CAPÍTULO II

Apenas quando James quebrou o silêncio, Lily realmente pôde acreditar que ele estava ali presente. Piscou várias vezes, tentando recuperar o fôlego. Agora, percebia que a raiva que sentia dele continua­va ardente como nunca. O lábio superior transpirava e as pernas estavam bambas. Ela o encarou, apesar de se sentir insegura por dentro, uma mes­cla de medo e admiração, curiosidade e repugnância.

Espertamente, ele aproveitou a hesitação de Lily e se aproximou. Ela recuou de forma instintiva. Ape­sar de ela ter um metro e oitenta de altura sem usar salto, ele ainda conseguia vê-la de cima. O estômago de Lily revirava de nervoso e ela ficou tensa ao no­tar que sentia algo que havia muito estava esquecido. Todos os sentidos estavam aguçados e os mamilos, rijos e dormentes.

As bochechas pálidas logo ficaram vermelhas pela vergonha e perplexidade. Finalmente, conseguiu fa­lar.

- O que você veio fazer aqui?

James fechou a porta da casa com tranqüilida­de. Sentia-se poderoso e se regozijava por isso.

- Você não sabe?

Constrangida pela forma como seu corpo respon­dia à presença dele, Lily ergueu o queixo de modo desafiador, o que teria causado espanto a qualquer um de seus familiares. Sentia-se encurralada, com raiva e ferida. A ferida que ainda cicatrizava havia se aberto assim que o viu. Lembrou de como tinha gos­tado de James Potter, de como ele a havia ma­goado. Aparentemente, não dava para perceber, mas por dentro Lily era outra pessoa por causa dele. E a mudança não havia sido para melhor.

- Como posso saber?

- Achei que seu sexto sentido fosse dizer alguma coisa... - James disse com um olhar malicioso.

- Pois não disse - ela respondeu cruzando os braços e tentando controlar a tremedeira que iria aca­bar denunciando-a.

- Vim aqui porque queria ver você - ele respon­deu calmamente.

Lily ficou perdida por alguns segundos naqueles brilhantes olhos que constantemente visitavam seus sonhos. Olhos que refletiam apenas senti­mentos superficiais e a imagem dela mesma. Ela sa­bia que ele tinha fama de insensível e mulherengo. Ao mesmo tempo, o que tinham vivido parecera real e genuíno, desnudando a imagem de garanhão que ele fazia questão de passar.

Balançou a cabeça tentando espantar aqueles pen­samentos. Não queria que James Potter fizesse parte das suas lembranças. Nem das ruins, nem das boas. Queria esquecer que por dois loucos meses ele havia sido tudo para ela e ninguém mais no mundo importava.

- Não quero... - sabia que só dependia dela fa­zer com que ele fosse embora, mas, ao mesmo tempo, sabia que, por motivos que tinha medo de examinar mais a fundo, não conseguiria mandá-lo embora ainda.

James inclinou um pouco a cabeça para frente e o olhar dele sobre ela era de tirar o fôlego.

- Não quer...?

O frio na espinha virou um vento polar. Por um instante, ela se alarmou com o fato de que talvez ele a conhecesse melhor do que ela a si mesma.

- Como você me achou?

- Tenho meus contatos...

Ela ficou pálida como um fantasma. Então, ele sa­bia do dinheiro que havia sido roubado. Claro que ele sabia, pensou. Queria cavar um buraco e se enfiar lá dentro, pois não conseguia criar coragem para olhar James nos olhos.

Aproveitando o momento de fraqueza de Lily, James deu um passo para mais perto dela. Ele sabia que ela havia perdido a fortuna que tinha quando se conheceram, mas somente agora, ao notar na sala pouco mobiliada e humilde, que ele se dava conta de como ela havia decaído.

- O que aconteceu com a janela?

- O vidro quebrou - ela murmurou.

- Já ligou para o vidraceiro?

- Ainda não. Foi ontem à noite.

O olhar atento de James reparou no pedaço de papel amassado na lareira. A pedra também estava lá, e ele não tardou a supor o que devia ter acontecido. Franziu a testa.

- Você foi ameaçada? Por acaso foi dar queixa na polícia sobre isso?

Num movimento brusco, ela arrancou o pedaço de papel da mão de James.

- Por que não cuida da sua vida? - falou sem ar, mortificada e humilhada.

- A polícia precisa saber disso. O maníaco que escreveu isso pode ser perigoso e acabar lhe fazendo mal. Você não pode ficar nessa casa sozinha.

- E para onde quer que eu vá? - perguntou num tom desesperado.

O incidente da noite passada era mais um motivo para não ir para a casa da prima. Do contrário, pode­riam fazer mal a ela e à família. Alice, o pai e o ir­mão viviam numa fazenda isolada, afastada da cida­de, e não poderia nem pensar em colocar a vida deles em perigo.

- Posso ajudar - murmurou James, sem, con­tudo, alterar o tom.

Lily percebeu que estava tremendo. Desviou o olhar para o teto. Estava confusa, sentindo-se inco­modada e perdida. Foi então que, pela primeira vez, se deu conta de que estava com um robe velho e o ca­belo todo despenteado. Morreu de vergonha.

- Escuta, preciso me vestir. Não vou ficar aqui discutindo com você. - Como ele poderia ajudá-la? Ela queria perguntar, mas não teve coragem. Tam­bém não conseguiu mandá-lo embora. Será que não tinha orgulho? Já havia chegado ao fundo do poço?

Enquanto a observava subir as escadas, James conseguiu ver parte das coxas alvas de Lily e aquela visão teve um efeito imediato sobre seus hormônios.O clima tenso e fortemente sensual o estava deixando excitado. Ele sentiu aquela atração feroz desde o mo­mento em que pôs os olhos nela. Porém, tinha certeza de que após a primeira noite de amor deixaria de desejá-la. Ela estava assustada. Se ele oferecesse di­nheiro de imediato, provavelmente ela se entregaria na mesma hora, ali mesmo. Ela também o queria, pensou, de súbito. Os olhos dela não conseguiam es­conder a atração por ele. Tinha experiência o bastan­te para identificar no gesto e no olhar de uma mulher quando ela estava sexualmente excitada.

No entanto, ela parecia querer negar aquela realidade, sempre se esquivando, evitando encontrar os olhos dele. Um homem elegante e educado esperaria e prolongaria o gran finale, ele disse a si mesmo, com um sorriso nos lábios.

Havia um livro de jardinagem aberto sobre a pe­quena mesa de jantar e James o folheou curioso, com um franzir de testa. O lugar era bem pequeno, com uma cozinha modesta. No entanto, o jardim, como pôde notar com certo interesse, era um dos mais bonitos que já vira, coberto de flores e uma gra­ma verde e macia.

Apanhou o telefone e ligou para um dos emprega­dos, pedindo que providenciasse um vidraceiro, ime­diatamente, para o endereço onde estava.

Lily estava no banheiro, no andar de cima, pen­teando o cabelo. Depois escovou os dentes, enquanto se despia para trocar de roupa. Nervosa, vestiu um jeans e uma blusa. Afinal, como podia estar calma e controlada, se no andar debaixo se encontrava o homem que havia conquistado sua confiança e conse­guido fazer com que ela se apaixonasse por ele? No andar inferior, estava o galã sedutor que havia se fin­gido de sério e feito com que ela acreditasse que te­riam um relacionamento sério.

Ela havia sido vítima de uma farsa e ele era um aproveitador cruel que só estivera com ela para ter mais uma vantagem para contar aos amigos idiotas e machões como ele.

Lily fechou o zíper da calça com as mãos trêmulas. Infelizmente, havia ficado tão magoada e rancorosa por aquela traição, que acabou sendo vítima de outra. Tinha caído na burrice de acreditar que a vingança seria a melhor reação para o que havia sofrido. Mas as conseqüências daquele impulso ingênuo acaba­ram, no final das contas, arruinando a carreira de modelo dela.

Mas que diabos James Potter estava fazen­do no País de Gales? Por que teria ido visitá-la? Para ajudá-la? Ela não conseguia entender a razão de ele querer ajudá-la após tanto tempo e depois de tudo que havia acontecido. No dia em que foi embora da man­são de James com Mort, ela havia acertado em cheio o ego do magnata Potter. E havia sido exa­tamente isso que desejara quando tomou a decisão de partir, lembrou com pesar. James Potter tinha um coração de pedra e mereceu o golpe que levou. Mesmo assim, Lily se arrependeu. Mas e agora? Será que ele fora até lá para se divertir à custa da desgraça dela? Para humilhá-la, agora que ela estava na pior?

Sem pressa, Lily desceu a escada.

- O que você quer comigo? - perguntou descon­fiada.

- O que a maioria dos homens quer? - James respondeu com uma pergunta, num tom suave e tran­qüilo.

Ao mesmo tempo, passou os dedos por alguns fios ruivos de cabelo que caíam sobre a face de Lily. Os olhos verdes brilhavam e os lábios, leve­mente entreabertos. Ele não estava prestando atenção no que ela dizia, deslumbrado com aquela imagem linda na sua frente.

O sangue coloriu as bochechas de Lily. Ela con­trolou-se e deu uma risada desaforada.

- Pelo menos não está bancando o bom moço como da última vez.

Os olhos faiscaram e James inclinou o semblante arrogante para mais perto e não perdeu tempo em rebater a provocação.

- Um bom moço iria sofrer na sua mão. Eu faço muito mais o seu estilo.

- Você está delirando!

- Delirando como Mort Stevens? - rebateu James, sem titubear.

A observação maldosa deixou Lily sem chão e ela se virou de lado, irritada, deliciando James com o belo perfil.

- Ainda não respondeu o que veio fazer aqui.

De lado, seu corpo magro, porém elegante, a fazia parecer ainda mais frágil. Sem hesitar, ele pegou as mãos dela e as envolveu nas suas. Surpreendida, ela gaguejou.

- O que... está fazendo?

- Apenas me certificando... - Verificou os bra­ços de Lily em busca de alguma marca suspeita que indicasse que ela estivesse usando drogas injetáveis. Satisfeito por não encontrar nada, soltou-a.

- Eu não uso drogas... Nunca usei nem nunca vou usar! - protestou, furiosa.

- Bom ouvir isso. - Mas ela precisava se ali­mentar melhor, concluiu James, ao estudar os ombros esguios e estreitos da modelo e, em seguida, os pequenos seios. Ela não estava usando sutiã. Ele fi­cou tenso e com raiva dos pensamentos e desejos que passaram pela sua cabeça. Que espécie de homem era ele? Um adolescente que não sabia controlar seus hormônios? Desde quando o corpo feminino repre­sentava tanto mistério para ele?

- Você veio aqui só para me insultar?

- Não, tudo que faço tem uma razão concreta. Você está enfrentando um processo criminal.

Chocada com aquela afirmação verdadeira, porém abrupta, Lily ficou alguns segundos sem ter o que dizer.

- Você não sabe de nada... Como?

- Crimes que envolvem dinheiro, fraude, e uma mulher bonita e suspeita sempre acabam em punições severas - murmurou James, brandamente. - Roubar dinheiro de caridade, então, é pior ainda. Foi uma péssima idéia. Sobretudo roubar dinheiro de crianças carentes.

Ela ficou ainda mais pálida e gélida.

- Não quero falar sobre isso.

- Estava devendo dinheiro? Alguém estava atrás de você para cobrar alguma dívida? Você roubou uma boa quantia, mas não estou vendo evidências de que tenha sido gasta. Pelo menos, não ainda.

James não tinha dúvidas de que ela era culpada, pensou Lily, e a dor se externou na face cansada. Bastou ouvir os rumores e ele a taxou de ladra e mau caráter, sem pensar duas vezes.

- E o que você tem a ver com isso? Por que se preocupa? - ela o inquiriu, virando-se destemida­mente para ele.

Ele a encarou com um olhar frio.

- Não me preocupo. Mas posso ajudá-la a não ir para a cadeia...

Ela se contraiu e arregalou os olhos, ao mesmo tempo em que um fio de esperança a arrepiou dos pés à cabeça.

- E como você pode fazer isso?

- Devolvendo à instituição de caridade o dinhei­ro que você pegou, além de fazer uma generosa doa­ção para garantir que o perdão será concedido.

- Não é assim tão simples.

- Não seja boba. Nunca falo sobre algo que não possa fazer. – Os lábios finos de James sorriram de forma maliciosa. - Uma aproximação bem discreta já foi tentada com o diretor da fundação e a reação dele à sugestão foi mais do que positiva.

Lily contraiu com força os dedos das mãos.

- Mas por que você iria repor o dinheiro que su­miu?

- Obviamente, porque quero algo em troca. - James revelou, com malícia.

O coração de Lily disparou. Ela encontrou pura luxúria nos olhos brilhantes de James. De fato, respirar normalmente havia se tornado um desa­fio dos mais difíceis para ela. Ele a comia com os olhos e seu rosto moreno e sensual gerou uma carga elétrica por todo o corpo de Lily. Era uma sensação que oscilava entre o prazer e a angústia, seguida de um calor que a deixou trêmula.

Ele deu um sorriso sexy e irresistível.

- E tenho certeza de que você vai gostar da troca, cara mia.

Lily não conseguia se concentrar de jeito ne­nhum.

- Não estou entendendo o que você quer dizer com isso.

- Ah, não? Estou fazendo uma proposta bastante simples. Quero você na minha cama.

Lily sentiu como se tivesse levado um murro e perdido os sentidos.

- Não acredito no que estou ouvindo.

- A condição é que você se empenhe de corpo e alma no papel de minha amante.

- Isso não faz o menor sentido.

Os olhos de James eram frios como a neve.

- Faz todo sentido. Ver você satisfazer todas as minhas vontades e fantasias será consideravelmente agradável. Não sou um cara que se satisfaz com faci­lidade. Você vai ter que se esforçar.

Lily estava branca como um fantasma.

- Você não pode me desprezar e me desejar ao mesmo tempo - disse ela, confusa e aturdida.

- Por que não?

- Porque é imoral.

- Imoral? - perguntou com sarcasmo. - Nunca disse que tinha moral.

- Não estou acreditando na sua cara-de-pau. Não posso crer que você tenha vindo até aqui me propor isso. - Ela estava mortificada e furiosa. - Você pode não ter princípios, mas eu tenho.

- Eu pelo menos não roubo criancinhas - ele respondeu inalterado.

- Você só está interessado em tirar vantagem da minha desgraça sem nem saber se sou inocente. Isso é monstruoso!

- Fiz uma fortuna com oportunismo, minha cara.

- Pois dessa vez você se deu mal, porque prefiro apodrecer na prisão a ser sua amante!

O olhar dele encontrou o dela.

- Não tenho tanta certeza disso.

A força daquele olhar a dominou como uma teia invisível, intimidadora e paralisante. No entanto, ela não deixou de sentir raiva. Conseguiu reunir forças e quebrou o feitiço, respondendo rispidamente:

- Pois eu tenho certeza.

Lily passou por ele, com a intenção de mostrar-lhe o caminho da rua, quando James passou a mão, suavemente, pelas costas dela, deixando-a imo­bilizada. Ele inclinou o rosto envolvente e imponente na direção da face de Lily e seus lábios provocantes procuraram os dela. Isso era tudo o que ela temia e desejava, em segredo. Com delicadeza, ele deixou que a língua entrasse pelos lábios entreabertos dela e explorasse o seu interior.

A expedição foi densa e prolongada. Ela gemeu bem baixinho e ouviu seu próprio murmúrio queixoso de quem havia se rendi­do e se resignado. Queria morrer de vergonha. No en­tanto, continuava ali, com a boca aberta, sem qual­quer controle da excitação que dominava seu corpo naquele instante. O conflito interno a fez tremer. Ela se sentia como se estivesse no olho de um furacão.

James deu um passo para trás. Ele não havia se es­merado tanto assim para que ela cedesse tão rá­pido.

- Não vai atender ao telefone?

Só depois que se viu separada dele, ela recobrou os sentidos e ouviu o telefone tocando. Saiu apressada­mente para atender. Reuniu forças para voltar ao es­tado normal, mas foi inútil. O poder que ele exercia sobre ela era forte demais. Do outro lado da linha, es­tava o advogado dela. Lily ficou lívida quando ele contou a ela que a polícia queria interrogá-la nova­mente naquele mesmo dia, e não quatro dias depois, como havia sido combinado.

- Não precisa ir se não quiser. Mas é claro que, quanto mais cooperar com a polícia, melhor será para você. Além disso, eles devem ter descoberto alguma novidade para estarem chamando antes do previsto - informou o advogado.

Lily respirou fundo.

- Tudo bem, eu vou.

Os lábios estavam dormentes e as pernas, bambas. Talvez uma visita extra à polícia fosse um castigo por ter agido mais uma vez como uma tola com James Potter, ela imaginou. Como tinha aceitado um beijo do homem que mais odiava no mundo? Por que se humilhar e manchar seu orgulho por um estúpido beijo? Será que a tensão e o estresse tinham queima­do todos os seus neurônios? Por que o destino havia trazido James Potter para a sua casa num dos piores momentos de sua vida, quando estava mais frágil?

Com passos acelerados, ela alcançou a porta da saída e a escancarou.

- Acabo de receber um agradável convite para comparecer à delegacia. Você vai ter que ir embora.

- Chamei um vidraceiro para consertar a janela - informou James.

Lily trincou os dentes.

- E por que fez isso?

- O que importa é que fiz e que ele deve estar chegando a qualquer momento - respondeu James, indiferente ao tom irritadiço de Lily. Retirou um cartão do bolso da calça e entregou a ela.

- Meu número... Para quando você cair na real e aceitar o inevitável.

- Você não é, nem nunca foi, um acontecimento inevitável na minha vida.

James a olhou de cima a baixo dos seus quase dois metros de altura e, ao encontrar o olhar dela, Lily sentiu como se os olhos dele soltassem verdadeiras faíscas de fogo na sua direção.

- Em geral, conversas entre homens e mulheres são carregadas de duplo sentido e também fazem pouco sentido. O beijo disse tudo que eu queria saber.

Ela estremeceu na mesma hora, pela lembrança humilhante daquele incidente. Seu corpo, indiferente a ele, havia respondido positivamente de maneira inevitável. Era impressionante como tudo para ele se resumia à atração física. Lembrou-se que costuma­vam conversar por telefone e se perguntou se o su­posto interesse que ele demonstrava escondia um profundo tédio pelas demoradas conversas, em que ela era a interlocutora principal. Sempre foi uma ta­garela irremediável.

Enquanto mergulhava no passado, James se despediu com um breve aceno com a cabeça e saiu da casa, indo direto para a limusine que o esperava. O largo e opulento automóvel saiu rápida e suavemen­te, assim que James fechou a porta, desaparecen­do do campo de visão de Lily num passe de mágica, como se o carro e seu dono nunca tivessem estado ali.

Cinco minutos depois, chegou o vidraceiro para repor o vidro quebrado. Todo sorridente, o homem revelou que, pelo valor que lhe haviam pagado para rea­lizar aquele serviço, estava mais do que contente por ter deixado os outros pedidos de lado e ido direto à casa dela.


À tarde, enquanto caminhava rumo à delegacia, Lily teve uma necessidade incontrolável de remoer as lembranças daquela manhã, desde o momento em que James tocou a campainha da casa até a hora em que partiu. Como num sonho absurdo, ele havia oferecido repor o dinheiro desaparecido à instituição de caridade, em troca dos favores sexuais de Lily. Se pelo menos ele soubesse da total falta de experiência que ela tinha sobre aquele assunto, nunca teria pro­posto uma loucura daquelas, pensou. No entanto, há pouco mais de dezoito meses, Lily tinha ficado tão apaixonada por James que por muito pouco não aceitou ser o que ele quisesse ou pedisse para ela...

Não tinha orgulho desse momento de debilidade. Porém, responsabilizou sua fraqueza pelo fato de que conhecia James desde os quatorze anos, quando o viu pela primeira vez numa revista. Na época, ele ti­nha vinte e dois anos. Convencida de que ele era o homem mais lindo e charmoso do mundo, cortou a foto da revista e a guardou. Não a esqueceu em uma de suas gavetas. Pelo contrário, passou boa parte da adolescência devorando aquela foto com os olhos e beijando-a até que a imagem, desbotada pela baba e os dedos que a tocavam, por horas de flertes platôni­cos, ficasse quase irreconhecível. Muitas vezes, pen­sava que teria sido melhor nunca tê-lo conhecido, pois assim poderia manter o eterno sonho da adoles­cência, em vez de descobrir a dura realidade de que o príncipe encantado era, na verdade, um homem frio e calculista.

Seis anos se passaram depois que ela o viu na foto para que tivessem tido a oportunidade de se conhe­cer. Durante esses anos, Lily foi ganhando visibili­dade com a carreira de modelo, o que a permitiu circular no mundo exclusivista e elitizado de James. Certa vez, ela o viu numa das discotecas que freqüentava e sentiu um arrepio por todo o corpo. Ele estava sentado confortavelmente num sofá, como se fosse um membro da realeza, mas seu olhar era de tédio, apesar de haver muitas mulheres o rodeando e disputando sua atenção.

Uma experiência assustadora quando Lily tinha apenas treze anos a fez ficar bastante cautelosa em re­lação aos homens. Depois do ocorrido, ficou trauma­tizada e tinha dificuldade de paquerar ou demonstrar interesse por qualquer homem. Poucos sabiam que era virgem, um segredo que preferia manter para si, pois freqüentava um círculo social em que o sexo ca­sual era muito comum e, às vezes, uma norma. Não queria ser julgada ou ironizada.

Muitos homens a haviam perseguido para levá-la para a cama, visando adicionar mais uma modelo ao caderninho de conquistas. Acabou ganhando fama de frígida por rejeitar todos os pretendentes, o que a magoou e a deixou muito constrangida. Resolveu que era mais fá­cil simplesmente não namorar ninguém. No entanto, não havia passado pela cabeça de Lily que aquela ati­tude a tornava uma mulher ainda mais desejável. Uma espécie de desafio para os garanhões, que achavam que nenhuma mulher poderia resistir a eles.

No dia em que entrou na passarela de um desfile em Paris e deu de cara com James Potter, sen­tado na primeira fileira, ficou desarmada. Havia sido pega de surpresa. A adolescente que havia venerado a fotografia dele a desbancou, reaparecendo como se nunca tivesse ido embora. Nervosa, no meio da pas­sarela, nem ousou olhar para os lados, com medo de encontrar o olhar de James. E quando soube que ele havia pedido para que fossem apresentados, ela ficou tão ansiosa e apreensiva que nem o olhou direi­to. Ele pediu seu número de telefone e ela disse que o celular havia sido roubado. Um minuto depois, teve que se retirar, pois iria participar de um desfile parti­cular. Mais tarde, ao chegar ao hotel, ela recebeu na recepção uma encomenda. Era um celular novinho em folha que ele havia enviado para ela. O telefone tocou alguns minutos depois que ela pôs os pés na suíte em que estava hospedada. A voz dele era pura sensualidade e perdição.

Queria vê-la naquela mesma noite, mas Lily ti­nha um vôo de volta para Londres na manhã seguinte, muito cedo.

- Estou indo para a Austrália, na semana que vem. Invente uma doença e fique em Paris mais um dia - James pediu.

- Não posso.

- Pode sim, se você quiser me ver.

- E, se você quiser me ver, pode esperar.

- Você é sempre difícil desse jeito?

Aquela fora a primeira - porém não a última - experiência de ter que lidar com um homem extrema­mente rico e poderoso, acostumado com que tudo acontecesse no momento e do jeito que ele quisesse. Algo que não fosse um sim imediato era considerado uma resposta negativa, quase uma ofensa.

Mesmo assim, James mandou um jatinho parti­cular buscar Lily em Londres para trazê-la de volta a Paris no dia seguinte, quando jantaram juntos. O papo foi tão interessante e animado que os dois fica­ram até de madrugada conversando e foram os últi­mos clientes a saírem do restaurante.

Um lindo e impecável buquê de rosas brancas já esperava por Lily quando ela retornou a Londres. Ele ligava para ela todos os dias. Lily se sentia es­pecial e querida. Cada etapa da relação mais parecia um conto de fadas, um verdadeiro romance que só se via igual nos filmes.

Mais de uma pessoa a alertou sobre James Potter e sua fama de mulherengo, mas ela ignorou os conselhos. Estava encantada com os telefonemas, jantares à luz de velas e buquês de flores. Ela sonha­va, em segredo, com o dia em que finalmente se en­tregaria pela primeira vez, por amor, e que depois vi­veriam felizes para sempre. Em nenhum momento ela suspeitou que houvesse sido usada, num jogo sórdido orquestrado por um homem egoísta que achava que, por ser rico, estava acima do bem e do mal.

A dor pelas lembranças infelizes só fez piorar seu estado de ânimo, quando finalmente chegou à porta da delegacia. Ao vê-la, o delegado deu um sorriso, surpreenden­temente simpático.

- Por que não me fala um pouco sobre a casa que a sua irmã tem na França?

- França? - A perplexidade de Lily era evi­dente. - Mas minha irmã não tem casa alguma na França.

- Tudo indica que ela tem, sim, uma casa na Fran­ça e das mais luxuosas. Cinco quartos, piscina e muito mais. Pelo menos, foi o que ela mesma disse a uma amiga, no ano passado. Uma propriedade dessas não custa nada barato, ainda mais no sul da França.

Lily balançou a cabeça, recusando-se a acreditar no que ouvia.

- Essa suposta amiga não sabe o que está falando.

- Não tenho tanta certeza disso...

- Isso é mentira. Se minha irmã tivesse uma casa, eu seria a primeira a saber. Deve ter sido um mal-en­tendido. - Lily não tinha dúvidas disso. Afinal, se houvesse uma casa, ela já teria sido vendida para pa­gar as dívidas que a irmã e o cunhado haviam contraído. Além disso, Petunia nunca iria cometer o grave erro de gastar um dinheiro que não pertencesse a ela.

- Ainda não conseguimos descobrir a localização da casa, mas estamos próximos. Acho que vamos ter mais respostas quando sua irmã resolver cooperar co­nosco.

Lily ficou em pânico ao ver que o rumo das in­vestigações estava mudando e que a irmã agora estava no centro das atenções.

- Mas já disse que minha irmã não tem nada a ver com isso.

- Acredito que sua irmã tem tudo a ver com isso. Você não sabe me dizer onde foi parar o dinheiro. Além disso, existe a evidência de uma série de che­ques que foram retirados da conta da instituição de caridade que foram assinados tanto por você quanto por sua irmã, sendo que um deles serviu para comprar uma caminhonete de quarenta mil libras. O vendedor lembra bem do rosto da compradora. Onde está esse carro, senhorita Evans?

Lily ficou muda, em estado de choque. Petunia tinha mudado de carro, antes de desaparecer? E tro­cado por um muito melhor e mais caro? Estava des­concertada com a revelação, mas não hesitou em con­tinuar defendendo a irmã, pois a última coisa que que­ria era vê-la na cadeia.

- Não sei...

- Todos os cheques depositados até agora foram usados para fazer compras no nome de Petúnia Dursley para pagar dívidas, também no nome dela. Quando você assinou aqueles cheques? - ele per­guntou, sem esperar pela resposta. - Deve ter sido difícil ter que administrar todos os gastos do evento sozinha, uma vez que você e sua irmã viviam tão lon­ge uma da outra. Aposto que a parte financeira ficou a cargo dela. Por acaso assinou cheques em branco para facilitar a vida da sua irmã?

- Não, foi ela quem fez isso para mim. - Lily insistiu, angustiada.

O velho delegado suspirou.

- Se continuar insistindo em não cooperar conos­co, tanto você quanto sua irmã vão acabar dividindo a mesma cela por fraude e estelionato. Tudo indica que sua irmã está metida nisso até o pescoço. E o desapa­recimento dela dá a entender que ela foi a mentora desse crime.

- Não, não. Ela não tem nada a ver com isso.

- Ficar negando não prova nada e não vai con­vencer juiz algum. Pelo contrário, será um atestado de culpa - respondeu, impacientemente. - Pare de fazer a polícia perder tempo, senhorita Evans. Em breve, sua irmã será encontrada e processada. Não há nada que você possa fazer para mudar isso. Sugiro que volte para casa e reflita sobre o que está fazendo.

Estava a ponto de chorar quando saiu da delegacia. As lágrimas que ameaçavam cair carregavam medo e decepção. Como podia ser tão incompetente? Havia fracassado em convencer a polícia de que ela era a culpada por tudo e agora sua mãe seria perseguida e presa por causa dela. Tinha certeza de que a irmã e o cunhado nunca estariam escondidos numa mansão com piscina na Riviera francesa!

Não tinha dúvidas de que haviam fugido porque estavam assustados. Lily tinha, sim, ficado desa­pontada e com raiva pelo que a irmã havia feito, mas compreendia, de alguma forma, pois acreditava que a irmã estivesse tão desesperada que não havia pensado nas conseqüências dos seus atos. Foi na primavera que Lily, com relutância, aceitou emprestar o seu nome para o desfile beneficente que Petunia havia feito tanta questão de organizar. Entrou em contato com várias modelos, colegas suas. Foi nessa mesma época que Valter a procurou para pedir dinheiro.

Lily ficou chocada, pois o cunhado sabia muito bem que o fracasso da discoteca a havia deixado sem um tostão.

- Mas você sabe que não restou nada.

- Qual é? Não nasci ontem. - A ironia ofuscava o rosto esticado por plástica que aparentava uma fal­sa jovialidade. - Com certeza, você tem uma conta secreta. Umas economias guardadas, um pé-de-meia. Pode contar, não vou denunciar você para a Receita Federal.

Lily apenas levantou as sobrancelhas.

- Quem me dera...

- É mentira sua... Você precisa me ajudar. Fizeram-me uma proposta incrível, mas vou precisar de ca­pital.

- Infelizmente, não posso ajudar você.

Um ressentimento enfurecido brilhou nos olhos negros do cunhado.

- Nem se for para o bem da sua irmã?

Lily estremeceu.

- Não posso dar algo que não tenho.

- Então, não acha que já está na hora de parar de brincar de jardineira e voltar para as passarelas, que é o lugar de onde nunca devia ter saído? - falou num tom reprovador. - Em poucos meses, você poderia cobrir o prejuízo da discoteca!

O fato de que o cunahdo ainda esperava que ela continuasse dando dinheiro a ele incomodou Lily. Afinal, ele era bem grandinho para ganhar o próprio dinheiro. Porém, em nenhum momento suspeitou que as intenções dele fossem realmente impróprias ou mal-intencionadas, até que o diretor da instituição de caridade a procurou para contar dos cheques que não haviam sido depositados e de outros que estavam sem fundo. Por telefone, a irmã não sabia explicar nada e Lily tinha resolvido fazer uma visita para tentar en­tender o que estava acontecendo. Quando chegou à casa da irmã, ficou surpresa ao descobrir que a casa que tinha dado a ela fora vendida e que Petunia esta­va morando num hotel.

- O que está acontecendo? - perguntou Lily, quando a irmã abriu a porta do quarto onde estava hospedada. - Por que vendeu a casa?

Petunia a tratou com cinismo e aspereza.

- Como ousa me perguntar por quê? Por sua cul­pa, meu casamento está arruinado.

Lily não entendia nada.

- Como? O que foi que fiz?

- Você tirou o emprego do meu marido. Agora, claro, estamos na pior e tive que vender a casa. Valter me deixou por outra mulher! Tem idéia de como estou me sentindo?

Lily sentiu tanta pena da irmã, que havia sido abandonada, que teve vontade de abraçá-la.

- Faça-me o favor, Lily... - Então, baixou a guarda e deixou que a irmã a confortasse.

- Sinto muito, de verdade - disse Lily que es­tava sofrendo pela irmã.

- É tarde demais para sentir muito, não acha? Se tivesse voltado a desfilar quando lhe pedimos, hoje eu ainda teria um marido e uma casa para morar.

Lily se sentiu horrivelmente culpada por ter se colocado em primeiro lugar e recusado a abandonar o curso de paisagismo. Sentiu um aperto no coração, pois sabia que a irmã era louca pelo marido. Depois de tanto amor e devoção, Valter havia magoado e humilhado Petunia com aquela atitude. Lily podia entender perfeitamente como a mãe se sentia, pois há dezoito meses ela também tinha sofrido o desgosto de uma rejeição por parte de James. Por sorte, para ela, a paixão havia se transformado numa raiva esti­mulante.

- O que vou fazer da minha vida? - perguntou Petunia, de repente, aos prantos. - Estou com tanto medo...

Por um instante, Lily ficou paralisada com a rara cena de ver a irmã chorando, mas logo se recuperou para consolá-la.

- Tudo vai ficar bem. O que quer que aconteça, estarei aqui e, juntas, vamos superar isso tudo.

- Mas estou com tantos problemas - disse a irmã. - Você não tem idéia...

Voltando ao presente, Lily foi andando, tomada pela angústia e pela preocupação. A chuva fina e constante ajudou a dissimular as lágrimas que escor­riam por sua face. Sentia-se um lixo. Não teria como ajudar Petunia, uma vez que a polícia recusava-se a acreditar na sua versão da história. Por que sempre ti­nha que acabar decepcionando a irmã? E quantas ve­zes já tinha feito Petunia perder o homem que ama­va? Será que a tinham amaldiçoado ao nascer?

Primeiro, o pai, que nunca teria ido velejar se não fosse pelo pedido da filha tão amada. Não restava dú­vida de que tinha sido um acidente terrível que nin­guém poderia ter previsto, mas isso não alterava a or­dem dos fatores.

Depois, foi Rick, com quem Petunia namorava quando Lily era adolescente. Sentiu calafrios ao re­lembrar como aquele namoro terminou e como foi duramente recriminada. Gostasse ou não, também havia sido o motivo do fim daquela relação e, mais uma vez, a irmã terminou com o coração partido e so­litária.

Quando Valter Dursley apareceu na vida de Petunia, Lily se sentiu aliviada e feliz pela irmã. Apesar de nunca ter tido afeição pelo cunhado, fingia apreço a ele, por respeito à irmã. Se Petunia não fosse tão cega pelo marido, nunca teria roubado o dinheiro, pensou.

Quando a irmã lhe confessou o roubo, com lágri­mas nos olhos, Lily piedosa prometeu protegê-la. Petunia estava apavorada e agradeceu mais de uma vez pelo apoio. Lily recordou a rara demons­tração de afeto que a irmã lhe dera naquele dia. Petunia nunca suportaria a humilhação de um processo criminal, muito menos a vida desumana numa prisão.

A tentativa de assumir a culpa do roubo para sal­var a irmã não seria suficiente. A polícia estava deter­minada a encontrar Petunia e só restava uma saída.

Encharcada e morrendo de frio, entrou em casa, fechou a porta desgastada pelo tempo e apanhou o cartão de visita de James. Se ele fosse realmente repor o dinheiro, as acusações seriam retiradas e a irmã deixaria de ser uma fugitiva - estaria a salvo. E não era isso o que realmente importava?

Em vez de ligar, optou por mandar uma mensagem de texto pelo celular, pois, do contrário, não teria co­ragem de falar o que escreveu.

Se ainda me quiser, serei sua.Lily.

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