Gente, os capítulos não seguem uma ordem cronológica, ok? No momento estamos num "futuro" no arco da cronologia de Resident Evil. Mas nada impede que o próximo tenha uma memória da infância de Chris + um fato narrado no presente se passando durante o Code Veronica, por exemplo. Espero não ficar confuso, ok?...rs
Obrigadíssima pelo retorno no primeiro capitulo. Acreditem, eu preciso dele! Não sejam tímidos... comentem, mandem e-mail ou sinal de fumaça. PLEASE.
CLAIRE
Jogou os livros de qualquer maneira dentro do armário antes de fecha-lo numa só batida. Era o último dia de aula para todos aqueles que não precisaram ficar para o curso de verão. Era sua época do ano favorita. Não gostava dos feriados familiares em geral, nem mesmo do Natal ou Ação de Graças, as pessoas não precisavam saber, mas Claire não se sentia confortável com eles.
Contudo, as férias de verão era uma ocasião especial. Era quando seus pais saiam para trabalhar e ela ficava sozinha em casa com Chris, ele a deixava acordar tarde e comer o que quisesse no café da manha. Eles saiam para andar juntos de bicicleta, nadar no lago até o por do sol, saiam para tomar sorvete, era quando ele lhe ensinava a lutar, jogar baseball ou passavam horas na garagem trabalhando em uma motocicleta velha que ele comprou.
Claire tinha doze anos e Chris era seis anos mais velho, ele trabalhou entregando leite e jornal desde os quinze anos para conseguir comprar a Sharon – a moto – ela estava bem velha e sem motor... e até hoje ela nunca ficou pronta.
" – Claire!" – Gritou Mandy, chegando ofegante e quase a matando do coração.
" – Oh meu Deus! Posso saber por que está tão esbaforida?"
A menina loura estava completamente vermelha, e precisou tomar algum fôlego antes de continuar. " – Bi..Billy... eles o pegaram de novo!"
Claire sentiu as pernas tremerem de raiva. " – Aonde?"
" – Perto das bicicletas."
Correu na frente deixando Mandy para trás, e ela que desse um jeito de lhe alcançar. Pelo visto, todos os avisos que ela deu aqueles moleques não serviram de nada. Simplesmente se recusavam a deixar Billy em paz. O que o coitado fez para merecer toda essa perseguição? Talvez pelo fato de ser bem menor que os outros meninos, bem mais magro também, pelo par de óculos fundo de garrafa, pelo fato de ser judeu, ruivo e canadense... tudo isso somado era um chamariz para valentões metidos a besta. Claire o defendia diariamente, desde a terceira serie, e já perdeu as contas de quantos narizes ela já socou por causa dele! Pelo visto, não os socou o bastante... Ah! Mas quando ela botasse as mãos neles...
Correu ainda mais rápido conforme sua raiva aumentava, fez a curva em torno do estacionamento dos professores ignorando todos que tentavam falar com ela, quase foi atropelada por um carro que estava de saída, mas também ignorou isso. A essa hora, ela já sabia dos comentários e em muito pouco tempo, uma legião de curiosos estariam correndo atrás dela. O que era ótimo... quanto mais plateia melhor, para que todos vissem o que ela iria fazer com aqueles valentões.
Quando finalmente viu o bicicletário, diminuiu o passo. Já podia observar o pobre Billy ajoelhado no chão, chorando, seus óculos quebrados, espatifados no chão, com as roupas e o rosto sujos de terra. Em volta dele, estavam Jack Smith o filho do delegado, um rapaz de cabelo preto e olhos verdes que sabia muito bem fingir ser um bom menino na frente dos outros. Michael Harding, louro, grande, musculoso pra idade e repetente pelo segundo ano seguido. E por fim, Elliot Redwood, a pessoa mais detestável que Claire já teve o desprazer de conhecer, ele tinha um cabelo castanho muito ralo, um nariz enorme e se achava alguém muito importante simplesmente pelo fato do pai dele ser um medico muito conhecido. Claire os odiava de todo o coração.
" – Eu pensei ter avisado que era para deixar o Billy em paz!" – Ela os interrompeu. " – Pelo visto vocês não entenderam."
Não seria a primeira vez que enfrentava os três sozinha. Dos três, o único que uma vez ousou tentar bater nela foi Michael, mas levou a pior. Os outros dois morriam de medo que ela chamasse o irmão... e se ela chamasse... ah, eles iriam se arrepender! Michael era o mais inconsequente e esquentado, mas se ela já conseguiu bater nele uma vez, pode conseguir de novo. – embora agora, ele esteja bem maior.
Jack soltou uma gargalhada. " – Olhem só. A nossa princesinha Billy está em apuros. Um príncipe veio ajuda-la! Ou seria uma ogra?" – Os outros dois também gargalharam logo em seguida.
Claire sabia que era uma menina moleca demais. Todo dia era uma briga em casa com a mãe por causa disso, por causa de suas roupas masculinas, porque não soltava o cabelo, porque não era delicada e porque passava mais tempo fazendo selvagerias com Chris do que brincando com outras meninas, fazendo as coisas que as outras meninas fazem. Mas esse tipo de piadinha não mexia nem um pouco com ela. Ela era extremamente feliz sendo exatamente assim, e todas as pessoas que realmente importavam para ela no mundo, pareciam não se importar isso também.
" – Billy, levanta. Vem comigo, eu vou te levar pra casa." – Disse ignorando os meninos e caminhando em direção ao menino que obviamente ia precisar de ajuda também para se levantar. Então Jack botou o braço em seu caminho.
" - Pare Claire. Nós ainda não acabamos com ele." – Ele ameaçou.
" – Tira o braço do meu caminho, Jack, ou eu não me responsabilizo sobre em quantos pedaços ele voltará pra casa hoje."
O menino de cabelo preto abaixou o braço, mas não saiu do caminho. E Michael logo veio em seu socorro.
" – Billy me deve dinheiro. Muito dinheiro." – Disse o louro maior dos três. " – É o mínimo que ele pode fazer depois de arruinar as minhas férias. Não é justo que ele saia sem me pagar nada enquanto eu vou passar o verão inteiro mofando nessa escola! Nós tínhamos um acordo que ele faria minhas lições de casa e eu o deixaria em paz"
Claire riu. Então foi isso? Ela já deveria imaginar que para aqueles três terem deixado o Billy tanto tempo sem apanhar era porquê havia algo mais do que uma simples ameaça dela. " – Ora Michael, você realmente acha que alguém ou alguma coisa nesse mundo, seja lá quem ou o que for, poderia mudar o fato imutável de que você é burro? Curso de verão é pouco, você deveria estar em uma escola para crianças com necessidades especiais."
Ela escutou gargalhadas em volta. Era a "plateia", Claire não esperava que eles fossem chegar tão rápido. E Michael ficou irado, ela podia ver o rosto branco dele ficar roxo de ódio.
" – Ora... sua putinha!" – Ele avançou em sua direção de maneira tão descontrolada que com uma simples rasteira – de leve – no lugar certo, ele caiu.
Mais gargalhadas vieram.
O grandão levantou mais uma vez e Claire se afastou protegendo-se atrás das bicicletas. Michael ameaçava ataca-la por um lado, e ela ameaçava correr para o outro e vice versa. Ela precisava ganhar tempo para saber como ia derrubar um menino tão grande. Então ele teve uma ideia. Atrasou um pouco o passo para que ele acreditasse que a alcançaria se corresse para a direita, e quando ele o fez, chegando quase próximo demais a ela, puxou a barra de ferro que estava frouxa, fazendo com que todas as bicicletas que estava penduradas nela, se soltassem em cima do garoto. Quando ele foi ao chão pela segunda vez, ela sabia que devia ser rápida... foi pra isso que ela praticava todos os dias com Chris. Se você é menor que o oponente fugir nem sempre é a melhor saída, ele tem mais físico e pernas mais longas, vai te alcançar. Nesses casos, o ataque é a maior defesa.
O nariz! Ela sabia. Uma menina não faria um golpe de grande efeito em outra parte do corpo de um menino tão grande. Partiu pra cima dele primeiro dando-lhe uma pisada nas bolas – uma menina as vezes precisa jogar sujo – então sentou no peito dele, prendendo-lha a cabeça entre as pernas e começou a desferir socos certeiros no nariz do louro. Ele gritava por socorro, pedindo que alguém a tirasse dalí... o que infelizmente não demorou a acontecer.
Claire esperneou quando Jack e Elliot a puxaram com força pelos braços. Tentou se desvencilhar a todo o custo mas eles apertavam seus braços com muita força. Ela sabia que ficaria marcas depois. " – Billy! Corre!" – Ela sabia que não podia ficar ali brigando, a intenção era dar a Michael uma distração, para que então eles pudessem correr. O que ela não esperava, era que o grandão fosse ficar de pé tão rápido.
Ela não pode acreditar quando ele veio com tudo pra cima dela. Não com Jack e Elliot a segurando, sem dar a ela a chance de reagir. Foi quando ela viu tudo sair de foco, e a dor foi tanta que ela perdeu até o fôlego... e foi só o primeiro murro que o menino deu em seu nariz. Ele tinha o nariz sangrando, e já preparava o segundo murro, quando a mão de um homem maior o puxou pela nuca.
" – Chris!"
Imediatamente Jack e Elliot a soltaram.
Foi mágico ver o soco que o irmão deu em Michael. Com direito a sangue espirrando e tudo mais.
" – Que covardia é essa?" – Ele gritou. " – Agora precisa segurar uma menina pra bater nela?"
Michael ficou estatelado no chão, sem ousar tentar levantar outra vez. Elliot correu. Jack gaguejou. " – Isso não é uma menina! É uma ogra! Ela bateu no Michael primeiro! E você... você não devia ter batido nele, eu vou falar com o meu pai!"
" – Pois fale! Eu não vejo a hora de contar tudo isso pra ele."
Jack não demorou a correr também. E tudo o que Claire pôde fazer foi correr para os braços de Chris. Ela só queria abraça-lo, mas ele a impediu. Ele tinha o rosto transtornado, como se olhasse para algo horrível. Só então ela percebeu que estava sangrando.
" – Oh, meu Deus." – Ela passou a mão no rosto, apavorada, tentando imaginar se fizeram nela um estrago muito grande.
" – Calma. É só esse seu narizinho quebrado." – Chris riu. " – A gente dá um jeito. Vamos pra casa."
Em casa aconteceu o de sempre. Claire trancada no quarto de castigo, escutando os berros que a mãe dava com Chris. Era sempre assim, Claire aprontava a bagunça e Chris levava a culpa sozinho. Lá em baixo, a mãe gritava que se ela era uma piveta encrenqueira assim, a culpa era toda do irmão, ele ensinava essas coisas a ela. E a culpa era do pai também... ele não educou o filho e agora esse filho estava estragando a filha dela.
Pai... essa palavra fazia o peito de Claire doer... e ninguém além de Chris podia nem imaginar o porquê. Era o segredo dos dois. Eles combinaram assim.
Os berros duraram até a noite. Ela escutou Chris sair de casa batendo a porta e quando isso acontecia ela sentia medo, medo de que ele nunca mais voltasse, mas isso nunca aconteceu. Ele sempre voltou, conforme ele prometeu um dia. Ele prometeu que sempre ficaria com ela e que seria o irmão dela pra sempre, apesar de tudo. Claire confiava nessa promessa, tinha que confiar, porque desde sempre, seu irmão significava tudo, ele o mundo pra ela, e há muito tempo que imaginar esse mundo sem ele, também se tornou o seu maior medo.
Claire não dormiu aquela noite, ficou na janela do quarto vigiando e vigiando, até que chegou exatamente a hora em que ela viu Chris chegar de fininho pelo quintal e depois entrar pela porta da cozinha. Esperou um tempo em seu quarto, depois, em silêncio, ela caminhou de fininho pelo corredor, passou em frente ao quarto dos pais tomando todo o cuidado para não acorda-los, chegou até a escada estreita e dava para o sótão. Era lá o quarto do Chris, e para Clair era o lugar mais legal da casa inteira, infelizmente, ele não a deixava entrar quando ele não estava. Tinha todos os pôsteres das bandas que eles gostavam, tinha a velha Gibson que ele reformou e ela amava ouvi-lo tocar e tinha a melhor vista da casa para as estrelas.
Chris já estava deitado quando ela se esgueirou por baixo das cobertas dele. Ele parecia bravo.
" – Desculpa, Chris." – Ela cochichou.
Ele respondeu com silêncio.
Uma tristeza profunda tomou conta de Claire, e também um arrepio estranho na espinha. " – Está pensando em ir embora, não está?" – Chris fez dezoito anos semana passada, e Claire sabia muito bem o significado disso.
" – Por quê acha isso?" – ele cochichou de volta.
" – Eu não sou idiota. Você já tem idade para ir embora. E você não é mais obrigado a ficar aqui aguentando tudo isso."
" – Confesso que é uma hipótese tentadora."
Os olhos de Clair se encheram de lagrimas. " – Mas... mas você prometeu. Prometeu que não ia me deixar."
Estava escuro, mas ela podia ver que ele sorria.
" – Eu sei, sua bobona. É claro que eu nunca vou te deixar."
Ela engoliu um soluço. " – Então promete de novo."
" – Eu prometo."
Claire reconheceu o homem louro e amigo que se aproximava em passos largos.
" – Leon!" – Ela correu até ele e o abraçou.
" – Eu consegui! Cobrei alguns favores, acabei devendo alguns também. Mas eu consegui. Partimos em uma hora com um avião da força aérea rumo a Siria. Jill Valentine já está em território sírio e nos aguarda com transporte e armamento."
" – Muito, muito obrigada, Leon!" – Ela o abraçou mais uma vez.
Hoje completa oito meses que Chris foi capturado. E três meses sem qualquer noticia sobre ele. No começo o usaram insistentemente para barganhar a libertação de prisioneiros pelos Estados Unidos, sempre com a promessa de que iriam soltá-lo. O que nunca aconteceu. Quando o Presidente começou a parar gradativamente de ceder as exigências, as noticias a respeito dele foram ficando mais raras, até que finalmente desapareceram. Muitos já acreditam que ele está morto.
Leon lhe esfregou os braços quando o vento frio de inverno da capital bateu contra ela, e Claire estremeceu, pelo frio, e porque um mal pressagio parecia vir com ele. " – Você precisa ser forte." – Disse o louro. " – Ele ainda está vivo. Eu sei que está. Não se deixe abater. Ok?!"
Claire forçou um sorriso. Leon era um dos poucos amigos com quem ela realmente podia contar, um dos poucos que conhecia as esquisitices de seus sentimentos... mas até ele, não conhecia tudo, até mesmo para ele... ela não pôde contar tudo. Simplesmente porque até mesmo Leon, não fosse capaz de entender. Ela estava sozinha, absolutamente sozinha em seu desespero. Sem ninguém que pudesse entender que o seu mundo simplesmente ruía.
Jill... Talvez ela entendesse. Felizmente ou infelizmente, ela era uma das poucas pessoas que fazia alguma ideia do que Claire estava sentindo agora. Lembranças confusas e amargas tentaram voltar para lhe assombrar a mente e o coração agora, mas Claire as mandou para longe. Agora o foco era Chris. E só ele.
Afastou-se delicadamente do toque dele, se envolvendo com os próprios braços. " – Vamos então. O quanto antes entrarmos nesse avião melhor." – disse por fim, antes de partir na frente.
Continua.
