Sumário: Uma vez, um jovem possuído por uma raposa de nove caudas causou devastação a uma pacífica vila. Para detê-la, kami-sama concedeu a um aldeão seu poder. Um ciclo de muitas eras foi estabelecido com aquele que detinha o ódio da raposa e o escolhido para aprisioná-la. Esta é a história do menino destinado a matar a raposa de nove caudas, e seu melhor amigo, aquele que a carregava como alma.

Naruto não me pertence, e sim ao Masashi Kishimoto. Essa fanfic não tem fins lucrativos, foi escrita apenas para a diversão dos leitores e para prestar homenagem ao mangá finalizado a pouco tempo.

A fanfic não foi betada. Então, qualquer erro que encontrarem (de digitação, gramatical, palavras faltando, de tradução), por favor, me avisem. Revisei ela diversas vezes, mas alguma coisa sempre passa.

One-shot dividida em duas partes.

Acabei me empolgando com as palavrinhas em japonês, logo, quem tiver alguma dúvida, fiz um glossário dos termos que achei menos comuns e/ou mais importantes para a fic. Está no final da história.


O rei e seu assassino

Parte 2

Saqueadores e mercenários, das mais remotas e estranhas terras, interpretaram o massacre do poderoso clã Uchiha como um sinal de fraqueza de Konohagakure no Sato, e muitos deles foram seduzidos pelas histórias do incidente que se espalharam tão rápidas quanto as chamas que desolaram o clã.

No decorrer dos últimos três anos, a pacata vila foi alvo de dilapidações e sequestros. O assédio se tornou mais violento após a morte do Saindaime Hokage; plantações foram incendiadas, fidalgos foram assassinados e nem mesmo templos e santuários foram perdoados. Konohagakure pouco recebeu de ajuda das demais vilas do Ho no Kuni e se tornou refém do medo e da miséria. A A.N.B.U. novamente tornou-se indispensável, principalmente para assegurar a ordem na sociedade que não se sentia segura sob a liderança provisória dos velhos conselheiros do governo comandados por Shimura Danzou.

Para reforçar a segurança da população, jovens herdeiros religiosos passaram a receber um treinamento de batalha particular fazendo-os adquirir noções básicas das artes marciais tradicionais. Sasuke, como o novo Grande Sacerdote do clã Uchiha, fazia parte dessa nova leva de alunos e lá estava ele sentado num canto do dojo destinado às aulas, quieto e imperturbável.

Os cidadãos de Konohagakure, no geral, se tornaram mais severos e esquivos como consequência dos frequentes assédios dos criminosos. No entanto, havia a impressão de que ninguém nesses três anos mudara tanto quanto Sasuke. Aquela inocência infantil, os sorrisos espontâneos, a vivacidade ensolarada; tudo pareceu haver morrido junto com seus pais e parentes. Seu comportamento frio e indiferente apenas revelava a ferida que ele trazia na alma e que demoraria muito para cicatrizar, se isso um dia sequer acontecesse. Itachi mantivera a sua promessa e estava sempre à disposição do irmão ainda que suas tarefas oficiais tornassem a convivência dos dois limitada. A fim de seguir os passos do mais velho, pois sua admiração pelo mesmo continuava intacta, Sasuke tornou-se mais independente. Algumas vezes, essa autonomia dele entristecia um nostálgico e apegado Itachi.

No dojo, os outros garotos se limitaram a cumprimentar o Uchiha, alguns por extremo respeito, outros por simples educação. Nenhum deles, porém, iniciou uma conversa com ele e o olhavam ocasionalmente à espera de alguma socialização.

- Será que o sensei vai mesmo aparecer?

Inuzuka Kiba já se mostrava inquieto, ora brincando com o seu cachorro de estimação, Akamaru, ora andando de um lado para o outro com seu shakujo. Seus cabelos castanhos rebeldes e os caninos salientes completavam a personalidade rude dele. Como kamon de seu clã, duas tatuagens vermelhas que faziam alusão a presas marcavam verticalmente suas bochechas; representavam elas o espírito indomável dos Inuzuka. Só mesmo Aburame Shino, estoico e calado, para aturar Kiba como seu melhor amigo.

O garoto sentou-se novamente chutando com displicência Nara Shikamaru que cochilava estirado no chão. O garoto abriu os olhos para encarar Kiba de mau-humor e depois voltou ao seu sono.

- Acho que não teremos aulas hoje. Vamos embora?

Shino franziu as sobrancelhas, mas antes que pudesse responder, Sasuke o fez:

- Não devem demorar muito mais. Naruto com certeza está trazendo o Kakashi.

Em respeito a Sasuke, Kiba ficou em silêncio. Porém, franziu o cenho para o nome do garoto loiro. As pessoas de Konohagakure também podiam ser cruéis e, no caso de Naruto, havia um desprezo claro contra o menino que era criado por um eremita pervertido, pupilo do filho de um traidor e ainda era órfão de um casal pouco convencional. Kiba apenas era uma criança que absorvera os preconceitos da sociedade no qual vivia.

Shikamaru abriu um olho e o fixou em Sasuke, irritado. A apatia dele para com o Uchiha superava qualquer respeito que pudesse nutrir, principalmente quando Sasuke não demonstrava respeito ao tratar as pessoas sem seus devidos sufixos.

Pouco tempo depois, assim como profetizara Sasuke, Naruto apareceu vermelho e espumante de raiva. Jogou os zōris para longe antes de entrar no dojo.

- Viu? Já 'tá todo mundo aqui! Vão pensar que eu cheguei atrasado e a culpa é toda sua!

Kakashi apareceu logo depois, sorridente e cínico. Analisou rápida e eficientemente todos os seus novos pupilos com o único olho agora restante.

- Desculpem a demora. Encontrei um agricultor cuja plantação estava sofrendo ataques de coelhos ferozes no meio do caminho e parei para ajudá-lo. – disse numa cara-de-pau que chocou muitas das crianças.

- Mentiroso!

Naruto apontou um dedo acusador para Kakashi, porém viu Sasuke no lado aposto do dojo. Marchou em direção a ele com um sorriso desafiador nos lábios.

- Teme, hoje eu vou ganhar de você no treino. Você vai ver o quanto eu sou mais incrível que você, dattebayo!

Naruto colocou os punhos na cintura como uma pose de efeito. Sasuke apenas lhe destinou um meio sorriso e um olhar que, mesmo sendo lançado de baixo para cima, esmagava qualquer arrogância do Uzumaki.

Desta vez, sem exceção, todos os outros meninos olharam surpresos para Naruto, atordoados e até escandalizados pelo tratamento que ele dera a Sasuke.

Kakashi ignorou prontamente a cena e andou para frente da turma.

- No treino de hoje, vocês irão formar duplas e se confrontar para eu poder avaliar as suas habilidades. Tenho certeza que cada um de vocês teve treinamento próprio de seus clãs, então suponho que nenhuma luta será injusta. Já que não temos nenhuma dúvida – e Kakashi não abriu espaço para elas -, Naruto, você enfrentará Rock Lee-kun.

- O quê?!

Naruto olhou para o mestre e, finalmente, para os outros garotos. Ciente, então, da atenção que estava chamando, ele caminhou quieto até o garoto de kimono verde que se levantara num salto.

- As shinais se encontram aqui na frente e elas serão suas mais fiéis amigas durante o treino. – Kakashi fez uma careta para si mesmo. Poderia, pelo menos, se esforçar para guardar esses bordões velhos em sua memória. - Aburame Shino-san, junte-se ao Akimichi Chouji-kun. Kiba-kun lutará comigo e Sasuke-kun com Nara Shikamaru-kun.

Shikamaru praguejou mentalmente antes de levantar e caminhou até o Uchiha a contragosto. Shino e Chouji se cumprimentaram casualmente, e Naruto encarava hipnotizado as grossas sobrancelhas de seu adversário.

- Não é para machucar o oponente. Vocês deverão saber quando o nocaute for o último e irão se cumprimentar devidamente ao final da luta. Você são espadachins, não bárbaros. – Kakashi olhou para todos de modo analítico. – Certo, comecem.

Como Kakashi pressupôs, Kiba segurava a espada de bambu como se ela fosse uma shakujo. Era impaciente assim como Naruto, mas Kakashi notou nele um raciocínio mais aguçado, talvez uma visão de luta maior que a do loiro. Este, por sua vez, achara um oponente ideal. Tanto Naruto quanto Rock Lee, o garoto estrangeiro, eram mais inclinados à luta corporal, muito embora Lee estivesse em um nível muito superior ao de Naruto. Já o embate de Shino e Chouji era, talvez, o mais equilibrado. O Aburame era ágil e conseguia se esquivar muito bem dos ataques diretos e fortes de Chouji. Apostava na vitória de Shino.

Por cima dos ombros de Kiba, Kakashi conseguia ver que nem Sasuke nem Shikamaru haviam saído do lugar. Mesmo naquela idade, já comentavam a genialidade de Shikamaru e, apesar de sua inerente preguiça, o Hatake não duvidava das capacidades mentais do garoto. Não se podia esperar menos do herdeiro do brilhante clã Nara. As habilidades de Sasuke, porém, eram um mistério. Ele com certeza fora treinado pelo pai já que Fugaku prezava pelas artes da guerra, mas Kakashi acreditava que esses treinos não foram tão expressivos se comparados àqueles voltados para o xintoísmo. A maneira de Sasuke segurar a espada, como se imitasse Itachi portando uma ninjaken, apenas indicava a falta de conhecimento do garoto. Não obstante, continuaria observando sem apostar num vencedor.

Em relação a Kiba, Kakashi só desviava de seus ataques, sempre analisando as aberturas que o garoto exibia ao atacar. Assim que se desse por satisfeito, atacaria. E, então, seria o fim do luta. Só não esperava que Kiba usasse Akamaru como sua segunda arma. O cachorro de repente começou a latir e a correr ao entorno dos dois e a cada vez que corria aos pés de Kakashi, ele parecia mais propenso a morder. O mestre admitia que esta era uma ótima tática de luta e que Kiba seria quase imbatível se a aperfeiçoasse. Por enquanto, ele se contentaria com um golpe nas costelas e outro na coxa.

- Pelo menos, consegui impressioná-lo, não é, Kakashi-sensei?

O homem sorriu para o Inuzuka que, sentado no assoalho, brincava com o cão e massageava a própria coxa. Kakashi fez uma nota mental: Inuzuka Kiba era bem mais amistoso e razoável do que ele próprio achava ser. Ou, pelo menos, queria demonstrar.

Poucos minutos depois, Naruto soltou uma exclamação tão ruidosa quanto o impacto do seu corpo contra o chão de madeira. Ficou ali estatelado resmungando enquanto Lee se ajoelhava para orar em agradecimento. O embate de Shino e Chouji já havia acabado há muito tempo, porém o Akimichi se mostrava resistente à derrota. Para Kakashi estava claro que o garoto continuava a luta muito mais para testar o próprio ânimo do que por simples teimosia. Porém, esqueceu-os completamente quando notou, pelo canto do olho, uma movimentação.

Shikamaru deslizou um pé para trás em posição de ataque. Sasuke não se mexeu. Ficaram mais alguns minutos analisando um ao outro. Para Shikamaru, era essencial ter um perfil do adversário já traçado antes de atacar. Sabia que o Uchiha era destro, era ágil para desviar de um ataque e, principalmente, não deveria ser subestimado. Para uma porcentagem maior de vitória, Shikamaru concluiu que deveria nocauteá-lo com um só golpe. Se a luta se estendesse a partir daí, ficaria mais difícil chegar perto do garoto.

Sasuke segurava a shinai com apenas a mão direita enquanto a outra repousava ao lado do corpo. Shikamaru não sabia se o fazia por inexperiência ou técnica, mas era esta uma maneira muito frágil de portar uma shinai. Decidiu, por fim, atacar pelo lado esquerdo. Sasuke seria obrigado a desviar para o lado e se Shikamaru não conseguisse acertá-lo no braço, com certeza o faria nas costelas.

Abruptamente, o Nara deu um impulso para frente pronto para executar seu plano. Mas havia algo que ele não tinha calculado.

Sasuke não saiu do lugar. Shikamaru se viu invadindo o espaço entre o corpo e o braço que Sasuke havia afastado na hora do ataque. Logo após, sem tempo de conseguir reagir, Shikamaru foi atingido nas costas. No mesmo instante compreendeu que o Uchiha aproveitara seu breve momento de confusão para mudar a espada de bambu de mão e atacar-lhe com a bainha nas costas.

Genial.

Caiu de joelhos e apoiou as mãos no chão. A técnica de Sasuke fora perfeita e seu controle de força ao acertar-lo, também. Entretanto, nada surpreendeu mais Shikamaru quando o garoto ficou a sua frente e lhe ofereceu ajuda para levantar. Fechou o cenho para o gesto.

- Qualquer outra pessoa teria tornado esse exercício um tédio.

O garoto caído encarou Sasuke com surpresa e não encontrou nos olhos pretos dele nada além de sinceridade e, se não estivesse equivocado, algo parecido com respeito. Menos irritado, o Nara aceitou a ajuda. Chouji veio logo em auxílio do melhor amigo sem deixar de olhar impressionado para o Uchiha.

Um olhar severo caiu sobre Sasuke sem que ele percebesse. Ele escondia um assombro descomunal e algo perto de receio. Não era certo Sasuke dominar tão bem uma arte criada para a morte, muito menos ele se mostrar indiferente a isto. Kakashi temeu o que isso poderia significar. Itachi deixou clara a sua desaprovação quanto ao treino do irmão e só o aceitara por causa de sua confiança em Hatake. Talvez conversasse com ele mais tarde.

O decorrer do treino foi tranquilo e tedioso para as crianças. Kakashi explicou de maneira displicente a arte do kenjutsu e apontou os erros que cada um cometeu durantes os combates. Ele se demorou especialmente no discurso sobre companheirismo tentado fazer com que os meninos entendessem o significado de treinarem juntos e também que respeitassem os futuros laços de amizade que inevitavelmente se formariam entre eles.

No entanto, Naruto percebeu claramente a discriminação por parte dos outros garotos. Em determinado momento, cogitou gritar com todos, mas ele queria, sinceramente, ser levado a sério ali. Sentou quieto no lugar onde havia caído após a luta com Lee e Sasuke estava muito longe para lhe tirar a sensação de exclusão. Seguiu o resto do dia disperso e amuado.

O céu tinha uma coloração alaranjada quando Kakashi deu por encerrado o treinamento. Não deu espaço para questões e sumiu assim que marcara o próximo dia de aprendizagem.

Naruto se jogou para trás e encarou o teto, mal-humorado com o mundo. Notou um par de pernas paradas ao seu lado. Ignorou-as até irritar-se com as presenças delas ali.

- Que é que você quer, hein?

Naruto se levantou num pulo, e toda a sua raiva se dissipou ao encarar o sorriso que ia de orelha a orelha no rosto de Lee. Ficou sem reação ao vê-lo fazer uma mensura de quase noventa graus.

- O-oe...

- Muito obrigado por dar-me a honra de treinar com você hoje, Uzumaki-san! O fogo da juventude arde vivamente em você e espero com toda a sinceridade ser digno de ser seu adversário em um duelo próximo.

O loiro piscou os olhos arregalados. Honra? Fogo da juventude? Ser digno? Ele tinha mesmo noção do que e para quem estava dizendo tudo aquilo? Talvez sim e talvez ele pouco se importasse com os boatos.

Naruto coçou a cabeça e riu, sem graça.

- Sobrancelhudo, não entendi nada do que você falou, mas gostei de você. E da próxima vez irei vencê-lo, dattebayo!

- Irei me esforçar para estar a sua altura. Tenha um bom dia, Uzumaki-san!

Lee correu para colocar os zōris e se virou quando ouviu Naruto dizer:

- Meu nome é Naruto e eu prefiro ser chamado por ele.

O garoto de cabelo preto cortado em forma de owan ofereceu ao Uzumaki um sinal positivo com o dedão para demonstrar entendimento. Saiu do dojo como se estivesse com pressa. Cara engraçado.

Sasuke se aproximou do amigo com um olhar interrogativo evidente e com uma fisgada de ciúme bem escondida. Naruto encolheu os ombros para a pergunta muda e só então percebeu o local vazio.

- Cadê todo mundo?!

Sasuke por pouco não revirou os olhos. – Achou que todos iriam esperá-lo para irem juntos à cerimônia do chá?

Naruto olhou para o Uchiha com o orgulho ferido. Sabia, contudo, que as palavras duras só tentavam protegê-lo e fortalecê-lo. Ninguém iria convidá-lo para qualquer outra atividade que fosse e, com exceção de Sasuke e agora Lee, ninguém faria questão de reparar na sua existência.

Os dois garotos desceram até o sudoeste da vila por trilhas secundárias, evitando as estradas utilizadas pelos aldeões. Conversaram sobre o kenjutsu e Naruto elogiou a contragosto o embate do amigo contra Shikamaru. O moreno disse com um tom de desculpas que havia perdido a luta de Naruto com Lee.

- Ainda bem, 'ttebayo. Foi vergonhoso. – e ele balançou a cabeça, desconsolado.

Terminavam a conversa sobre o treino quando chegaram ao topo da Rocha Hokage, um monumento com os rostos dos quatros Hokages que já haviam governado Konohagakure esculpidos na montanha. Por alguma razão desconhecida para muitos, o rosto do Yondaime Hokage estava irreconhecível e ninguém era ouvido comentar sobre ele.

Naruto chegou perto da borda da rocha ouvindo Sasuke responder sua indagação.

- Itachi-ani-san comentou que Kakashi nunca havia gostado de ser um A.N.B.U. e por isso ficou bastante satisfeito ao ser desvinculado para ensinar-nos kenjutsu. Ele disse que todos ficaram surpresos porque Kakashi era o melhor deles. Humph. Tolos.

O loiro entendeu a indignação do garoto.

- Quando Kakashi-sensei fazia parte da A.N.B.U. era como se aceitasse tudo o que fizeram contra Hatake-san.

- E também como se estivesse destinado a seguir os passos dele. – Sasuke deu um sorriso amargo. – Acho que a máscara não cumpriu bem com o seu objetivo.

Ele observou ainda Naruto cerrar os punhos e tremer de fúria. Viu a mesma paisagem que o loiro fitava; os cidadãos e suas rotinas, mercadores ambulantes e crianças desobedientes. Viu os templos e os santuários dos grandes e pequenos clãs. Tudo era reconfortantemente familiar e, por causa disso, cruel, pois tanto Sasuke quanto Naruto se sentiam deslocados naquele ambiente afeito. Estavam desprotegidos a toda crueza que podiam ser expostos.

- Eu queria odiar todo mundo. – confessou Naruto com a voz tensa. – Todo mundo que me evita e cochicha sobre mim, sobre o Ero-Sennin, sobre o Kakashi-sensei. Odiar todos que cospem no nosso templo quando passam, que nos apelidam e se apegam a boatos. Só queria poder conseguir odiar todos que fazem sofrer as pessoas que eu amo.

- Usuratonkachi.

Um barulho abafado se deu após Sasuke dar um tapa na cabeça de Naruto. O loiro chiou apertando as mãos na cabeça e tentou limpar o rosto molhado sem que o Uchiha percebesse. Mas este fitava a vila lá embaixo.

- Você não vai odiar ninguém porque este não é quem você é, dobe. Seu jeito de se vingar é fazer com que todos virem seus amigos, que passem a gostar de você. Você não vai conseguir escapar deste seu destino.

Naruto olhou surpreso para Sasuke. Observou Konohagakure e se lembrou de tudo o que ainda queria fazer, das pessoas que queria conhecer, das boas lembrança que guardava. Uma força de vontade abrasadora cresceu dentro dele. Iria vencer o destino que teceram para ele ou não se chamava Uzumaki Naruto.

- Deixe o ódio comigo. – murmurou Sasuke fitando pela primeira vez o que um dia foi sua casa.


Sasuke tinha quatorze anos quando matou um ser humano pela primeira vez. Sinceramente, esperou que a deidade da vila aparecesse para lhe punir ou que a desgraça da raposa de nove caudas assolasse instantaneamente toda Konohagakure. No entanto, nada aconteceu. Nenhuma mudança cósmica, nenhuma aparição espiritual, nem um mísero arrepio na espinha. Sasuke não havia sentido nada.

Rasgou o peito do homem sem se abalar. Sentiu o sangue quente dele respingar em si isento de remorso ou nojo. Não havia sentido prazer ao matar, o ato não o agradava de maneira alguma. Apenas sentia que era o que deveria fazer, e fez. Não era certo, não era bonito; era necessário.

O corpo tombou e Sasuke constatou que seu dever estava cumprido.

Há alguns meses, um grupo de estudiosos revolucionários viera a Konohagakure com o pretexto de trazer avanços à vila e, com isso, prosperidade. Porém, a vila começou a suspeitar de ações escusas. Pessoas começaram a sumir, acidentes bizarros a acontecer e de um dia para o outro Uzumaki Naruto viu-se alvo de perseguição. E, como uma promessa que não precisava ser dita, Sasuke passou a protegê-lo.

Quando assistiu ao Uchiha realizar o ato de tirar uma vida com tanto desprendimento, Naruto sentiu uma grande inquietação crescer no âmago de sua alma e de repente um medo irracional o invadiu. Recuou alguns passos enquanto Sasuke, com as costas voltadas para ele, vasculhava a vestimenta do homem abatido. Tudo ao seu olhar era quase monocromático. As drogas que ainda circulavam pelo organismo de Naruto o desequilibraram e ele caiu sentado no chão. O baque o assustou e chamou a atenção de Sasuke. Quando o moreno virou para encará-lo, Naruto estava no controle de seu corpo novamente.

- Você está bem?

- Se eu levantar, vou acabar vomitando em você.

Um dos cantos dos lábios de Sasuke curvou para cima num sorriso introvertido, mas verdadeiro. Limpou a espada e as mãos ensanguentadas no hakama azul. Embainhou-a e foi ajudar o amigo. Passou o braço dele por cima do ombro e segurou-o pela cintura puxando-o para cima. Tudo ao redor de Naruto rodou e ele prometeu que nunca mais brincaria com um koma por piedade.

- Os malditos envenenaram meu misso ramen. Se eles me enfrentassem em uma luta justa, eu teria socado todos facilmente, 'ttebayo. – sua voz falhou e ele teve que pausar para tossir. – Cacete, não posso nem comer em paz. Como você nos achou?

- Akamaru. Kiba ficou no caminho atrasando quem estivesse na estrada. Pelo visto, deu certo.

- Droga, depois vou ter de agradecer o Kibaka. – mas Naruto não pareceu incomodado em passar por cima de sua rivalidade para agradecê-lo, pois era isso o que acontecia quando se é amigo do seu rival.

Com Sasuke, no entanto, Naruto nem precisou gastar saliva. Porque não era preciso e porque o moreno costumava recusar qualquer palavra de gratidão.

Naruto fitou a shikomizue que Sasuke adotara como arma bem presa ao hakama ensanguentado dele. Tudo lhe pareceu fora do lugar. Pelo o que entendia da maldição de Konoha, o escolhido deveria se manter longe da vida de um guerreiro. O que acontecera minutos atrás estava errado.

- Nee Sasuke, tudo bem mesmo?

O Uchiha entendeu a real questão.

- Só se preocupe em como vamos expulsar essas ervas do seu corpo. E em arranjar um kimono mais discreto.


No ano em que se seguiu, Sasuke se tornou uma ajuda essencial para a A.N.B.U. Cogitaram fazê-lo membro da organização especial, mas Itachi foi terminantemente contra. Sendo o Uchiha mais velho um integrante de peso da A.N.B.U. e o mais novo protegido pelo seu título de Grande Sacerdote, de modo negativo na visão de Sasuke, ele manteve sua posição, se contentando por ser treinado por Hatake Kakashi.

O cheiro pungente de saquê que vezes se desprendia de Sasuke (apesar de ninguém, salvo Naruto a raras exceções, o tivesse visto alcoolizado) deu lugar ao aroma gorduroso de sangue. O kamon do clã Uchiha que outrora foi reconhecido por carregar uma linhagem sagrada construída a duras penas após séculos de barbárie, presentemente era associado aos sanguinários irmãos. Itachi, o mais velho e mais compassivo; e Sasuke, o mais novo e mais inclemente. Outra vez, o clã Uchiha evidenciava o caminho vermelho pelo qual toda aquela família, desde os primórdios de sua existência, trilhava.

Para Sasuke, chegou um momento que não havia mais nada que pudesse aprender ali e ele se sentiu preso. Sentiu que poderia mais se se afastasse da superproteção velada de Itachi. Konohagakure era sua casa, lugar sob sua proteção; porém, não era o mundo que parecia ser quando era apenas uma criança. Para conhecer a imensidão de sua própria alma, Sasuke necessitava conhecer a imensidão para além da cadeia de montanhas que cercava a vila.

A despedida com Itachi foi dura, penosa. Ele não tentou dissuadir Sasuke, mas não escondeu sua dor. E a dor de Itachi refletia no irmão mais novo. Nestes quinze anos de vida, Sasuke nunca havia vivido um dia sequer sem ter a presença de Itachi no seu cotidiano. Seja de suas palavras, ensinamentos, brincadeiras; seja de seus gestos: um dango deixado sobre a mesa, uma manta que não lhe cobria o corpo antes de dormir. Ir embora era deixar uma importante de si para trás, talvez a mais preciosa.

Itachi sorriu algo triste, mas condescendente e orgulhoso.

- Sei que estou deixando-o em boas mãos e que você deve trilhar o seu próprio caminho. Mas há uma vila esperando, dependendo de você. Por isso, não vá se perder, orokanaru otouto.

Ele bateu dois dedos na testa de Sasuke como fazia quando eram mais novos e o garoto não soube dizer quando havia começado a chorar.

Kakashi pareceu decepcionado consigo mesmo quando seu pupilo contou seus planos. Ao mesmo tempo, Sasuke notou, ele pareceu aliviado como se estivesse enxergando a si mesmo se, há muito tempo atrás, tivesse tomado as mesmas decisões que o moreno, se tivesse seguido pelo caminho melhor. Sasuke se sentiu mais seguro de suas ações. Nunca havia percebido o quanto a opinião de Kakashi lhe era importante.

Tentou também se despedir de Hinata. Parou três vezes enfrente aos muros do clã Hyuuga, e nas três vezes recuou. Na quarta visita, deixou furtivamente três crisântemos amarelos na janela da herdeira Hyuuga e esperou, com uma confiança que sobrepujava o receio, que ela entendesse.

Um dia antes a viagem, Naruto e Sasuke encontravam-se novamente no topo da Rocha Hokage, em pé à luz do fim do dia. Não se encaravam, apenas corriam os olhos despreocupadamente pela vida que pulsava pelas estradas de Konohagakure.

- Um parente meu escapou do massacre de Madara ao clã. Irei até ele para aperfeiçoar as técnicas Uchiha. Será uma longa viagem.

- Então vou ter que tomar canta de tudo até você voltar? Heh. – Naruto passou um dedo pelo nariz e sorriu confiante. – Vai ser um bom treino pra mim, dattebayo.

- Humph. Está querendo se tornar um A.N.B.U.?

Sasuke deu ao amigo um olhar enviesado e viu-o esticar o braço como se quisesse alcançar o sol. Seu sorriso aquecia e iluminava tanto quanto o astro ao meio-dia.

- Não, teme. Meu nome vai ficar registrado para sempre nos pergaminho do Ho no Kuni como Uzumaki Naruto, o soberano de todos os reis. Eu vou dar o melhor para o meu povo, todos serão felizes, serão livres e prósperos. Eu vou ser rei, teme. Vou me tornar um exemplo para todos, 'ttebayo.

Sasuke estudou o sonho de Naruto. Viu-se estendendo seu papel de protetor da vila para todo o país e a ideia lhe agradou. Mas, desta vez, seguiria por seus próprios caminhos.

- Então eu serei a sua katana, para proteger você e a paz do seu reino. Isso é uma promessa, dobe?

Ambos viraram para se encarar. Para selar a promessa, chocaram seus punhos um contra o outro. Era, agora, um compromisso de irmãos.


Sasuke voltou à Konohagakure dois anos após sua jornada, se é que podia defini-la assim. O rapaz planejava estender sua viagem por anos e anos, mas uma voz lhe soprou nos ouvidos para voltar e ele, como se enfeitiçado, seguiu caminho de volta. Contudo, a sua curta jornada resultara em um Sasuke mais abnegado e forte. Estava claro que deixara para trás tanto a criança alegre quanto o adolescente caótico. Ainda tinha muito que amadurecer, mas já era o homem que sabia a própria identidade.

Caminhou pelas ruas de Konohagakure perante portas e janelas fechadas como se há muito não houvesse mais habitantes na vila. Deixou-se levar por um caminho incerto e sentia que alguma energia guiava seus passos. Sasuke sentia-se anestesiado e ao mesmo tempo bem.

Desde que sua casa fora incendiada e sua família morta pelas mãos de Uchiha Madara, o rapaz não havia mais se aproximado da propriedade do clã. Até agora.

O muro de pedra que delimitava o terreno fora consumido pelo tempo, mas continuava em pé como se nem as intempéries dos deuses o obrigasse a deixar de proteger o clã Uchiha. Sasuke lembrou o quanto eles lhe ameaçavam quando ainda era uma criança, pareciam intransponíveis. E então ele se aproximou do portão de madeira e empurrou com facilidade o que havia sobrado dele.

Aquela era a sua casa. Apesar do abandono, das toras de árvores queimadas, do vazio, da falta de vida; nenhum lugar superaria o que aquele pedaço de terro morta significava para o Uchiha.

Um vulto no canto esquerdo dos olhos chamou a atenção do rapaz e ele por um fração de segundos imaginou que fosse Izumo, o leal guarda do clã Uchiha. No entanto, o kimono lilás estampado de borboletas e o longo cabelo tão escuro quando o seu próprio resgatou outras lembranças dele.

Hinata parou de frente ao Uchiha e ele se surpreendeu ao perceber que ela chorava. Sentimentos conflituosos o deixaram por um momento sem saber como reagir. Segurou a respiração quando os olhos sem cor da Hyuuga o encararam e, apesar de estar feliz por vê-lo, uma angústia transbordava deles junto às lágrimas.

- Ajude-o, Sasuke-san. Por favor. Só você pode libertá-lo.

Sasuke não compreendeu o que ela pedia e também não se importou com isso. Faria qualquer coisa para vê-la sorrir. Por isso, limpou as lágrimas que escorriam pelo rosto delicado dela e segurou-o entre as mãos.

- Sasuke. – disse simplesmente.

Viu um sorrir surgir nela, um pequeno levantar de lábios, e então Hinata chorava novamente para expressar o alívio. Desta vez, ela assumiu uma postura confiante e abriu-lhe caminho. Sasuke inclinou a cabeça para frente e lhe direcionou um último olhar. Caminhou até a escadaria que subia a montanha em linha reta conectando-se a todos os locais da propriedade, olhou para cima por alguns segundos e iniciou a subida.

Ao pé de uma pequena escada de pedra, ao lado direito do curso principal da montanha, Sasuke observou o que havia restado do torii. As inúmeras lanternas também de pedra que decoravam a orla do caminho estavam enegrecidas, mas inteiras. Chegou a se perguntar se kami-sama realmente se importava com o seu santuário, pois nada havia feito para impedi-lo de ser consumido pelas chamas criminosas de Madara, contudo afastou rapidamente aqueles pensamentos. Algumas coisas deveriam de acontecer e o importante era crescer a partir delas, e não questioná-las.

O temizuya estava intacto e água limpa escorria por ele. Apanhou a concha sem deixar de estranhar o fato e mal prestou atenção no ritual que realizava. Desculpou-se mentalmente a todos que acreditavam no seu futuro como shinshoku do clã Uchiha. Não era mais a criança crente de outrora, se tivesse de matar a raposa de nove caudas, o faria do seu jeito. Não iria cumprir as expectativas de um dever que só trouxera dor à sua família. Era agora um homem juramentado à sua espada, e sendo assim agiria sob a honra desta classe de guerreiro.

Sasuke percorreu o sandō de cabeça baixa, tonto pelas lembranças que invadiam sua mente. Educado por tantos anos pela crença xintoísta, o Uchiha acalmou-se gradativamente durante a caminhada. Ganhou forças das recordações que tinha da mãe que era tão gentil e alegre. Ela fora a mulher mais linda que Sasuke já conheceu.

De frente ao Hoden, o rapaz viu um edifício de cores apagadas cujos detalhes arquitetônicos não existiam mais devido ao incêndio. Apesar da adversidade, ele continuava de pé como se ainda tivesse um dever a cumprir. Uma forte energia acompanhou Sasuke enquanto ele adentrava o salão sagrado e foi a mesma que puxou os olhos escuros dele até a figura ajoelhada no fundo do edifício.

A iluminação não era tão boa e o Uchiha bloqueava a luz que vinha de fora com o próprio corpo. Entretanto, não teve dificuldades para notar Lee sentado no chão com o rosto inchado e o nariz escorrendo. Kiba mantinha-se claramente apoiado em sua naginata e olhava para o assoalho de madeira com uma expressão dura; Shikamaru, mais ao fundo, sentado em cima das pernas, fitou o Uchiha por poucos segundos e depois os desviou, envergonhado. Shino e Chouji também estavam embaraçados o bastante para encarar Sasuke enquanto ele caminhava em linha reta. Os passos dele pararam e seus olhos se fixaram incertos no rapaz que ali jazia.

Naruto mantinha a cabeça caída para frente; seu cabelo loiro, agora um pouco mais comprido do que da última vez que Sasuke o vira, tampava os olhos cerúleos dele. O corpo ajoelhava de cansaço apesar de seus joelhos mal encostarem-se ao chão. Com os braços abertos, cordas amarravam seus pulsos em carne viva. O kimono laranja surrado escorregava por seus ombros e ele parecia fraco, mais fraco do que jamais o vira. Uma fraqueza física, emocional e espiritual.

"Ajude-o, Sasuke-san."

Às costas de Naruto, uma energia vermelha alaranjada gigantesca chacoalhava de um lado para o outro fazendo lembrar nove caudas de uma raposa. Elas tentavam algumas vezes arrebentar as cordas que prendiam Naruto, mas os selos colados nelas repeliam a energia ignescente.

"Por favor."

- Naruto?

De imediato, seu estimado amigo levantou os olhos. Mas não era ele que o encarava. O olhar feroz irradiava dos olhos vermelhos de pupilas finas. O sorriso débil arreganhado mostrava as presas salientes. As seis marcas horizontais que marcavam as bochechas de Naruto pareciam mais grossas. Havia raiva e angústia emanando dele e estes sentimentos pareciam querer entras pelos poros de Sasuke e fazê-lo senti-los também.

"Só você pode libertá-lo."

Então esta era o teste final que kami-sama havia preparado para ele. Impassível, Sasuke observou a Kyuubi no Kitsune rosnar e puxar os braços amarrados machucando ainda mais os pulsos. Havia prometido proteger Naruto do mundo e agora era o mundo que precisava ser protegido dele. Sasuke sentiu os sentimentos expostos nos olhos da raposa: a raiva, a tristeza, o medo, o pedido mudo por liberdade e, ao mesmo tempo, pela morte. Sasuke, porém, cumpriria com seu dever mesmo que isto significasse trair a si próprio, mesmo que significasse viver com ainda mais sangue nas mãos.

Ouviu passos se aproximando da entrada do santuário e não precisou se virar para saber que eles pertenciam a Itachi e a Kakashi. Os curtos anos não foram suficientes para apagar as características de suas passadas da memória de Sasuke. A dor deles também era palpável ao jovem Uchiha; a obediência cega de Itachi e a displicência de Kakashi eram conflitantes, mas, por outro lado, o guiaram para o caminho certo.

Sasuke desembainhou a shikomizue presa nas costas e de imediato chamas vermelhas envolveram a lâmina. Apavorada, a Kyuubi no Kitsune começou a se debater, urrando e ainda assim fraca para pôr-se de pé. Pelo canto dos olhos, Sasuke notou Kiba dar um passo em direção a saída, mas Shino o segurou pelo ombro. O choro sentido de Lee e a oração baixa de Shikamaru flutuavam pelo Hoden contrapondo-se aos uivos da raposa. Naruto havia feito amigos, o Uchiha notou, sinceros amigos tal qual ele desejava ardentemente.

Num último esforço, Naruto fechou os olhos. Morreria sim, ainda tão novo e com tanto para conquistar; morreria pelo bem de todos. Mas morreria como humano, como Uzumaki Naruto. Lágrimas escorreram pelo rosto dele enquanto murmurou extenuado:

- Eu não os odeio. Faço-os cientes disso, Sasuke. Diga a eles que eu não os odiava. Nem um pouco, nem que eu quisesse.

Uma gota salgada pingou aos pés de Sasuke quando ele brandiu a espada em chamas. A energia que emanava de Naruto foi toda contida dentro dele e ele esperou pelo golpe de misericórdia.

Um baque surdo no assoalho de madeira ecoou por todo o santuário. Itachi fechou os olhos sem impedir o choro silencioso. Kakashi se apoiou no batente da porta e apertou o osso do nariz, trêmulo e quase fora de si. Kiba se deixou cair e acompanhou Lee num choro ruidoso, o corpo sacudindo à força da gargalhada que parecia vir da alma e dela tirar forças.

Naruto olhou, confuso, para as próprias mãos. O mundo ganhava cores novamente e algo dentro de si agradeceu e caiu no sono. Naruto sentiu que ele adormeceria para sempre porque aquele era um espírito machucado e cansado de viver sozinho e de infligir dor; e ele achou seu lugar no coração caloroso de Naruto. Seu monge não precisava mais de sua proteção, pois agora ele era amado e protegido.

O jovem Uchiha embainhou a shikomizue sem pressa. Leu nos olhos de Naruto todos os seus questionamentos, o medo de estar vivo. Sem demonstrar ainda qualquer sentimento, Sasuke ajoelhou-se em frente ao loiro e seu olhar foi como um cascudo repreensivo nele.

- À minha linhagem, foi incumbido o dever de aprisionar a cada era o poder da Kyuubi no Kitsune que havia, em um ato de vingança, se apoderado do corpo de um ser humano e fundido sua alma à dele. O que a fazia causar destruição a Konohagakure era seu ódio irrefreável. – Sasuke fez uma pausa como se tivesse esquecido a continuação da história. Mas as vozes de Itachi, Fugaku, Mikoto, Obito e até de Madara a quem havia encontrado anos depois do massacre a sua família e perdoado após reconhecer nele um pai solitário e um Uchiha alquebrado, ecoavam por seus ouvidos.

"Hmph. Minha missão era matar este demônio guiado pelo ódio, mas não é ele quem eu vi amarrado mais cedo. Eu vi um idiota que não é capaz de odiar ninguém, nem na hora da morte. E se não tal sentimento, não há ameaça. Não se ache tão perigoso, dobe. Você está mais para um bibiki-kun do que para uma raposa vingativa. É fraco até para odiar, só sabe amar. Este é o seu jeito amaldiçoado de ser."

Naruto encarou Sasuke por longos minutos, estático ante as suas palavras. Aos poucos, lágrimas foram se acumulando nos olhos tão azuis quanto o céu ao meio-dia, e como uma criança Naruto chorou. Apertou os olhos e abriu a boca para gritar e soluçar. Sasuke pousou uma mão sobre a cabeça dele e o empurrou para si. O Uzumaki agarrou-se ao kimono azul do amigo e chorou até o cair da noite. E Sasuke não saiu do lugar dando a Naruto o espaço do qual ele precisava para se sentir o que era estar vivo.


O Ho no Kuni não é reinado por dinastias; o rei em exercício de seu poder escolhe seu sucessor a partir de diversos critérios, pessoais e governamentais. Para manter a integridade do reinado e o bem contínuo do povo, o rei procura em seu sucessor bom coração livre de sede de poder e ganância. Graças a este ciclo, pouco sofreu o Ho no Kuni nas mãos de seus governantes.

Houve um reinado em especial influenciou séculos de prosperidades e alimentou histórias de inspiração. O rei era jovem e sucedera o Grande Tenzo, o simples e bem-humorado monarca que morreu precocemente dada a uma enfermidade sem cura. Tenzo, o nome registrado nos pergaminhos, levou a sério o rapaz que viera até o seu palácio para confessar seu desejo de governar o Ho no Kuni. O rei viu nele as qualidades necessárias para cuidar do povo que tanto amava e o criou para o trono. Este jovem, contavam, havia quebrado as correntes amaldiçoadas que o prendiam à morte e trilhado em direção ao seu sonho: proteger a todos, cuidar de todos, amar a todos.

Este rei, que diziam ser escolhido por Amateraru Oomi Kami para iluminar com a luz do sol o caminho pelo qual passava, trouxe anos de paz para o Ho no Kuni unindo as vilas internas e criando alianças com outros países. Foi ele o responsável pelos séculos de entendimento com o Suna no Kuni, até então o maior inimigo da nação, e sua amizade com o rei habitante do deserto durou até o último dia de suas vidas.

Contudo, o rei de Ho no Kuni nunca esteve sozinho. Amigos leais o seguiam e o apoiavam com estima, confiando em suas ações e lutando ao seu lado caso fosse preciso. E ao seu lado direito, sempre, para protegê-lo e assegurar a união do país, estava o seu assassino, a sua navalha diplomática. Mas, acima de tudo, o seu melhor amigo.

.

Omoi kasane yume wo kasane hibi wo kasane

Ase ni mamire namida korae chi wo tagi rase

.

- Itai.

Tsunade abriu um dos olhos para fitar a mulher idosa que cuidava do jardim de flores. Não estava surpresa por ela reclamar baixinho de dor, mas o filete de sangue que escorria da ponta de seu dedo surpreendeu a sacerdotisa de longos cabelos loiros. Não compreendia por que ela decidia por sentir dor, frio, sede, fome igual a um ser humano se tinha a imunidade divina.

- Incrível como o tempo passa e a gente não percebe, não é, Tsunade-kun? – a idosa inclinou de leve a cabeça para o lado e o coque no alto de sua cabeça pareceu vacilar com gesto enquanto ela observava seu pequeno ferimento. – Ciclos são quebrados, heróis são consagrados e tudo o que um dia foi deixa de ser. Tudo tão rápido quanto a passagem de uma vida humana.

Tsunade encarou a mulher por alguns segundos, confusa e meditativa. De repente, arregalou os olhos marrons.

- O portador de Kurama faleceu? – perguntou apreensiva.

- Sim, sim. Rápido, não é? Parece que foi ontem que ele foi aprisionado. Mas não foi só isso, Tsunade-kun. Kurama-san foi libertado de suas correntes e parece ter aprendido a sua lição.

Tsunade franziu as sobrancelhas e observou a senhora colocar a ponta do dedo na boca para estacar o sangue, despreocupada. Mexeu-se inquieta na varanda do santuário onde estava sentada.

- Ele foi perdoado pela vila?

- Não, pelo seu algoz.

Desta vez, porém, foi a garota de cabelo róseos que orava em frente ao altar do santuário que questionou a anciã.

- Mas não deveria ser ele alguém puro? Que eu saiba, Sasuke-san já tinha as mãos manchadas de sangue quando Kurama-san tomou totalmente controle do corpo de Naruto-kun.

- Isso não lhe diz respeito, Sakura. Volte às suas orações.

A garota abriu e fechou a boca para retrucar Tsunade, indignada. Olhou mais uma vez para a mulher idosa antes de se virar, emburrada, para o altar.

- Só uma alma pura seria capaz de libertar Kurama-kun, sim, Sakura-chan. – respondeu a anciã com gentileza. – Sasuke-kun carregou por toda a sua vida uma katana suja de sangue, mas também foi ele capaz de perdoar. Perdoou os anos de sofrimento que Kurama-kun causou a Konohagakure, perdoou o assassino de seu clã, protegeu aquele a quem muitos queriam julgar; e reconheceu nos três amor e riqueza de alma. Com seus atos sinceros, chegando a renunciar mesmo a mim, Uchiha Sasuke-kun foi capaz de enxergar pureza e expulsar o ódio deles. O perdão é um ato nobre, Sakura-chan. O meu trabalho foi castigar estas três almas por muitas eras, pois só elas são capazes de extinguir as impurezas que provocaram. Agora, minha labuta se encerrou.

Sakura refletiu sobre as palavras, quieta e obediente. Já Tsunade fez uma careta e guardou sua opinião contrária para si.

- A senhora que sabe, kami-sama.

A velha gargalhou voltando para as suas flores, para a vila onde era venerada por sua proteção e sabedoria.

.

I wanna ROCKS

Mune ni ROCKS


Glossário: dojo - espaço de treino de artes marciais japonesas; shakujo - cajado utilizado por monges budistas para reza ou para ataque e defesa; zōri - sandálias semelhantes a chinelos feitos de palha de arroz ou outras fibra vegetais; ninjaken - espadas de lâmina curta, menos que uma katana; kenjutsu - arte marcial japonesa correspondente ao manejo de espadas; owan - tigela oriental para servir, entrou outros pratos, missoshiru; Yondaime - título de quarto Hokage; Ero-Sennin - literalmente, Eremita Pervertido; hakama - vestimenta típica japonesa, principalmente entre praticantes de artes marciais, semelhante a uma calça larga de pregas; koma - pião japonês; shikomizue - espada de lâmina reta, mais utilizada por ninjas por causa da facilidade de mantê-la escondida; dango - bolinho doce japonês feito de arroz e normalmente servido espetado em um palito; orokanaru otouto - irmãozinho tolo, bobo; torii - portais japonês que indicam a presença de um santuário xintoísta; temizuya - bacia de pedra com água cristalina onde se realiza o ritual de purificação para se entrar no santuário; shinshoku - sacerdote xintoísta; Hoden - edifício principal de um santuário, é onde dizem residir kami; naginata - lâmina japonesa montada em uma haste longa; Kyuubi no Kitsune - raposa de nove caudas; bibiri-kun - gato assustado, medroso; Amateraru Oomi Kami - deusa xintoísta do sol.


Observação 1: os trechos no final da fanfic correspondem à música "Rocks" da banda Hound Dogs. É a primeira abertura do animê.

Observação 2: a cena no Hoden, a personaficação de kami como uma idosa humana e a interpretação da mesma em relação a "pureza" é tudo licença poética. Não quis desrespeitar a religião muito menos distorcê-la.


N./A.: Deu preguicinha de digitar o resto da história, mas aqui está, finalmente. Espero que gostem.

Reviews são bem-vindas.