Capítulo II
Isabella cuspiu a água que lhe encheu a boca e tossiu. Procurou afrouxar as cordas que a mantinham presa na tentativa de expelir o líquido que havia chegado a seus pulmões. Passado o mal-estar, tentou manter os olhos e a boca fechados, porém ambos se abriam por instinto.
Apesar de engolfada pelo vento forte, precisava de ar. Gostaria de abrir os olhos também, embora houvesse quase nada a ser visto. Estava presa na fria e úmida escuridão, e o vento e as ondas se alternavam, batendo em seu corpo fragilizado. Se não fosse pelo mastro sólido ao qual estava amarrada, já teria sido arremessada ao mar.
Em desespero, desejou estar se afogando, assim seria o fim daquela tortura. Do modo como se encontrava, po rém, as ondas a castigavam: primeiro por prensá-la contra o mastro, depois por tentar sugá-la com igual força. Cada centímetro de sua pele gritava em reação ao abuso da água gelada e das cordas que a prendiam.
Isabella imaginou que, àquela altura, a pele sob as cordas estaria em carne viva. O sofrimento parecia durar por uma eternidade. Estaria padecendo em uma espécie de purgató rio? Talvez fosse um castigo por não ter se preocupado o suficiente quando o tio fora arrastado pelas águas. Ignorar a perda de um ente querido em meio ao caos era o suficien te para mandá-la para o inferno?...
Não se achando merecedora de tamanha punição, abriu os olhos e ergueu o rosto para o céu, sendo imediatamente coberta por outra onda.
Tossiu, desesperada em busca de ar.
A tempestade tinha chegado sem aviso prévio. O céu azul da manhã ensolarada fora mudando de cor e, em segundos, ficara escuro. Pelas conversas dos marinheiros, ela havia entendido que a tempestade não seria pior do que qualquer outra.
Entretanto, com o decorrer dos minutos, o humor deles fora se alterando. Conforme as pesadas nuvens se aproxi maram, o navio passara a balançar de um lado para o outro como um animal selvagem.
Então a chuva tinha começado, seguida por relâmpa gos breves e intermitentes que iluminavam as gigantescas muralhas de água. O barco lutara bravamente para vencer o mar em revolta, e a monstruosidade das ondas a havia deixado em pânico. Só lhe restara rezar.
Se a embarcação fosse de passageiros, estaria protegi da em uma cabine. Mas se encontrava em um dos navios de carga do tio e não havia cabine alguma. Assim, tinha passado os primeiros momentos da tempestade agarrada à amurada, próxima a uma pequena cobertura de madeira.
A força dos ventos e do mar tornara cada vez mais di fícil a tarefa de manter os pés sobre o convés. O capitão havia sugerido que a prendessem junto com o tio ao mastro principal.
Seu tio havia insistido para que a amarrassem primeiro, mas, nas circunstâncias adversas, o capitão e o primeiro marujo haviam levado tempo demais para fazer isso. O vento fizera de vela seu longo vestido, afastando-a deles a toda hora.
Quando eles se preparavam para buscar seu tio, a ven tania ficara ainda mais impiedosa e, para piorar o martírio, uma onda gigantesca levantara o navio, tombando-o para o lado.
Os homens não haviam tido tempo de alcançar apoio antes de ser arrebatados por outra onda que quebrara no meio do deque. Tinham sido arrastados junto com destro ços de parte do navio, e o capitão fora esmagado contra a cabine.
Naquele instante, Isabella entendera que só se salvaria se algum milagre acontecesse.
Agora só ouvia os estrondos das ondas batendo contra o barco e o assobio interminável do vento. Pouco antes, ainda escutara gritos dos marinheiros, mas logo o barulho da natureza em fúria abafara qualquer evidência de vida.
Concluiu, então, que era a única alma viva naquele pesadelo.
E não fazia a menor idéia por quanto tempo resistiria. O navio ainda flutuava, o que não diminuía o risco de ela morrer afogada enquanto lutava para se livrar das cordas.
De repente, a madeira começou a quebrar, e um forte barulho chegou a seus ouvidos acompanhados por um solavanco que balançou o mastro e o deque onde mantinha os pés apoiados. Levantando a cabeça, Isabella tentou enxergar através da escuridão. Seu coração pulsava, descompassado, enquanto ela tentava adivinhar o que estava acontecendo. Tudo indicava que o barco havia batido em alguma coisa, o que, de maneira alguma, era um bom sinal.
Outra onda a atingiu com força, e Isabella gemeu quando sua cabeça bateu violentamente contra o mastro. Por um breve momento, a névoa foi iluminada pelas estrelas que dançaram sob suas pálpebras.
Foi então que, como num passe de mágica, o vento e a água se aquietaram. Ainda era possível ouvir o vento, mas este não mais a engolfava com sua força,
Ela voltou a abrir os olhos ao sentir uma forma pressio nada contra seu corpo. Surpresa, visualizou uma nesga de luz em meio a escuridão. A tempestade havia sumido com a mesma rapidez com que chegara, e uma lua tímida lutava com as nuvens remanescentes.
O luar ainda fraco iluminou uma camisa branca e braços que enlaçavam seu corpo. Antes que pudesse com preender o que estava acontecendo, sentiu que as cordas que a tinham torturado por tanto tempo haviam sumido.
Consumida pela exaustão e pela fraqueza, Isabella per cebeu as pernas fraquejarem. No mesmo instante, porém, alguém a levantou no colo.
— Segure-se em mim.
A voz era clara. Mesmo assim, ela achou que era fruto de sua imaginação. Contudo, diante da perspectiva de ser res gatada, obedeceu ao comando, embora seus braços resistis sem a qualquer movimento. Esforçando-se muito, levantou os olhos e deparou com a beleza misteriosa de seu salva dor: olhos cinzentos e tristes refletiam o luar em um rosto pálido, lindo e ao mesmo tempo trágico. Talvez por estar fragilizada, Isabella deduziu que aquele homem carregava um pesado fardo de sofrimento.
Seus pensamentos foram interrompidos por outra onda que sacudiu o barco, arremessando os dois contra o mas tro. Ela tornou a bater a cabeça, porém, dessa vez, não viu estrelas: apenas o vazio da perda dos sentidos.
N/A:
Olá amores! A capa dessa fic já está no meu perfil!
Agradeço a RenesmeeBlack, e JanaPepita por favoritar a história e colocá-la em alerta!
E então, vocês estão gostando? Mandem reviews! Please!
Beijinhos!
SrtaSwanCullen
