~Capítulo II

Passava pelos corredores da enorme mansão, olhando pelas altas janelas, permitindo que a luz do sol iluminasse suas feições delicadas e sonolentas. Os pés estavam descalços, apenas com as meias fofas cheias de corações, e nos braços finos trazia um coelho cor-de-rosa. Abriu uma porta e varreu os olhos castanhos pelo lugar, fechando-o em seguida.

- Mitsukuni.

Virou-se para a voz. Era Takashi. Ele ainda usava o kimono branco meio aberto e sobre o ombro estava uma espada de bambu, na testa uma faixa branca afastava os cabelos molhados de suor da pele nem tão branca e nem tão morena. Aparentava estar bravo. Nada fora do comum.

- Estava te procurando. – sussurrou. Ainda não estava completamente desperto – Já terminou seu treino, Takashi?

- Hai. – tirou a espada do ombro e deixou o braço descansar ao lado do corpo – Vamos para a escola daqui a alguns minutos.

- Já tomei café, só preciso trocar de roupa. – esfregou os olhos com as costas da mão, levantando o coelho para apoiar o queixo nele.

- E tomar um banho quente. – acrescentou o maior, os olhos semi-abertos.

Honey afirmou com um murmúrio, puxou sua mão e saíram pelo corredor.

x-X-x

Não gostava daquele silêncio.

A limusine passava com um ruído agradável pelas ruas, cada um sentava de um lado, as pernas do menor cruzadas sobre o banco, o coelho de pelúcia entre elas, a cabeça baixa, os olhos voltados para o moreno a sua frente... Ele era silencioso, mas naquele dia o silêncio era diferente. O Morinozuka olhava pela janela, o cotovelo apoiado na porta, o rosto na mão, os cabelos ao vento... o olhar distante.

- Em que está pensando?

Ouviu uma voz fina ao longe, sua pergunta parecia ter adivinhado seus pensamentos. Não conseguiu responder, estava desligado demais.

- Takashi. – chamou mais uma vez.

- Hai? – voltou os olhos a ele, a voz abafada pela mão.

- Em que estava pensando? – mexia nas orelhas de seu coelhinho enquanto falava. Ergueu os olhos novamente a ele, cauteloso, para ver que mais uma vez estava olhando para o horizonte; isso o fez acreditar que não teria uma resposta.

- No Host Club. – respondeu em voz rouca. Honey viu seu peito subir e descer em um longo e silencioso suspiro.

- Ahhh... – assentiu com a cabeça, descruzando as pernas e colocando o coelho em cima da mochila – Kyou-chan vai te fazer um anfitrião solo, Takashi?

- Não sei. – voltou-se para dentro da limusine, fechando a janela com o toque de um botão – Espero que não.

O loiro abriu um largo e feliz sorriso, agarrando novamente o coelho rosa. Com essa reação Takashi pareceu aliviado, também ao ver que chegaram em Ouran.

x-X-x

- Irashaimasen! – as pétalas de rosa vermelha voaram porta a fora.

O Clube de Anfitriões Está em Funcionamento.

x-X-x

- Mori-senpai, é verdade que você agora atende as clientes em particular? – uma jovem de cabelos loiros perguntou excitada, aproximando-se de um Takashi encurralado por na verdade três garotas: a que lhe perguntava de frente, duas curiosas dos lados, e como se não fosse o suficiente, Honey se esticava por trás do sofá.

Fechou os olhos. Uma ventania repentina levou uma mecha de cabelo negro aos seus olhos, fazendo com que passasse a mão por eles enquanto respondia:

- Não. – fez uma breve pausa – Apenas uma.

- ! – gritavam agora cinco garotas com olhos brilhantes e rostos vermelhos, que exclamavam frases incompreensíveis.

x

- Isso não foi muito justo. – Haruhi disse ao loiro que tinha um ventilador nas mãos e derramava lágrimas do que imaginava ser felicidade.

- Haruhi, vê o efeito dramático que um ventilador pode causar? – o Suoh exclamou com olhos brilhantes – Mori-senpai está finalmente se misturando com as outras pessoas! – abriu os braços, orgulhoso.

- Por quê está tão feliz? Você não fez nada. – semicerrou um dos olhos.

- HARUHI, VOCÊ É TÃO CRUÉL! – gritou aos prantos, desmanchando-se em mil pedaços.

A porta do clube abriu devagar e com um ruído alto, fazendo com que todos olhassem para o visitante. Era a mesma morena de antes, o mesmo vestido rasgado e feições assustadoras no belo e pálido rosto. Takashi levantou-se de imediato, porém devagar, quase preguiçosamente, e caminhou até Yuki, estendendo uma das mãos para indicar uma mesa próxima a janela, onde ficariam afastados dos demais.

Puxou a cadeira para a garota sentar, os olhos ainda meio fechados, enquanto os demais ocupantes da sala continuavam em silêncio, apenas observando. O anfitrião foi até Haruhi e tomou a bandeja de suas mãos sem que ambos dissessem qualquer coisa, então levou o conjunto de chá até a mesa, colocando-os delicadamente e enchendo a xícara de Yuki. Contornou a mesa e sentou-se a sua frente, enchendo agora a própria xícara.

Com o silêncio que se estendeu entre eles a sala de música voltou à algazarra rotineira. Garotas histéricas, anfitriões alegres...

- Ahh, Kaneshiro-senpai é tão sortuda! – uma garota que sentava ao lado de Honey disse com um sorriso, olhando para a mesa onde eles estavam.

- É verdade, Mori-senpai nunca atendeu uma cliente sozinho. – outra disse, esta mais emburrada por não ser ela a "escolhida".

- Honey-senpai, o que você acha disso? – a terceira perguntou, fazendo com que as outras se voltassem ao pequeno loiro.

O anfitrião loli-shota encarava seu coelho, na outra mão segurava o garfo com um morango e a boca suja de glacê, deixando-o ainda mais belo. O rosto infantil estava levemente sério, apenas com um sorriso fraco.

- O Takashi está aprendendo sozinho a se relacionar com outras pessoas, isso é bom pra ele... Pode não parecer, mas ele tem se esforçado bastante. – alargou o sorriso, erguendo o rosto para as clientes estupefatas – Não acham que isso é bom?

- Não vejo o que esse cara tem demais. – resmungou Hikaru, que estava sentado em um sofá ao lado do irmão, com o cotovelo no ombro de Kaoru e o rosto apoiado no braço.

- Hikaru tem razão. – tinha as mãos entre as pernas e os joelhos dobrados sobre o sofá, o olhar de desdém – Mori-senpai nunca fez nada, só fica calado o tempo todo, andando com o Honey-senpai.

- Hikaru, Kaoru, isso é muito cruel da parte de vocês. – irritou-se Haruhi – Estão sendo muito infantis.

- Mas não é isso que somos o tempo todo? – Hikaru mostrou os dentes, levantando-se – Vamos Kaoru.

- Qual o problema de vocês dois? Estão sendo ciumentos? – o anfitrião rei perguntou em tom bravo – As clientes estão esperando, não podem sair agora.

- Fazemos o que quisermos, tono. – disseram em uníssono, virando-se para a saída.

Uma pequena algazarra começou entre as clientes dos Hitachiins ao vê-los saírem pela porta do clube. Vendo algumas levantarem para irem embora Kyouya apressou-se a erguer os braços, chamando a atenção delas:

- Com licença senhoritas! – exclamou, fazendo com que o olhassem – Não vão embora, por favor... – fez uma pausa, pensando em o que oferecer a elas – Peço desculpas pelos Hitachiins, mas eles não vão poder atendê-las hoje. – os resmungos recomeçaram – Mas... – disse alto, chamando a atenção mais uma vez – Eu ficarei feliz em atendê-las. Hoje, como pedido de desculpas pela saída repentina dos gêmeos, eu estou disposto a fazer o que quiserem para entretê-las.

A algazarra voltou, mas desta vez não eram resmungos, mas sim garotas excitadas com o pronunciamento. Várias tinham celulares nas mãos e ligavam para amigas, e logo mais e mais garotas adentravam no clube. Kyouya tinha um sorriso vitorioso na face.

- Ele é diabólico. – disse Haruhi, com uma gota descendo pela testa ao ver as dezenas de garotas fazerem um circulo em volta do Ootori – Não tem medo do que elas podem pedir?

- Kyouya sabe o que faz. – riu-se Tamaki, indo se juntar às garotas no circulo.

- Espero que realmente saiba... – olhou para a mesa no canto da sala, estava vazia. Ao olhar para trás viu que Takashi estava ali, olhando a confusão, com uma das mãos no bolso da calça – Mori-senpai, quando ela foi embora?

- Nekozawa veio chamá-la, reunião do clube de magia negra. – respondeu sem alterar a expressão.

x

- Então... quem será a primeira? – Kyouya perguntou com um sorriso largo, observando as garotas a sua volta. Parou de frente para uma loira que balançava os braços freneticamente – Renge... – suspirou – Bom, por que não? O que quer que eu faça ou diga?

- Ahhh. – olhou maliciosa, mostrando o indicador – Posso pedir qualquer coisa?

- Foi o que eu prometi.

- Então... Primeira pergunta: Ootori-kun, qual o seu maior desejo?

Kyouya encostou os lábios na mão, os braços cruzados e olhos fechados, pensativo. Permaneceu assim por algum tempo, depois sorrindo as garotas.

- Poder ficar com vocês até o fim de meus dias. – as garotas vibraram, menos à francesa emburrada; esta sabia que ele estava encenando.

- Isso não foi justo. – bufou Renge, vendo o sorriso satisfeito do moreno – Mas vamos a próxima. – sorriu mais maliciosamente que da última vez – É verdade que tudo em você é falso, e que até sua amizade com Suoh Tamaki é por puro interesse?

Arregalou os olhos e seu queixo caiu. Todos olhavam-no em silêncio, Tamaki parecia incrédulo não pela pergunta, mas pela reação de Kyouya, que parecia estar confirmando. Preparava-se para levantar e gritar com o moreno quando viu o Ootori abrir mais um sorriso. Podia não saber como ela descobriu isso, mas tinha a resposta.

- De fato, era. – por mais que quisessem fazer barulho, o mexer de óculos do anfitrião parecia imobilizá-los – Todos aqui entraram no clube por algum interesse pessoal, afinal, o Host Club dos Anfitriões Ouran serve apenas para nós exibirmos nossa aparência. Exceto por Tamaki, todos no começo acharam isso ridículo, eu particularmente ainda acho. No entanto... – suspirou longamente – Suoh Tamaki é tão estúpido que chega a ser impossível não se prender a ele e a esse clube... exótico.

Tamaki sorriu satisfeito. Mas logo a palavra "estúpido" lhe chamou a atenção, apagando o doce sorriso e deixando uma expressão emburrada.

- Isso quer dizer que...? – Renge inclinou-se para frente, deixando a frase no ar.

- Que foi verdade, mas agora não mais. – cruzou os braços – Tamaki é alguém importante pra mim.

As fãs vibraram mais uma vez, e agora Renge as acompanhou.

x-X-x

- Kyouya...

O moreno virou-se para ver um grande borrão no que imaginou ser a porta. Rapidamente passou a cabeça pela camisa e apanhou os óculos sobre um dos bancos do vestiário, tornando então a virar-se ao que lhe falara. No entanto já identificara a voz de Tamaki.

- O que? – questionou após algum tempo de silêncio.

- Sobre o que disse mais cedo, sobre o clube e sobre mim. – fechou a porta atrás de si ao adentrar na sala.

- Ah, claro. – deixou um de seus sorrisos brincar em seus lábios – Diga.

- Não acha que mereço uma explicação?

- Não. Tudo que tinha a dizer sobre a pergunta de Renge foi dito. – sentou-se calmamente, apanhando os sapatos – Mas se tem outra pergunta, pode fazer.

- As clientes não vão gostar de saber que você acha o clube ridículo.

- Ora Tamaki, eu sei que não veio me pedir uma explicação por causa disso. – ergueu a cabeça a ele – Quer saber se eu me aproximei de você por interesse? Já respondi que sim. Mas também disse que isso mudou. Se duvida... problema seu. – levantou-se e apanhou a pasta – Mais alguma coisa?

- Não estava duvidando disso, eu sei quando você está mentindo. – notou que os olhos de Kyouya pareceram ficar opacos e escurecerem – Eu quero saber o que te motiva a continuar aqui. Também sei que você não é o tipo de pessoa que fica em um lugar desagradável e que não lhe ajudará em méritos apenas por amizade.

- Parece que tem essa pulga atrás da orelha há muito tempo. – pôs uma das mãos na cintura e tornou a sorrir.

- Não sorria assim pra mim. – o tom saía sério como Kyouya nunca imaginou que pudesse ouvir dele. Imediatamente recolheu o sorriso – Você é muito bom em conseguir o que quer, Kyouya, mas eu também posso ser.

- Se eu disser que talvez não goste da resposta? – ergueu o queixo.

- Vou dizer que mesmo assim quero saber.

Encararam-se por longos minutos após isso. O Ootori mordeu o canto do lábio e parecia relutar por responder, enquanto via a determinação queimar os olhos violeta do Suoh a sua frente.

Isso não durou muito. Logo o moreno fechou os olhos e tornou a sorrir em uma expressão suave, erguendo uma das mãos de forma despreocupada.

- Não há nada pra responder, Tamaki. – caminhou em direção a ele, desviando para poder apanhar a maçaneta da porta e sair, mas não antes de murmurar em tom que quase não foi captado pelo segundo – Não por enquanto.

Tamaki virou-se para a porta que tornava a fechar e observou-a com seu olhar distante e pensativo.

x-X-x

O quarto era grande e escuro, as paredes cobertas por prateleiras empoeiradas de livros, as janelas altas, fechadas por grossas cortinas negras. Havia uma única janela com as cortinas afastadas, revelando o céu estrelado do lado de fora e o magnífico jardim à frente da mansão. O terreno se estendia há quilômetros, uma limusine estava parada na entrada e dois choferes conversavam tomando um café fumegante para aquecer do frio.

Virou-se quando ouviu o ranger alto da porta ecoar pelo cômodo. Quem entrara a fechou suavemente, depois dirigindo-se aos candelabros nas paredes, acendendo-os. Lentamente o quarto ia se iluminando, mas ainda não o suficiente para perder o brilho prateado da lua que entrava pela janela e iluminava as feições macilentas do que estava ali, segurando uma das cortinas negras.

- Você demorou a subir. – murmurou em um resmungo.

- Estava conversando com sua irmã. – aproximou-se da janela, olhando os arredores da mansão – Ela me disse algumas coisas interessantes. – sorriu.

A luz da lua já iluminava a garota de rosto pálido, que tinha cabelos e olhos intensamente negros. Seu sorriso era mais sombrio que qualquer outra coisa naquele quarto.

- Kirimi? – desviou os olhos dela para os choferes na entrada – O que ela disse?

- Que tinha passado em frente ao seu quarto e te ouviu falando sozinho, algo sobre o Host Club, Ootori Kyouya, Suoh Tamaki, e "Demônios Hitachiin".

Umehito estremeceu e os pêlos de sua nuca eriçaram.

- Odeio todos eles. – estreitou os olhos azuis – Principalmente aquele Suoh.

- Todos, é? – virou-se para o loiro, que ao perceber olhou para ela. Encararam-se por algum tempo, sob o sorriso sombrio de Yuki – Ouvi dizer que Ootori Kyouya fala muito de você.

- Não é problema meu. – virou a face para a janela – Amaldiçoei aqueles Hitachiins malditos, posso fazer o mesmo com ele. – apertou as mãos no parapeito da janela.

A Kaneshiro deu um risinho irônico.

- Onde está o Beelzenef?

- Aqui. – puxou o boneco de cima da escrivaninha ao lado.

- Quantos você já destruiu com o nome de Tamaki? – sustentava o sorriso enquanto observava os kanjis de "Suoh Tamaki" nas costas de alguns bonecos sobre a mesma escrivaninha onde ele pegara o beelzenef.

- Já perdi a conta. – tirou do bolso um isqueiro e acendeu o candelabro na parede, iluminando-os com a chama e deixando a mostra dezenas de bonecos em forma de gato. Nekozawa os olhava pesaroso, as sobrancelhas franzidas, enquanto a morena observava a ele e sua expressão decepcionada – Nenhum funcionou, ele é mais forte do que parece.

- Você é um idiota, Nekozawa Umehito. – riu-se novamente.

O presidente do Clube de Magia Negra fez um bico e virou o rosto.

- E você? Com aquele Morinozuka?

- Pelo menos eu estou fazendo algo. – resmungou, colocando o beelzenef na mão.

- Desculpe, não devia ter dito isso. – baixou os olhos e suspirou longamente.

- Nem eu... – aproximou-se dele, encostando a testa em seu ombro – Mas você não pode ficar assim para sempre, odiando eles.

- Posso sim. – encarou os cabelos negros da garota em seu ombro – O que espera que eu faça?

- Parar com as ameaças já seria um bom começo. – alargou o sorriso, mostrando os dentes brancos, enquanto acomodava o rosto no pescoço do loiro que agora segurava seus braços magros.

- Você vê como eles olham para mim, como falam de mim, como... – rangeu os dentes, apertando as mãos nos braços da garota.

- Sim, eu vejo. Não é diferente comigo ou com qualquer outro de nosso clube... Eles se acham perfeitos. – cuspiu as palavras de desprezo – Se o Mitsukini não fosse tão facilmente enganado pelo Suoh, Takashi nunca entraria naquele clube... Ele tem que proteger aquele idiota, não é? – cerrou o punho e mexeu os dedos para dar movimento ao fantoche.

- Aquele Suoh maldito é a causa de todos os nossos problemas. – estreitou os olhos.

- Parece que sim.


Comentários Finais;


Yo minna-san.

Desculpe pela demora na atualização da fic... Estava esperando alguma idéia de como escrever o provável último capítulo, mas esta infelizmente acabou não vindo. Esse não foi o único motivo. Semana de provas, entende? O ensino médio é oficialmente uma droga.

Ah, também esperava que um amigo terminasse de colorir o desenho de Yuki que DepTai fez. Muito obrigada pelo desenho Dep, ficou lindo, e obrigada a Emerson também, que coloriu. Para ver o fanart de Kaneshiro Yuki, por DebTai e colorido por Emerson, é só colar os links abaixo no navegador e retirar os espaços:

htt img231 . imageshack . us / img 231 / 4111 / kaneshiroyuki . jpg

htt img198 . imageshack . us / img198 / 6624 / finalt . jpg

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