Capítulo 1

Os sentimentos

Andei meio desnorteada pelas ruas, tentando me dar conta do que tinha acontecido. Quando me dei por mim, estava tão longe de casa que tive que pegar um ônibus para ir embora, e já estava uma hora mais atrasada do que o meu normal. Quando finalmente, exausta, entrei em casa, Ino estava no sofá e começou a esbravejar comigo assim que entrei:

- Você não tem um pingo de senso não é?Onde esteve? Não bateu na sua cabeça que nós aqui estávamos preocupados? Você se atrasa por uma hora inteirinha sem dar a menor notícia! Aliás, estava fazendo o que?

- É... Eu... Estava... Eu estava vindo embora e parei para comer algo numa lanchonete rapidinho, mas acabei cochilando e só acordei agora, quando a dona da loja disse que estava fechando.

- Aham, sei... Vamos pro quarto então. – Ah, droga. Interrogatório.

Assim que a porta se fechou atrás de nós, Ino começou:

- Qual é o nome dele?

- Não sei.

- Idade?

- Não faço a menor ideia.

- Telefone, endereço, número do CPF, qualquer coisa!

- Não sei nada.

- Saky-chan, desde quando você tem que esconder as coisas de mim?

- Não estou escondendo.

- Lógico que sim! Como é que nem o nome dele você sabe!

- Tudo bem. Então estou escondendo. Posso dormir agora?

Não esperei resposta: me embrulhei no edredom de roupa e tudo e fechei os olhos. Tudo o que eu queria era dormir um pouco para tirar aquela loucura de voz da minha cabeça.

Ino ainda me olhou por um bom tempo, incrédula. Eu nunca escondia nada dela, mas dizer que cantei com uma voz estranha é subumano, ela mandaria me internar em uma clínica.

Eu ouvi ela andar um pouco pelo quarto, apagar a luz e deitar-se. Rolei na cama por tanto tempo que me pareceram horas. Simplesmente não conseguia dormir, a "imagem" da voz não deixava minha mente. Ela ressoava em todos os cantos da minha cabeça, e parecia cantar aquela mesma música em uma pura insistência para que eu não dormisse.

Mas no fim o cansaço venceu a minha condição emocional e eu consegui dormir.

Não vou negar, no dia seguinte estava morrendo de medo de ir trabalhar, mas que escolha eu tinha? Me vesti com uma leg rosa claro, uma camiseta vermelha, sapatilhas de balé com ponta (nem sei porque, me deu vontade) e fui.

A primeira parte transcorreu normalmente. Nada de diferente. Até o intervalo: havia uma mensagem de texto no meu celular. Quando eu li... quase desmaiei de susto:

Muito obrigado por cantar comigo ontem à noite, espero que você volte hoje. Esperando por você, seu fantasma.

Eu senti que estava ficando branca. Respirei fundo, estava trêmula. Passei o dia tentando me convencer de que eu tinha sonhado, ou algo assim, mas a mensagem estava ali, clara como água: era tudo verdade.

O mais tenso era: "espero que você volte hoje". Não era bem um pedido, eu senti a ameaça implícita: se eu não voltasse, ele daria um jeito de me trancar ali de novo. Mas afinal, o que esse fulano quer para ficar fazendo isso comigo? Fui aos poucos me dando conta de várias perguntas que eu deveria ter feito a ele na noite anterior e não fiz por estar em estado de choque: quem é ele, de onde vem, como consegue fazer as coisas se mexerem e a mais importante: por que me quer ali e como sabe tanto sobre mim.

Não posso negar que fiquei muito aérea durante o ensaio, Kurenai chegou a me chamar a atenção! Mas mesmo assim não resolveu, levei mais uma bronca dela no fim e, para ficar "presa" lá dentro, disse que precisava ir no banheiro. Ela se lembrou então do dia anterior.

- A propósito, Sakura, por onde saiu ontem?

- Eu? Pela... Porta... Dos fundos.

- Ah. Então se apresse.

Fiz bastante hora. Quando finalmente saí do banheiro o teatro estava fechado. Ainda meio indecisa, e achando que estava enlouquecendo por falar com uma voz maluca, o chamei baixinho.

- Fantasma?

Nada. Fui até o centro do palco, olhei para cima e tentei de novo.

- Fantasma, está aí?

- Princesinha Esmeralda... Você veio mesmo. – eu suspirei aliviada. Não estava louca, ele existia, falava comigo e até me dera um apelido.

- E eu tinha escolha? Quero dizer, se eu não viesse, você ia me deixar ir?

- Não, não ia.

Respirei fundo. Agora eu estava mais tranqüila por saber que não era louca, então era hora de tirar minhas dúvidas.

- Eu posso te fazer umas perguntas? – Perguntei.

- Já fez uma. Brincadeira, pode. Só não garanto que irei respondê-las.

- Há. Muito engraçado.

- É verdade. Tem coisas sobre mim que é melhor você não saber, pelo menos por enquanto.

- O que é que o senhor fantasma tanto esconde, hein? – perguntei sarcástica.

- Foi uma pergunta retórica, certo?

- Foi, mas se quiser responder, fique à vontade.

- Não posso.

- Claro. Mas agora vamos às perguntas reais. As primeiras são sobre mim. Como sabe o meu nome e onde trabalho?

- Não é bem essa pergunta que tinha que me fazer, mas tudo bem. A verdade é que eu não tenho espionado você, mas todo o grupo. Eu gosto muito de ver os seus ensaios dos musicais, gosto das músicas, das coreografias e até dos esporros da professora Kurenai. Gosto de ver as confusões do seu amigo loiro, o Naruto, a timidez da Hinata, os xavecos do primo dela, o Neji, em cima da Tenten, a garotinha de coques no cabelo. E inclusive vi o dia em que ela ficou com ele no camarote 6. Ela não contou isso para ninguém.

- Nossa. Fiquei até com medo agora. Está nos espionando?

- Todos os dias, a todo momento. Te mandei aquela mensagem poucos minutos antes do intervalo, pois sei que você sempre checa o telefone nesses vinte minutinhos. Vi que você ficou pálida quando leu e fiquei com medo de ter te feito mal. Você ficou bem né?

Ele realmente está espionando o grupo, mas aparentemente me dá uma atenção a mais. Isso me levou a fazer uma nova pergunta relacionada a mim, logo depois de responder a dele.

- Fiquei. Um pouco em choque, não estava acreditando muito em você, cheguei a achar que tinha sonhado. Mas fiquei bem sim. Agora, me deixe lhe fazer outra pergunta.

- Faça.

- Tudo bem que aparentemente você espiona o grupo todo, mas porque faz tanta questão de que eu fique presa aqui com você? Quero dizer, logo eu e apenas eu?

- Não posso responder, exatamente. Posso dizer que... De certa forma, eu preciso falar com você. Sinto muito, mas acho que por enquanto é só.

- Certo. – resolvi não forçar a barra com ele para não irritá-lo, afinal, ainda tinha perguntas a fazer e não queria ser atacada pelos pratos da bateria. – As próximas são sobre você. Perguntas, eu digo.

- Aí complica um pouco mais. Mas tente, assim mesmo.

- Quem é você?

- Tinha que começar com essa... Seu Fantasma, isso não basta?

- Não! Quero seu nome.

- Não posso. Próxima.

- Está complicando as coisas, sabia?

- Sinto muito. Próxima.

- Isso não foi uma pergunta.

- Então acabou?

- Não!

- Então pergunte.

- De onde você vem?

- Bem... De um lugar distante, no tempo e no espaço.

- Como assim "no tempo"? Quantos anos você tem?

- Vinte e cinco.

Respirei aliviada, apenas dois anos a mais do que eu. Resolvi não pedir muitas explicações por enquanto, e seguir.

- Como consegue fazer as coisas se mexerem?

- Ah, isso? – as baquetas tamborilaram na bateria. – Só uma coisinha que sei fazer. Não tem como dizer "como eu faço", exatamente. Acabou?

- Por enquanto. Aliás, tem mais uma.

- O que?

- O que terei que fazer para sair hoje?

- Nada. Pode ir.

- Hein?

- Pode ir.

- Como assim? Então se eu não tivesse ficado por vontade própria ia me prender para que?

- Apenas para responder todas essas perguntas que eu sabia que você queria me fazer.

- Ah. Então, posso ir?

- Pode.

Eu fiquei parada no meio do palco, sem acreditar, quando a tranca da porta de saída se soltou e ela abriu uma gretinha.

Ele não quer nem cantar uma musica comigo? Nem isso? Será que se arrependeu de ontem? Ou será que acha que eu não quero e só não quer me forçar a fazer nada?

Espera, eu disse mesmo acha que eu não quero? Eu quero cantar uma musica com a voz?

Ai meu Deus.

Bem, é só uma voz, não vai fazer mal pedir para que cante comigo.

- Fantasma, e seu eu não quiser ir?

- Então fique.

- E seu eu quiser fazer algo?

- O que?

- Cantar.

- Cante. Esse é um país livre, certo? Quer cantar, fique à vontade.

- E se eu quiser que você cante comigo?

- Seria maravilhoso! – eu detectei uma nota de felicidade tão grande na voz dele que quase tive um pouco de pena. – O que devemos cantar?

- Não sei. Pode escolher. Hoje você manda.

- Tudo bem. Você assiste os meus ensaios, certo?

- Sim.

- Então cantaremos uma musica do Mamma Mia!, Lay All Your Love On Me.

- Ah é? Essa letra não é meio apaixonada?

- Não importa, eu gosto do ritmo.

Lay All Your Love On Me - ABBA

[Fantasma:]

I wasn't jealous before we met

Now every man that I see is a potential threat

And I'm possessive, it isn't nice

You've heard me saying that smoking was my only vice

But now it isn't true

Now everything is new

And all I've learned

Has overturned

I beg of you

[PrincesinhaEsmeralda:]

Don't go wasting your emotion

Lay all your love on me

It was like shooting a sitting duck

A little small talk, a smile and baby I was stuck

I still don't know what you've done with me

A grown-up woman should never fall so easily

I feel a kind of fear

When I don't have you near

Unsatisfied

I skip my pride

I beg you dear

[Fantasma:]

Don't go wasting your emotion

Lay all your love on me

Don't go sharing your devotion

Lay all your love on me

[PrincesinhaEsmeralda:]

I've had a few little love affairs

They didn't last very long and they've been pretty scarce

[Fantasma:]

I used to think that was sensible

It makes the truth even more incomprehensible

[PrincesinhaEsmeralda:]

'Cause everything is new

And everything is you

And all I've learned

Has overturned

What can I do?

[Fantasma:]

Don't go wasting your emotion

Lay all your love on me

Don't go sharing your devotion

Lay all your love on me

[PrincesinhaEsmeralda:]

Don't go wasting your emotion

Lay all your love on me

Don't go sharing your devotion

Lay all your love on me

Quando a musica acabou, eu me vi meio atordoada no meio do palco. Ainda não tinha entendido muito bem que eu tinha me candidatado para cantar com a voz. Quando a ficha caiu, ele já estava falando comigo:

- Muito bem então. Escolheu essa música por que?

- Eu já disse, gosto do ritmo.

- Só por isso?

- Bem eu...

Percebi então que eu não tinha pensado no ritmo quando escolhi a musica, mas sim, no beijo que Naruto e Hinata trocam ao final do dueto deles.

OI? HARUNO SAKURA! HELLOO! É SÓ UMA VOZ, SEM CORPO, SEM BOCA E QUE VOCÊ CONHECEU NOITE PASSADA!

- Não, não foi só por isso. – algo dentro de mim começou a me conduzir na conversa. – Você sabe porque eu escolhi a música.

- É, eu sei. Você já vai?

Me dei conta de que estava morrendo de sono.

- É melhor, quero estar viva no trabalho amanhã. Quase não me agüento em pé, de sono.

- Tudo bem então. Só mais uma coisa.

- O que?

Um ponto vermelho começou a surgir no camarote 3. O ponto foi descendo até mim lentamente, e quando estava perto o bastante, percebi que era uma rosa. Uma linda rosa vermelha. A peguei meio indecisa e olhei para o camarote 3, mas ele não estava lá.

- Bem... Então... Vou indo.

E meio zonza com o perfume da rosa me penetrando as narinas, voltei para casa.

Nem preciso dizer que quando entrei no quarto com uma jarra de água e uma rosa vermelha dentro, Ino em olhou com uma cara de reprovação total.

- Porque está escon...

- Não estou escondendo nada Ino!

- Então onde conseguiu a rosa?

- Ele me deu.

- Ele...?

- Ele. A voz.

- Uma voz te deu uma rosa?

- É.

- Sakura, boa noite.

Ino se virou para dormir. Coloquei o vaso com a rosa na mesa de cabeceira e me deitei também.

Pelo dia seguinte eu fiquei surpresa em me ver ansiosa para o fim do trabalho. E eu sabia exatamente porque: queria que todos fossem embora para que eu e o meu Fantasma ficássemos à sós.

Coisa que não demorou muito para acontecer. Lá estava eu, assentada no meio do palco conversando com ele:

- Me conte mais sobre você, por favor. – pedi.

- Não posso, tudo o que você podia saber eu já lhe disse na noite passada.

- Ah, mas assim é muito chato, eu nem sei seu nome.

- Fantasma, não foi você que deu?

- O seu nome de verdade!

- Não interessa agora... Por que simplesmente não para de perguntar? Na hora certa, pode ter certeza, vou lhe contar tudo.

Eu assenti. Nesta noite não cantamos, apenas conversamos. E em todas as outras. Meu Fantasma me dava uma rosa toda noite, e eu já tinha um buque cheio na mesa de cabeceira. Ino continuou me rondando. Um dia desses ele me deu uma caixa de trufas junto com a rosa e eu como um todas as manhãs para me lembrar dele.

Um mês se passou. Um dia eu me peguei pensando nele, sem razão, apenas por pensar. Foi aí que eu tive que me fazer uma pergunta, cuja resposta eu já sabia ser "sim":

Estou apaixonada pelo meu Fantasma?