Sant'Ana - Capítulo 1
"Os Swan"
A família Swan sempre lidou com terras. Era aquele tipo de família que sempre se gabou por ter começado por baixo e conquistado cada hectare do que tem com o suor de seu trabalho.
Contam por aí, que os primeiros Swan eram funcionários da família Masen, e que foi com um golpe que um capataz esperto bolou, que eles conseguiram suas primeiras terras. Aliás, segundo dizem, foi exatamente daí que surgiram as primeiras discórdias entre as famílias.
Hoje, o homem mais influente da família Swan, com certeza, é Charlie. Não foi fácil para ele conseguir esse posto, mas ele lutou com unhas e dentes - e tiros de pistola - pelo direito de chegar aonde chegou.
O pai de Charlie foi o "manda-chuva" por algum tempo, mas era teimoso (ou burro) demais para aceitar que deveria andar com seguranças, capangas, ou qualquer homem que pudesse protegê-lo.
Foi encontrado morto na estrada para a capital. Todos os seis tiros de um revólver calibre 38 haviam sido descarregados sobre ele.
Um pistoleiro chegou a ser preso, mas ninguém conseguiu provar quem eram os verdadeiros culpados.
A mãe de Charlie não admitiu que ele assumisse os "negócios". Ele era jovem, volátil, passional demais para sua própria segurança, e "Vovó Swan" - como ela ficou conhecida - decidiu que ela mesma assumiria o que o marido deixou.
Ao contrário dos homens de Sant'Ana, as mulheres costumavam viver muito. Mesmo quando se envolviam nos "negócios". A verdade é que ainda havia um certo código de honra que impedia os homens de assassinar as mulheres.
O que não significava, é claro, que todos os homens que elas amavam não seriam sistematicamente eliminados, um a um.
Por isso mesmo, Vovó Swan mandou Charlie para a Universidade da capital para estudar Direito.
Ele odiou a ideia. Queria estar em Sant'Ana, queria honrar o nome do pai se metendo no meio da guerra entre as famílias, queria ser o causador de quantas mortes pudesse entre todos os Masen.
Mas sua mãe tinha um argumento. Aliás, dois: primeiro, era ela quem mandava; segundo: um homem Swan, formado em Direito, estudado, com contatos na capital, seria muito útil quando ela não tivesse mais condições de mandar em tudo.
E realmente foi.
Charlie voltou assim que conseguiu seu diploma, disposto a conseguir também o cargo de Chefe de Polícia da cidade de Sant'Ana.
Vovó Swan ainda era viva quando Charlie retornou da capital, cheio de planos e rompantes da juventude. Inclusive, Vovó Swan culpou exatamente a esses rompantes quando a filha da empregada apareceu grávida de Charlie.
Renée era jovem, bonita, e Vovó Swan sabia que ela também era esperta e bastante ambiciosa. Não era difícil imaginar que ela havia enxergado em Charlie uma chance de sair da pobreza e conhecer o mundo de "poder" que eles imaginavam existir em Sant'Ana.
Em algum tempo, Charlie conseguiu o seu tão desejado cargo: se tornou o Chefe de Polícia de Sant'Ana e alcançou o respeito e o prestígio que sempre havia perseguido.
Agora Charlie era a lei. Ele decide quem é solto e quem é preso, quem é suspeito ou não, quais inquéritos serão apurados, e quais serão convenientemente deixados de lado até serem confortavelmente esquecidos.
Renée, ao contrário do marido, que mantinha as mesmas ambições de quando era um garoto, havia se tornado uma outra mulher. Quando era jovem e inconsequente, ela imaginou que engravidaria de Charlie e seria feliz. Sem pensar em qualquer outra complicação que poderia vir.
Mas, no momento em que ela olhou para seu primeiro filho: Emmett, com sua pele enrugada e os cabelinhos cacheados, ela sabia que os problemas estavam apenas começando.
Porque Charlie jurou que faria de Emmett seu sucessor e Renée não seria capaz de simplesmente permitir que seu filho fosse jogado no meio de uma guerra, da qual ele não tinha a mínima culpa.
Os Masen tinham mais "berço", mais "história" e costumavam mandar seus meninos para bem longe de Sant'Ana assim que chegavam à adolescência. Renée tentou convencer Charlie que o melhor para Emmett era ter a mesma oportunidade e ir estudar em um lugar com mais recursos. No exterior, se possível.
Mas Charlie era contra, queria o filho perto dele no dia a dia, aprendendo sobre os "negócios", sobre terras, gado, plantações, poder e armas.
Renée pensou em ir embora, mas Charlie já havia lhe dado uma ou duas amostras do que seria capaz de fazer quando contrariado. E para ele, com aquela sua mentalidade "latina", uma esposa era quase um objeto de possessão.
Além disso, ele jamais deixaria que ela levasse Emmett consigo, e ela não queria arriscar no que ele se tornaria somente sob a batuta do pai.
Renée não queria outros filhos, mas acabou engravidando novamente. Seu terço, herdado da mãe, foi o maior companheiro durante a gravidez. Renée pedia dia e noite que Deus não lhe deixasse gerar outro menino.
"Charlie, eu..." - Renée engoliu seco antes de continuar. Ela sempre ficava tensa ao falar com o marido sem ser consultada - "Eu estava pensando se o senhor poderia me levar até a capital. Para vermos o sexo de nosso bebê"
"Para que?" - Charlie continuou mastigando, como se Renée não tivesse dito absolutamente nada.
"Todo mundo faz ultrassom hoje em dia. É bom. Para saber se o bebê está bem, comprarmos as roupas rosas, ou azuis..."
"Eu não vejo necessidade disso. Minha mãe não fez ultrassom e eu estou muito bem. Você não fez ultrassom quando estava grávida de Emmett, e ele está muito bem. Por que você quer começar a mimar essa criança antes mesmo dela nascer? Meus filhos são fortes e saudáveis. E pare com essa bobagem de ultrassom, médicos e sei lá mais o que. Toda a minha família nasceu em casa, pelas mãos da mesma parteira, e não vamos mudar isso".
Renée pensou em argumentar, em dizer que Charlie estava sendo retrógrado ao não aceitar que a medicina era uma prática necessária e que bebês podiam ser melhores socorridos ao nascerem em hospitais.
"E quanto às roupas rosas ou azuis, espero que você tenha a capacidade de me dar outro filho homem" - Charlie comentou, como se dissesse algo sem importância, antes de se levantar e sair.
Renée ficava se perguntando como um homem estudado, formado em Direito, na Universidade da capital, podia ser tão ignorante. Até mesmo ela, uma mulher criada a vida toda em Sant'Ana, sabia muito bem que quem determinava o sexo de um bebê eram os genes do pai e não os dela.
Mas Charlie jamais perderia a chance de humilhá-la ou subjuga-la tanto quanto pudesse.
"Acho que vou mesmo ter que esperar até que você queira nascer, não é?" - Renée afagou a própria barriga - "Por favor... Eu não vou suportar. Eu não vou suportar ter que viver com medo de perder você também".
Embora Charlie fosse mais cuidadoso que o pai e gostasse de andar rodeado por capangas, Renée havia passado toda sua vida aguardando o dia em que a notícia de sua morte viria. E ela sabia que esse aperto, essa eterna espera pelo dia do luto, seria multiplicada assim que Emmett tivesse idade para entrar para a lista dos Masen.
Mais um filho homem, seria uma verdadeira progressão geométrica para sua angústia de mãe.
Os meses passaram se arrastando para Renée. Cada centímetro a mais na barriga, era motivo para alívios ou medos.
"Mas olha só que barriga pontuda! Acho que vou ganhar mais um neto. Meu Charlie saiu mesmo um homem e tanto!" - Vovó Swan fazia questão de frisar. E Renée ficava se olhando no espelho, tentando não ver uma barriga pontuda, pedindo ao bebê que ele se mexesse até que a barriga ficasse espalhada, como o povo dizia que devia ser a barriga de quem esperava uma menina.
Quando as contrações vieram, a primeira coisa em que Renée pensou foi em como ela viveria se parisse mais um menino.
"Força!" - A parteira - aquela mesma que fizera os partos de toda a família Swan - pedia - "Força! Já estou vendo a cabeça!"
Renée usou toda a força que tinha, até que ouviu o chorinho de seu bebê. E ela soube: Deus havia escutado suas preces.
"É uma menina!" - A parteira declarou.
"Graças a Deus!" - Renée sussurrou o mais baixo que pode.
"É uma menina bonita" - A parteira sorriu. Ela era uma velha, mas ainda tinha as mãos firmes - mãos que podiam segurar um bebê com toda a segurança que a experiência pode trazer - "Shh, shh..." - Ela chacoalhou o bebê, enquanto andava até Renée e a deixava segurar a criança - "Aqui. Vai com a sua mãe."
Renée estava cansada. Aliás, Renée estava exausta de todo o esforço que havia feito. Ela suspirou quando a menina foi colocada em seus braços.
Ela era mesmo uma menina bonita.
E ela lembrava muito Emmett quando ele ainda era um bebê.
"Como ela vai se chamar?" - A parteira perguntou.
"Eu ainda não sei. Meu marido vai escolher um nome" - Renée confessou, enquanto afagava o rostinho de sua menina.
"Vou dizer a eles que a menina nasceu" - A parteira assentiu, saindo do quarto logo em seguida.
Charlie não teve muita reação ao saber que havia ganhado uma filha. Ele entrou no quarto, conheceu a menina, com seus grandes olhos de chocolate, e logo disse que precisava trabalhar. Renée não pode deixar de comparar com o dia em que Emmett havia nascido.
Quando Emmett nasceu, Charlie entrou no quarto, tomou o menino dos braços de Renée, e o ergueu o mais alto que pôde, mostrando todo o seu orgulho, proclamando para quem quisesse ouvir, que aquele seu filho homem seria a "continuação" da família Swan, conquistando cada canto da cidade de Sant'Ana.
"E como vai se chamar essa menina?" - Perguntou Vovó Swan, olhando para Renée com aquele seu ar sempre superior, mesmo agora que sua saúde estava debilitada e todos a consideravam praticamente um "peso morto".
"Eu não sei. Meu marido não quer escolher?" - Renée perguntou quando Charlie já estava prestes a atravessar a porta.
"Escolha você" - Ele respondeu secamente, sem deter seus passos, sendo seguido por Vovó Swan.
"Não se preocupe, minha menininha" - Renée beijou a mãozinha de seu bebê, quando ficaram sozinhas - "A mamãe vai amar você com tudo o que puder. E nós vamos te dar um nome bem bonito."
"Mamãe?" - Emmett estava parado na porta, tenso, olhando o bebê no colo de sua mãe cansada.
Ele ainda era um menino, com seu cabelo um pouco claro, como o de Renée, e os olhos escuros de Charlie. Pequenas covinhas marcavam suas bochechas quando ele sorria. E, embora Charlie não gostasse que ele o fizesse, Emmett gostava de sorrir.
"Oi, filho. Entre aqui. Venha conhecer a sua irmã"
"Mas o papai disse que eu ia ganhar um irmão."
"Mas não é" - Renée sorriu - "É uma menininha."
"E o que nós vamos fazer com ela?" - Emmett perguntou, reproduzindo claramente os pensamentos de seu pai. Charlie podia até não declarar em voz alta, mas vivia e agia, todo o tempo demonstrando que para ele, mulheres não valiam coisa alguma.
"Nós vamos brincar com ela. E você, como irmão mais velho, também vai cuidar dela bem direitinho. Não vai?"
"Ela vai gostar de mim?"
"Sua irmã vai adorar você, Emmett" - Renée sorriu, enquanto ele se esforçava para subir na cama - "Porque você não me ajuda a escolher um nome para ela?"
"Hum..." - Emmett pareceu pensativo, enquanto observava a irmã, pequena, e ainda enrugada - "Que tal... Bela?"
"Bela?"
"Bela" - Emmett assentiu - "Como a moça daquele livro que a senhora leu para mim."
Renée tinha o costume de ler contos para Emmett quando ele ainda era um menininho e Charlie ficava na rua até tarde o bastante para não vê-la "contaminando" seu filho com aquelas historinhas de menina.
"Que tal... Isabella?" - Renée sorriu - "E nós podemos chamá-la de Bella. O que você acha?"
"Isabella" - Ele assentiu outra vez, concordando com a mãe.
"Emmett!" - A voz de Charlie ressoou lá na sala e Emmett pulou da cama, saindo em disparada.
"Eu preciso ir! Tchau, mamãe!"
"Tchau, filho" - Renée suspirou, se vendo sozinha outra vez - "Isabella" - Ela afagou o rosto de sua menina - "Minha menina... Que Deus te abençoe. E te leve para bem longe dessa terra, para que você possa ser feliz. Simplesmente feliz"
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Olha só quem voltou outra vez!
Sim, o Charlie é mau.
Mas ainda temos muita água para rolar debaixo dessa ponte.
Eu pretendo postar quarta-feira (Preciso escrever, mas ok)
Muito obrigada por todas as reviews, favoritos, alertas e etc.
Aliás, deixa eu ir ali responder as minhas reviews.
Beijinhos
Até quarta-feira
REVIEWS
Kathyanne: Obrigada pela companhia e pelos votos. Feliz ano novo para você também.
Deh M. Oliveira: Obrigada. Feliz 2.012 para você também.
Rosana Tecshu: É, vamos mudar de ares e ir para uma cidadezinha mais árida. Rsrsrs
Deh C: É, vai ser dramática. Hehehe
Sofia - pt: Ah, pode ir se preparando - Vai rolar um draminha básico.
JaqueF: Essa será dramática. Nada a ver com Novos Ares fofolete. Rsrsrs
Rezinha77: Ah, essa história promete mesmo! Só não conto o que! Rsrsrs
Vitória: Obrigada pela ajuda. Preciso terminar o próximo capítulo para poder te mandar. (Indo trabalhar)
AH! ESQUECI DE FALAR: FELIZ 2.012 PARA TODAS VOCÊS. QUE SEJA UM ANO MARAVILHOSO!
