Domo pessoal

Antes de começarem a ler esse capitulo, tenho uma coisa a explicar. A história da Virgem de Gelo, originalmente iria ser uma UA que iniciaria uma nova saga. Mas como essa ainda esta só no começo e eu não daria conta de levar duas sagas ao mesmo tempo, decidi que as historias que eu pretendia escrever como UA dessa saga, seriam adaptadas para os personagens que já lhes foram apresentadas.

Sendo assim, não estranhem de ver o Kamus protagonizando a historia que a Aishi vai contar, mas espero sinceramente que gostem.

No mais

Boa Leitura!

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Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aishi, Heitor e Harmonia são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.

♥♥♥

.::A Virgem de Gelo::.

By Dama 9

Capitulo 2: A Lenda.

.I.

Há muitos séculos atrás, uma vila modesta nas ilhas gregas, vivia um jovem escultor, obra alguma era impossível a seus olhos, crianças, homens e animais eram perfeitamente esculpidos por suas mãos, porém, ao buscar o máximo da perfeição em seus trabalhos, esse jovem deixou que aos poucos seu coração fosse tomado pelo gelo.

Aqueles que mais lhe procuravam eram mulheres, tomadas pelo desejo e vaidade, que requeriam seus serviços para imortaliza-las no mármore. Com o passar do tempo, desgostoso com essa situação, passou a deixar de acreditar que um dia a encontraria... A única mulher que não fosse como as outras, vis, levianas e egoístas, seres indignos de seus sentimentos. Mas a paciência não era bem uma virtude para si, quando não estava esculpindo, assim ele passou a acreditar que jamais a encontraria, até que isso um dia aconteceu, de uma forma que ele jamais sonhou...

-Mas tia, como ele se chama? –Harmonia perguntou com os olhos brilhando.

Todos mantinham os olhos atentos sobre a amazona esperando-a contar a historia, o mais interessante é que nem mesmo ele parecia alheio a isso. Seria interessante ter sua desforra pelos dias de irritação; ela pensou voltando-se para garotinha com um olhar enigmático, certamente percebido pelos demais.

-Harmonia!

Embora aquela não fosse uma historia propriamente infantil, sabia bem como dizer o que estava pensando de uma forma que seria facilmente entendida, mas o que mais queria ver era a reação de Saga a isso, já que o mesmo lhe provocara desde o começo.

Possivelmente o cavaleiro queria ver algum rompante de irritação sua, onde saísse berrando aos quatro ventos tudo que pensava, o que sem duvidas não era o mais indicado para isso, porém agora o que mais queria era fazer a alegria das crianças; um sorriso quase irônico passou pelos lábios dela ao aprofundar-se na historia, esquecendo completamente do resto do mundo.

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.:: A Virgem de Gelo ::.

O dia nascera claro, sem sinais de chuva, perfeito para trabalhar. Com formão e espátula na mão, sentou-se em um banquinho de madeira. Olhou a peça em diversos ângulos, buscando aquele que lhe apetecesse.

Longos minutos se passaram até que suspirasse entediado, mas porque raios não lhe vinha inspiração alguma? –ele se perguntou irritado.

Suspirou, assoprando a franja esmeralda, fazendo alguns fios finos caírem sobre seu olhos, jogou o formão no chão onde jaziam alguns panos e espátulas que pretendia usar, isso é claro, se sua mente estivesse colaborando.

-Kamus! –ouviu alguém lhe chamar na entrada da casa.

-Ah não; ele suspirou com ar ainda mais desolado do que antes.

Logo um rapaz pouco mais novo que si entrou, vestindo-se com simplicidade, digna da vila em que viviam. Ele tinha longos cabelos azulados, puxando para tons violeta e os orbes incrivelmente azuis, porém o sorriso, era melhor nem descreve-lo, já que o mesmo parecia sempre carregados de segundas, terceiras e quartas intenções.

-O que quer Milo? –Kamus perguntou sabendo que não teria como fugir do 'amigo'.

-O que esta fazendo enfurnado aqui? –o rapaz perguntou arqueando a sobrancelha ao vê-lo novamente em frente a um bloco de mármore inexpressivo, como o próprio dono em dados momentos.

-Trabalhando, algo que você parece desconhecer; ele respondeu adquirindo uma postura mais fria.

-Ah deixe disso, você não tem encomenda alguma para hoje e esta com essa cara; Milo reclamou. –Porque não vem dar uma volta comigo, hoje é dia de feira e sempre podemos encontrar algumas coisas interessantes por ir; ele falou com os orbes brilhando de pura felicidade.

-Não; Kamus respondeu taxativo.

-Porque não? –Milo perguntou num tom indignado.

-Porque estou trabalhando, já disse, alem do mais, não gosto dessas feiras. Isso não passa de mais uma desculpa para essas alcoviteiras ficarem se metendo na vida alheia; ele exasperou.

-Sabe o que eu acho? –o rapaz falou, porém antes de ter uma resposta ele continuou. –Que você precisa de uma namorada, acho que ficar tanto tempo com esses blocos de mármore frios, possam ter endurecido seu coração, esta na hora de viver, onde já se viu, vai esperar acontecer um milagre quando já estiver pra bater nos portões de Hades? –ele falou veemente.

-Milo, se não quiser fazer parte integral de alguma estatua minha, suma da minha frente; Kamus exasperou, pegando o formão e uma lamina que deixava a seu lado para fazer algum entalhe mais delicado na peça, devido à ponta fina e afiada da mesma.

-Sou seu amigo, falo porque me preocupo com você; ele rebateu, vendo que nem assim ele parecia deixar aquele lugar para respirar novos ares longe dali.

-Então deixe a preocupação de lado, não me interesso por essas interesseiras que andam em sua companhia, agora deixa me trabalhar; Kamus completou.

-Se você quer assim; Milo respondeu um pouco contrariado enquanto se afastava. –Só espero que um dia encontre realmente o que tanto procura, seria uma lastima vê-lo criar tantas obras para aquecer os corações alheios, enquanto o seu mesmo permanece frio; ele completou num sussurro, que para ouvidos mortais seria impossível som algum ser distinguido, mas para outros...

-o-o-o-o-o-

Suspirou cansado, jogando o formão e a lamina fina no chão novamente. Tudo bem, ele estava certo... Parcialmente certo; Kamus concertou rapidamente. Mas a verdade é que quanto menos inspiração tivesse, mais seu mau humor aumentava.

Levantou-se do pequeno banco que sentara-se e afastou-se do bloco, talvez mais tarde surgisse alguma coisa. Resolveu deixar a casa e caminhar um pouco, para bem longe de qualquer bagunça que a feira estava causando.

Logo encontrou um lago de águas cristalinas bastante convidativos; ele pensou sentando-se confortavelmente ao pé de uma árvore e aproveitando a brisa suave que esvoaçava seus cabelos.

Aos poucos sentiu seu corpo relaxar, como se envolto em um véu de estrelas brilhantes que o levavam para o reino dos sonhos.

-o-o-o-o-o-o-

Abriu os olhos lentamente, sentindo a claridade ofuscar sua visão, achou que havia pegado logo no sono para não ver o tempo passar, já deveria ser de manhã e definitivamente tinha que ter voltado pra casa; Kamus pensou sobressaltado.

Ouviu o som de algo se mover, sentiu todos os músculos do corpo enrijecerem, será que era algum lobo, ou qualquer outro animal que poderia de alguma forma representar algum risco para si? –ele pensou preocupado.

Olhou para todos os lados e qual não foi sua surpresa ao ouvir tudo a sua volta entrar num mesmo ritmo suave, como se uma melodia estivesse sendo entoada pela própria natureza. Os pássaros que sobrevoavam sua cabeça pousavam sobre os galhos das árvores cantando com alegria, as folhas eram embaladas pelo vento Oeste e até Flora parecia contente naquele momento, pois as flores abriam-se vistosas e com delicadas gotas de orvalho a caírem sobre a grama naquele inicio de aurora.

Buscou pela origem do som e sentiu o coração falhar uma batida, as águas do lado pareciam ter-se aberto como por mágica, deixando uma fenda sobre o lago, onde uma jovem de longos cabelos dourados emergia.

Uma túnica branca quase transparente envolvia-lhe o corpo e a pele alva refletia aos raios cálidos de Hélios que ainda corria os céus do mundo com sua carruagem flamejante.

Era uma visão; foi a única coisa que ele pensou, prendendo a respiração instintivamente ao vê-la deixar a água.

Os orbes eram tão dourados quanto os cabelos e sua pele era como se fosse feita de mármore, mas o mais estranho era sentir a suavidade de sua pele na ponta dos dedos sem ao menos toca-la.

Seus passos eram calmos, como se seus pés mal tocassem o chão. Embevecido, ele apenas manteve-se no lugar, sem conseguir se aproximar ou recuar diante da aproximação dela.

Viu seus lábios se moverem como se fosse dizer algo, mas de repente tudo a sua frente tornou-se escuro. Tentou gritar pedindo para não sair dali, porém qualquer lamento foi tragado junto com o resto por um vórtice inexorável que sentia seu corpo preso ao nada e pelo nada sendo levado.

-o-o-o-o-o-

Sentiu o corpo todo frio, gotas grosas de suor corriam por sua testa e costas, abriu os olhos com brusquidão e quase pulou ao ver-se diante daquele lago ainda, porém ao fitar suas mãos, viu delicados flocos de neve a envolve-las, como luvas perfeitas.

Respirou fundo, tentando acalmar os pensamentos, mas nada parecia fazer sentido, o sonho, o gelo. Até que ouviu algo mover-se no bosque, ergueu os olhos e sentiu o coração novamente falhar uma batida ao vê-la a sua frente, porém não com as mesmas cores que vira em seus sonhos.

Agora ela era de gelo, mas para si ainda era real; ele pensou levantando-se.

Nenhuma gota de água a cobrir-lhe a pele, deixou a ponta dos dedos tocarem com delicadeza aquele gelo místico, inexistente naquela parte do mediterrâneo onde tudo era quente. Correu-os pelo ombro parcialmente desnudo pela alça da túnica de gelo, até descer a mão, onde dedos finos pareciam compor todo aquele personagem harmônio.

-Harmonia; o nome sussurrado por seus lábios parecia ecoar pelo lago como a voz de outra pessoa a sussurrar uma doce melodia em seus ouvidos. –Harmonia; Kamus pronunciou o nome com mais firmeza na voz, vendo que aquele sem duvidas era o próprio para descrever aquela obra digna dos deuses, pois nem ele, um hábil artesão na arte de confeccionar estatuas, conseguiria ter tão rara inspiração para extrair de um sonho, tão maravilhosa deidade.

Fitou-lhe atentamente, os cabelos formados por fragmentos de gelo caiam até pouco abaixo da cintura, lisos, porém nas pontas levemente ondulados, os lábios eram finos e bem desenhados, alguns fios antes dourados caiam sobre os olhos e num rompante de impulso teve vontade de afasta-los dali, como se para livrar-lhe os olhos daquele obstáculo.

Recuou alguns passos balançando a cabeça levemente para os lados, aquilo era loucura, ela não era real, era apenas uma estatua de gelo, vinda de sabe-se lá aonde, mas não deixava de ser gelo; ele tentou se convencer e sentiu um estranho aperto no coração ao ver o olhar antes tão bem esculpido na estatua, ganhar contornos de melancolia, como se ela pudesse ter ouvido seus pensamentos e o conflito que iniciava-se dentro de si.

Fitou-a longamente e quase pode ver uma lagrima solitária a desprender-se do gelo nos olhos e correr pela face que ainda podia sentir, ser tão macia como seda.

Aproximou-se novamente com mais cautela, viu uma das mãos levemente erguida e os dedos entreabertos, entrelaçou-os com os seus, sentindo os dedos delicados moldarem-se em sua mão como se houvessem sido feitos para sempre estar ali.

Aquilo era loucura, sem duvidas seria uma das coisas que Milo diria se dissesse o que estava sentindo por uma estatua de gelo, mas... Mesmo que não fosse real, agora seu coração já se recusava a acreditar nessa triste verdade, que fora uma estatua, uma estatua de gelo a aquecer seu coração.

Não havia dono, ou qualquer um ali por perto a lhe dizer a quem pertencia àquela musa, olhando para os lados nada viu que pudesse lhe espreitar, com um pouco de dificuldade para seus braços mortais, levou-a consigo, não desejando nem por alguns minutos separar-se dela novamente e mal sabia ele que as Deusas do Destino logo se encarregariam de tornar isso realidade...

.II.

Novamente via-se diante daquele bloco de mármore e a inspiração não vinha, pelo contrario, só conseguia pensar nela. Sua virgem de gelo, sim, era assim como chamava Harmonia. Aquela jovem dos seus sonhos que tomara forma vítrea surgindo como mágica a sua frente naquele lago.

Os dias foram se passado, mais e mais encomendas chegavam para si de peças que deveria confeccionar, mas a cada novo bloco de mármore a mesma forma nascia, a jovem de melenas douradas retratada em diversas posições, as vezes até o colo, outras quase até a cintura, de ângulos e perspectivas diferentes.

Mas em todas, seus olhares eram diferentes, qualquer um que a visse diria que eram a mesma estatua, apenas com detalhes a mais, sim haviam mais detalhes, mas demonstrados em seus olhos. Tão marcantes quanto todo o resto.

Em algumas, ela aprecia com o olhar vago, como se estivesse sentada na beira de um lago imersa em pensamentos esperando o dia passar e as respostas que buscava chegar com os sussurros do vento, ou como as lagrimas de Flora derramadas na grama como o orvalho da manhã.

Em outras, eram mais inquiridoras, como se exigisse respostas, mas nem isso tirava a delicadeza de seus traços, ou o contorno suave de seus lábios que tanto almejava tomar.

Alguns olhares ainda não conseguia decifrar e temia nem ao menos encontra-los em seus sonhos. Eram intensos e misteriosos, cujos significados não compreendia e sua mente nem ao menos era capaz de lhe dar pistas sobre o que ela poderia estar pensando para as íris adquirirem aquela intensidade e as longas pestanas moverem-se daquela forma que a deixavam apenas mais encantadora.

-Harmonia; Kamus suspirou novamente, enquanto olhava pra um bloco cru de mármore, tinha que concentrar-se em outra coisa e trabalhar, mas vê-la a poucos passos longe de si, já o fazia esquecer-se completamente daquilo que deveria fazer.

Há semanas estava assim, não que isso importasse a alguém, mas sentia-se frustrado ao ver que a única mulher que chegava a pensar em amar, era feita de gelo, tão fria quanto seu coração antes de conhece-la.

Porque os deuses tinham de ser tão cruéis, colocar um ser tão puro e singular como ela em seu caminho, para torna-la inalcançável a seus braços em seguida.

Sim, temia aproximar-se dela e com o calor de seus próprios sentimentos fazer aquele gelo místico derreter entre seus dedos, perdendo-a para sempre, por isso lhe impôs aquele limite de alguns passos, ela estaria diante de seus olhos, mas ele, não sucumbiria ao desejo de toca-la novamente e perde-la em seguida, provando ser esse mais um capricho dos deuses.

-Kamus, o q-...; Milo parou entrando na casa do amigo em um rompante, mas estancando ao ver a virgem de gelo. –Quando fez? –ele perguntou com os obres correndo sobre a jovem.

-Não lhe interessa; Kamus respondeu áspero, pegando uma capa de seda jogada em um canto qualquer do quarto, para cobri-la do olhar cobiçoso e nada decente daquele que entrara.

-Calma, não vou tira-la de ti; o rapaz brincou, embora houvesse uma pontada de duvida nessa afirmação. –Onde a conheceu? –ele quis saber.

-Do que esta falando? –Kamus perguntou mantendo-se parcialmente afastado dela, porém próximo o suficiente para bater no outro se este se atrevesse a aproximar-se dela.

-Da musa que lhe inspirou a esculpir em diamante tão bela deidade; Milo respondeu. –Porque só pode ser, eu poderia jurar que era de gelo, mas nesse calor infernal nada permanece frio por muito tempo, a não ser você, é claro, mas isso é exceção; ele falou em tom jocoso.

-Milo, quer bater nos portões de Hades hoje, posso lhe mandar de bom grado para lá; Kamus sugeriu nem um pouco contente com os comentários regados de malicia vindos do amigo.

-Tudo bem, não precisa ficar com ciúmes, estou só brincando; ele se defendeu prontamente, em tom de brincadeira, ouvindo um muxoxo irritado do outro. –Mas me diz, quem é a musa?

-Já disse, isso não lhe interessa;

-Já entendi, não quer dividi-la com ninguém, mas respeito isso, com uma deusa dessas de musa inspiradora, não deixaria ninguém se aproximar; Milo brincou. –Mas me diz, vai aos festejos no final do dia?

-Não;

-Oras Kamus, ai já é demais, você tem trabalhado tanto, acho que sua musa de gelo não ira se importar de ficar sozinha algumas horas para que você possa esfriar a cabeça, ou melhor, ocupa-la com outras formas que não sejam as delas; ele completou de maneira insinuante.

Voltou seu olhar para ela um momento, realmente desde que a trouxera para sua casa, tornara-se ainda mais recluso do que antes, optando por ficar ali em vez de sair para fazer qualquer outra coisa. Suspirou cansado, de certa forma ele estava certo, precisava mudar de ares um pouco e voltar a ser o Kamus racional de sempre, se não, até mesmo sua inspiração estaria comprometida.

-Está certo, se isso fizer você me deixar em paz; ele falou distraído, nem ao menos ouvindo o que o amigo falava. Estava mais preocupado em prestar atenção no gelo que realmente não derretia.

-Logo eu venho lhe chamar, não se atrase; Milo avisou deixando a casa do amigo.

-Que seja; Kamus resmungou.

-o-o-o-o-o-

Era como se o tempo corressem sempre de maneira lenta quando estava com ela, talvez se ela fosse real não fosse tão perfeita; Kamus pensou colocando em seu pulso delicado, uma fina argola dourada confeccionada por um amigo, que moldou-se perfeitamente ao pulso.

Uma túnica branca e alva cobria-lhe o corpo de gelo e era como se a face adquirisse cor e rubor diante do olhar intenso que tinha sobre si.

Era com esmero que ele envolvia-lhe de peças belas, desejando ver sua musa, ainda mais perfeita a seus olhos do que já era.

Parou atrás dela e fez um breve movimento como se fosse afastar-lhe os cabelos, colocando em seguida uma delicada gargantilha sobre o colo. Com uma pequena pedra verde em meio à corrente dourada.

Deu a volta, fitando-a de frente, como um anjo, nem mesmo Afrodite poderia ser tão bela quanto sua musa; ele pensou contendo um suspiro.

Aproximou-se dela, não mais temendo que o gelo derretesse, não sabia ao certo o porque, mas apenas algo em sua mente dissera para que abandonasse essa hesitação.

Tocou-lhe a face com suavidade deixando os dedos correrem pela mesma, gravando todos seus traços e expressões, fitou-lhe diretamente os olhos, mas não soube explicar o que eles transmitiam como na maioria das outras que esculpira apenas guiando-se por seus sonhos.

Fechou os olhos por um minuto e foi como se tudo ao seu redor houvesse mudado e estivesse novamente em frente ao lago, com ela deixando as águas e aproximando-se.

Os longos cabelos esvoaçavam com o vento e seus corpos aproximavam-se cada vez mais, como se guiados pelo calor emanado um do outro. Ela estava tão perto; ele pensou instintivamente erguendo a mão, não a viu recuar, por isso continuou.

A pele dela era tão delicada quanto seda, se possível até mais fina. Deixou os dedos correrem por ela gravando todos os detalhes, aquele olhar, uma essência de rosas parecia invadir-lhe as narinas entorpecendo sua mente.

Seus lábios jaziam bem próximos, a ponto de suas respirações se confundirem e não mais saberem quais corações batiam mais descompassados que o outro.

Foi como se o tempo congelasse quando seus lábios encontraram-se, sentia-os tão macios que jamais desejava separar-se deles. Envolveu-lhe o corpo esguio e delicado, sentindo-a aconchegar-se entre seus braços como se fosse feita para estar ali.

Seus dedos enterraram-se entre os fios dourados, sentindo a maciez e o perfume emanado deles. Se fosse realmente um sonho, desejava jamais despertar; ele pensou, sentindo os lábios moverem-se sobre os dela, sendo igualmente correspondido.

-KAMUS!

Afastou-se bruscamente ao ouvir a voz de Milo chamando-lhe na porta da casa. Voltou-se para a estatua, envergonhado por não conter seus próprios impulsos.

Mas parecia tão real; ele pensou confuso, levando a ponta dos dedos aos lábios, era como se ainda fosse capaz de sentir o gosto dos lábios dela nos seus. Tão real...

-KAMUS!

-JÁ VOU; ele berrou como resposta.

Olhou-a novamente, era como se a visse desviar o olhar agora, passou a mão nervosamente pelos cabelos, olhou para os lados buscando um lugar para coloca-la, não queria correr o risco de acontecer algo em sua ausência e ela não estar protegida.

Encontrou uma cama improvisada no fundo do quarto que usava como ateliê, normalmente a usava quando trabalhava até tarde e exausto, não conseguia nem chegar a seu quarto, optando por ficar ali mesmo até o sol nascer.

Carregou-a entre os braços com cuidado, não querendo escorregar ou derruba-la. Colocou-a sobre os tecidos, alguns quase rasgados e outros nem tão macios, murmurando pedidos de desculpas pela humildade do lugar, como se assim ela pudesse ouvir e lhe perdoar pelos momentos que ficaria sozinha.

Fitou-a uma ultima vez, como se fosse um pobre condenado a caminhar para o julgamento dos deuses, antes de afastar-se e ir em direção ao amigo que lhe esperava impaciente do lado de fora.

.III.

Agora sabia porque detestava tanto aquelas festas; Kamus pensou caminhando por uma pequena feira com o amigo. Detestava aqueles sussurros e cochichos daquelas comadres que nada tinham a fazer alem de falar da vida alheia.

Sabia que a maior parte dos comentários eram do tipo "Como é jovem, deveria procurar uma boa esposa" ou "Ouvi dizer que ele pediu aos deuses o celibato, outra ovelha desgarrada como Ártemis".

Resmungou algum impropério, fiando com a cara ainda mais fechada diante de alguns suspiros de algumas moças que tiravam sorrisos cada vez mais indecentes do amigo.

Como podiam ser tão levianas? –ele pensou, com ar cansado. Estaria bem melhor com sua bela virgem de gelo do que andando em meio a seres tão diferentes de si.

Era como se não se enquadrasse com aquelas pessoas e tudo aquilo que já vivera ali não significasse nada. Apenas ela fazia sentido, embora sua musa fosse um mistério para si.

-Hei Kamus, olhe; Milo falou apontando para algumas garotas que acenavam e pediam por atenção.

-Pode ir, eu vou voltar pra casa; ele avisou.

-Mas acabamos de chegar; o amigo retrucou surpreso com a mudança de humor, sabia que ele era um tanto quanto sistemático, mas não era pra tanto.

-Esse lugar esta me cansando, pode ir se divertir, eu vou embora;

-Mas...;

-Até mais; Kamus completou sem que o amigo pudesse falar algo mais, deu-lhe as costas e se distanciou.

-Se você quer assim; Milo deu de ombros.

-o-o-o-o-o-

Finalmente teria paz, chegaria em casa, descansaria e passaria o resto do tempo com ela. Era tudo o que poderia desejar; ele pensou, quando sem querer trombou com alguém.

-Desculpe; Kamus apressou-se em ajudar uma senhora de idade a se levantar do chão e recolher alguns amuletos que caíram de sua cesta quando se chocaram, ela provavelmente era alguma anciã do templo.

-Tudo bem meu jovem, mas que pressa hein? –ela brincou com um sorriso cristalino e ele poderia jurar que conhecia aquele olhar em algum lugar, embora tivesse a impressão do outro ser mais suave.

-É, bem...; ele balbuciou com a face aquecendo-se levemente.

-Tome, porque antes de ir não vai ao templo; a senhora sugeriu entregando-lhe um botão de rosa vermelha, que tinha enrolado em seu caule uma delicada fita de mesma cor, representando Afrodite em sua totalidade.

-Eu não...;

-Acredite, pode lhe fazer bem; ela insistiu, recusando-se a pegar o amuleto de volta, quando ele tentou lhe devolver.

-Mas...;

-Vamos lá, se não fizer bem, mal não fará; a senhora completou de maneira amigável.

-Esta bem; Kamus respondeu dando-se por vencido.

Ajudou-lhe a levar a cesta de amuletos, enquanto seguiam ao templo, conversando sobre trivialidades, à senhora pareceu bastante interessada quando ele dissera confeccionar estatuas.

-Chegamos; ela falou entrando numa construção rústica, porém adornada de flores das quais narcisos e amores perfeitos faziam parte integral de todos os arranjos, entre rosas vermelhas dos mais variados tamanhos é claro, como não poderia faltar em qualquer tributo a Afrodite. –Vai lá, quem sabe a deusa não atende ao seu pedido; a senhora falou de maneira enigmática.

Ele assentiu ainda incerto, na verdade, descrente de que aquilo poderia ser mesmo verdade. Até parece que Afrodite realizaria um desejo de um mortal como ele sem nada a oferecer em seu tributo, sabia o quanto a deusa poderia ser leviana em alguns assuntos, principalmente na paga por seus favores; ele pensou, dando um suspiro derrotado a cada passo que dava ao altar.

Se nem Afrodite que era tida como deusa do amor, pudesse realizar um desejo seu, então saberia com precisão que nem mesmo sua virgem de gelo poderia aquecer seu coração.

O altar era de mármore, sabia perfeitamente que era, pois anos atrás quando aquele templo fora erguido, ele mesmo esculpira o altar a pedido do chefe do vilarejo que tivera uma visão com a deusa, mandando-o erguer aquele templo ali, para trazer prosperidade e fartura a todos.

Colocou o botão sobre o altar e apoiou um dos joelhos sobre a escadaria branca. Serrou os orbes.

-Oh poderosa Afrodite, atenda ao meu pedido...; Kamus sussurrou tão baixo que ouvidos mortais jamais compreenderiam as palavras sussurradas por seus lábios quase fechados. –Permita que em minha vida entre alguém igu-... Como minha adora Virgem de Gelo; ele completou temendo por pedir algo impossível demais.

Sabia que mulher alguma poderia ter um lugar em seu coração como ela, mas pensando que ninguém ira ouvi-lo proferiu suas ultimas palavras em pensamentos, porém foram esses os prontamente ouvidos.

-Permita que em minha vida entre a única capaz de aquecer meu coração... Apenas minha Virgem de Gelo;

Deixou o templo certo de que seu pedido permaneceria em sonhos junto com sua musa. De longe acenou para a senhora de cabelos grisalhos enquanto se distanciava.

Fitou-o desaparecer de suas vistas, enquanto retirava da cesta um botão vermelho e o levava ao nariz, aspirando com suavidade o perfume, aos poucos ele tornou-se maior, abrindo delicadamente as pétalas até moldarem-se a mão dela.

-Em que esta pensando minha mãe? –um jovem de melenas douradas perguntou surgindo ao lado dela, aproveitando que ninguém se encontrava ali naquele momento.

-Meu filho, quero que faça algo por mim; Afrodite falou, enquanto as formas antes enrugadas ganhavam contornos lisos e as costas antes encurvadas ficaram eretas e a imagem da senhora dava lugar ao esplendor e beleza da própria deusa do amor.

-O que quiser, minha mãe; Eros respondeu prontamente.

-o-o-o-o-o-

Chegou em casa a passos cansados, sentia os olhos pesarem como se houvesse caminhado por uma longa estrada para chegar ali. Abriu a porta, vendo uma luz cálida vir do quarto de trabalho.

Aproximou-se ansioso, desejando dar-lhe boa noite antes de retirar-se para seu quarto.

A luz cálida da lua entrava pela janela por uma pequena fresta no telhado, precisava consertar aquilo, se chovesse poderia caiar água sobre ela; Kamus pensou preocupado, aproximou-se com o intuito de tira-la dali.

Mesmo que o céu estivesse limpo aquela noite, não queria correr riscos, abaixou-se na cama improvisada, passando os braços pelas costas dela, mas parou fitando-lhe a face, deveria ser o sono que lhe embriagava os sentidos, mas poderia jurar que o gelo ganhava um leve rubor.

Balançou a cabeça levemente para os lados, aquilo era impossível. Suspendeu-a da cama, mas sentiu como se ela amolecesse em seus braços. Deitou-a na cama novamente assustado, temendo que o gelo houvesse começo a derreter, mas ao fitá-la, tudo continuava normal.

Respirou fundo, estava ficando louco, deveria ser isso; ele tentou se consolar. Novamente abaixou-se para suspende-la e aquela sensação de algo lhe escapar pelos braços voltou, mas dessa vez em vez de soltá-la, abraçou-a mais forte.

Sentiu um arrepio correr-lhe a espinha, ao sentir o corpo delicado moldar-se ao seu, da mesma forma que acontecera horas mais cedo antes de sair com o amigo. Uma aura quente os envolvia que ele não sabia nem ao menos de onde vinha aquilo, apenas que era reconfortante.

Uma respiração suave e quente chocou-se contra sua face e serrou os orbes, novamente um sonho a nublar-lhe os sentidos, mas que logo algo ou alguém o acordaria; Kamus pensou com pesar.

Ergueu a cabeça encontrando aqueles olhos dourados num misto de confusão e surpresa sobre si, tocou-lhe a face com medo de feri-la de alguma forma. Viu-a ruborizar e suspirou ainda mais encantado com aquela bela deidade.

Viu-a entreabrir os lábios para falar algo, mas tocou-os com suavidade, impedindo que qualquer palavra fosse proferida, ainda lembrava-se que no primeiro sonho, quando a vira falar, acordara, não queria que isso acontecesse novamente, enquanto pudesse manter-se naquele sonho, o faria, não queria vê-la dissolver-se entre seus braços para despertar em seguida.

A face da jovem adquiriu um rubor ainda mais intenso, viu os orbes dourados ganharem uma mescla quase castanha, enquanto aos poucos seus rostos se aproximavam e sem hesitações seus lábios se encontraram, como se sempre estivessem esperando por isso.

Aos poucos a luz que entrava pela pequena brecha foi diminuindo até apagar-se, deixando-os imersos em escuridão, porém isso não parecia importar-lhes mais.

Lábios e línguas buscavam-se ávidos em um beijo intenso, deixou a mão prender-se de maneira possessiva entre os fios dourados à medida que a outra, enlaçava-lhe a cintura, temendo que ela a qualquer momento escapasse.

Mal afastaram-se parcialmente, ouviu seu nome sussurrado entre os lábios de sua musa, como queria que fosse real; ele pensou contendo um suspiro, esperando que a qualquer momento fosse despertar, tomado pela frustração por ver que era apenas mais um sonho.

Abandonou-lhe os lábios, descendo com suavidade pelo colo desnudo, deixando a túnica alva ir ao chão, seguido por todos os aparatos, colares, braceletes e pulseiras que ele mesmo colocara nela.

Suavemente colocou o corpo delicado da jovem de volta a cama, ouvindo a respiração entre cortada da mesma e seus olhos se encontraram, ambos desejando ignorar todo o resto do mundo, deixando-se apenas viver aquele momento.

As pernas instintivamente buscaram o calor umas das outras, entrelaçando-se e aproximando-os ainda mais, aos poucos seus corpos uniram-se em meio a carinhos, beijos intensos e juras de amor que ele sempre temera jamais poder proferir.

-o-o-o-o-o-o-

Abriu os olhos sentindo a incomoda luz da manha entrar pela frestinha no telhado, caindo sobre seus olhos. Deu um baixo suspiro, como pensara mais um sonho; Kamus pensou, tentando levantar-se, mas sentiu algo a impedir-lhe.

Abaixou os olhos, mas quase pulou da cama ao deparar-se com uma jovem parcialmente enrolada sobre uma túnica, aconchegada entre seus braços dormindo tranqüilamente.

Ouviu o ressonar baixinho dela e a mesma, remexer-se, acomodando-se melhor entre seus braços. Viu-a virar-se de lado e sentiu o coração falhar uma batida ao ver as longas madeixas douradas caírem sobre seu peito e sobre os ombros dela.

A pele era tão alva quando em seus sonhos e a essência de rosas parecia mais forte vinda de seus cabelos e pele. Deixou a ponta dos dedos correr pela face dela, buscando em sua memora todos os detalhes que apenas sua virgem de gelo possuía.

Era ela, jamais poderia ser outra pessoa; ele pensou abismado com o que estava acontecendo.

-KAMUS QUE DROGA, HÁ UMA HORA ESTOU CHAMANDO E-...; Milo parou de gritar assim que entrou no quarto e vislumbrou a situação do amigo, porém imediatamente seus olhos recaírem sobre a jovem parcialmente despida entre os braços dele.

-Saia daqui; Kamus mandou, com um olhar envenenado.

-Quem é-...;

Antes que ele pudesse perguntar algo, espátulas, formões e adagas eram arremessadas em sua direção, pelo amigo nem um pouco contente com o olhar nada inocente que o vira lançar sobre a jovem.

Céus, estava com ciúmes; Kamus pensou assustado consigo mesmo.

Ouviu-a murmurar algo e abrir os olhos assustada com os gritos, orbes verdes e dourados encontraram-se e foi como se o tempo houvesse parado. Sentiu o coração os poucos disparar, da mesma forma que a face dela ganhava um leve rubor.

-Como se chama? –ele perguntou com suavidade, acariciando-lhe a face.

-Harmonia; ela respondeu com a voz tremula, vendo-o assentir, enquanto fitava-lhe intensamente.

-Preciso agradecer a Afrodite depois; o rapaz comentou.

-Porque? –a jovem perguntou confusa, mas em seguida apenas serrou os orbes ao sentir a respiração quente dele chocando-se contra sua face.

-Por ter colocado você em minha vida; ele completou num sussurro enrouquecido, tomando-lhe os lábios num beijo intenso.

.IV.

Muitas lendas contam que eles viveram por muitos anos ainda, tiveram filhos e esses filhos tiveram seus filhos, que jamais deixaram essa historia perder-se com o tempo, fazendo-a sobreviver até os dias de hoje.

Varias pessoas deram nomes diferentes a ela, ao longo dos séculos, elas ganharam varias versões mais romantizadas e utópicas, porém sem demonstrar com a mesma paixão aquele sentimento que os unia.

Mas no fim... É era só o que importa...

Continua...

Domo pessoal

A virgem de Gelo é baseada na lenda de Pigmaleão e Galatéia, a famosa Virgem de Mármore. Essa historia conta a vida de Pigmaleão da mesma forma com que Kamus foi retratado na lenda, um cara que de tanto buscar a perfeição desistiu de encontrar alguém que realmente aquecesse seu coração. E Harmonia aqui representada como a musa de gelo, representa Galatéia a jovem esculpida por ele e que tornou-se humana, depois do pedido que ele fez a deusa Afrodite, para que somente sua Virgem de Mármore fizesse parte de sua vida.

Espero sinceramente que tenham gostado, a fic ainda não acabou, tem mais um capitulo.

Então, até a próxima e obrigada por tudo

Um forte abraço

Já ne...