele se calou, a testa franzida em total confusão. Podia sentir sua respiração pesada, misturando-se à minha, descompassada. Não entendi seu silêncio, mesmo que pressentisse uma resposta brevemente. Suspirou, mas não baixou os olhos como eu fiz, envergonhado. Segurou meu queixo entre o indicador e o polegar. Eu quase sorri ao toque inesperado, mas meus lábios foram ocupados com os dele antes que pudesse, num beijo suave e quente.
Eu estava enlouquecendo. Nenhuma outra explicação convincente cruzou meu pensamento a medida que meus braços contornaram seu pescoço involuntariamente, a fim de aprofundar a carícia. Um grito, alto e estridente. Afastamos-nos imediatamente, olhares confusos referentes ao momento insano que se passava. Pensei ter ouvido passos no corredor, desviei o olhar para a porta encostada. Distanciei-me um pouco mais, passando os dedos nos lábios inchados e tomando fôlego. Corri para fora, seguindo os berros a medida que eles pareciam se aproximar.
De volta ao salão, notei várias criadas encolhidas num canto. Os gritos cessaram com minha entrada, e todas fitavam um mesmo ponto, localizei-o com rapidez, meu coração acelerou. Havia uma criança sentada no chão, abaixada sob a mesa de mogno. A cabeça enterrada entre os joelhos, chorando baixinho. Os cabelos loiros entre os dedos, que se moviam freneticamente como se ameaçasse arrancar todos os cachos em questão de segundos. Aproximei-me com cautela, ajoelhando a sua frente. Toquei seu ombro e ela gritou apavorada, encolhendo-se mais ainda junto ao pé da mesa.
"Dora..." chamei baixinho, ela não ergueu a cabeça assustada. "Você está bem?" Seus olhos marejados aliviaram-se num abraço forte, quase sufocante. "Está tudo bem, princesa."
Segurei-a em meus braços, e caminhei para fora do salão, seguindo para único quarto que conhecia naquela mansão. Ela apoiou a cabeça em meu ombro e soluçou baixinho, de olhos fechados. Empurrei a porta com uma leve pressão e adentrei o quarto iluminado pelos raios de sol. Deitei Dora sobre os lençóis esbranquiçados e notei que eles se encontravam exatamente como me lembrava na noite anterior. Como poderiam estar intactos? As janelas abertas responderam minha pergunta silenciosa. Voltei a fechá-las, deixando apenas uma fresta que me permitia enxergar o cômodo com clareza.
Percebi uma figura parada na porta, o corpo encostado no batente e os olhos negros fitando a garota sobre a cama. Não lhe dei atenção, fingindo esquecer o que acontecera. A sensação de intensa felicidade concedida numa simples carícia. Num impulso, levei os dedos de volta aos meus lábios e quase pude sentir os dele novamente, macios e quentes sobre os meus. Permaneci imóvel, de costas para ele. Andei até o colchão e sentei próximo ao quadril de Dora. Movi um cacho para longe do rosto e pedi num sussurro.
"Dora, acorde..." ela abriu os olhos devagar, num sorriso aliviado e triste. "Pode me dizer... O que houve?", pausei, sem conseguir perguntar sobre Ted.
Ela permaneceu em silêncio, os olhos brilhando melancólicos. Pedi uma resposta com um olhar encorajador, mas ela negou com a cabeça. Parecia temer algo invisível, um ponto fixo sobre meus ombros. Fechou os olhos e permitiu que mais lágrimas escorressem por suas bochechas pálidas. Impulsionou seu corpo para um novo abraço e soluçou em meu ouvido, entre gemidos.
"Ela está em estado de choque", Sirius falou, aproximando-se. "Sugiro que a deixe dormir, para que se acalme."
"E como espera que ela durma?", repliquei, sentindo-a firmar o abraço. "Acabou de presenciar um massacre."
"Deixe-a Remus", tocou meus ombros. "Preciso falar-lhe a sós."
"Não vou sair daqui", ralhei, a voz amargurada pela pouca importância que parecia dar à criança em meus braços.
"Como queira", ele segurou um retalho diante de meus olhos, era pardo e continha garranchos em vermelho, escritos com vinho talvez. Aproximei meu rosto e identifiquei um odor de sangue, úmido em minhas entranhas e seco no pedaço de tecido. "O que supõe de uma vítima, em seus últimos suspiros?"
"Acredito que tentaria de alguma forma, identificar seu assassino", recordei princípios básicos ensinados por Ted e uma nova onda de angústia pareceu esmagar meu pulmão.
"Um monstro coberto de pelos," estreitou os olhos, lendo em voz baixa e com clareza, "força sobrenatural... Desumano, insaciável..." parou um momento. "As portas, estão lacradas", suspirou, e dobrou o pedaço de tecido, guardando no bolso interno do casado.
Então, a confirmação. Uma cilada, elaborada por alguém ainda mais cruel do que o monstro que a executou. Mesmo sabendo que tinha a maior parte da culpa em seu consciente, não era o único que deveria senti-la. Restava saber se as portas foram lacradas antes ou depois da transformação. Não. Eu tinha coisas mais importantes para me preocupar agora. Como Dora, órfã e naquele estado. Talvez jamais voltasse a falar, e novamente eu me culparia pelo ocorrido. Afrouxei os braços, empurrando com delicadeza para poder fitar seus olhos lacrimosos. Levei o indicador aos seus lábios, e silencie-a momentaneamente.
"Não vou sair daqui, Dora", murmurei para ela, tocando sua testa e deslizando até que fechasse os olhos. "Descanse princesa, estou aqui..."
Observei-a respirar pausadamente, uma expressão triste no rosto suado. Levantei-me, e ela não fez objeção quando sentiu meu peso esvaecer do colchão. Tomei uma distância, segurando o braço de Sirius e conduzindo-nos para fora do cômodo. Encostei a porta sem fechá-la completamente, os olhos fixos no carpete manchado de sangue. Uma certeza firmando-se em minha mente, pesarosa e definitiva. Eu precisava fugir, antes que tomasse a culpa pelo ocorrido. O que suspeitei, não tardaria a acontecer.
"Foi uma armadilha", confirmei, me arrependendo das suspeitas que formulava em minha mente. "Tem certeza de que ninguém sobreviveu?"
"Não contamos os corpos antes de enterrá-los", informou-me.
"Descubra se os criados perceberam algum convidado diferente, depois pergunte quem deu a ordem para selar as entradas", suspirei cansado, "Partirei esta noite, Dora e eu não podemos ficar aqui."
"Vai fugir?" Acusou. "Ainda acha que é o culpado?"
"Eu sei que sou", segurei seus ombros com força.
"Por causa disto?" Ele segurou um frasco transparente diante de meus olhos, um resquício de líquido prateado seco no fundo.
"Onde foi que..."
"Você bebeu isso ontem, Remus", interrompeu-me. "Eu dei a você"
"Como foi que escapamos daqui?" Indiquei o quarto com a cabeça, ao que ele respondeu empurrando um quadro e abrindo uma passagem oculta. "Venha comigo." Pediu.
Eu o segui, andamos lado a lado pelo novo corredor. Minha mente imersa em perguntas e deduções sobre quem poderia ter cometido tais atos além do monstro que me possuía em noites de lua cheia. Foi quando percebi que talvez tivesse caído em algum outro tipo de armadilha. Não podia ser. Não conseguia raciocinar com clareza. Talvez Sirius quisesse me fazer acreditar que não era o culpado, apenas para que eu o ajudasse a encontrar o verdadeiro. Não podia arriscar deixar que me prendessem, Dora era mais importante.
"Reconheci o líquido quase instantaneamente." Sirius retomou, suspendendo meus pensamentos. "Meu tio Cygnus tem a mesma doença que você, Remus."
"Cygnus?" Pedi, sem poder acreditar no que ouvia. "Ted queria vê-lo antes do jantar, em particular."
"O pai da garota?" Acenei positivamente. "Não encontramos o corpo dele ainda." Parei de andar, encarando-o atônito.
"Tem certeza?" Ele assentiu.
Tudo ainda estava muito confuso. Sirius apresentava suas próprias conclusões de maneira a encaixar minhas suspeitas. Recordei a noite passada, Ted estava tenso durante o jantar, não me contou nada sobre o que conversara com Cygnus. Se de fato fosse um dos responsáveis pelo crime, qual era sua intenção? De nada seria recompensado por isso. Talvez devesse algum favor à Cygnus, afinal, trabalhara para ele no passado. Era claro que temia o senhor, pela maneira que se portava diante do mesmo. Ainda sim, eu me recusava acreditar nessa tese pelo fato de Dora ter sido deixada no salão quando o massacre se iniciou.
"Não pode ser..." Murmurei para mim mesmo.
"Não seria a primeira vez que um Black é assassinado pelo mesmo sangue." Algo em seu comentário fez com que eu o analisasse com cautela.
"Não esperava vê-lo tão cedo, jovem Sirius Black." A frase de Kingsley ecoou em meus ouvidos continuamente, e foi quando tirei minha própria conclusão. Sirius fora o principal suspeito pela morte do pai. Livrado da acusação por uma suposta confissão de uma escrava. Permanecera intacto à um massacre da família Black. E, aparentemente, era o único herdeiro vivo de uma família que parecia repudiar. Como Kingsley foi capaz de libertá-lo dessa vez? Era óbvio demais talvez. Todavia, constatei a mim mesmo: Sirius Black era influente e definitivamente perigoso.
De repente, tudo pareceu se encaixar perfeitamente. Ele era o culpado. Entretanto, eu percebi que não tinha coragem ou vontade de denunciá-lo. Percebi que, se de fato contara a verdade sobre Cygnus, ele poupou minha vida. E, se mentira, tirou-me da prisão sabendo que eu era o responsável pelas mortes e uma confissão minha facilitaria tudo ligeiramente. Qual eram suas intenções? Fui incapaz de decifrá-las. Já não importava mais, eu precisava partir. Dora estava sob meus cuidados, era minha criança agora. O cadáver de Ted apareceria cedo ou tarde, e preferi que não estivéssemos presentes quando isso ocorresse.
"Eu conhecia Ted Tonks", repliquei, por fim. Havia tomado uma decisão. "Ele não faria isso."
"O corpo dele não apareceu, assim como o de Cyg..."
"Já tem sua história, Sr. Black", interrompi, girando os calcanhares de volta ao quarto onde Dora dormia. "Não precisa mais de mim."
"Vai partir?" Ele pediu, segurando meu braço.
"Esta noite." Me distanciei em passos largos. "Não suporto o odor de sangue deste lugar", murmurei. Soube, no entanto que pôde me ouvir, pois parou de me seguir no mesmo instante.
Alcancei a porta antes que pudesse ouvi-lo reconsiderar e novamente impedir-me. Levaram apenas alguns segundos para que eu e Dora saíssemos da mansão numa carruagem. Ela sentou ao meu lado e encostou a cabeça em meu ombro, suspirando e fechando os olhos novamente. Ordenei ao coche que nos levasse à pousada mais próxima que encontrasse em Londres. Não queria passar a noite inteira na estrada e precisava descansar um pouco antes de partir.
Chegamos a um pequeno hotel, de aspecto rústico e simples. Sem dar muita atenção para a aparência externa, adentrei o local e agradeci o fato de haver criados prestativos pelo menos. Um senhor notou minha presença, aproximando-se com um sorriso gentil.
"Um quarto para o senhor?" Perguntou.
"Dois quartos, por favor." Dora segurou minha mão, os olhos presos ao assoalho de madeira. "Poderia pedir à uma criada para auxiliar minha acompanhante?"
"Certamente, senhor", fazendo sinal para um criado. "Silas vai acompanhá-los até seus aposentos." tirou chaves do casaco, entregando-as a mim. "A criada subirá a seguir."
"Obrigado."
Seguimos pelas escadas, passando por dois patamares e atingindo o terceiro andar. Ele abriu a porta, e fez uma reverência para Dora, informando que aquele era o seu quarto. Ela relutou soltar minha mão, mas o fez quando uma criada alcançou o batente oferecendo a mão livre de toalhas para que a acompanhasse. Meu quarto era bem defronte ao dela, recompensei o criado com uma moeda antes de fechar a porta. Uma suíte simples, com uma escrivaninha acompanhada de duas cadeiras e uma porta para o banheiro. A cama era um pouco maior do que eu esperava, com lençóis brancos e perfumados.
Livrei-me das roupas e apanhei toalhas, seguindo em direção ao banheiro. Um espaço limitado entre o vaso e a pia que continha um espelho antigo como adorno. Deitei na banheira, a água estava serena e morna. Permaneci imerso, durante longos minutos. Um cansaço apoderando-se de meu corpo inerte. Adormeci. Quando acordei, notei que meus dedos estavam completamente enrugados. Levantei, enrolando-me na toalha branca e caminhando para fora da banheira. Minhas pegadas molhadas permaneceram no piso de mármore gelado.
Vesti minhas roupas, uma fragrância forte de vinho impregnada ali. Não precisei de muito tempo para lembrar-me de Sirius e o beijo que trocamos após a discussão da qual não conseguia recordar o motivo. Procurei algo para me distrair de tais pensamentos, porém aquele quarto parecia tão vazio quanto meu estômago. Subitamente, lembrei-me que estava com fome. Fui até a porta, um cheiro forte de vinho aproximando-se. Um simples movimento na maçaneta me fez escutar passos se afastando. Abri a porta bruscamente, ouvindo uma exclamação da criada que acabou por derrubar uma pilha de lençóis que carregava.
"Desculpe." Pedi envergonhado, olhando para os lados a procura de mais alguém.
"Algum problema, senhor?" Ela perguntou, e ajoelhou-se para juntar os lençóis.
"Não." Respondi prontamente "Eu só... Pode me dizer se já posso descer para o jantar?"
"Avisarei a cozinha para servir o jantar em seu quarto", levantou-se. "Precisa de mais alguma coisa, senhor?"
"A garota que me acompanhava..."
"Ela já esta deitada, alimentou-se há pouco", informou-me, e seguiu pelo corredor quando murmurei um obrigado.
Encostei a porta, ligeiramente aliviado. Caminhei até a suposta janela e abri a cortina que desprendia da base até o chão, ocultando uma porta de vidro que dava para uma pequena varanda. Destranquei-a, admirando o céu enegrecido e sem estrelas da noite quente de verão. A lua de início minguante escondia-se entre as nuvens, e o restante da paisagem parecia imerso na escuridão. Aproximei-me da mureta que limitava o espaço e, ao notar que sua base era extensa e firme, deitei sobre ela. Mesmo a metros do chão, não senti medo de cair. Meus olhos pareciam presos ao céu como uma corda e com facilidade eu localizei uma estrela solitária por entre as nuvens.
Um clique seco anunciou a entrada de alguém em meu quarto. Um momento e voltou a ser fechada. Imaginei que fosse um criado e por isso não me levantei, meu estômago parecia ter se assentado com a espera. Uma luz foi acesa dentro no quarto e uma sombra aproximava-se da varanda. Olhos claros e lúgubres num rosto molhado de lágrimas, os cabelos volumosos soltos e caindo sobre os ombros cobertos por um longo vestido verde escuro.
"Dora..." sussurrei e ela levou o indicador aos lábios, como se pedisse silêncio.
Concedi-lhe o que desejava e desviei os olhos novamente para o céu tentando evitar a sensação de angústia que se apoderava de mim. Ela caminhou para fora do quarto, em passos curtos e lentos. Correu os olhos pela paisagem e estreitou os mesmos em um ponto fixo e distante. De relance, notei um breve sorriso formar-se em seus lábios. Melancólico, mas ainda sim um sorriso. Ela aproximou-se, ficando a centímetros da mureta. Segurou meu rosto com as palmas delicadas e seus lábios finos tocaram os meus.
Impulsionei meu corpo para frente, quase perdendo o equilíbrio. Ela se afastou, correndo para dentro. Não soube como reagir, principalmente quando ouvi seu choro ecoar novamente pelo quarto. Afastei a cortina e fitei-a em silêncio. Ela correu para mim, abraçando minha cintura e cessando as lágrimas. Deslizei as mãos por seus braços finos até alcançar seu queixo, erguendo-o para que me encarasse. Sorri fracamente, numa tentativa de tranqüilizá-la e impedir que caísse em prantos novamente.
"Vai ficar tudo bem, Dora..." ele manteve os olhos nos meus, mas permaneceu em silêncio.
A porta voltou a se abrir, e a criada com quem havia falado no corredor entrou com uma bandeja.
"Está tudo bem, senhor?" Perguntou, fitando Dora.
"Sim, está", permiti que se aproximasse com um aceno. "Minha filha teve apenas um sonho ruim. Poderia permanecer em seu quarto até que pegasse no sono?" Ela assentiu. "Vou vê-la pela manhã, Dora," ajoelhei-me, abraçando novamente. "Não se preocupe."
"Venha querida," chamou e Dora acompanhou-a. Virei-me para a bandeja e ouvi a criada novamente: "Há um jovem senhor que gostaria de lhe falar, apresentou-se como Sirius Black", parei, de costas para ela. "Vai recebê-lo em seu quarto e peço para aguardar na recepção?"
"Peça..." sussurrei, num engasgo. "Mande-o subir, por favor."
"Como quiser," um ruído seco e a porta voltou a se fechar.
Não consegui me mover, nem sequer respirava direito. Em minha mente, milhares de razões surgiam como explicação para que Sirius voltasse a me procurar. Não acreditava em nenhuma delas, desejando que pelo menos uma não se atribuísse ao que acontecera naquela manhã. Duas batidas na porta, não respondi imediatamente. Ainda tentava recorrer a qualquer motivo convincente o bastante para mandá-lo embora. Não encontrei nenhum. Três batidas, e então uma resposta. Ou talvez um pedido.
"Entre." Ouvi sua respiração contida e senti novamente a fragrância de vinho invadindo minhas narinas.
"Remus, eu..." ele começou, mas eu o interrompi bruscamente.
"O que você está fazendo aqui, Sr. Black?"
"Vim pedir..."
"Ajuda?" Ele se calou. "Já tem seu culpado, agora me deixe em paz", não reconheci minha própria voz amargurada, quase gritando.
"Acha que fui eu, não é?" Sibilou descrente.
"E quem mais poderia, Sirius?" Repliquei, avançando sobre ele sem tocá-lo. "Quem?"
"É por isso que vim aqui, Remus. Eu também quero descobrir." Um gesto impaciente apossou-se de minhas mãos que rapidamente foram tomadas pelas dele, que pareceram duas vezes maiores. Empurrou-me com força contra a parede, senti minhas costelas reclamarem, mas não deixei de encará-lo.
"Você está louco!" Consegui dizer.
"Teria feito!" Ele sussurrou enraivecido, os olhos brilhando em fúria. "Teria matado todos eles! Um de cada vez e sabe o que mais, Remus? Eu teria gostado, e muito. Me sentiria gratificado por ter livrado o mundo dessa família imunda que esconde a sujeira sob mansões luxuosas e outras futilidades da sociedade. SIM, EU OS MATEI!" Berrou por fim. "Desejei isso por muito tempo... e se minhas preces foram atendidas, que isso me condene ao inferno. Não me arrependo delas."
Sua última frase preferiu num sussurro quase inaudível, se nossos rostos não estivessem tão próximos eu com certeza não o escutaria. Soltou minhas mãos, livrando-me da fricção que seu corpo exercia sobre o meu, esmagado à parede. Senti pena dele, sua raiva parecia ter sido cultivada há muito tempo. Um rancor contido a uma vida oprimida, um momento de desabafo. De fraqueza... Segurei seu rosto, encostando minha testa à dele, que tremia. Aproximei meus lábios, e recuei devagar. Antes que pudesse dizer qualquer coisa para consolá-lo, ele selou minhas palavras num beijo desesperado.
Seus lábios cálidos comprimiam os meus freneticamente, como se procurassem algum conforto neles. Senti sua língua deslizar sobre a minha e fui incapaz de conter minhas mãos de subir sobre seus braços, chegando aos ombros e puxando-o para mais perto. Ele aprofundou a carícia, uma mão escorregando pela minha virilha enquanto a outra tentava arrancar fios de cabelo em minha nuca. Eu não pensava em nada e desejara apenas uma coisa: Ele.
Caminhamos em direção à cama, os corpos se friccionado continuamente. As mãos impacientes procuravam a pele quente sob os tecidos volumosos e elegantes. Cai de joelhos, abrindo sua calça enquanto sentia seus dedos pressionando o oco de meu pescoço. Momentos depois, ele me puxou pelo braço, envolvendo minha cintura e voltando a me beijar. Desceu os lábios pelo meu queixo, deslizando a língua quente pelo meu pescoço. Senti minha pele arder sob as vestes e ajudei-o a se livrar das mesmas mais rapidamente. Desabamos sobre o colchão, desprovidos de qualquer tecido e de costas para as paredes laterais.
"Vire-se, Remus..." seu sussurro saiu entrecortado por gemidos. Obedeci, ficando de bruços e agarrando o lençol com força ao sentir seu peso desabar sobre minhas costas. O peito dele escorregando repetidamente no suor que descia pela minha coluna, os lábios próximos ao meu ouvido. "Você está bem?" Ele sussurrava e eu respondia que sim, mesmo sem dizer palavra alguma.
Gemi mais alto ao sentir uma onda de prazer apoderar-se de meu corpo, dolorida e impetuosa. Doía, entretanto, o desejo que me devastava era mais intenso e prevalecia, preso entre o peito e a garganta. Não segurei um grito, simplesmente porque fui incapaz de emitir som algum.
Capítulo III chega na sexta ou sábado, ok?
