Capítulo 2: Quem são os queridinhos?

- P... Papai... Noel... - Eros gaguejou emocionado. - Eu... Nem sei o que dizer... É uma emoção enorme te conhecer pessoalmente...

- Conhecer pessoalmente? - Papai Noel soou intrigado. - Ficou maluco rapaz? Eu te vi várias vezes no último século!

Jensen e Jared se entreolharam ainda mais curiosos para saber o que sairia daquela conversa.

- Não... Papai Noel... Eu sou novo no cargo... É que com essa reforma da previdência, prestes a ser aprovada, meu antecessor resolveu apressar a aposentadoria. Se aposentou com 200 anos, o sortudo! Ele era o Eron, eu sou Eros...

- Certo, Eros... Pelo menos os meus ajudantes estão bem informados. Está Eros aqui na minha agenda.

Fez-se uma pequena pausa, e então Papai Noel começou a falar de novo.

- Bem, Eros... Eu te chamei aqui porque preciso de ajuda. Primeiro, vou te contar uma história um pouco comprida. Mas acho que é importante pra que você entenda que esse caso é de vida ou morte.

Eros assentiu.

- Há muitos anos atrás meu papel era dar presentas para todas as crianças do planeta. Foi um longo período de felicidade pra mim... Sabe, eles se contentavam com pouco. Uma bola, uma peteca, uma boneca de pano... Além disso, era muito menos gente no mundo. Eu e meus elfos dávamos conta, e o Natal era uma alegria sem fim. Os humanos me amavam, principalmente os pequenos. Eu os adorava de volta.

O velho suspirou, e Jensen e Jared puderam sentir a inicial emoção, seguida de melancolia em seu tom de voz.

- Mas os tempos começaram a mudar. As crianças tornavam-se exigentes, mimadas... A população crescia em velocidade alarmante. Eu e os elfos trabalhávamos o ano todo, dia e noite, para tentar assegurar um Natal feliz. Mesmo assim, várias das pestes torciam o nariz para os brinquedos artesanais que produzíamos com tanto esforço.

- Que triste, Papai Noel... - suspirou Eros.

- Sim... Muito triste... Foi aí que tomei a decisão. Os presentes não seriam mais para todos. Seriam apenas para um grupo seleto de crianças boazinhas. Uma por família. No primeiro Natal que implementei a nova regra, dei um carvão às outras crianças como prêmio de consolação. Carvão era útil na época!

- Eu já ouvi falar nisso... Que criança malcriada ganhava carvão. Achei que fosse lenda. - comentou o menino surpreso.

- Bem... A minha intenção não foi castigar, mas lembro que aquele Natal foi um desastre. As crianças do mundo inteiro chorando, reclamando e se lamentando. Exceto as especiais, que logo ficaram conhecidas como as queridinhas do Papai Noel. Confesso que eu mesmo gostei do nome... Elas eram as mais amáveis, lindas e inteligentes. Mereciam tratamento VIP.

Eros não falou nada, e Jensen e Jared se entreolharam totalmente incrédulos. Papai Noel então continuou sua história.

- Bem, eu parei com esse negócio de carvão. Quem não era queridinho, ficava sem presente. É claro que os pais que podiam compensavam, comprando os brinquedos eles mesmos. Logo a humanidade me odiava...

- Te odiava? Acho que está engan...

- Não estou enganado, Eros... Sei que me odeiam. Mas deixa eu continuar. Na verdade, eu nem me importo... Os meus queridinhos sempre me amaram, e é só disso mesmo que eu preciso. Bem, mas infelizmente eu ainda tinha queridinhos demais. Então quando essa geração atingiu a idade adulta, fiz uma regra para a escolha de crianças das gerações futuras. Cada família com pai e mãe queridinhos geravam um único filho queridinho. As outras famílias, ficavam sem.

- O primogênito?

- Não necessariamente. Antes do nascimento das crianças eu já tenho a lista das almas que irão nascer em cada família. Eu então escolho a minha predileta... É bastante simples. As minhas queridinhas, com essa regra, foram se tornando cada vez mais especiais pra mim. Com poucas crianças para atender, eu passei a dar-lhes qualquer coisa que pediam no Natal.

- Nossa Papai Noel, essa história eu não conhecia...

- Pois é... Pouca gente conhece... Bem, então, agora vamos ao que interessa... Hoje em dia me restaram apenas dois queridinhos. Eles não são mais crianças, mas como são os meus últimos, continuo atendendo seus pedidos. Todo Natal eu os presenteio com o que me pedem...


- Jay! - Jensen estava todo arrepiado. Olhou para o amigo, que parecia tão chocado quanto ele.

Acontece que há pouco menos de um mês, na última convenção que fizeram antes das festas de fim de ano, Jensen e Jared foram surpreendidos com a seguinte pergunta de uma fã: "O que vocês pediriam esse Natal se Papai Noel aparecesse na frente de vocês?"

Jensen e Jared sempre pediam a mesma coisa: que Supernatural não fosse cancelado. E todo ano tinham seu pedido realizado. Mas a resposta que Jared deu à fã não foi essa.

- Papai Noel!? - surpreendeu-se o moreno. - Se Papai Noel existisse mesmo eu ia querer um passeio na casa dele no Polo Sul. Conhecer as renas e os elfos!

Jensen estava com preguiça de pensar em outra resposta, e concordou com a do amigo. Visitar Papai Noel era uma excelente ideia.

Agora os dois se entreolhavam incrédulos.


- Eros, você devia ver... - Papai Noel prosseguiu seu discurso emocionado. - Eles são absolutamente lindos. Tem um coração de ouro. São inteligentes, talentosos, amorosos, um exemplo em todos os sentidos. Meu Deus, como eu os amo...

Os dois atores se abraçaram, ambos muito emocionados. Quem diria que os dois tinham mais isso em comum. Eram os queridinhos do Papai Noel! Os únicos, no mundo inteiro. Isso fazia de seus pais queridinhos também, e seus avós, e todos os seus antepassados. Eles eram sim, muito, muito especiais...

De repente seus corações se encheram de alegria, de paz e de amor. Então era por esse motivo que ambos gostavam tanto dessa época do ano. Eles amavam Papai Noel do fundo de seus corações.

- Nossa, Papai Noel, que interessante! Dois queridinhos apenas? Imagino como o senhor os adora!

- Demais... Sinto como se fossem meus filhinhos de verdade.

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Jared. Jensen sentia que seu coração iria sair pela boca.

- E então, o que eles pediram no Natal desse ano?

Papai Noel suspirou. Ackles e Padalecki se entreolharam e sorriram. Talvez ele fosse pedir para aquele menino, Eros, ser seu guia. Quem sabe ele não os levaria para passear de Rena!?

- Ahhh... Esse ano eles pediram dois trastes de Natal! Você acredita? Cada um pediu um. Dois atores de terceira categoria, que fazem um seriado besta na televisão. Os dois são feios... Burrinhos também! Nem tive muito trabalho para apanhá-los. Entrei pela chaminé, ensacolei, e trouxe eles pra cá.


Jensen sentiu um enorme frio na barriga. Passara de queridinho a traste em poucos segundos. Que enorme decepção... Precisavam agora colocar de volta os pés no chão para conseguir escapar daquele lugar. Foi só então que prestou atenção ao homem eu seu lado.

- Buááááá!

- Jay, não chora!

Aquele velho filho da puta! Quem era ele pra falar assim? Quem era ele para magoar seu melhor amigo daquela maneira? Jensen teve vontade de abrir a porta e dar um belo soco na cara do homem. Em vez disso, se controlou e consolou Padalecki. Não podiam fazer barulho. Precisavam ser cautelosos para descobrir a melhor maneira de fugir daquele lugar.

- Pensa, Jen... Quantos dos nossos antepassados não sofreram por causa de carvões no Natal...? - o mais jovem disse entre soluços.

- Eu sei, Jay... Esse velho vai pagar pelos seus pecados algum dia. Mas agora, se acalma. A gente precisa ouvir a conversa dos dois...


- Você raptou dois rapazes, Papai Noel? - Eros pareceu chocado com o que ouvira.

- Meus queridinhos me pediram. Eu fiz. Nada de julgamentos, garoto. Eu disse, faço o que tem que ser feito para deixá-los felizes.

Eros calou-se, provavelmente um tanto assustado.

- Mas não foi para falar dos trastes que eu te trouxe aqui... - prosseguiu Noel - É para falar de Herriet e Joseph, meus queridinhos.

Jensen e Jared então ouviram Papai Noel contar de como, desde crianças, elfos foram enviados para interferir na vida dos dois. Noel queria assegurar que seus queridinhos se conhecessem e se apaixonassem um pelo outro. Quando escolheu essa regra de escolha de novos queridinhos, o velhinho já planejava sua aposentadoria futura. Entretanto, agora, não se sentia pronto para isso. Queria pelo menos uma última criança para amar e mimar.

- E por que o senhor não muda as regras? - Eros quis saber.

- Mudar as regras!? - surpreendeu-se Noel. - Não. Impossível. Porque apenas um filho de Harriet e Joseph seria especial o suficiente pra mim. Além disso, o resto da humanidade me despreza. E como eu disse antes, não estou nem aí pra eles...

Ackles e Padalecki estavam chocados. De onde aquele velho idiota tirara que era odiado na Terra? Muito pelo contrário... As pobre pessoas que Noel tanto rejeitava tinham muito respeito e carinho pela figura que ele representava. Não acreditavam mais em sua existência, isso era verdade. Mas por culpa do próprio Noel...

- Eros, então... - continuou o velho. - Joseph e Harriet hoje se adoram, e isso é ótimo. São melhores amigos. E, pra falar a verdade, aí está o problema... Eles não se amam como homem e mulher. Por isso, eu vim pedir a sua ajuda.

- Noel... Eu... Eu sou novato como falei. Tenho pouco treinamento...

- Mas é sua profissão, cupido! - insistiu o velho. - Eles estarão reunidos nesse Natal. Joseph vai cear com a família de Harriet... Preciso que você resolva logo esse problema. Uma flechada em cada um e a situação estará resolvida.

Ackles e Padalecki ouviram quando Eros, o cupido, se levantou e seus passos se aproximaram da porta. Os rapazes correram para se esconder novamente na árvore de Natal.


Eros surgiu parecendo um tanto nervoso. Foi só aí que os rapazes puderam reparar melhor nele, já que segurava o pesado casaco nas mãos. Ele tinha mesmo a aparência de um menino, com cabelos cheios, louros e encaracolados. Em seus ombros, pequenas asas podiam ser vistas. Os dois humanos estavam arregalados de assombro.

Em torno na árvore, os passarinhos continuavam seu dilema. A fêmea voejava desesperada querendo acasalar. O macho fugia dela. Queria paz e sossego.

- Ahh, amiguinho... Pobre da sua companheira! Está na hora de você se apaixonar também... - murmurou o cupido. - E eu aproveito e treino também... Vão ser o meu primeiro casal! - suspirou em seguida, apontando uma flecha em direção ao macho.

Apesar do nervosismo, Eros estufou o peito e atirou com firmeza. O passarinho se assustou com o objeto que voou em sua direção, e conseguiu ser mais rápido.


- Aiiiii!

- Jay! O que houve! Ele acertou você!? - Jensen olhou o amigo nos olhos, preocupado. - Está tudo bem? Você se machucou?

Jared mostrou o machucadinho no ombro. Apesar da pouca gravidade do ferimento, Jensen não pôde se controlar dessa vez.

- Você tome cuidado, viu? - disse, saindo do seu esconderijo. - Acertou o alvo errado, e machucou o meu amigo!

Eros assustou-se com o rapaz que surgiu à sua frente, do nada...

- Mas... Vocês estavam escondidos... Como eu haveria de saber? Me desculpe! Seu amigo é gay? - perguntou em seguida.

- Não! - indignou-se Jensen.

- Então não tem com o que se preocupar. Em 48h o efeito passa... Agora preciso ir, rapazes.

Eros saiu dali o mais depressa que pôde. Na verdade, desapareceu no ar, deixando os rapazes boquiabertos.


"Que efeito?", Jensen se perguntou.

- Você está se sentindo bem, Jay?

Jared olhou o amigo nos olhos. Nunca tinha reparado o quanto Jensen era bonito... Quer dizer, é claro que ele sabia que seu amigo era um homem bonito. Mas... Aquela beleza toda nunca o emocionara antes. E ele não era apenas isso... Além de lindo, era meigo, sexy, e pulava para defendê-lo em qualquer ocasião...

- Estou ótimo, Jen! Só de estar ao seu lado... - suspirou. As pupilas de Padalecki pareciam dois coraçõezinhos, igual de desenho animado.

Jensen colocou as mãos na cabeça... Maldito cupido... Mas pelo menos ele prometera que seria passageiro.