Sakura acordou, mas não abriu os olhos. Sentiu a cabeça latejar e o corpo todo dolorido. Abriu os olhos devagar e se deparou com um ambiente completamente desconhecido. Sentiu-se assustada e como se houvesse tido um click em sua cabeça lembrou-se do dia anterior. Dos balões d'água, armas de paintball e a primeira, segunda... E a partir da quinta dose de tequila não se lembrava de mais nada. Apenas borrões e flashs incompreensíveis.
Levantou sua coberta e notou que vestia uma camisa masculina. Apenas uma camisa masculina. Mais nada.
–"Daí – julgou ela – não precisa ser um gênio para prever o que aconteceu na noite anterior. Os veteranos me embebedaram, eu caí no papo de algum canalha e ele não perdeu a oportunidade de se aproveitar de mim."
Levantou e procurou sua roupa pelo quarto, esta jazia cuidadosamente dobrada sobre uma mesa com um notebook, vários cadernos e livros exageradamente grossos. Tudo extremamente organizado
Tirou a camisa masculina que emanava um perfume encantador e vestiu sua roupa. Não fazia ideia de como chegaria no seu apartamento ou de onde o suposto aproveitador estava, só queria sair dali o mais rápido possível.
Procurou seus sapatos e os encontrou dentro do banheiro. Os calçou apressadamente, lavou o rosto e tentou dar um jeito nos cabelos. Não conseguiu. Saiu do quarto e caminhou a passos largos na direção em que ela imaginava que fosse a porta de saída do apartamento e pela pressa não pode evitar chocar-se de frente com Sasuke que saía da cozinha, já pronto para ir para a faculdade.
– Então foi você, seu canalha? E eu achei que você fosse uma boa pessoa! – disse ela acertando alguns tapas no rapaz confuso diante daquela reação. – Você se aproveitou de mim enquanto eu estava bêbada, seu imbecil! – mais tapas.
– Ta louca, garota? – ele finalmente entendeu a razão do surto da menina e segurou seus braços impedindo que ela prosseguisse com as tentativas de agressão – Eu não me aproveitei de você, não perderia meu tempo com isso.
– O que você quer dizer com isso? – ela pareceu furiosa diante daquele comentário provocativo e, obviamente, mentiroso, já que, sim, ele sentia uma atração por ela.
– Não se faça de besta. – disse ainda segurando-lhe os pulsos – Deveria ter deixado você sozinha perdida no campus, garota inconsequente.
– Não me chame de garota, eu tenho nome! - respondeu ela quase rosnando.
– Quer saber, chega dessa discussão ridícula, você quer tomar café? – perguntou ele soltando os braços dela.
– Não, eu quero ir pra casa, só isso. – respondeu ela, rispidamente.
– Tudo bem, vou escovar os dentes e te levo em casa, seu carro ficou na universidade. – disse ele se retirando e deixando a rosada para trás.
Dez minutos depois, Sasuke voltou para a sala e encontrou Sakura sentada no sofá com uma cara de poucos amigos. Ela ficava extremamente sexy com aquele "bico" infantil, mas ele recriminou esse pensamente lembrando que ainda estava com raiva por ter sido acusado de aproveitador de alcoólatras indefesas.
– Vamos. – murmurou sem parar de caminhar.
Ela se levantou e seguiu Sasuke até o carro. Deu a ele seu endereço e depois disso um silêncio ensurdecedor se instalou entre eles. Dessa vez, ambos se sentiram incomodados. Ambos queriam quebrar aquela parede criada entre o banco do motorista e do passageiro e gritar desaforos um para o outro. Mas nenhum ousou fazê-lo.
Tal silêncio foi quebrado quando Sasuke estacionou em frente ao prédio de Sakura.
–Vou esperar você no carro. Você tem vinte e cinco minutos para se arrumar. Já perdi muito tempo com você e não quero me atrasar para a faculdade por sua causa.
Ela saiu do carro e fez questão de bater a porta com bastante força como quem diz "vá se ferrar". Chegando em seu apartamento notou que o que mais queria fazer naquele momento era se jogar na cama e dormir o dia inteiro, mas era seu segundo dia de aula e não se daria o luxo de faltar, lutou muito para conseguir estudar em Harvard e não levaria na brincadeira.
E foi com essa motivação que ela se arrumou em aproximadamente quinze minutos. Comeu uma maçã, escovou os dentes e desceu ao encontro de Sasuke. Entrou no carro sem falar nada e foi assim até chegarem na faculdade.
Caminharam juntos até os prédios de seus respectivos cursos e na hora de se separarem Sakura murmurou um "obrigada pela carona", com uma entonação que dava a entender que ela queria mesmo era mandar-lhe pro inferno.
Sakura não se concentrou durante as três primeiras aulas inteiras. Sua cabeça parecia querer explodir, seu corpo todo dolorido por conta do paintball, um baita resfriado por ter passado muito tempo com roupas molhadas e uma cara terrível por conta da briga com Sasuke.
Na sua cabeça só o que se passavam eram os desaforos que ela queria gritar na cara de Sasuke pela audácia de ter dito que não perderia seu tempo se aproveitando dela e por chamar ela de "garota" mesmo sabendo o nome dela.
– "E por ser incrivelmente lindo.."
– Sakura? – chamou Ino – Sakura! – chamou um pouco mais alto despertando Sakura de seus devaneios.
– Ahn? Ah, Oi Ino. – disse ela saindo de seu infinito particular.
– O que você tem? Está com uma cara péssima... – perguntou Ino em um sussurro para que só Sakura ouvisse.
– Ta tudo bem, Ino, só tive uma noite ruim. – vendo que Ino não engoliu aquela história, ela continuou. – Na hora do almoço eu te explico melhor.
As outras aulas se passaram consideravelmente rápido, Sakura ainda se sentia mal, mas parecia ter "aliviado" sua cabeça ao saber que dividiria o que passou com Ino. A hora do almoço chegou e Ino, Hinata e Sakura foram ao refeitório.
– Então, - começou Ino, pondo sua bandeja na mesa e puxando uma cadeira – vai nos contar o que aconteceu, panda?
– Panda? – perguntou Hinata sem entender o motivo do apelido.
– Não está vendo as olheiras enormes nos olhos dela, Hina? – respondeu Ino, provocando uma risada tímida em Hinata.
– Ok, ok, vou contar pra vocês. – disse Sakura.
Contou-lhes todo o ocorrido, desde as doses de tequila até a discussão no apartamento de Sasuke e a carona para a faculdade.
– Que fofo gente. – disse Hinata tomando um gole de seu suco.
– Fofo? – disse Sakura indignada – Ele praticamente me chamou de feia e você acha isso fofo?
– Sakura, pense bem, se fosse outro menino não teria cuidado de você. Teria lhe deixado bêbada por aí, como ele disse que deveria ter feito. – disse Ino.
Sakura não respondeu nada e continuou sua refeição pensando sobre o que Ino havia dito a ela. Será que ela realmente estava errada? Será que ele só disse aquela grosseria pra ela na hora da raiva? Ela sentia que lhe devia desculpas, mas seu orgulho era mais forte. Decidiu esquecer o episódio e fingir que não conhecia Sasuke. Eles nem ao menos eram amigos, mal se conheciam, não haveria dificuldade em tirá-lo da sua vida.
– Vamos nos atrasar para a aula se não nos apressarmos, meninas. – disse Hinata checando as horas em seu celular.
– Verdade – concordou Sakura já se levantando da mesa junto com Ino e Hinata.
As três caminharam rapidamente para a sala de aula chegando lá segundos antes de o sinal tocar. Sentaram-se em seus devidos lugares e esperaram o professor quietas.
As aulas que se seguiram se arrastaram lentamente, na metade da ultima aula uma moça bem vestida e com uma maquiagem um pouco exagerada, que deveria fazer parte da direção da universidade, pediu licença, entrou na sala e falou alguma coisa para o professor.
– Sakura Haruno? – chamou o professor em voz alta.
– Sim. – respondeu ela levantando seu olhar do caderno ao professor.
– Venha cá. – ela se levantou e caminhou até ela. – O reitor quer que você vá até a sala dele, como esta é a última aula, leve logo seu material.
– Ah, tudo bem. – Sakura ficou um pouco apreensiva, mas não havia feito nada de errado, logo não tinha motivos para temer.
Foi até sua carteira e recolheu suas coisas. Deu um "tchau" breve para Ino e Hinata e saiu da sala acompanhada pela moça que veio chamá-la na sala, esta a levou até a sala do reitor.
– Com licença. – disse ela entrando no escritório do reitor.
– Sente-se. – disse ele com uma voz calma, porém séria.
Sakura se sentou e esperou que ele prosseguisse.
– Bem, senhorita Haruno, eu vou direto ao ponto. Ontem tivemos a recepção dos calouros e, como você deve saber, a Harvard não impede qualquer uma dessas comemorações. Até nos divertimos com alguns trotes – riu – mas o que quero dizer é que não toleramos alguns acontecimentos, como por exemplo, um fiesta prata estacionado no centro da quadra poliesportiva. – disse com o olhar acusador
– O QUE?!
– Você não sofrerá nenhuma punição em relação a universidade, mas-
– Mas eu não estacionei meu carro lá! Eu o coloquei na vaga que me foi direcionada! – disse ela aos berros.
– Srta. Haruno, não suba seu tom pra mim! – disse ele fazendo com que ela se calasse. – Como eu ia dizendo, você não sofrerá punição alguma por parte da universidade, mas seu carro fora apreendido e levado para o estacionamento do departamento de trânsito.
– "Ah que merda" – pensou ela.
– Sinto muito, Srta., acho que terá de voltar para casa de taxi. – disse o reitor dando o assunto por encerrado.
Sakura saiu do escritório do reitor e se perguntou onde estariam as meninas. Não tinha dinheiro para um taxi e só conhecia Ino e Hinata na faculdade, teria que achá-las para pedir uma carona. Andou apressadamente pelo campus para chegar até a área próxima ao prédio do curso de medicina.
Checou se Ino e Hinata estavam por lá, mas não as viu. Entrou no prédio e as caçou por toda parte e nada. Quando já estava próxima da desistência deu de cara com Ino saindo do refeitório de mãos dadas com um rapaz ruivo e mal-encarado.
– Ino! – disse segurando a colega pelos ombros – Graças a deu eu te achei.
– Já volto, amor. – disse Ino se afastando um pouco de do rapaz para falar com Sakura. – O que foi, Saky?
– Meu carro foi apreendido pelo departamento de trânsito e eu não tenho como voltar para casa. – em vista à confusão na expressão de Ino, Sakura detalhou o acontecido. – Os veteranos carregaram meu carro ontem a noite e puseram no centro da quadra poliesportiva.
– Ah! – Ino segurou o riso.
– Você pode me dar uma carona para casa? Estou sem dinheiro para um taxi.. – disse Sakura ignorando o fato de Ino ter achado aquela situação engraçada.
– Desculpe, Sakura, mas não vou para casa daqui, nem, ao menos, trouxe meu carro. Vou para a casa do Gaara. – disse apontando para o ruivo a poucos metros atrás dela..
– Ah, tudo bem... – Sakura pensou por um instante – Hinata ainda está por aqui?
– Ela acabou de ir embora. – disse Ino fazendo uma careta.
– Ah, que droga. Tudo bem, Ino, vou dar um jeito de ir para casa depois nos falamos. – disse ela já saindo de perto da amiga.
Sakura pensou sobre o que faria e não conseguia chegar a uma solução cabível. Só conhecia mais uma pessoa na universidade inteira e esta pessoa era Sasuke. Tentou por cerca de quinze minutos achar outra solução que não fosse ter de pedir carona para Sasuke quebrando todo aquele orgulho, mas não obteve sucesso.
– "É, vou ter que me redimir" – pensou ela já saindo do prédio de seu curso para procurar por Sasuke.
Como não o encontrou por perto do prédio do curso de direito, resolveu ir até onde ele havia estacionado seu carro pela manhã, para saber se ele ainda estava por lá.
Ao chegar no estacionamento, constatou que Sasuke ainda não havia ido embora, porém estava a um passo de perder sua carona pois Sasuke já estava manobrando o carro para sair da vaga. Seu primeiro impulso foi correr para frente do carro impedindo a saída dele.
Sasuke freou bruscamente devido ao susto que levou com Sakura aparecendo na frente de seu veículo. Desligou o carro e saiu do mesmo.
– Você ta louca, garota?
– Sasuke, me ajuda, por favor. – perguntou ela tentando se convencer de que não estava abusando da boa vontade do rapaz.
– O que você quer? – ele pareceu se acalmar. Ela lhe explicou o que aconteceu com seu carro e ele disse que lhe daria uma carona.
Enquanto dirigia, Sasuke pensava no quão incrível era o modo como ele não conseguia ignorar aquela menina. Havia passado o dia inteiro com ela na cabeça, mesmo depois daquela cena ridícula em seu apartamento e agora não conseguira simplesmente negar uma carona e deixá-la pagar pelo seu desaforo. Após, aproximadamente, vinte minutos de silêncio, Sasuke parou em frente ao prédio de Sakura.
– Sasuke, - ela falou um pouco hesitando. Ele não respondeu, apenas direcionou seu olhar a ela. – me desculpe por hoje mais cedo. Você só quis me ajudar e eu lhe retribui daquela forma. Sinto muito.
– Tudo bem, Sakura. Vamos esquecer o que aconteceu esta manhã. – disse ele dando um meio sorriso.
– Então, - disse ela destravando o cinto de segurança. – obrigada pela carona.
– De nada.
Ela se inclinou para o lado para abraçá-lo e ele fez o mesmo. Sasuke pode sentir como se seu corpo vibrasse em cada local tocado por ela. Separaram-se do abraço aos poucos, mantendo o contato visual, era como se um imã estivesse atraindo um para perto do outro. Os olhos se fecharam aos poucos e ambos já esperavam o choque contra os lábios do outro.
Milímetros antes das bocas se tocarem, a música "payphone", vinda do celular de Sasuke, os sobressaltou quebrando o clima em mil pedaços. Ele rejeitou a ligação e os dois se olharam um tanto quanto sem graça.
– Er, a gente se vê amanhã, Sasuke. – disse Sakura já abrindo a porta do carro. – Boa noite.
A porta do carro se fechou e Sakura entrou no prédio sumindo da vista de Sasuke que pensava em matar quem quer que tenha interrompido o momento dos dois. Tentou se acalmar pensando que amanhã a veria na universidade e eles poderiam fazer o que fora interrompido hoje. Ligou o carro e antes de partir colocou alguma música para tocar.
Na tela de seu celular era possível visualizar um sms escrito: "Uma chamada perdida de Itachi".
