Capítulo 2
Inacreditável. Surpreendente. Incrível. Absurdo. Não havia palavras suficientes para descrever o que Sawyer e Ana estavam presenciando. Ela ainda estava estática com a cena, mas Sawyer parecia completamente perturbado. Ele não dissera palavra. Não fizera nenhum comentário jocoso, o que era muito estranho devido à natureza sarcástica da personalidade dele.
Em teoria, eles sabiam que aquilo era possível. Já que estavam viajando num vórtice de tempo, pelo que Daniel Faraday explicara seria plausível que eles pudessem retornar aos meses iniciais da chegada deles naquela ilha e verem a si mesmos em algum momento. No entanto, uma coisa era imaginar aquilo, outra coisa era ver com os próprios olhos aquilo acontecendo. Ana-Lucia estava contente por estar vendo apenas Kate e Claire, ao invés de ter visto a si mesma resfolegando na relva com Sawyer. Seria no mínimo bizarro.
Mas ela não teve muito tempo para pensar sobre isso porque o forte clarão transportador surgiu novamente e os tragou com ele para as profundezas de seu túnel. Ana apenas sentiu Sawyer apertar sua mão mais forte e de repente já não era mais noite e ambos ouviam passos seguidos da voz de Locke os chamando:
- James? Ana-Lucia?
Sawyer não se voltou para ele a princípio. Ainda estava muito perturbado com o que acabara de ver. Seu coração batia tão depressa que ele imaginou que não conseguiria segurá-lo dentro do peito. Seus olhos ficaram fixos no exato lugar onde Kate e Claire estiveram antes do clarão levá-los para longe.
- O que aconteceu?- Locke perguntou.
Ana esfregou os olhos ainda se recuperando da viagem no tempo. Ela olhou para Sawyer e ele ainda estava em estado de choque, olhando para Locke como se o homem fosse um fantasma.
- Viu alguma coisa aí, James?- ele indagou como se já soubesse a resposta.
Sawyer olhou novamente para a clareira, os olhos assustados. Já que ele não dizia nada, Ana resolveu responder por ele:
- Nós vimos... – mas ela não conseguiu terminar o que ia dizer, pois Sawyer falou por cima da voz dela, alteando sua própria voz:
- Não se preocupe. Já sumiu!
E então sem dizer mais nada, ele saiu caminhando à frente dos dois com os olhos tristonhos.
- O que vocês viram?- Locke indagou à Ana.
- Você o ouviu.- disse Ana, disfarçadamente. – Seja lá o que for que vimos já sumiu.
Se Sawyer não quisera contar à Locke o que eles tinham visto, ela achou melhor respeitar isso. Já tinha feito coisas ruins demais para Sawyer e não queria fazer mais uma.
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O grupo prosseguiu seu caminho agora à luz do dia. Segundo o plano de Locke, eles deveriam ir até a praia, pegar o Zodiac, a lancha que restara do cargueiro que explodira e dar a volta na ilha para chegarem até a Orquídea.
Ana não estava gostando da ideia de entrar num barco sem nenhuma segurança com Aaron, mas era a única maneira de chegarem mais rápido à estação. Juliet caminhava ao lado dela e há poucos minutos tinha lhe oferecido pedaços de uma manga que ela vinha guardando desde o acampamento na praia. Apesar de não gostar da médica, Ana sorriu agradecida.
Ela olhou para Aaron adormecido em seu pequeno berço ambulante junto ao peito de Ana. O bebê tinha dormido quase que imediatamente após terminar a mamadeira.
- Ele parece muito confortável com você.- Juliet comentou.
- O pobrezinho não tem muita escolha sem a mãe dele por perto.- comentou Ana com amargor. – Será que ainda vamos encontrá-la?
Juliet deu de ombros.
- Eu não sei de mais nada. Só sei que precisamos sobreviver.
Ana lançou a ela um olhar preocupado e disse:
- O leite em pó Dharma está quase acabando. Não sei onde vamos encontrar uma vaca para alimentá-lo.
Juliet tocou o ombro dela gentilmente e sorriu confiante:
- Nós vamos dar um jeito.
Sawyer ia muito mais à frente do grupo, tão rápido que se os outros não se apressassem em acompanhá-lo ficariam para trás. Desde a visão na floresta ele não dissera mais nada e ainda parecia muito perturbado. Ana sabia que ele e Kate tinham tido um romance na ilha, mas ela não imaginava que ele a amasse tanto assim. Ela chegara a pensar que um homem como Sawyer, tão egoísta, mau-caráter e ciente de seus belos atributos jamais poderia se apaixonar. Conviver com ele naquele momento difícil a estava fazendo conhecer outros lados dele. Mas quem ela era para julgá-lo com seu passado tão nebuloso? Todos ali eram humanos afinal.
Locke cortou a distância de poucos passos que o separavam de Sawyer e o interpelou em voz baixa:
- Ei. Vai me contar o que você viu lá atrás?
- Já contei. Não era nada.- respondeu Sawyer sem vontade nenhuma de contar nada a ninguém. – Se quer mesmo saber pergunte à Lucy. Ela também viu o que eu vi.
- Ela não me parece tão perturbada quanto você por causa da visão que tiveram e além do mais, você e eu sabemos quando estávamos antes do céu se iluminar, James. Então, quem você viu? Charlie? Shannon? Você mesmo?
- Como é que você sabe quando estávamos Johnny Boy?- indagou Sawyer. – Aquela luz no céu vinha da escotilha, certo?
Locke olhou ao redor para ver se mais alguém estava prestando atenção. Então satisfeito ao perceber que todos estavam distraídos consigo mesmos, voltou-se novamente para Sawyer e disse:
- Na noite em que o Boone morreu, eu fui até lá e comecei a bater na escotilha. Eu estava confuso, assustado. Balbuciava como um idiota. Perguntei por que isso estava acontecendo comigo.
- Recebeu uma resposta?- Sawyer quis saber.
- Apareceu uma luz.- Locke respondeu. – Apontando direto para o céu. Na época, achei que significava alguma coisa.
- E significava?
- Não, era só uma luz.
- Por que nos fez dar meia volta então?- Sawyer questionou. – Não quer voltar para lá? Não quer recuperar o que tínhamos?
- E por que eu iria querer?
- Para dizer a si mesmo para agir de outra forma. Para se poupar da dor.
- Não, eu precisei daquela dor para chegar onde estou agora. James, algumas coisas nos são tiradas, mas outras nos são dadas. Não feche seus olhos.- acrescentou Locke olhando na direção onde estavam Ana-Lucia, Juliet e agora Charlotte que também caminhava com elas.
Sawyer olhou para a pequena morena que apesar do início tortuoso no acampamento se dedicara a ele no momento em que todos mais precisavam. Ela fora uma excelente líder e ninguém soubera reconhecer. Kate tinha partido, mas ela ainda estava ali se mostrando muito mais fiel do que Kate em todos os sentidos. Ana notou que ele a olhava, e desviou o olhar em seguida parecendo um pouco constrangida. Sawyer deu um sorriso amarelo e voltou a caminhar. Eles nunca tinham conversado sobre o que acontecera no dia em que ela lhe roubara a arma. Mas uma coisa era certa, ele tinha gostado muito de estar com ela e por um momento indagou-se como seria se os motivos pelos quais ela se entregara a ele fossem outros.
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Não demorou muito e eles chegaram até a praia. Ficaram surpresos ao ver que o acampamento estava lá outra vez. Desde a cozinha improvisada até as pequenas casas feitas de bambu, lona e destroços do avião.
- O acampamento voltou! - disse Juliet olhando ao redor.
Ana sorriu e caminhou depressa com Aaron no colo até sua antiga barraca. Como eles fugiram às pressas do acampamento quando o ataque dos nativos com flechas de fogo começou, ela tivera que deixar seus poucos pertences para trás. Ana sorriu mais ainda ao pensar como seria ótimo trocar de roupa. O top azul escuro e o jeans que usava já estavam surrados o bastante.
- Alguém quer uma cerveja Dharma? Saywer perguntou relaxando o rifle em suas mãos e assim como Ana caminhando para a barraca dele em busca de seus pertences. – Olá, tem alguém aqui?- ele saiu perguntando a fim de ver se alguém tinha se escondido e ficado no acampamento quando eles fugiram. Ana perguntou-se se Claire estaria por ali.
- Rose! Bernard!- Sawyer chamou. Locke caminhava logo atrás dele.
Não houve nenhuma resposta. O grupo ficou entristecido. O acampamento parecia um território fantasma. Não havia ninguém ali. Sawyer foi até a cozinha na praia e remexeu alguns utensílios quebrados sobre a mesa de bambu, apenas sinais de que algum dia alguém vivera ali.
- Há quanto tempo será que isso aconteceu?- perguntou Locke, mais para si mesmo do que para os outros. Todos agora estavam juntos na cozinha. Ana tinha acabado de se juntar a eles, frustrada por não ter encontrado nada aproveitável em sua barraca. Tudo estava destruído.
Sawyer encontrou uma lata amassada e vazia de cerveja Dharma, sacudiu-a e nenhum gota veio lá de dentro. Frustrado ele atirou a lata ao chão e resmungou:
- Son of a bitch!
Locke encontrou um pedaço de corda amarrada, jogada no chão e começou a examinar isso atentamente.
- O que é?- perguntou Juliet observando-o.
- É a coleira do Vincent.
- E onde está o resto do cachorro?- Sawyer questionou usando a ironia como sempre para disfarçar seus verdadeiros sentimentos. – Onde está o nosso pessoal?
- Sim, onde estão todos?- Ana- Lucia fez coro com ele, sentindo uma pontada de medo na boca do estômago. Era tão estranho ver aquele lugar vazio.
Daniel e Charlotte caminharam até mais perto da beira da praia para ver se avistavam o barco, mas não havia nada lá.
- O Zodiac também sumiu.- disse Faraday.
- Talvez o seu pessoal tenha levado o barco.- comentou Charlotte.
- Por que fariam isso?- questionou Ana.
- Para fugir de quem veio naquilo!- disse Miles apontando duas embarcações de madeira encravadas na areia branca.
- De onde vieram essas canoas?- indagou Charlotte.
- Boa pergunta.- disse Daniel caminhando ao lado dela que chegava mais perto das canoas. – São bem velhas!
- Não tão velhas assim.- disse Miles avistando uma garrafa de água semi-cheia deitada no fundo da canoa.
- Deixe-me ver isso.- pediu Sawyer quando Miles retirou a garrafa de dentro da rústica embarcação de madeira.
Ele leu os dizeres escritos na garrafa plástica: "Água Ajira."
- Ajira.- repetiu Miles.
- É uma companhia aérea.- falou Juliet. – A sede é na Índia. Eles voam para toda parte.
- Bárbaro!- exclamou Sawyer. – Talvez possamos conseguir um voo daqui para Las Vegas.
- Quem será que veio nessas canoas?- indagou Ana com preocupação. – Mais Outros?- por um momento ela ficou pensando se aquilo tudo não se tratava de uma emboscada e os inimigos estavam escondidos em algum lugar nas árvores ao redor prontos para dar o bote e acabar com todos eles. Ela olhou para Juliet que balançou a cabeça em negativo:
- Não olhe para mim. Eu não tenho nada a ver com isso.- há muito que ela deixara de ser um dos Outros, e assim como eles não fazia a menor ideia do que estava acontecendo.
- A minha pergunta é: quando vão voltar?- disse Faraday tão preocupado quanto Ana-Lucia diante daquela ameaça.
- Não vamos esperar para ver.- afirmou Locke abrindo os braços e fazendo um gesto amplo que envolvia as canoas.
O grupo se entreolhou compreendendo o óbvio. John estava certo. A única solução para escapar aos Outros seria usar aquelas mesmas canoas para fugir dali e ir até a Orquídea conforme o plano.
Ana-Lucia observou a embarcação estreita e sem apoio. Seria complicado andar naquilo ali com um bebê nos braços. Aquelas canoas eram ainda mais perigosas que o Zodiac. Mas não tinha outro jeito. Ela não podia ficar para trás com Aaron.
Notando o desconforto e a preocupação dela, Sawyer postou-se ao lado dela e disse com seriedade: - Você e o baixinho vêm comigo, Lucy!
Ele pensou que ela fosse protestar e já estava pronto para argumentar quando Ana simplesmente assentiu e esperou que eles colocassem as canoas na água. Surpreso, Sawyer resolveu ficar calado.
Aaron deu um gemidinho de impaciência no colo de Ana e ela o ninou na rede atravessada em seu corpo, dizendo baixinho:
- Está tudo bem, querido. Não se preocupe. Nós acharemos a sua mãe logo.
Alguns minutos depois eles estavam no mar. Todos remavam com exceção de Ana que cuidava do bebê. Ela queria remar. Sentia-se um pouco privada da ação por conta de sua responsabilidade com Aaron. Não era da natureza dela cruzar os braços e ficar só olhando.
O sol estava a pino e o mar agitado. Respingos salgados batiam contra o rosto dela enquanto seus companheiros remavam com esforço. Ana viu que Charlotte se esforçava além do que podia. Seus magros e pálidos braços pareciam quase querer se quebrar a cada esforço que ela fazia para remar.
- Esse plano parecia bem melhor quando íamos usar uma lancha.- disse Daniel sentado atrás de Locke em uma das canoas, remando.
- Esse lugar é muito longe?- perguntou Miles sentado atrás de Juliet que liderava a primeira canoa.
- É logo depois daquele ponto.- Locke apontou para uma montanha verdejante ao longe. – Estaremos lá em no máximo duas horas.
- Que ótimo!- exclamou Miles ironicamente.
- Pra ele é fácil falar.- queixou-se Charlotte, sentindo-se muito cansada.
Sawyer voltou-se para o horizonte de repente, sem parar de remar, na direção da praia de onde eles tinham acabado de sair. Ana notou que ele ainda estava sentido pelo que eles tinham presenciado, por ter visto Kate novamente. O olhar dele era tão triste que ela não resistiu perguntar:
- Você está bem?
- Eu não sei.- ele respondeu com sinceridade pela primeira vez a ela.
Ana-Lucia sensibilizou-se com isso.
- É por causa da Kate?- ousou perguntar.
Não foi preciso que ele respondesse porque seus olhos disseram tudo.
- A Kate...eu me importava muito com ela.- ele acabou dizendo e Ana achou que ele fosse chorar, mas Sawyer controlou-se e finalizou o assunto dizendo: - Viajar no tempo é uma droga!
- Abaixem-se!- gritou Locke de repente.
- Mas que diabos... – resmungou Ana se abaixando com tudo e protegendo Aaron com seu corpo. Ela não podia ver, mas havia alguém atrás deles atirando. Podia ouvir o barulho dos tiros e o som das balas caindo na água.
Sawyer voltou-se para trás e viu outra canoa, não muito longe deles. Os nativos na embarcação estavam atirando neles para valer.
- Remem!- ele gritou, desesperado. Todos se puseram a remar mais depressa.
- Pegue o bebê!- gritou Ana para Charlotte que se esforçava o máximo que podia para remar mais depressa.
- O quê?- Charlotte gritou de volta, estava tão nervosa que não tinha entendido o que Ana dissera.
Aaron começou a chorar por causa da confusão.
- Anda, pega o bebê!- Ana insistiu, desamarrando depressa o cobertor que prendia a pequena rede de Aaron em seu corpo. Fazia isso meio abaixada por causa dos tiros, posição que já estava lhe causando dor nas costas.
- Mas eu estou remando... – Charlotte começou a dizer, mas Ana tirou o remo das mãos dela ao mesmo tempo em que lhe passava o bebê.
- Apenas proteja o bebê!- ela falou incisiva e Charlotte se abaixou com os braços apertados ao redor de Aaron que berrava.
Então Ana tomou o lugar de Charlotte e começou a remar com toda força que podia.
- Preciso de cobertura!- pediu Sawyer e Juliet estendeu a Ana um rifle. Ela parou de remar apenas para ajudar Sawyer a rebater os tiros dos nativos.
- Acho que querem a canoa de volta!- gritou Miles.
- Remem!- continuou Sawyer tentando dar motivação para a fuga deles.
- Remem!- Locke entoou os gritos de Sawyer.
- Amiguinhos seus?- Miles indagou à Juliet.
- Não.- respondeu ela. – Não são os seus?- acrescentou a médica com ironia.
- Calem a boca e remem!- gritou Sawyer. – Lucy, atira neles!- Sawyer pediu.
Ana parou de remar novamente e pegou o rifle, acertando um deles que caiu dentro do barco.
- Remem com mais força! Eles estão se aproximando!- dessa vez foi Faraday quem gritou.
Nesse momento, o céu se iluminou e aquele zunido terrível tomou-lhes os ouvidos.
- Obrigado, senhor!- Sawyer ainda teve tempo de gritar.
Mas a viagem no tempo os levou para uma época nada tranqüila. Eles ainda estavam no mar e dentro das canoas, mas era noite, estava escuro e chovia torrencialmente.
- Eu retiro o que disse!- gritou Sawyer olhando para o céu e Ana ficou com vontade de rir. A situação era tão absurda.
- Todos remando para a praia.- disse Locke. – Já estamos perto.
Exaustos eles voltaram a remar. O bebê continuava chorando e a tempestade estava muito intensa. Uma das canoas começou a balançar de um lado para o outro perigosamente por causa das ondas. À medida que eles se aproximavam da praia as ondas ficavam mais fortes e a canoa pendeu para o lado direito, quase totalmente virando.
- Segurem-se!- gritou Juliet.
Charlotte se segurou e abraçou o bebê com mais força. Ana tentou dar a mão para Sawyer que estendeu sua mão para ela. Mas não houve tempo, a canoa virou com força e os outros tiveram que fazer pressão para o outro lado senão todos cairiam. Porém Ana não pôde segurar a mão que Sawyer lhe estendia e seu corpo mergulhou no oceano, sendo arrastado pela correnteza.
- Anaaaaaaaaaaa!- Sawyer gritou antes de pular de cabeça na água atrás dela.
Continua...
