Capitulo 2 – A reação
Acordo com Buttercup ao meu lado coçando as patas, percebo que tem alguns espinhos em sua pata e resolvo tirar. Ao tirar os espinhos lembro de Prim que seria muito melhor que eu para cuidar dele e começamos a chorar novamente. Eu pensava que ele era estupido, mas quando ele toca meu rosto como se estivesse me confortando me faz simpatizar com ele. Ainda com essa força abro a carta de minha mãe. Vejo sua caligrafia impecável.
Katniss...
Perdoe-me, eu sou uma fraca. Nunca tive a sua resistência, sempre admirei muito você. Eu não conseguiria voltar para o doze, são tantas recordações e não há nada que eu possa fazer. Não sei o que falar para você só que me perdoe por ter abandonado você e sua irmã quando mais precisava de mim, por ter deixado você com toda a carga de nossa família, eu falhei miseravelmente criando vocês e sei que talvez você nunca me entenda. Meu numero é XXXXXX, me liga, eu amo você.
Disco os números e escuto o telefone chamando. Será que ela está em casa?
-Alô. –Escuto sua voz
-Mãe sou eu. –Digo a ela
-Katniss querida –Diz ela com a voz já embargada –Oh querida eu sinto tanto, te liguei várias vezes, mas ninguém atendia. –Continua ela aos prantos, eu já estava pensando... Eu pensei... –Ela não conseguia continuar
-Mãe –Digo já com a voz rouca tentando segurar o choro –Eu estou... –começo a chorar copiosamente, pois sei que bem é o anônimo que estou.
-Ah querida, eu sei... Não precisa falar –Ela diz ainda em lágrimas, demora mais uns 5 minutos assim ate que Peeta e Greasy Sae entram pela porta.
-Mãe tenho que ir, mas eu te ligo em breve. –Asseguro a ela
-A qualquer hora, pode me ligar a qualquer hora. Te amo. –Diz ela, mas eu desligo não consigo falar essas palavras a ela.
Consigo me recompor, mesmo Greasy Sae estando ocupada fritando um pouco de bacon e Peeta está sentado, mas evitando me olhar. Não estou com vontade de falar com ninguém no momento, quando Greasy termina com o bacon eu dou para Buttercup que o devora e eu tento empurrar um ou dois pães de queijos goela a baixo com sucesso. Peeta foi embora depois de algum tempo, mas eu só o olhei indo pela porta.
Não sei quanto tempo passou, ainda estou na mesa e percebo que Greasy está pondo a panela com o caldo e ao lado alguns pães que sobrou de manhã.
-Já estou indo, ate amanhã. –Diz ela tocando meu ombro. Não vejo nada que me traga esperança, o telefone toca e não quero atende-lo. Então lembro-me de alguma coisa sobre atender o telefone e Dr Aurélio. Sigo para o telefone e o pego.
-Alô –Digo
-Katniss, olá aqui é o Dr Aurélio. Como você está? –Ele me pergunta, por um momento eu penso em desligar falar como eu estou me sentindo não é algo habitual de mim. Mas dane-se talvez ele possa realmente me ajudar a sair desse inferno ou então eu não atenderei as suas ligações. Acho que ele entendeu meu silencio, pois continuou logo em seguida. –Katniss sei que agora está tudo horrível como se você estivesse morta, sei que nada do que eu fale agora amenizará sua dor. Mas acredite em mim, continue comendo mesmo que a comida não tenha sabor e você esteja sem apetite. Mesmo que não queira falar nada converse com as pessoas, seja educada agradeça quando receber algo mesmo sem estar realmente agradecida, finja surpresa por um presente inesperado e você verá depois de um tempo que você sentirá de novo.
Instalasse um silencio na linha, estou assimilando suas palavras.
-Obrigada. –Digo a ele apesar de achar tudo um monte de besteira, afinal como alguma coisa pode ter significado depois da morte de Prim. Peeta devia ter me deixado morrer quando eu tive coragem, agora não consigo fazer isso com minha mãe.
-Ligarei novamente amanhã espero que atenda. –Diz ele desligando o telefone. Olho para a comida, mesmo não estando com fome me obrigo a comer um prato do caldo com os pães de Peeta em seguida sirvo um pouco num prato para Buttercup. Fico ali parada olhando para o fogo na lareira.
Estou no Capital de volta a mansão do Presidene Snow procurando freneticamente por ele. "Vou mata-lo" é o mantra que me faz procurar com mais empenho, quando eu o avisto na varanda de sua casa busco a flecha e miro direto no olho e atiro, mas quando a flecha chega ao alvo o alvo na verdade é Prim que cai morta por mim
Acordo sobressaltada e aos prantos. Buttercup esta me olhando atentamente, nada parece certo, como eu posso estar viva enquanto Prim não? De que adiantou eu ter ido para os Jogos, de que adiantou a rebelião de que adiantou eu ter trabalhado tão arduamente para manter ela, eu e minha mãe viva? De que minha vida adiantou? O desespero se apossa de mim novamente. Ah como eu quero morrer, seria muito melhor a morte do que essa vida miserável em que me encontro e me arrependo de não ter morrido na arena, aperto meu peito parece que meu coração está sendo rasgado, meus soluços preenchem a casa quando sinto uma leve pressão e percebo que é Buttercup e isso me acalma de certa maneira ate que me entrego completamente a inconsciência.
Não sei se dormi ou se entrei em transe, pois ao perceber está claro na minha janela, mas não percebi o tempo passar, não quero levantar nem ir comer, mas vendo que são 8 horas e que Buttercup está arranhando a porta para sair não me deixa muita escolha. Abro a porta e vou para mesa do café da manhã.
-Bom dia! –Diz Greasy –Peeta veio e trouxe os pães de queijo –Aponta para um cesto onde eles estão e pego um. –Ele foi só lá na cidade dar alguns pães para os trabalhadores.
Penso em como isso combina com Peeta, sua generosidade e altruísmo. Depois do meu terceiro pão de queijo eu me sento perante a lareira olhando o fogo e deixando meu pensamento no vazio.
Passa-se muitos dias, minha rotina consiste em tomar café e voltar para cama. Responder quando Peeta me pergunta algo ou fala comigo, voltar para cama e quando eu menos espero se passa uma semana. Atendo o telefone do Dr Aurélio como o prometido.
-Olá Katniss, como passou a semana? –Pergunta ele ficando em silencio, mas eu não sei como classificar minha semana então fico calada. –Vou considerar isso como um está ruim, mas continuo me alimentando está certo?
-Faça o que quiser. –Digo a ele querendo que essa pseud. sessão termine logo.
-Continue tentando Katniss, procure algo que te faça ficar ocupada, vá caçar ou qualquer outra coisa que goste.
-Certo. –Digo desligando em seguida e indo para o quarto sendo seguida por Buttercup.
No outro dia após poucas horas de sono já está na hora do café, vou ate a mesa como sempre tentando fazer o que o medico me disse, ao descer percebo com estranheza que Greasy ainda não chegou o que é estranho, pois ela sempre vem as 7:30. Alguém está batendo a porta, vou atender e me deparo com Peeta.
-Oi. –Diz ele na soleira
-Oi, Greasy Sae ainda não chegou. –Digo abrindo a porta e entrando.
-Ela disse que hoje não poderia vir, pois tem uma reunião de pais e mestres na escola de sua neta. Ela comentou sobre isso. –Diz ele pondo o cesto com os pães e ao observar mais de perto vejo o pão, o mesmo pão cheia de passas e nozes que há muito tempo foi jogado para mim. Eu senti depois de muito tempo no frio da perda, nas trevas da falta, senti surpresa e sorri mesmo com os olhos marejados. Peguei o pão em minhas mãos, senti o seu aroma e pela primeira vez em muito tempo senti o sabor da comida e saboreei cada pedaço.
-Pensei que pão de queijo fosse seu favorito. –Diz Peeta divertido e um pouco surpreso.
-E é, mas fazia tanto tempo que não comia esse pão. –Disse ainda com nostalgia - Obrigada Peeta.
Ele não fala nada apenas assente com a cabeça. Talvez Johanna estivesse certa, talvez eu e Peeta estejamos arruinados, mas ainda estamos vivos e isso é algo que eu tenho que agradecer e não lamentar.
Continuamos ali em um silencio confortável ate dá a hora do almoço.
-Katniss já estou indo –Diz ele levantando do sofá indo em direção a porta
-Bem, ate amanhã. –Falo o acompanhando pela primeira vez ate a porta o que o surpreende
-Sei que sabe disso, mas vou falar de qualquer forma. Eu estou na casa da frente, pode me visitar quando quiser. –Diz ele indo embora.
Quando ele sai fico pensando em Rue que teve a vida ceifada tão jovem, tento me lembrar em detalhes de sua feição o jeito como ela subia nas arvores, em seguida lembro de meu pai, mas não tão claramente. Só do seu canto e da fotografia que tenho. Sei que faz muito tempo que ele morreu, mas eu deveria lembrar dele como ele era será que será assim com todos que já morreram? Vai ter um tempo em que não me lembrarei nitidamente de mais de Rue e Finnick que deram suas vidas por mim? Isso me pega de surpresa e começo a entrar em desespero. Vou para o telefone tirar as duvidas com o único que pode me responder sinceramente.
-Alô, Katniss? –Ele atende
-Dr Aurélio eu não consigo me lembrar de meu pai com clareza, ate mesmo Rue esta fugindo de minha memória. Será que estou doente?
-Katniss a memoria humana é de curta duração, especialmente para os que não vemos há muito tempo ou quem já partiu. –Me explica ele calmamente
-Isso não está certo, eu não quero me esquecer deles... –falo inconformada com minha cabeça estupida.
-Katniss você pode pensar em algo para homenageá-los e não esquece-los como um álbum de fotografias ou algo do gênero. –Diz ele
-Vou pensar em algo. –Digo desligando.
Um álbum de fotografia não é o que eu quero o que poderia fazer para mantê-los na memoria? Vou para o quarto ainda com essa questão na cabeça. Tomo um bom e merecido banho. Olho para janela de Peeta que está aberta como sempre, mas algo me chama a atenção o quadro de Rue como eu a "enterrei" em meio às flores semelhante ao que ele pintou no massacre quaternário. Nossa como era real, Peeta é muito talentoso e lembro-me de quando eu percebi seu talento para a pintura há muito tempo. Ele me ajudou no meu livro da família que ainda esta por terminar. Será que ele ainda se lembra? Vou para o quarto que era de minha mãe e Prim, fico na porta por um tempo como criando coragem para entrar e finalmente entro e pego o livro. Vou a sala jantar foleando o livro uma vez ou outra sem, no entanto realmente lê-lo.
