A CURA

Agora com beta!

Revisão: Det Rood – Valeu, amiga!

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Parte 2 : Elos

A primeira dose do remédio havia sido ministrada, mas o caminho para a cura era longo.

Depois de todas aquelas emoções, os irmãos decidiram que pernoitariam na parada de caminhões. Ambos estavam física e emocionalmente esgotados.

Durante boa parte da noite, as palavras pronunciadas pelo caçula ecoavam dentro da cabeça do mais velho. Dentro da cabeça e do coração. Algo, naquilo que fora dito no calor da emoção, havia despertado nele sentimentos que abafara dentro do peito por muito tempo. Sensações que, desde que voltara do Inferno, havia esquecido. E um calorzinho aconchegante tomou conta de sua alma. Adormeceu embalado pela lembrança daquele abraço.

O telefone celular de Sam, que estava sobre a mesinha entre as camas, vibrou insistentemente, já tarde da noite.

O rapaz esfregou os olhos, meio atordoado ainda pelo sono, e esticou a mão sobre o aparelho quando se deu conta da luzinha azulada que girava sobre o móvel de madeira. Atendeu com a voz rouca e embaralhada.

Do outro lado da linha era Bobby, com um tom preocupado, querendo saber da localização dos dois e o motivo pelo qual demoraram tanto a atender o celular. Que fique claro que a resposta dada pelo rapaz, a mais pura verdade, eles estavam dormindo, não convenceu o amigo. Passava pouco da meia noite e aqueles garotos estavam dormindo? – O assunto verteu para o resultado das investigações sobre a quebra dos selos, as andanças de Lilith e coisas do gênero.

Sam falava baixinho, temendo acordar o irmão. Respondia às perguntas de Bobby com monossílabos e se concentrava em ouvir o que o caçador tinha para dizer. Mais duas ou três palavras e desligou.

Não seria fácil voltar a dormir. Informações demais pra processar. A coisa estava ficando mais feia e não sentia que seu irmão estivesse pronto para encarar mais uma batalha. Ou qualquer batalha, que não fosse aquela que lutava dentro de si. Não, por enquanto. Sequer podia imaginar o peso que Dean carregava depois das revelações de Alastair, confirmadas por Castiel. Voltou a deitar-se e ficou ali, largado sobre a cama, revirando tudo o que Bobby tinha dito e a conversa que tivera com Dean na estrada.

Logo cedo, os rapazes Winchester deixaram o hotel, após um rápido desjejum.

_ Tem certeza de que não quer dirigir? – Sam vinha conduzindo o Impala há 3 dias . Estendeu a mão com as chaves.

_ Não, você leva – Dean passou a mão pelo tronco, do lado direito _ Ainda estou com um incômodo aqui. Aquele filho da puta me acertou direitinho.

O primeiro palavrão! Sam riu. Mas não riu do fato de seu irmão estar dolorido. Riu porque o velho Dean Winchester era incapaz de formular uma sentença onde não houvesse um único palavrão.

_ Do que você está rindo? – o mais velho ergueu a sobrancelha direita, intrigado com a reação do irmão _ Acha engraçado um demônio te cobrir de porrada e quebrar todos os seus ossos? Não foi nada agradável ter quase virado um milkshake de massa encefálica, se quer saber.

O caçula soltou uma gargalhada pura e sonora. Mais um palavrão e uma piada. As coisas estavam melhorando. Com certeza, estavam. E isso encheu-lhe o coração de esperança.

Os dois embarcaram no automóvel e ganharam a estrada. Se fossem ligeiros, estariam com Bobby ainda antes do almoço.

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Antes do meio dia, passaram pelos portões do ferro velho.

Estacionaram diante da casa de Bobby.

O velho caçador desceu as escadas da varanda e atravessou o pátio a passos largos. Segurou ambos os rapazes num abraço emocionado. Daqueles que são capazes de abraçar o mundo. Empurrou aquele seu boné surrado para trás e verificou cada um de seus meninos. Olhou dentro dos olhos de cada um e sorriu encabulado pela demonstração inesperada de carinho e preocupação.

Bobby conduziu os Winchester para dentro de casa.

_ Preparei o quarto lá em cima para vocês, rapazes, se quiserem descansar um pouco. Estou cozinhando macarrão para o almoço.

_ Obrigado, Bobby – Sam apanhou a bagagem e pôs sobre os ombros _ Acho que vou aceitar e esticar as costas um pouco.

_ Você não disse ao Sam que tinha novidades sobre Lilith? – Os outros dois caçadores voltaram-se para Dean _ Pensei que fosse urgente.

_ Oh, não. Nada que não possa esperar por uma ou duas horas.

_ Okay... – O rapaz abaixou a cabeça e seguiu o irmão, detendo-se ao pé da escada _ Bobby? Belo avental. A cor lhe cai muito bem.

_ Ora, seu cretino! Saia da minha frente antes que acabe de quebrar esse seu nariz!

Estar na casa de Bobby Singer era reconfortante. Aquele lugar, depois do Impala, era o que eles tinham de mais próximo de um lar.

O cheiro do molho do macarrão invadiu a casa. Preencheu todos os espaços. Aquela raposa velha era mesmo uma caixinha de surpresas. Quem poderia imaginá-lo de avental, armado com uma colher de pau a pilotar um fogão? Você pensa que conhece tudo de alguém e, de repente, pimba! Lá vem uma novidade, uma nova faceta.

Banhados e recompostos, os irmãos desceram as escadas, atraídos pelo aroma da refeição.

Bobby acabara de virar o espaguete num refratário enorme e retirava do fogo a panela com o molho vermelho fumegante.

A mesa estava posta: pratos, copos e talheres para todos sobre uma toalha branca com pequenas flores coloridas que, pelo tom encardido, deveria ter feito parte do enxoval do casal Singer. Mas quem ia reclamar? Aquilo tudo era muito inesperado. Inesperado e delicioso. Delicioso com um gosto de família. E isso era bom. Muito bom mesmo.

_ Alguém pode me explicar o motivo da comemoração? – Dean arrastou a cadeira e pendurou um guardanapo na gola da camisa como um babador, em meio a um sorriso que parecia saído de um comercial de creme dental.

_ Comemoração? – Bobby atirou o boné sobre a bancada _ Que comemoração?

_ Bem... Nós nunca o vimos cozinhar, Bobby... – Sam estava mesmo sem jeito. Não queria magoar o amigo, mas aquilo tudo não estava no programa.

_ Vocês vão me condenar por querer agradar aos amigos, seus ingratos?

_ Não, não... De jeito nenhum – os dois irmãos responderam num coro, como se tivessem ensaiado.

_ Então... – o caçador apanhou porções generosas da massa, usando dois garfos enormes para isso, e depositou no prato de cada um dos rapazes _ Vamos comer. Espero que esteja ao gosto de vocês, meninos.

_ Se o gosto for tão bom quanto o cheiro, não sei se o que tem aí vai ser o suficiente.

_ Ah, não se preocupe, Dean. O seguro morreu de velho. – ofereceu a tigela com queijo ralado aos dois, que se serviram _ Tenho outra panela com água fervendo no fogão para qualquer emergência.

A refeição transcorreu animada entre as garfadas, elogios ao cozinheiro e risadas. Tudo o que uma família normal teria num almoço corriqueiro de domingo. Só que caçadores estavam longe de uma vida 'normal'. E um almoço 'normal' era a exceção, não a regra.

À tardinha, depois de alguma insistência da parte dos rapazes, os três caçadores sentaram-se à mesa, diante da pilha de material coletado pelo mais velho deles durante aquela semana. Bobby era um excelente rastreador. O melhor que eles conheciam. Um pesquisador eficiente e um homem sábio. Se algo parecia sem solução, Bobby Singer era o homem certo para encontrar as respostas.

Sam e Dean ouviram atentamente todas as informações e detalhes. Havia diante deles um mapa com várias cidades, em diferentes estados, assinaladas como possíveis selos a serem quebrados. A dificuldade estava em saber qual deles Lilith escolheria. Até então não tinham percebido nenhum padrão para a seleção. Ela agia a esmo. Atacava em lugares tão diferentes quanto distantes entre si. Não havia qualquer lógica na linha de ação. Só uma coisa era certa: os selos intactos diminuíam numa velocidade assustadoramente perigosa.

_ Pelo jeito, Castiel e sua brigada celestial estão marcando bobeira. Esses demônios estão ganhando terreno muito depressa.

_ É o que parece, Dean. Mesmo que pudéssemos reunir dezenas de caçadores, ainda assim não seríamos capazes de proteger todos os selos.

_ E tem outro problema, Bobby. – Sam tinha aquela sua expressão que deixava o estômago de Dean em pandarecos _ Como podemos ter certeza de que não há outros selos que ela possa quebrar?

_ Não podemos, garoto.

_ Certo – Dean coçou o alto da cabeça _ Voltamos à estaca zero?

_ Não, irmão. Temos um ponto de partida. Vamos atrás do selo que estiver mais próximo e conferimos.

_ Então vamos entrar em contato com todos os caçadores confiáveis que conhecemos e ver se topam entrar nessa conosco. Daí, é dividir e conquistar, certo?

_ Acho bom, garotos, pegarmos os telefones e pormos mãos à obra. Temos muito o que fazer.

O resto do dia se foi.

Nenhum dos três tinha uma expressão muito animada àquela altura da noite. De todos os caçadores que conheciam – e não eram poucos – vários estavam fora de alcance e outros tantos, segundo os informaram, tinham sido mortos em condições suspeitas. Pelo visto, Lilith e sua corja já previam a convocação de caçadores para uma aliança em prol da defesa dos últimos selos e se adiantaram, liquidando os que estavam em seu caminho.

_ Tomem, garotos – o velho caçador estendeu duas garrafas de cerveja _ Acho que estamos todos precisando disso.

_ Essa vaca demoníaca desgraçada está sempre um passo à nossa frente! - Sam observava, silencioso, o irmão praguejar e se afundar no sofá desbotado. Por uma fração de segundo, viu o bom e velho Dean Winchester naquele olhar à sua frente.

_ Ei, Bobby, que fotos são essas? – o rapaz mais moço esbarrou numa caixa de charutos que estava ao lado da poltrona onde se sentara, derrubando várias fotos amareladas, sem querer.

_ Não são nada... – o caçador correu para juntá-las, mas o outro já as tinha nas mãos _ Pode me devolver?

_ É claro. Mas somos nós aí, não é? Eu e Dean?

_ Não sabia que você guardava fotos nossas – Dean aproximou-se e sentou-se no braço da poltrona _ Posso ver?

_ Que bobagem... – o constrangimento era visível no velho caçador _ É lógico que podem ver. Afinal, são fotos de vocês. De muito tempo atrás.

_ Veja isso, Sammy. Você ainda usava fraldas aqui.

_ E você, franjas, Dean.- Sam sorriu exibindo as covinhas _ Não me lembrava de você de franjas.

_ Ah, cara... Isso faz parte de um passado remoto que eu prefiro esquecer. - pegou outra foto na caixa e sorriu vitorioso _ Você vai ter que admitir que eu sempre fui o mais bonito.

_ Vocês eram dois meninos muito bonitos, mas com os olhos mais tristes que eu já tinha visto em toda a minha vida.

De repente, um silêncio avassalador tomou conta daquele cômodo. Estavam descobrindo um novo Bobby Singer. Sabiam muito bem que ele e seu pai se conheciam desde a última era glacial, mas nunca haviam realmente perguntado em que condições tinham se encontrado. E essa pergunta, depois daquela observação que parecia ter escapado num momento de descuido, não queria calar dentro da cabeça de nenhum dos dois irmãos.

E, para surpresa de ambos, não precisaram verbalizar o pensamento porque aquele homem, ali, diante dos dois, parecia ter a necessidade de por pra fora uma história que estava guardada há muito tempo. Há tempo demais.

_ A primeira vez que John apareceu aqui, estava atrás de informações sobre o que tinha matado a mãe de vocês. – Bobby parecia estar entrando no túnel do tempo – Estava assustado e com uma raiva que dava pra sentir no ar. Foi realmente esquisito abrir a minha porta e dar de cara com aquele sujeito mal encarado, tendo um bebê no colo e um garotinho loiro pela mão.

_E vocês descobriram algo, digo, naquela época? – Sam puxou o corpo para frente, sentando-se na beira da poltrona. Estava curioso. Queria detalhes.

_ Não muito mais do que ele tinha descoberto sozinho e que vocês já sabem, mas o que me impressionou foi vocês dois. Tão pequenos... Aquilo ficou dentro da minha cabeça por dias depois que partiram. Como ele podia carregar duas crianças tão pequenas por essas estradas atrás de uma vingança que não tinha futuro.

_ Mas nós voltamos várias e várias vezes, depois disso – Dean não estava entendendo onde toda aquela conversa ia dar, mas estava disposto a descobrir.

_ Sim, e em diversas oportunidades tentei convencer ao pai de vocês a deixá-los com um parente ou uma família de amigos, mas como sabem, não fui feliz. John era um sujeito teimoso.

_ Ele jamais nos deixaria para trás, Bobby. Nunca

_ Você pode pensar assim, Dean, mas todas as vezes em que ele partiu numa caçada ou na sua busca pela vingança, deixando vocês dois trancados dentro do carro ou abandonados num quarto de motel vagabundo, meu Deus...

_ O que você está fazendo? – o primogênito de John começava a demonstrar irritação _ Que papo é esse agora de começar a falar mal do meu pai? Pensei que vocês fossem amigos!

_ Dean... Deixe o Bobby falar, por favor.

_ Nós éramos amigos, garoto, mas isso não quer dizer que eu tivesse que concordar com a maneira como ele cuidava de vocês.

_ Ele fez o melhor que pôde, Bobby – Por incrível que pareça, Sam saiu em defesa do pai.

_ John Winchester foi o melhor caçador que conheci. Foi preciso, implacável, eficiente. Sabia fazer o seu trabalho. Mas como pai... Tenho minhas reservas. Ele não poderia ter envolvido vocês dois nessa vida. O trabalho de um pai é proteger seus filhos e não colocá-los na linha de tiro.

_ Mas o pai sempre protegeu a gente. Você não sabe do que está falando.

_ Dean, eu posso entender essa sua veneração pelo sujeito. Não te sobrou mais nada. Ele era tudo o que você tinha pra se agarrar, mas um pai não é um sargento de treinamento. Um pai não joga sobre os ombros de um filho, ainda pequeno, a responsabilidade de cuidar de outra criança. Esse era o papel dele. E o que ele fez com vocês foi egoísta. Foi cruel.

_ Bobby... Por favor...

_ Menino, quando foi a última vez que você saiu com seu irmãozinho para ir ao zoológico ou para tomar um sorvete na esquina, sem ter que, primeiro, se certificar de que não havia nada de 'anormal' os rondando?

_ Nós nunca fomos ao zoológico juntos – Sam comentou, sem tirar os olhos do chão_ Nunca.

_ É disso que eu estou falando, rapazes... Eu respeito seu pai. Mas nunca pude aceitar o destino que ele traçou para vocês. Não estou dizendo que ele seja culpado de alguma coisa ou de todas essas desgraças que se abateram sobre as suas vidas. Quem sou eu... Mas ele tinha dois filhos...

_ E o que você quer que a gente diga, hein? – os olhos de Dean estavam embaçados _Ele era o nosso pai.

_ Não quero que digam nada - passou a mão pelo rosto _ Eu sei que o amam. E é assim que tem que ser. Só gostaria que tirassem de dentro de vocês esse sentimento de culpa. Essa coisa de que estão devendo algo ao pai de vocês. É preciso se libertar dessas amarras para continuar.

Cada uma daquelas palavras, ditas pausadamente, num tom quase sussurrado foi penetrando a alma daqueles dois jovens com uma força inexplicável. Jamais, em tempo algum, poderiam imaginar ter aquela conversa. Querendo ou não, sabendo ou não o que estava fazendo, Bobby estava desconstruindo um estigma na vida dos rapazes. O mito John Winchester estava desabando diante de seus olhos. E pela primeira vez, estavam conseguindo enxergar o pai como um ser humano, não um deus, cheio de dúvidas, de angústias e de falhas. Um cara corajoso, determinado que lhes tinha ensinado tudo sobre honra e responsabilidade, mas que tinha pisado feio na bola no quesito paternidade.

_ Eu só queria... Que vocês soubessem – as palavras estavam meio engasgadas. Levantou-se e enfiou as mãos nos bolsos da calça _ Queria que soubessem que eu tentei – Já não estava nem aí paras as lágrimas_ E também que não têm do que se envergonhar. Eu teria muito orgulho, mesmo, de tê-los como meus filhos.

Era a gota que faltava para entornar o caldo.

Ninguém naquela casa estava preparado para tantas revelações. Nem o velho caçador que, abria seu coração, nem os rapazes que ouviam, boquiabertos, a tudo. Mas o principal, que mexeu fundo, foi ouvir da boca do homem a quem tanto respeitavam, a declaração de que ele se orgulhava deles, acima de tudo e de qualquer coisa.

A inanição foi o resultado imediato à comoção, mas passado o impacto inicial, os jovens envolveram o mais velho num abraço longo e carinhoso, como merece um bom pai.

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CONTINUA

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N/A: Acho que vou arranjar encrenca pela minha colocação a respeito de John Winchester, através da fala e dos sentimentos de Bobby. Mas para isso existe a liberdade de expressão. Pra gente dizer o que pensa e os outros concordarem ou não.

Enquanto desenvolvia esse capítulo, percebi que não só Dean precisava de cuidados na relação com o pai, Sam também. Então, a segunda dose foi no pacote: Dois por um.