Disclaimer: Magic Knight Rayearth é propriedade do grupo CLAMP. Faço este fic sem fins lucrativos, apenas por diversão.

Curtain of Feelings

Capítulo Dois: Rotina

Revisado por Palas Lis e Pyoko-chan

Agora só mais um período de aula e finalmente a jovem poderia voltar para casa. Aquilo estava ficando cansativo e mais difícil a cada dia que se passava. Direito era um curso bem difícil, mas não tinha importância… acabara gostando do curso e estava se esforçando cada dia mais e mais. O problema era continuar escondendo aquilo… não sabia até quando iria conseguir aquela proeza. Mas pelo menos não estava sozinha.

Estava andando pelos corredores de seu prédio, seguindo para a sala em que teria a próxima aula, aula de Direito Civil. Antes que alcançasse o local, uma jovem morena praticamente pulou diante de si, por pouco não a derrubando. Ela era bem alta – e ficava ainda mais alta por conta dos saltos que usava –, tinha cabelos curtos rosados amarrados num rabo-de-cavalo alto e olhos azuis brilhantes.

– Boa tarde, princesa Emeraude! – a jovem cumprimentou-a, animada.

– Caldina… já disse para parar de me chamar desse jeito. É estranho. – ela suspirou, derrotada.

– Oras, seu pai te chama de princesa. – Caldina respondeu, fingindo confusão. – O que tem demais nisso?

– O que tem demais é que eu não sou princesa nenhuma. – Emeraude respondeu.

– Tá, tá. – a outra cedeu, rodando os olhos. – E então, como estão as aulas?

– Estão indo muito bem. – Emeraude respondeu, sorridente. – A cada dia eu me sinto melhor por ter entrado nesse curso. E logo, logo finalmente estarei formada.

– Com certeza. – Caldina concordou veemente. – Mas, me diz uma coisa… e seu pai e seu irmão, já contou pra eles?

– Não. – Emeraude respondeu. – Já disse que só vou contar quando terminar o curso e for boa o suficiente.

– Você não tem jeito mesmo, menina. – Caldina balançou a cabeça de maneira pesarosa.

– Mas, o que está fazendo tão longe do seu bloco de moda? – Emeraude perguntou, estranhando a presença da amiga ali.

– Bom, se você ainda vai continuar com isso… temos um trabalho pra fazer hoje. – Caldina informou. – Então, na sua casa ou na minha?

– Pode ser na minha, não tenho nada para estudar. – Emeraude respondeu.

– Okay, então. – Caldina concordou. – Eu te encontro quando as aulas terminarem. E vamos ver se acabamos logo com isso, não é? Não sei como você agüenta.

– Não é sacrifício nenhum. – Emeraude sorriu largamente. – E meu maninho vai se dar bem se eu me sair bem também.

– Claro, claro… sempre pensando nos outros. – Caldina comentou rapidamente. – Isso deve ser um dom e tanto da sua família, hein, menina?

– Quem sabe… – Emeraude sorriu em resposta e então ouviu o último sinal de aviso para o início da aula. – Ops… tenho que me apressar. Vejo você mais tarde então.

– Okay! – Caldina concordou, deixando a amiga passar correndo até a sala de aula.

Emeraude precisou se apressar para alcançar a classe a tempo. Por sorte, quando entrou, os alunos ainda conversavam completamente espalhados pela sala, e não havia sinal algum do velho professor de Direito Civil.

Andou lentamente até sua carteira, sentando-se e colocando a bolsa de lado. Colocou o enorme livro de Direito Civil sobre o apoio da cadeira e abriu numa página mais ou menos na metade deste. Antes que conseguisse começar a ler, uma conhecida voz a chamou da cadeira ao lado.

– Está atrasada.

Ela virou o rosto para encarar mais uma garota. Esta tinha longos cabelos loiros amarrados num rabo-de-cavalo alto, com uma franja que lhe caía sobre os olhos castanhos.

– Ah, olá, Persea. – Emeraude a cumprimentou, sorridente. – Eu sei que estou atrasada, mas parece que o professor teve algum problema, não?

– Talvez. – Persea disse, apoiando o queixo na mão. – Mas… deve ter sido porque ele se perdeu no caminho para cá.

– Se perdeu? – Emeraude arqueou as sobrancelhas. – Ele ensina aqui há algumas décadas e ainda consegue se perder?

– Você é mesmo desinformada, menina. – Persea riu da suposição dela.

– Queria saber por que todos adoram me chamar de "menina". – Emeraude comentou de maneira tão vaga que realmente não parecia se importar com o fato. – Sabe, eu tenho mais de vinte anos.

– Mas parece uma criança com essa carinha inocente. – Persea respondeu de maneira divertida e irônica. – Mas… voltando ao assunto inicial…

– Sim, por que dizia que eu sou desinformada? – Emeraude perguntou, virando-se na cadeira para encarar a colega de classe.

– O antigo professor de Direito Civil se afastou do cargo. – Persea começou. – Ele está doente e precisou tirar uma licença para se tratar fora do país. Deve ficar um bom tempo sumido. Uns três meses ou mais.

– Ah… – Emeraude fez cara de entendida. – Então temos um novo professor substituto?

– Exato. – Persea afirmou. – Está ficando boa em adivinhar! – tirou sarro da outra.

– Pare de brincadeiras. – Emeraude sorriu.

– Bom… só espero que esse novo professor seja um carinha mais novo… bonito, quem sabe… é melhor do que passarmos mais três meses com um cara idêntico ao antigo professor que, sinceramente, já devia ter se aposentado há muito tempo. – Persea comentou, observando Emeraude voltar os olhos para o livro, parecendo concentrada.

– Você deveria estar dizendo isso na frente do Clef? – Emeraude perguntou, provando que conseguia dividir muito bem sua atenção.

– He, he, he… você tem que estragar a minha alegria sempre? – Persea sorriu sem graça. – Além do que, eu só comentei que seria bom ter alguém para quem olhar… não tem nada demais nisso.

– Claro que não. – Emeraude disse, passando a página do livro.

– E se ele fosse bonitinho, seria lucro pra você. Sabe que você está precisando de um namorado, Emeraude. – Persea sorriu maliciosa, imaginando a resposta automática que viria diante da concentração dividida da amiga.

– Claro… claro que si… – ela repentinamente se virou para Persea, percebendo o que falara. – Não me confunda desse jeito, Persea! Não preciso de namorados por enquanto, preciso terminar o meu curso… e também… por mais que fosse bonito, continuaria sendo meu professor.

– Professor substituto, você quer dizer. – Persea a corrigiu.

– Que seja. – Emeraude concordou, dando de ombros, quando escutou todo o barulho na sala cessar.

Ela e Persea olharam para frente, imaginando o único motivo que faria todos os alunos se calarem: o professor. As pessoas tinham voltado para suas cadeiras, e todos olhavam atentamente para o homem que acabara de entrar na sala. Ele entrara de maneira completamente silenciosa, sem chamar a atenção de nenhum dos alunos e sem ao menos se virar para olhá-los. Tinha uma expressão séria e serena ao mesmo tempo. Andou até o gabinete e colocou a pasta lá, virando-se finalmente para os alunos, com as mãos nos bolsos. Ele usava uma camisa de gola e mangas cumpridas azul marinho, um paletó por cima e calça social. Tinha um cabelo bem longo e negro, amarrados num rabo-de-cavalo baixo com alguns fios ainda soltos. Os olhos também eram de cor bem escura. Bom, tanto Persea e Emeraude quanto o resto das garotas da sala tinham que admitir que seus olhos teriam uma boa distração durante aqueles três ou mais meses em que o professor estaria fora.

– Bom… suponho que as pessoas aqui ainda não me conheçam. – ele começou a falar, apoiando-se na mesa atrás de si, com as mãos ainda nos bolsos. – Eu sou Zagato Wherig. Sou o novo professor substituto de Direito Civil. Acho que já foram informados que o antigo professor precisou se retirar por conta de uma doença. Não se preocupem, assim que ele se recuperar, vocês voltarão a ter aulas com ele. Enquanto isso, espero que não tenhamos muitos problemas.

Ele não esperou alguma resposta em coro dos alunos ou coisa parecida. Bom, isso mostrava que ele realmente não estava dando aula a alunos do primário. Virou-se para a mesa e tirou algumas folhas e anotações da maleta, espalhando-as sobre a mesa. Voltou-se para a sala novamente e começou a explicar o assunto de onde o antigo professor parara. Andava de um lugar a outro da sala em longos intervalos de tempo, evitando que os alunos prestassem mais atenção em seus movimentos que em suas palavras. Fazia perguntas, interagia com os outros… principalmente, quase não olhava para as anotações e o único livro que estava sobre a mesa.

Não foi segredo para ninguém que ao final da aula, vários alunos conversassem entre si sobre como o professor era bom, além de parte deles ter seguido até o gabinete para lhe falar antes que ele saísse da sala. Emeraude e Persea apenas ficaram a arrumar as coisas enquanto as outras pessoas já seguiam para fora.

– É, pelo visto eu estava certa. – Persea comentou, colocando a bolsa nas costas e pegando os livros entre os braços.

– Eh? – Emeraude virou-se para ela, estivera fitando o professor de uma maneira que nem pareceu perceber. – O que dizia?

– Eu disse que o professor era bonito. – Persea sorriu com o modo como a amiga nem percebera estar paquerando o professor novo.

– Eu preciso me apressar. – Emeraude disse, parecendo constrangida por falar do professor sem ele ao menos ter se retirado. – Caldina está esperando por mim.

– Ahh… ainda continua com isso, não é? – Persea suspirou demoradamente. – Acho que vai enlouquecer com essas coisas, menina.

– De maneira nenhuma. – Emeraude respondeu. – Seria pior se estivesse em duas faculdades simultâneas. Bom… vou dar um bom presente ao meu irmãozinho.

– E como. – Persea sorriu. – Bom, vejo você amanhã.

– Até mais. – Emeraude acenou para amiga que seguia até sair da sala.

Emeraude terminou de arrumar os livros e colocou a bolsa nas costas e alguns livros nas mãos. Andou lentamente até a porta, ainda observando o professor de uma maneira discreta. Bom… não tão discreta quanto imaginara, afinal, ele lançou-lhe um olhar de soslaio antes que ela saísse da sala, fazendo-a desviar o olhar de vez.

"Até que ele é bem bonito…", admitiu para si mesma em pensamentos enquanto seguia até a saída do prédio.

Não foi difícil encontrar a dona dos cabelos rosados a esperando no gramado frente ao prédio. Ela acenou freneticamente ao ver a garota de olhos verdes, chamando mais atenção do que o necessário.

– Princesa!!! Vamos indo! – ela praticamente gritou aos quatro ventos, fazendo com que todos os alunos que estavam ali fora se virassem para ver a jovem de cabelos dourados que estava sendo tachada de "princesa".

Emeraude sorriu. Não tinha jeito mesmo quando se tratava de Caldina. Seguiu até a morena, percebendo que todos os olhares estavam sobre si, mas ignorou aquele detalhe.

– Você podia tentar ser menos chamativa pelo menos em público. – Emeraude disse, alcançando a jovem.

– Que nada. – Caldina balançou a mão em sinal de irrelevância. – Se eu fosse mais discreta… não seria eu.

– Creio que sim. – Emeraude concordou.

– Então, vamos andando! – Caldina quase gritou mais uma vez, seguindo para a saída do campus. – Estou morrendo de fome, espero que tenha um bom jantar lá na sua casa.

– Com certeza. – Emeraude concordou. – Precisamos nos apressar, o carro deve estar esperando.

– Ah! Eu tinha esquecido que tem seu motorista particular. – Caldina sorriu empolgada e andou a passos mais largos para acompanhar a outra.

Elas logo alcançaram a saída do campus e Emeraude avistara o carro que viera buscá-la. O motorista estava parado ao lado da porta, esperando que ela aparecesse.

– Bom, nossa carona chegou. – Emeraude informou a Caldina, seguindo até a suntuosa limusine, enquanto o motorista seguia até a porta traseira para abri-la.

As duas agradeceram ao motorista com um aceno de cabeça e então, entraram no carro, acomodando-se no banco que ficava de costas para o motorista, observando que havia um acompanhante lá dentro.

– Eagle? – Emeraude questionou ao ver o irmão sentado no banco bem a sua frente.

– Ah, olá, Eagle! – Caldina cumprimentou-o.

– Olá. – ele cumprimentou as duas de volta, acenando rapidamente e sorrindo.

– Você não devia ainda estar na empresa? – Emeraude perguntou, estranhando o fato de o irmão estar voltando tão cedo para casa.

– É que eu estava um pouco cansado e então, o papai me deixou ir embora. – ele respondeu, sem deixar de sorrir.

– Será que não inventou isso, Eagle? Eu te conheço e sei que odeia trabalhar naquele lugar. – Caldina comentou, sem perceber a expressão preocupada que se assomara ao rosto da amiga.

– Quem sabe, né? – Eagle sorriu mais largamente, dando de ombros com a observação de Caldina, fitando a irmã mais nova de soslaio. – E como foram as aulas hoje, Emeraude?

Era aquele mesmo tom discreto de aviso. Ele nunca gostava de vê-la com uma cara de preocupação.

– Foram ótimas. – Emeraude sorriu, encobrindo a sua própria expressão antes que Caldina percebesse alguma coisa.

– Tão ótimas que precisamos fazer um trabalho hoje. – Caldina completou, olhando para Eagle. – Por isso… vou jantar na sua casa. Sabe como sou sempre tão discreta, não é?

– Claro que sim. – Eagle riu da reação da morena. Caldina era sempre divertida e uma ótima companhia.

– E no trabalho? Como foi? – Emeraude perguntou, tentando mudar o foco de uma coisa que ela realmente não sabia.

– Foi tedioso, como sempre. – Eagle comentou, suspirando demoradamente. – Tive que conhecer um novo sócio do papai. Vou trabalhar com ele de agora em diante.

– Ah, também tive um professor novo. – Emeraude falou de repente, sem perceber o que estava falando. Caldina lançou-lhe um olhar discreto.

– Isso é bom? – Eagle perguntou.

– Ah… sim, sim. – Emeraude respondeu sorrindo, percebendo o que falara. – Ele é um ótimo professor, não é, Caldina?

– Com certeza. – Caldina concordou, com a mesma animação de sempre. – Mas… vamos deixar os professores de lado, sabe? Não gosto muito deles sempre que surgem os trabalhos e as avaliações. E isso está começando a ficar muito mais freqüente.

– Pelo menos vocês não estão no curso de Direito. Iriam ver como é bem mais puxado… – Eagle comentou rapidamente.

– É, ainda bem. – Emeraude sorriu em resposta.

Não demorou até que o carro alcançasse a casa dos dois. Emeraude e Caldina logo se despediram de Eagle para subir até o quarto da jovem e se trancar lá pelo menos até o jantar ser servido e enquanto elas precisavam fazer o trabalho da faculdade.

Assim que Emeraude fechou a porta ao passar, a voz de Caldina invadiu seus ouvidos num volume mais baixo que o normal.

– Que história é essa de professor novo? – a morena perguntou, sentada na enorme cama de Emeraude.

– Ah… sinto muito, acabou escapando. – Emeraude se desculpou, sentando-se numa confortável poltrona um pouco distante da cama e largando a bolsa e os livros no chão.

– É bom tomar um pouco mais de cuidado com essas gafes ou então, vai tudo por água abaixo. – Caldina explicou, deitando-se na cama da jovem folgadamente.

– Eu sei. Vou tomar mais cuidado, não se preocupe. – Emeraude sorriu.

– Mas tem outra coisa que ainda me deixa curiosa… – Caldina falou, virando-se de bruços na cama e apoiando os cotovelos no colchão para encarar Emeraude.

A dona dos olhos verdes apenas assumiu uma expressão interrogativa.

– E se seu pai não deixar você trabalhar como advogada? – ela perguntou, apoiando o rosto na mão. – Você sabe que ele aprecia você com todas essas coisinhas de menininha, como se fosse uma bonequinha… fazendo aula de dança, de música, artes… faculdade de moda…

– Ele só quer que eu seja a imagem da mamãe. – Emeraude respondeu, desviando o olhar de Caldina. – Meu pai é muito autoritário, ele precisa se sentir no poder a cada minuto que respira. Meu irmão não conseguiu contrariá-lo, eu tenho que pelo menos tentar, não é? – ela sorriu. – E bom… por mais que eu tente, nunca vou conseguir ser como a mamãe. – o sorriso desapareceu com a mesma rapidez que surgira.

– Ei, ei, ei… – Caldina se levantou da cama, aproximando-se de Emeraude. – Pare de falar coisas sem sentido. Não faça essa cara. Você orgulharia a sua mãe pelo que está fazendo pelo seu irmão. Então, tire esses pensamentos idiotas da cabeça, vamos! Anime-se! Temos um trabalho pra fazer!

– Claro, claro. – Emeraude sorriu mais uma vez, sendo lentamente contagiada pela animação da amiga.

– Mas e sobre esse professor novo, hein? – Caldina perguntou, começando a andar pelo quarto e parando diante do guarda-roupa, abrindo as portas e começando a bisbilhotar as coisas de Emeraude.

– Ele é um professor substituto. – Emeraude explicou, descalçando as sandálias que usava, para cruzar as pernas em pose de lótus sobre a cadeira logo em seguida. – De Direito Civil. Nosso antigo professor teve que se retirar pra tratar de alguma doença. Deve ficar uns três meses fora.

– E esse professor novo tem alguma coisa de bom? – Caldina perguntou, ainda concentrada em observar as roupas de Emeraude.

– Ele ensina muito bem. – Emeraude admitiu. – Mas e então, vamos começar o trabalho?

– De jeito nenhum. Só depois do jantar. – Caldina respondeu, puxando do guarda-roupa da amiga um maiô com estampas floridas. – Você ainda usa isso?! Precisa comprar alguns biquínis, Emeraude.

– Não preciso, não. – ela fez um gesto em irrelevância. – Quase nunca vou pra praia.

– Você tem uma piscina no quintal, claro que não vai. – Caldina jogou o maiô de volta no guarda-roupa e em seguida voltou a mexer nas roupas.

– Quer esquecer as minhas roupas e parar pra pelo menos dizer sobre o que é o tal trabalho? – Emeraude franziu o cenho, se deixasse, Caldina se perderia nas roupas dela pelo resto da noite.

– O professor é bonito?

– Eh? – Emeraude não entendeu a súbita mudança de assunto.

– Você disse que o professor ensinava bem, e dois segundos depois mudou de assunto. – Caldina disse, fechando as portas do guarda-roupa e virando-se para a jovem. – Você o achou assim tão bonitinho? Eu sei que você sempre muda de assunto quando tem homens bonitos na história.

– Não é isso, Caldina. – Emeraude sorriu constrangida.

– Hum… esse seu sorrisinho não nega, princesa Emeraude. – Caldina sorriu maliciosa.

A conversa das duas foi interrompida quando ouviram leves batidas na porta. As duas viraram a atenção para a entrada do quarto e Emeraude respondeu:

– Pode entrar.

– Senhorita Emeraude, com licença. – uma das empregadas abriu a porta, curvando-se em reverência assim que entrou. – O jantar está pronto para ser servido.

– Claro, estamos descendo. – Emeraude concordou. – Obrigada.

– Com sua licença… – e saiu do quarto, fechando a porta mais uma vez.

– Bom, a comida nos chama. – Emeraude falou, encontrando a chance perfeita de desviar de mais perguntas embaraçosas de Caldina.

– Você não me escapa, Emeraude. – Caldina avisou, seguindo-a até a porta. – Não tem nada demais em achar um cara bonito, oras. Isso não é pecado. Mas não importa se você responde ou não, eu posso pedir mais detalhes a Persea amanhã.

– Pare de pensar coisas absurdas, Caldina. – Emeraude sorriu, andando na frente da outra para descer as escadas e seguir até a sala de jantar.

Quando elas alcançaram o aposento, Eagle estava sentado em seu habitual lugar à mesa. Os pratos estavam postos, até mesmo o prato para o dono da casa, que costumava se sentar ao extremo da mesa.

– Chegamos, pode mandar servir, querido! – Caldina disse, ocupando o lugar que imaginava ser seu, bem ao lado do lugar de frente para Eagle, o lugar de Emeraude.

Emeraude sentou-se logo em seguida e os empregados se apressaram em servi-los. Eagle tinha dado consentimento para que seguissem mesmo sem a chegada do pai deles. Na verdade, era bem difícil que o homem fizesse alguma refeição na companhia dos outros dois.

Os três conversaram animadamente durante a refeição. Caldina sempre bem extrovertida e contando coisas que pareciam fora do normal… os irmãos riam do que ela contava. Tentaram não tocar muito nem no assunto da faculdade nem no assunto do trabalho. Um deles era complicado, o outro era tedioso.

Pouco antes de terminarem o jantar, suas atenções foram atraídas por uma nova voz bem conhecida pelos dois irmãos. Os três viraram os rostos para encarar o novo convidado que acabara de entrar na sala.

– Boa noite. – aquele homem de feições jovens e cabelos grisalhos penteados para trás cumprimentou-os.

– Boa noite, papai. – Emeraude foi a primeira a retribuir o cumprimento.

– Boa noite, senhor Rhaels. – Caldina tinha se recomposto completamente, falando de maneira educada, sorrindo fracamente. Nunca gostara muito do pai rigoroso da amiga.

– Eu achei que o senhor não fosse chegar para o jantar. – Eagle falou, um tanto quanto confuso com a presença do homem ali.

– Boa noite também, Eagle. – Rhaels ignorou o comentário pouco educado do filho e sentou-se no extremo da mesa, fazendo um sinal rápido com a mão para uma das empregadas que lá estava, para que ela lhe servisse o jantar.

A mulher saiu da sala depois de fazer uma reverência em sinal positivo e, então, Rhaels pôde se voltar para os demais sentados à mesa.

– E então, estavam tendo uma conversa tão animada. Será que a minha presença é assim tão incômoda? – o senhor perguntou, sorrindo levemente.

Caldina o observava cuidadosamente. Os sorrisos dos três eram simplesmente idênticos. Embora houvesse intenções diferentes por trás de cada um deles.

– De maneira nenhuma, papai. – Emeraude respondeu, retribuindo o sorriso do pai.

Caldina ficava imaginando como é que eles conseguiam sorrir tão facilmente e tão falsamente para a própria família. Pelo menos os dois filhos quase nunca deixavam de sorrir, quer fosse falsamente, quer não.

– Teve uma boa aula, minha princesa? – o senhor perguntou, virando-se para ela.

– Sim, a aula foi muito boa. Exceto que eu e Caldina precisamos fazer um trabalho agora. – Emeraude respondeu, observando uma das empregadas servir o jantar de seu pai.

– Ah, claro. – Rhaels concordou, olhando brevemente para Caldina.

– Será que podemos nos retirar agora, papai? – Emeraude perguntou com a mesma educação de sempre. – Não quero demorar muito com o trabalho pra não ficar muito tarde.

– Claro, claro, como quiserem. – Rhaels concordou, observando as duas jovens se levantarem para sair da sala.

– Tenha uma boa noite, meu pai. – Emeraude aproximou-se dele e beijou-lhe a testa delicadamente.

– Você também, princesa. – Rhaels respondeu.

– Boa noite, senhor Rhaels. – Caldina acenou, acompanhando Emeraude para saírem da sala.

Logo as duas tinham cruzado o portal de saída da sala de jantar e então, o silêncio pairou entre os dois homens restantes à mesa.

– O que achou do novo sócio? – Rhaels perguntou, fitando o próprio prato de comida enquanto levava o talher à boca.

– Eh? – Eagle pareceu não entender a repentina pergunta, ou simplesmente não estivera prestando atenção no que o mais velho estava falando.

– O novo sócio. – Rhaels virou os olhos para ele dessa vez.

– Ah… bom, eu não posso dizer muita coisa, não é? – Eagle sorriu, dando de ombros. – Nem conversei direito com ele.

– Claro… estava em algum outro lugar na hora em que deveria estar escutando as propostas dele. – Rhaels o repreendeu.

– Pai, não vamos começar isso de novo, certo? – Eagle comentou, entediado.

– Não… você nunca aprende de qualquer jeito. – Rhaels estava agora com a expressão séria.

– Sinto muito. – o jovem de cabelos esbranquiçados se desculpou, suspirando lentamente.

– Está se sentindo melhor? – Rhaels perguntou, amenizando a expressão e encarando o filho novamente.

– Estou. – Eagle confirmou, sorrindo despreocupado enquanto olhava para o prato.

– Você não vai comer? – o pai dele perguntou, observando que ele não tocara um dedo, praticamente, na comida.

– Estou sem fome. – Eagle respondeu, mexendo na comida com os talheres.

– Você precisa se alimentar bem. – Rhaels disse num tom quase que autoritário.

Eu sei… – ele respondeu num tom de voz fraco, como se não quisesse realmente que o pai ouvisse, embora ele tenha ouvido muito bem devido ao silêncio que predominava no ambiente.

– Vamos, coma alguma coisa. Não pode ir dormir com fome. – Rhaels insistiu.

Eagle se ajeitou na cadeira e começou a comer, mesmo que a contragosto. O pai dele continuou a refeição logo em seguida, parecendo satisfeito que o filho o tivesse obedecido. Sempre estava satisfeito quando eles lhe obedeciam.

Enquanto isso, Emeraude e Caldina estavam acomodadas no quarto da loira novamente. Emeraude estava sentada mais uma vez na mesma poltrona confortável, entretida na leitura de um enorme livro de Direito, enquanto Caldina fitava o teto demoradamente, deitada na enorme cama de casal da amiga.

– Me diz uma coisa… – Caldina começou, virando-se para encarar Emeraude. – E se ele tivesse dito que não?

– Ahn? Do que está falando? – Emeraude perguntou, desviando a atenção do grosso livro de Direito que estava sobre suas pernas e fitando Caldina.

– Se seu pai não tivesse deixado você sair da sala? – Caldina perguntou de maneira curiosa.

– Ele não faria isso. – Emeraude respondeu sorrindo, como se a pergunta fosse absurda.

– Eu sei… pelo jeito como ele te trata é meio impossível que faça mesmo. Mas digo, numa suposição… se ele negasse. O que você faria? – Caldina perguntou, ainda fitando a amiga de maneira curiosa.

– Eu o esperaria terminar a refeição até que pudesse me retirar, claro. – Emeraude respondeu, sorrindo com simplicidade.

– Cara! Vocês precisam gritar!!! – Caldina falou repentinamente, parecendo indignada com alguma coisa. Emeraude a observou com as sobrancelhas arqueadas. – É sério! Vocês sempre fazem tudo o que o pai de vocês diz… quantas vezes já o contrariaram?!

– Não quer mesmo que eu responda isso, né? – Emeraude disse, sarcástica.

– Eu sei, eu sei… mas você ainda nem contou pra ele… – Caldina comentou, sentando-se na cama com uma expressão de lamento no rosto. – Veja… os dois, os sorrisos dos dois são muito… falsos na frente do seu pai. Vocês não podem continuar calados o resto da vida! Vão continuar com essa máscara até que ele morra?! Ops… desculpa.

– Não tem problema. – Emeraude respondeu, sorrindo compreensiva, mas olhando para o livro. – Eu realmente não sei por que isso acontece, sabe? Mas… eu só queria que ele se sentisse satisfeito… eu só quero que ele se sinta bem, desde que ele perdeu a mamãe…

– Emeraude… – Caldina suspirou. – Ele perdeu a esposa, vocês perderam a mãe… ambos têm o direito de gritar.

– Caldina, precisamos fazer o seu trabalho de Moda. – Emeraude fechou o livro com força. – E então, por onde começamos?

– Ah… 'tá, 'tá, vamos fazer o tal trabalho. – ela suspirou derrotada. Nunca conseguia conversar direito com Emeraude quando o assunto era o pai dela.

As duas se sentaram no chão do quarto, enquanto Emeraude ajudava Caldina com algumas coisas do trabalho, uma vez que não entendia praticamente nada do curso da outra. Sempre que precisava fazer trabalhos de seu curso e estudar pras provas, ia pra casa de Caldina ou para a casa de Persea. Se alguém a encontrasse estudando Direito dentro de casa, não ia ser mesmo uma coisa muito conveniente.

Apenas por volta das dez da noite Caldina foi embora. Emeraude a acompanhou até a porta da casa, onde o carro da família esperava para levar a convidada embora.

– Então, eu te vejo amanhã. – Caldina despediu-se da amiga, seguindo até o carro.

– Tudo bem. Boa noite, até a universidade. – Emeraude acenou levemente em despedida.

– Tchau! – Caldina acenou de volta.

Ela entrou no carro e deixou que Emeraude fechasse a porta e voltasse para dentro de casa. Àquela hora da noite, a mansão estava bem silenciosa. A loira subiu as escadas lentamente, chegando ao corredor dos quartos. Parou na frente de uma porta depois da do seu quarto. Bateu levemente algumas vezes.

Entre. – uma voz conhecida se pronunciou do outro lado.

Ela abriu a porta e entrou no quarto, fechando esta logo em seguida.

– Boa noite, maninho. – Emeraude o cumprimentou ao vê-lo sentado na cama, com as pernas sobre esta, um livro em mãos.

– Ainda está acordada? – ele sorriu para ela.

– Eu e Caldina terminamos o trabalho agora. Ela acabou de ir para casa. – Emeraude respondeu, seguindo até a cama do irmão e sentando-se na beirada desta. – Aposto um doce como este livro é de psicologia.

– Isso é injusto… você sempre acerta. – Eagle respondeu, fechando o livro. Estava com uma expressão cansada demais para um jovem como ele.

– Está se sentindo bem? – ela perguntou, aproximando-se dele e colocando a mão sobre sua testa.

– Sim, estou. – Eagle retirou a mão dela de cima de sua testa delicadamente. – Não se preocupe.

– Conversou com papai? – ela perguntou. – Vocês não discutiram, não é?

– Claro que não. – Eagle respondeu como se aquilo fosse muito óbvio. – Nem conversamos direito… só trocamos umas palavras.

– Menos mal. – ela sorriu. – Então… quer dizer que agora que temos um novo sócio, você precisa comparecer à empresa mais freqüentemente que de costume?

– É… parece que si… – foi interrompido pela crise de tosse que teve, arqueando as costas para frente, colocando a mão sobre a boca e deixando o livro escorregar sobre a cama.

– Eagle! – Emeraude tentou se aproximar, mas ele levantou uma das mãos, indicando que não precisava de ajuda. – Você…

– Não… se preocupe. – ele disse, tentando se recompor, mas ainda tossindo algumas vezes. – Eu estou… bem.

Ele estava de cabeça baixa, então, apenas sentiu quando foi levemente puxado pelos ombros e envolvido pelos braços de sua irmã. Ela o abraçava forte, passando as mãos pelos cabelos dele. Por uns segundos, ficou sem reação e, então, relaxou diante do carinho da irmã mais nova.

– Nunca diga que está bem quando não está. – ela disse num tom de voz baixo. – Quer você queira, quer não, eu sou sua irmã e me preocupo com você.

Ele ficou calado por uns segundos e então, fechou os olhos, retribuindo o abraço da irmã.

Obrigado… minha irmã. – ele agradeceu num sussurro quase que inaudível.

– Não se esforce muito, meu irmãozinho. – Emeraude sorriu, fazendo-o repousar a cabeça nas pernas dela, deitando-se na cama. – Você precisa descansar… sempre faz coisas demais.

Ele abriu os olhos para encará-la, fitou aquele sorriso tão gentil que há muito conhecia. Como ela lhe lembrava sua mãe… era simplesmente idêntica… exceto pelos olhos. Emeraude tinha os olhos de seu pai.

– Prometo que vou ficar aqui até que durma. – Emeraude sorriu mais largamente, encarando-o ainda deitado sobre suas pernas.

– Certo. – Eagle sorriu em resposta, fechando os olhos em seguida.

Não demorou muito e Eagle tinha caído no sono. Emeraude se afastou cuidadosamente dele para que conseguisse seguir até seu quarto. Eagle realmente dormia tranqüilo. Aquilo era bom… era normal o jovem ter insônia, mesmo que estivesse muito cansado.

A manhã seguinte foi tão igual como todas as outras. Emeraude e Eagle tomaram café da manhã juntos, enquanto seu pai tinha ido para o trabalho mais cedo. Logo os dois estavam indo para os devidos destinos.

Infelizmente, se Eagle resolvesse sumir naquela manhã, provavelmente seu pai o trucidaria. Havia a tal reunião com os diretores que ele não podia faltar, em que o novo sócio ia se apresentar. Não devia ser de todo o mal, afinal. Uma vez não podia matar, não é mesmo?

Quando ele alcançou o elevador, ainda estava dentro do horário estipulado pelo pai, o que era uma coisa realmente boa. A tal reunião estava prevista para começar apenas às 10, então ainda tinha tempo para sentar na sua cadeira e dormir, fingindo que estava ocupado demais analisando o que quer que fosse.

Precisou esperar um belo tempo dentro do elevador até que conseguisse chegar ao último andar. Se tivesse uma cadeira ou alguma coisa decente para se apoiar ali, ele com certeza teria dormido. Na verdade… estava se sentindo bem fraco desde que saíra de casa. Começava a achar que devia começar a seguir as instruções da irmã pra se alimentar melhor, mas não podia evitar o fato de que nunca estava com fome.

Saiu do elevador, respirou fundo, tentando se recompor. Passou a mão pelos cabelos e ia começar a andar até sua sala, quando ouviu uma voz perto de si, uma voz pouco conhecida.

– Você está bem?

Ergueu a cabeça para encarar aquele novo sócio de seu pai. Encarou os olhos negros dele por algum tempo, até que finalmente conseguisse responder alguma coisa.

– E… estou. – balançou levemente a cabeça, afirmando o questionamento do outro. Mas não devia ter balançado a cabeça… o corredor pareceu girar ao seu redor.

Sem que percebesse, perdeu o equilíbrio e por pouco não foi de cara no chão. A maleta que segurava caiu e ele precisou levar a mão ao rosto, passando-a diante dos olhos fechados. Na verdade, não sabia como ainda não estava de joelhos no chão.

– Não parece. – a voz de Lantis soou muito mais perto do que ele poderia ter imaginado. Abriu os olhos para perceber que ele tinha lhe segurado.

– Er… não se preocupe. – afastou-se do apoio do outro. – Foi só uma tontura. – abaixou-se para pegar a maleta que tinha caído.

Levantou-se mais uma vez e ele ainda estava lá, observando-o de maneira curiosa. Começava a imaginar se tinha alguma coisa estampada na sua cara para que ele ficasse lhe observando fixamente daquele jeito.

– Obrigado. – agradeceu com um sorriso, pouco antes de se desviar dele e andar até sua sala.

Lantis ainda seguiu-o com o olhar ao longo do corredor. Aquele homem parecia sempre tão pálido e fraco. Só não imaginava que era realmente mais do que aparentava. Deveria estar doente ou alguma coisa assim. Desviou o olhar apenas quando o dono dos cabelos esbranquiçados entrou na sala, desaparecendo de sua vista.

Eagle jogou a maleta num sofá que tinha ali perto e andou até sua cadeira, no gabinete mais adiante. Tirou o terno e afrouxou o nó na gravata. Realmente não estava se sentindo tão bem naquela manhã. Sentou-se na cadeira e virou-a para fitar o céu através das janelas. Relaxou, respirando fundo e fechando os olhos… tinha quase certeza de que dormiria ali por um bom tempo, caso ninguém o atrapalhasse.

Felizmente, o tempo passou tranqüilamente e ninguém entrou na sua sala, bateu, ou tentou incomodá-lo. Aquilo era realmente gratificante e ele ficou feliz de conseguir descansar por mais tempo, mesmo tendo em mente que o pai praticamente o mataria ao descobrir que ele estava ali, tirando um cochilo.

Quando estava mais descansado, não deu dois minutos e escutou alguém bater na porta. Como a pessoa tinha aberto a porta mesmo antes de receber uma resposta positiva, sabia quem era.

– Eu estava imaginando se você teria pulado da janela. – Geo comentou, entrando na sala e fechando a porta logo em seguida.

– Eu estou cansado. – Eagle respondeu simplesmente, virando a cadeira para o gabinete mais uma vez, sorrindo e passando a mão nos cabelos, como era costume.

– Queria imaginar o que você tanto faz que o deixa nessas condições. – Geo falou, cruzando os braços diante do peito. – Arrume essa gravata, coloque o paletó, a reunião vai começar e seu pai acha que ainda nem chegou. Preciso dizer que ele está querendo matá-lo?

– Não. – Eagle sorriu, apertando a gravata novamente e então, vestindo a parte de cima do terno. Ajeitou os cabelos assanhados o máximo que pôde e se levantou, seguindo o amigo para fora da sala.

Os dois andaram ao longo do corredor, no caminho em direção à sala do pai de Eagle, mas antes de alcançarem-na, entraram numa outra sala que estava relativamente cheia. Na verdade, parecia que eles estavam esperando apenas a chegada de Eagle.

O jovem lançou um breve olhar para o pai do outro lado da sala, enquanto Geo sentava. A cara dele não parecia estar tão boa. Minutos depois, pousou os olhos sobre Lantis, que estava sentado numa cadeira mais à frente, perto de onde seu pai estava. Bom, pelo visto o lugar dele era do outro lado do pai, diante de Lantis. Sem trocar uma palavra sequer com o mais velho, sentou-se, ajeitando os papéis que estavam lá.

– Agora que estão todos aqui… acho que podemos começar. – Rhaels ainda fez questão de lançar um olhar severo ao filho mais velho quando citou a palavra "todos".

Eagle não prestou atenção em mais nada desde aquele ponto, começou a folhear as propostas que estavam diante de si, passando os olhos rapidamente por elas. Apenas voltou a atenção para os outros novamente, quando Lantis tomou a palavra e seu pai tinha sentado. Começou a ouvir atentamente ao que ele dizia e vez ou outra seus olhares ainda se encontravam.

Ao contrário de Eagle, que era obrigado a agüentar o pai quase vinte e quatro horas por dia, Emeraude se livrava daquilo enquanto estava na faculdade. Sempre estava mais distante do pai e mais perto ao mesmo tempo.

Arrumava as coisas para sair da sala ao fim de mais uma de suas aulas. Persea também estava lá, arrumando as coisas.

– O próximo período é livre, não é? – Persea perguntou, constando a hora no relógio de pulso.

– Sim. – Emeraude respondeu, terminando de arrumar os livros. – Eu vou pra biblioteca…

– Claro que vai. Não pode fazer os trabalhos em casa mesmo. – Persea comentou, terminando de arrumar as suas coisas e seguindo com a amiga. – Eu acompanho você depois, vou pegar alguma coisa pra comer.

– Tudo bem. – Emeraude concordou, seguindo pelo caminho oposto.

A jovem dona dos olhos verdes seguiu pelos corredores lotados de alunos que iam mudar de sala, até sair do prédio. A biblioteca ficava num prédio praticamente vizinho ao do curso de Direito.

Andava a passos largos e lentos, os olhos fixos no caminho a sua frente, embora não estivesse realmente vendo onde estava indo. Seus pés sabiam o caminho de cor e estava perdida em pensamentos. Como estava no último ano de seu curso, não poderia adiar mais os estágios, precisaria em breve fazer a prova da Ordem dos Advogado, e dependendo de suas médias, poderia até mesmo ser chamada para ajudar em algum caso.

Aquele era o grande problema de sua cabeça: precisava ser boa o suficiente para ser chamada e para tirar notas muito altas na prova, precisava exceder as expectativas até mesmo do seu irmão, mas ainda assim não queria que seu pai descobrisse tão cedo o que estava fazendo. Provavelmente ele iria ter um infarto, percebendo que a imagem da princesinha dele estava se desfazendo por completo.

Infelizmente, não poderia continuar daquele jeito, fingindo se tornar uma pessoa para substituir o lugar de sua própria mãe. Seu pai só lhe via como a filha perfeita por ela lhe lembrar tanto a esposa, e queria que ela fosse aquela peça de vidro simplesmente intocável durante toda a vida. Estava preocupada com o efeito que causaria quando ele descobrisse… ele poderia ficar furioso com ela, poderia até mesmo nunca mais falar novamente com a jovem; aquilo a deixava temerosa. Mas sempre que se lembrava do que o irmão tinha que passar desde jovem, tinha forças pra continuar, na verdade, teria continuado andando, se não tivesse ido de encontro com alguma pessoa que estava bem na sua frente.

– Ah! Desculpe! – nem olhou para a pessoa que tinha esbarrado, abaixando-se para recolher os livros que derrubara e os papéis que a pessoa tinha deixado cair.

– Você deveria tomar mais cuidado… pode acabar se machucando se não olhar por onde anda. – uma voz masculina se pronunciou diante dela.

Apenas ao perceber que a voz lhe era ligeiramente familiar, ergueu a cabeça para encará-lo. Enrubesceu imediatamente ao ver aquele homem tão de perto.

– Pr-professor. Eu realmente sinto muito! – ela se desculpou, terminando de juntar os livros.

– Eu ainda não me acostumei com isso. – ele disse, terminando de juntar os seus documentos e ambos levantaram-se.

– Eh? – Emeraude confundiu-se… será que ele estava se referindo a se acostumar com esbarrar em alguém?

– Ser chamado de professor. – ele respondeu, sorrindo diante da expressão confusa dela. Imaginava o que podia ter se passado pela cabeça dela.

– Ah… – o rosto dela assumiu uma expressão entendida, mas apenas por dois segundos. – O senhor nunca ensinou antes?

– Não. – Zagato respondeu, meneando a cabeça levemente. – Sempre trabalhei como promotor… mas resolvi mudar de ares.

– Entendo. – Emeraude sorriu em resposta.

– Você não estava indo para algum lugar? – ele perguntou, notando que ela continuava parada, fitando-o demoradamente.

– S-sim… eu estava indo… eu estava… – ela confundiu-se completamente, teria continuado a sua confusão, se uma terceira voz não tivesse lhe chamado a atenção.

– Emeraude! – uma voz feminina chamava pela mulher e ela se virou para encarar Persea que vinha quase correndo em sua direção. O professor também encarou a outra. – Que bom que te alcancei a tempo, a Caldina tava te procurando. Ah… bom dia, professor.

– Bom dia. – Zagato cumprimentou de volta.

– Ah… eu interrompi alguma coisa? – Persea perguntou um tanto quanto desnorteada, olhando de um para outro.

– Claro que não. – Emeraude respondeu sorridente, mas Persea sentiu a firmeza com que ela falou e o constrangimento que tinha na voz.

– Eu tenho que deixá-las agora. Se me dão licença… – Zagato acenou levemente com a cabeça e então, afastou-se de ambas.

Persea e Emeraude o seguiram com o olhar por um tempo.

– Hum… tão cedo e flertando com o professor, Emeraude… – Persea disse num tom de quem era entendida do assunto.

– Não fale desse jeito. Parece até Caldina falando. – Emeraude repreendeu.

– Alguém citou o meu nome aí? – a morena apareceu tão subitamente que Emeraude achou que ela tivesse saído da terra.

– Onde você estava? Achei que tivesse ficado lá pra trás, com o Rafaga. – Persea comentou, arqueando uma sobrancelha.

– Ele precisou voltar para o bloco de Administração. – Caldina comentou de maneira pesarosa. – Sabe como é, né? Esses últimos anos sempre enlouquecem qualquer um.

– Você queria falar comigo? – Emeraude perguntou, chamando a amiga de volta para a Terra.

– Ah sim, sim… mas não lembro mais o que era. – Caldina deu de ombros. – Então… por que não falamos daquele cara que estava aqui dois minutos atrás com quem você estava flertando?

– O quê? Eu não estava fazendo nada com ninguém. – Emeraude sorriu. – Vocês duas parecem que estão um pouco desconcertadas.

– Emeraude, não tente esconder! Eu vi! Eu com meus próprios olhos! – Caldina falou, enérgica como sempre.

– Bom, eu estava indo para a biblioteca. – Emeraude continuou a sorrir, continuando a andar enquanto as amigas lhe seguiam uma de cada lado.

Ela não me engana… – Caldina comentava, não tão baixo o quanto imaginava, com Persea. – Esse sorrisinho…

– Bom… é o de sempre. – Persea deu de ombros, suspirando.

– Tudo bem, você escapou… mas só dessa vez, princesa. – Caldina avisou, cruzando os braços frente ao corpo.

– Claro, claro… – foi a única resposta de Emeraude, sem ao menos se dar ao trabalho para se virar e olhar para as amigas.

Elas continuaram o caminho até a biblioteca, Caldina se separou das duas quando estavam chegando perto do prédio. Sempre dizia ser alérgica a livros. Emeraude e Persea seguiram e fizeram alguns trabalhos e pesquisas antes do sinal para a próxima aula.

O resto do dia transcorreu normalmente, exceto por Emeraude não ter as duas últimas aulas e poder voltar para casa mais cedo.

A jovem dona dos cabelos dourados e dos olhos verdes estava deitada no sofá de três lugares da sala, com a cabeça deitada no braço do móvel e um livro de Direito em mãos. Acabou adormecendo ali mesmo e ninguém teve o favor de lhe avisar… pelo menos não entre os empregados.

Acordou apenas quando uma conhecida voz lhe chamou, mesmo que a voz estivesse praticamente como um sussurro – tinha um sono realmente leve.

Se você não acordar agora, o papai não vai gostar de te ver assim.

Ela abriu os olhos lentamente, encarando aqueles conhecidos fios de cabelo prateados. Ele lhe sorria… como sempre estava sorrindo. Ajeitou-se no lugar, sentando-se com as pernas cruzadas em posição de lótus e encostando-se no braço do sofá. Bocejou e esfregou os olhos levemente antes de conseguir falar alguma coisa.

– Você já chegou? Que horas são? – perguntou, buscando algum lugar em que pudesse ver as horas.

– Mais de oito. – Eagle respondeu, constatando no relógio de pulso. – Parece que estava mesmo cansada…

– Ah… não, foi só um descuido. – Emeraude respondeu, colocando as mãos sobre o livro que ainda estava sobre suas pernas.

– Na verdade… eu fiquei curioso… – Eagle comentou, pegando o livro que ela estava lendo antes de cair no sono. – Por que a minha irmãzinha estaria lendo um livro de Direito Civil?

– Eh? – Emeraude finalmente pareceu perceber o que estava nas mãos do irmão. Eagle folheava o livro demoradamente. – Ah… é que… bom…

Ele virou o rosto para encará-la. Não estava sorrindo, mas também não estava com cara de quem estava furioso ou desconfiado, estava apenas confuso.

– Você estava dizendo…? – ele a incentivou a falar.

– É que… eu peguei o primeiro livro que encontrei, e não tinha percebido que era de Direito. Você sabe, aqui nessa casa só tem livros de Direito. – Emeraude explicou, tentando esconder a própria confusão. – Fiquei com preguiça de ir procurar outro, então tentei ler este mesmo… mas, como eu não estava entendendo nada, acabei dormindo.

– Ah… claro. – Eagle sorriu.

– Queria saber como vocês entendem toda essa baboseira que eles falam e esse monte de códigos. Precisam ter muita paciência mesmo. – Emeraude continuou, agora mais segura de que o irmão parecia ter engolido a explicação.

– É mesmo… precisamos de muita paciência. – ele concordou, deixando o livro de lado.

– Você disse que o papai não ia gostar… – Emeraude começou a falar. – Onde ele está?

– Ele está chegando. – Eagle respondeu, encostando-se no sofá e suspirando. – Eu vim na frente. Ele ainda tinha que resolver uns problemas.

– Claro. – Emeraude concordou. O pai sempre tinha mais problemas a resolver naquela maldita empresa.

– Bom, acho que você ainda não jantou, não é? – Eagle virou-se para encará-la novamente.

– Não. – Emeraude respondeu, meneando a cabeça levemente.

– Então… – antes que Eagle pudesse terminar sua proposta, foram interrompidos por uma nova voz.

– Então vocês dois estavam aqui. – Rhaels entrou na sala, sentando-se uma poltrona única, ao lado do sofá onde os irmãos estavam sentados.

– Boa noite, papai. – Emeraude o cumprimentou com o costumeiro sorriso.

– Boa noite, minha princesa. – ele sorriu de volta para a jovem, sorriu de uma maneira gentil.

– O senhor queria falar com a gente? – Eagle perguntou, chamando a atenção do pai para si.

– Ah, sim… – ele pareceu se recordar de alguma coisa, quando voltou a falar, tendo a atenção de ambos os filhos. – Esse fim de semana nós iremos a uma festa.

– Festa? – o questionamento dos irmãos foi uníssono e surpreso.

– Isso mesmo. – Rhaels confirmou, parecendo gostar da idéia de uma festa. – Uma grande festa, com grandes nomes… fomos convidados.

Final do Capítulo Dois

Uhu!

Mais um capítulo... eu duvido que tenha gente lendo isso, mas não importa. Eu gosto de escrever e gosto do casal e vou continuar postando mesmo assim... XD talvez alguém veja em algum dia longíquo... whatever...

Pyoko-chan, minha parceira de maluquices-idiotices-lemons-yaoi-e-derivados do msn revisou o capítulo pra mim, e a Lis também tinha revisado, então, creditei a revisão às duas. Muito obrigada, garotas, amo muito vocês duas, viu?!

E bom, acho que é só. Deve ter dado pra perceber nesse capítulo que eu quero que cada capítulo tenha o ponto de vista de um dos irmãos. Ambos são importantes pra história, mesmo que eu tenha Lantis/Eagle como o casal principal. A Emeraude também desempenha um papel importante e ainda tem o romance dela com o Zagato, de quebra. XD

Então, fico por aqui. Se alguém se sentir à vontade para deixar reviews, ficarei agradecida. Agradecimentos especiais à Pyoko-chan que deixou review no primeiro capítulo. Te adoro, maluca!

Então, kissus a todos e até a próxima!