Capítulo 2
Conversas
Final de Novembro 1996
Hogwarts
Sala do Diretor
– Severus. – cumprimentou Dumbledore.
– Mandou me chamar? – perguntou Snape, entrando na sala do diretor.
– Sim, sente-se.
– Se for sobre Potter... – começou Snape.
– Sim, é sobre ele. Sente-se, Severus.
Ele sentou, contrariado.
– Por que o menino está em detenção por um mês se as aulas recém começaram? – perguntou Dumbledore.
– Porque ele é um insolente! Não respeita ninguém! Se acha superior às regras e a todos! – esbravejou Snape. – Ele desrespeitou uma ordem minha em sala de aula e acabou por me atacar!
– Mas este não era o objetivo da aula? Você não estava ensinando aos alunos como lançar feitiços mudos?
Snape crispou os lábios e levantou da cadeira.
– Ele está em detenção e nada vai mudar isso ou a minha opinião, Albus.
– Certo, mas eu preciso que você o libere nesta sexta-feira. Eu pretendo iniciar aquelas aulas das quais lhe falei e para amanhã à noite eu já marquei com ele.
– Que seja. Algo mais? – perguntou Snape a dois passos da porta.
– Aqueles ingredientes...?
– Continuam a aparecer. Por que a pergunta?
– E você continua a querer saber quem é a pessoa que os envia?
– Obviamente. – disse Snape, uma sobrancelha erguida.
– Então, por que você não coloca um bilhete no cesto vazio antes de devolvê-lo ao corredor?
Snape olhou para o diretor, espantado consigo mesmo.
"Como eu não pensei nisso antes?"
– Eu farei isso, é uma boa idéia; óbvia, mas muito boa.
– E sobre Harry ser um insolente e lhe desrespeitar... – Dumbledore respirou fundo e continuou, sério: – Os olhos vêem o que querem ver, Severus. Abra os seus e permita-se ver como o menino é parecido com Lily. Harry é maravilhoso.
– Você comeu aqueles bombons alcoólicos novamente ou só está a fim de me zoar?
– Vá, meu filho. – Dumbledore sorriu, triste. – Pense no que eu lhe falei. A gente só vê o que quer ver.
E Snape saiu da sala do diretor, batendo a porta.
Dumbledore puxou da gaveta a enorme caixa de bombons que Snape o acusara de comer.
"Presente de Amarillys... curiosamente ela sabia que estes eram meus bombons favoritos. Curiosamente..." – riu ele, mentalmente.
Naquela noite, como em todas as quintas-feiras, antes da meia-noite, Snape abriu a porta dos aposentos e pegou no corredor um cesto cheio de flores-da-lua, hellebore e dois vidros de sereno líquido e cristalino.
Seja lá quem fosse que estava lhe mandando aqueles ingredientes, estava lhe fazendo um grande favor.
"Esses dois vidros devem ter levado pelo menos quatro noites no sereno pra encher cada um."
Ele esvaziou o cesto sobre a bancada e pegou o envelope que, como nas outras vezes, estava dentro deste e dizia:
"Para Severus Snape,
De uma amiga."
Colocou no mesmo envelope o bilhete que ele escrevera e devolveu o cesto para o corredor com o bilhete.
Ela pegou o cesto no corredor naquela madrugada e estranhou ao ver o envelope dentro do cesto, abriu-o, sorrindo ao reconhecer a caligrafia pequena e uniforme:
"Agradeço pelos ingredientes. Admito que tê-los em minha porta pelo menos dois dias por semana tem me economizado muito tempo que posso gastar mantendo as correções de provas em dia, assim como meus cadernos de aula, e meu sono.
Apenas tenho a curiosidade de saber suas intenções. Não sou do tipo que recebe favores e não se interessa em saber com quem está em dívida.
Sempre há um motivo por traz de toda ação, seja ela boa ou ruim.
Quem é você e o que quer?
Atenciosamente,
Severus Snape."
Ela riu.
"Como sempre o orgulhoso sonserino não pode acreditar que existam bens que vem apenas para o bem, sem qualquer outra intenção...Ah, Sev..."
Sexta-feira.
Nada.
Snape esperou até depois das duas da madrugada. Mas não. O cesto de ingredientes não apareceu, nem um bilhete de resposta.
Sábado.
Pela manhã, o cesto estava lá. E entre ervas e flores, ele encontrou um bilhete.
"Severus,
Fico feliz por saber que lhe agradou a minha 'boa ação', como você chamou.
Pare de ser tão rabugento e desconfiado e continue aceitando os ingredientes que me dão tanto trabalho de colher.
Minhas intenções são claras.
Uma amiga."
Se ele estava confuso antes, agora ele estava furioso e se sentindo enganado.
"Albus sabe de alguma coisa. Ele sempre sabe de tudo que acontece neste castelo! Vou fazer ele falar!"
Snape tomou café no quarto, se vestiu e foi direto à sala do diretor.
Mas dez minuto após entrar, Snape saiu da sala do diretor, tão revoltado quanto entrara.
"Maldito velho manipulador." – pensava ele raivoso. – "Ele sabe de alguma coisa..."
Snape foi para o pátio externo, era dia de visita à Hogsmead, a propriedade estava praticamente vazia, por exceção dos primeiro e segundo anos. Mas ele percebeu que alguém lia encostada numa árvore, à beira do lago.
"Amarillys D'Angel."
Ele a reconheceu de longe. Os longos cabelos castanhos, os olhos verdes. Aquela expressão concentrada enquanto lia.
"Por que ela me parece tão familiar?"
Ele se viu caminhando na direção dela, sem evitar que seus pés o levassem.
– O que faz sozinha no castelo numa tarde de visita ao vilarejo de Hogsmead, se me permite perguntar, Srta. D'Angel? – sua voz soava calma e suave.
– Bom dia, Prof. Snape. – ela sorriu, baixando o livro. – Eu não me encaixo em nenhuma das turmas que foram à Hogsmead. E posso ir ao vilarejo na hora que quiser, não preciso da permissão do diretor para isso. – ela o olhou diretamente. – Estava conversando com o diretor?
– Sim, mas não adiantou muito. – ele murmurou, visivelmente contrariado.
– Está com problemas? É algum aluno? Ou uma aluna? – insinuou ela.
Snape a olhou, sério.
– Não que seja da minha conta. – adicionou ela, percebendo o silêncio dele.
Amarillys voltou para o livro que lia, sorrindo ainda. Apesar dele tê-la deixado no vácuo.
Snape olhou para ela, atentamente. Percebia agora o porquê ela lhe parecia familiar: a garota era muito parecida com Lily. Não fisicamente, mas suas expressões, o modo de sorrir, o fato de o humor ácido dele nunca a incomodar. Lembrava agora, durante as aulas, ela era quieta, só falava quando falavam com ela, apesar de ser extremamente inteligente e sempre ter todas as respostas.
– Professor? – ela o chamava. – Prof. Snape? O senhor está bem?
– Sim. – disse ele, irritado.
– Eu o chamei por mais de três vezes... – ela sorria.
Snape se sentiu furioso pelo sorriso dela.
– Provas demais para corrigir. – disse ele, seco.
O sorriso se manteve.
"Mentiroso..." – pensou ela, entendendo que o afetava como antes.
Viu que ele se virou e voltou para o castelo, sem nenhuma palavra.
Amarillys permitiu-se rir.
– Ah, Sev... logo você vai entender. Só espero que compreenda e me perdoe. – murmurou ela, olhando para o reflexo do fraco sol no lago.
Nota da autora: oh, em que roubada me meti... mas vou dar um jeito de explicar essa confusão!
Beijos para Lari SL (a primeira a comentar!) e Yasmin Potter (já achou a Lily?).
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