II. Ressaca

Dino passou a mão no rosto pela vigésima vez, se olhando no espelho.

Merda.

O que mais podia pensar? Nem para ser daqueles maravilhosos bêbados que esquecem tudo que fizeram no dia anterior... Não. Dino era um bêbado chato, que ficava sério quando bebia demais e depois ainda tinha a audácia de se lembrar de tudo que fizera.

Aspirina. Aspirina, aspirina... Merda, merda, merda.

O pote caiu de suas mãos trêmulas, quebrando no chão e espalhando centenas de pequenas pílulas brancas. Dino respirou fundo, se agachou e, obviamente, sendo Dino que era, ao pegar o remédio conseguiu deslizar o pé sobre o tapete, caindo desajeitadamente no chão.

Ali ficou, põe a pílula sobre a língua e a engoliu.

Kyouya.

Claro que já estava arrependido. Por mais que tivesse planejado aquilo. Levou um mês para tomar coragem e decidir que devia desistir do irritadiço japonês. E levou mais dois meses até se dar conta que não conseguia fazer isso. Mas bastou uma noite e uma garrafa de whisky para seu plano sair dos trilhos da sua cabeça e saltar como um trem desgovernado na realidade.

Não foi justo... jogar tudo fora.

Ele não sabia se tinha sido injusto simplesmente dar adeus ao moreno sem dar melhores explicações, ou se na verdade, sentia-se injusto consigo mesmo.

Dino sorriu e a cabeça latejou mais forte. Era sempre daquele jeito, não era? Ele sempre acabava cedendo e voltava para Kyouya, como um cachorrinho abanando o rabo. E o pior, ele queria fazer isso! Fechou os olhos, sentindo a boca seca e amarga.

Felizmente, dessa vez, não tinha volta. Ele realmente tinha acabado com tudo... como tinha planejado. E nunca conseguido. Ainda assim, não estava satisfeito. Alguma coisa faltava, precisava explicar as coisas direito, dizer porque estava indo embora. Mesmo que aquela nuvem de indiferença não se importasse, ele se importava.

Ia doer, mas... Dino respirou fundo, colocando outra aspirina debaixo da língua. Bom, depois ele se afogaria em mais uma garrafa ou duas.

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"Que bom que você veio, Dino-san."

Kusakabe abriu a porta do templo onde Hibari havia se instalado há alguns meses, a rosto visivelmente consternado.

"Fui até a escola, mas me disseram que ele não foi lá hoje..."

"Hibari-san não saiu do quarto o dia todo. Eu estou preocupado, porque ele me pediu para buscar... ele nunca pediu esse tipo de coisa antes!"

"O que ele comeu?"

"Até agora nada, Dino-san."

Romário pigarreou, sorrindo. Dino não tomava jeito, mesmo. Ele não estava ali para dar um basta na sua situação com o Guardião Vongola da Nuvem? O que ele tinha que saber o que ele comeu ou deixou de comer. Mas o fiel escudeiro da família Cavallone sabia que aquela era uma estratégia fadada ao fracasso.

A questão era: qual dos dois perceberia isso primeiro?

"Kusakabe, vamos esperar do lado de fora."

"Ah, sim."

Dino piscou duas vezes, com força, finamente percebendo que o corrido havia terminado e estava de cara com a porta do quarto de Hibari. Havia estado poucas vezes ali, mas todas absolutamente memoráveis. Sua cabeça latejou novamente, reclamando o descanso merecido que não teve.

O loiro havia passado a tarde toda em busca do moreno para "acertar as contas de uma vez e ir embora para a Itália em paz". Romário acenou para seu chefe, um sorriso leve nos lábios, dizendo que o aguardaria bem ali, do lado de fora.

"Kyouya?"

Bateu a porta com o nó dos dedos, sem resposta. Uma segunda vez, e nada. Verificou que a porta estava destrancada, e engolindo em seco, a abriu, se esgueirando para dentro.

O par de tonfas voando em direção ao seu rosto não vieram, e por isso Dino demorou alguns segundos para abrir os olhos e abaixar os braços. Percebeu que a luz do quarto estava apagada, e buscou o interruptor. Alguma coisa estava errada...

"Kyouya?"

Chutou-se mentalmente. Ele não devia mais chamá-lo assim!

"Ah... Bronco."

Dino deu um passo para trás, mais que surpreso. Atordoado.

Aquele olhar era do Hibari Kyouya? Entreabertos, parados, vívidos. Estendido na cadeira como se nela brincasse de gangorra. A mão deslizando sobre a mesa... e um copo.

E um copo.

"Hibari..." – Dino preparou a voz, tomando o tom mais neutro e maduro possível. Difícil. – "O que você está fazendo?"

Hibari fechou os olhos, em um suspiro lento.

Kyouya... suspira?

"Que putice você acha que eu estou fazendo, seu cavalo idiota?"

E xinga igual ao Gokudera-kun quando fica bêbado.

Que combinação exótica.

Cavallone respirou fundo, dando alguns passos na direção do moreno. Seus planos foram todos por água abaixo. Seria inútil conversar com Hibari naquele estado. Agora tinha o dever de cuidar daquele porre – que, até onde sabia, devia ser o primeiro do Guardião da Nuvem – e deixar que seu pupilo se restabelecesse.

Chegou até a mesa, virando a garrafa. Whisky. Velho Johnnie.

"Ok, você já bebeu bastante..."

Quase meia garrafa, sozinho, provavelmente.

Onde ele queria chegar com aquilo? Hibari não dizia que beber era para os fracos? Que somente herbívoros se utilizavam de álcool para fazer o que tinham vontade de verdade?

Nem sempre é a nossa vontade, Dino pensou, lembrando da noite passada. Era mesmo sua vontade ter passado dos limites?

Será que não podia ter um limite... talvez maior, para suportar aquela nuvem intempestiva?

"Não."

"Hibari, por favor, não seja criança..."

"Não."

"Você vai passar mal. Você não está acostumado..."

"Não."

Hibari tomou outro gole, farto. Nitidamente, de birra. Dino segurou a garrafa com uma das mãos, e o japonês a segurou com a outra. Franziu o cenho, espantado com as atitudes do sempre sério Kyouya. Ele estava agindo com um adolescente e aquilo já estava ficando ridículo!

"Hibari, chega! Larga agora esse copo ou..."

"Eu ainda não entendi, Cavallone."

O som das duas pedras de gelo bateram contra o vidro do copo clicou dentro da cabeça de Dino. Ele não precisava perguntar o quê Hibari não tinha entendido.

Nem ele entendia.

"Eu estou tentando entender... Então não me atrapalhe, ou vou te morder até a morte."

Dino se viu segurando o ar nos pulmões, atônito. Era a primeira vez que Kyouya se colocava no seu lugar. Ou será que a era a primeira vez que ele via isso, de verdade? Não importava, não mesmo.

O chefe dos Cavallone puxou a poltrona do canto para mais próximo da mesa, abriu a garrafa e deixou que o líquido descesse entre as pedras de gelo. Elas tilintaram mais uma vez, e Dino se serviu no mesmo copo.

"Quando você entender, poderia me explicar, Kyouya?"

Hibari aceitou o copo estendido pelo bronco, bebendo sem muito jeito.

"Vou pensar no seu caso."


isso porque hoje acordei FLUFY.

¬¬ ahan.

last cap soon.