CAPÍTULO I

Viajar em um dia como aquele era uma tarefa apenas para os confusos ou desesperados.

Exalando um breve suspiro, Rin Okawa recostou-se no assento da velha carruagem. A esperança e a coragem que a fi¬zeram tomar a decisão de deixar Shrewsbury enfraquecia sob o peso do esgotamento e das muitas horas passadas sem nenhuma companhia, a não ser os próprios pensamentos desordenados.

Uma chuva torrencial desabava sobre a carruagem, fazendo com que as rodas altas derrapassem perigosamente no barro da estrada. De repente, um violento solavanco a fez escorregar no banco e bater o ombro de encontro à lateral do veículo. O cheiro de mofo inundava o ar, poluindo a respiração de Rin. Esfregando o ombro dolorido, ela curvou-se para a frente, des¬cansado uma das mãos na estrutura da janela. O contato com a armação sólida a impediu de deslizar pelo assento rachado.

Passado algum tempo, a chuva amainou, reduzindo-se a um chuvisco fraco. Rin espiou a paisagem molhada através da janela, esperando obter um relance da zona rural por onde tra¬fegavam. O céu triste estendia-se até onde a vista alcançava, em um pálido e infinito tom de cinza. Então, uma brecha entre as nuvens permitiu que um único raio de sol do entardecer descesse, penetrando a escuridão para tocar a terra.

Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Ao longe, tendo como pano de fundo aquele raio solitário de sol, encontrava-se uma construção rústica, um castelo lúgubre sobre uma colina soli¬tária. Escuridão na luz.

Manorbrier. Sua escolha e seu futuro.

Um sussurro de inquietação importunou seus sentidos, fa¬zendo sua pele arrepiar e o coração disparar. O fim da viagem estava próximo, embora qualquer conforto a ser encontrado naquele pensamento viesse carregado de apreensão. Ela fugira da certeza de um destino que se recusava a suportar para a possibilidade de um que poderia vir a ser ainda pior.

E assim viajou em um dia como aquele. Para um lugar como aquele. Para a casa do homem que era...

Rin recuou assustada. Suas reflexões espalharam-se como pingos de chuva ao vento, quando as rodas agitadas da carruagem arremessaram porções de lama, que espirraram contra a janela com um ruído sólido. E então o aguaceiro reco¬meçou a cair continuamente no teto da carruagem. O rangido e o balanço marcavam o transcurso de tempo, e a escuridão se aprofundava, anunciando a chegada do crepúsculo.

Os minutos se arrastaram, transformando-se em horas, e as sombras se alongaram na negritude da noite. Por fim, passado mais algum tempo, o veículo oscilou para a frente e para trás até parar. Após alguns instantes, a porta se abriu, permitindo que a umidade e o ar frio adentrassem o interior do vagão escu¬ro. O cocheiro apareceu, erguendo uma lanterna, e a explosão súbita de luz a fez piscar.

— Chegamos. — A face magra do homem era apenas uma silhueta nas sombras. A gola do casaco chegava-lhe à altu¬ra do queixo, e a água escorria da extremidade de seu cha¬péu. — Embora tenha me questionado se é aqui onde de fato deseja ficar, senhorita. Tem certeza de que não quer voltar para Shrewsbury? Acho que este não é um lugar adequado para uma jovem.

Rin contraiu os lábios. Shrewsbury também não, pelo menos não para ela. Suprimindo um tremor, inclinou-se para a frente a fim de perscrutar a escuridão através da porta aberta.

— Chegamos a Manorbrier?

— Não. Este é o ponto de encontro para onde suas tias me pediram que a trouxesse. Há outra carruagem esperando para levá-la ao castelo. Já entreguei sua mala ao condutor. — O ros¬to do cocheiro se contraiu, apreensivo. — Há histórias terríveis sobre aquele lugar, senhorita. Ouvi isso quando parei para dar água aos cavalos.

Sim. Ela conhecia tais histórias. Desde o dia em que chegara aos degraus da porta das tias, órfã e sozinha, com nada além de uma valise nas mãos, Rin ficara a par das histórias sobre o Castelo Manorbrier e seu senhor. Histórias sinistras de assas¬sinatos. Relatos terríveis, inquietantes. Sua prima Delia mor-rera lá, grávida. Fora jogada escada abaixo por um homem que jurara amá-la, honrá-la e estimá-la... Lorde Sesshoumaru Craven. Marido de Delia. Assassino de Delia. Seu futuro patrão.

O cocheiro tossiu discretamente:

— Ainda posso levá-la de volta ao lugar de onde veio.

De volta à casa das tias, que a viam como um fardo? De volta ao destino que elas haviam cruelmente traçado para ela? Rin estremeceu, pensando no sr. Moulton, com seus dentes quebrados e mãos tateando no escuro. As tias só queriam a carteira recheada do homem.

— Obrigada, mas vou para Manorbrier — disse num tom firme. — Estão me esperando lá.

Ela não tinha nenhum motivo para voltar, pensou. As tias estavam ansiosas para colocá-la naquela carruagem e despa¬chá-la para um destino incerto. E para falar a verdade, ela tam¬bém estava ansiosa para deixá-las. Nunca mais voltaria. Havia tomado uma decisão e não tinha intenção de voltar atrás.

O vento rodopiou pela porta aberta, fazendo-a estremecer quando o ar gelado penetrou no capote que usava. O cochei¬ro, com expressão resignada, afastou-se para um lado. Rin forçou um sorriso e voltou a atenção para uma segunda luz que chamejava de encontro ao céu noturno. A lanterna do outro condutor.

Respirando fundo, aconchegou mais o capote ao corpo e saiu para a noite escura. O céu parecia desaprovar sua chegada, vertendo um dilúvio que a deixou encharcada antes mesmo de ter dado três passos.

Tremendo, Rin continuou acelerando em direção à luz da carruagem pouco conhecida e pouco visível agora pela chuva pe¬sada. Seu coração batia enlouquecido. Uma forte rajada de vento atingiu-lhe os cabelos sob o gorro, fazendo-os soltarem-se do co¬que na nuca. Mechas molhadas se grudaram em seu pescoço.

Afastando os cachos enroscados, olhou para a parede escura de água atrás de si, buscando um relance do cocheiro que a trouxera. Seria um último olhar a uma face familiar e amigá¬vel, mas já não havia sinal dele.

Nem do bondoso cocheiro, nem da carruagem de aluguel. Atrás de Rin, havia apenas a escuridão da noite, e à sua frente, uma porta aberta. Uma única luz amarela tremulava ao vento, amarrada por um gancho precário ao lado do cocheiro que a levaria a Manorbrier. Estava de fato sozinha naquele lugar deserto e distante.

Mas isso não era novidade. Rin vivera sozinha por muito tempo, e aquela era a chance de acabar com a solidão e cons¬truir uma vida e um lugar para ela, além de fazer a diferença na vida de um menino pequeno e solitário. A criança era a ra¬zão pela qual estava fazendo aquela viagem.

Curvando-se sob o peso da tempestade, Rin deu um pas¬so atrás do outro até vencer a distância entre os dois veículos.

— Bobagens e tolices. Bobagens e tolices — disse, entoando as palavras num tom alto para si mesma, um espécie de mantra contra a pontada de desconforto que sentia. Mas a tempes¬tade furiosa as arrebatou dos seus lábios, abafando-as com o ruído da chuva contra o solo.

A medida que ela se aproximava, a carruagem bloqueava o impacto do vento. Resoluta, segurou as extremidades da porta e se refugiou no calor relativo do interior do veículo. Acomodando-se no assento, percebeu que o cocheiro contratado não havia desaparecido. Ele a seguira e agora seu físico avantajado preenchia toda a entrada. Rin forçou-se a lhe dar um sorriso tranqüilizador, antes de perceber que o homem por cer¬to não podia vê-la mergulhada nas sombras do vagão.

Ele esperou, piscando na escuridão, dando-lhe uma última chance de mudar de idéia.

— Obrigada — sussurrou ela.

Os ombros dele se curvaram. Recuando um passo, o co¬cheiro inclinou o chapéu e fechou a porta, deixando-a na mais completa escuridão. Com um baque surdo, o novo condutor pôs o veículo em movimento. Rin tentou corrigir a aparên¬cia e acalmar os pensamentos ansiosos. Lutando para conter o tremor do corpo, forçou os dedos a obedecerem a seu coman¬do mental. Depois de desamarrar o gorro e colocá-lo sobre o assento, começou a árdua tarefa de desembaraçar os cabelos molhados.

Não havia sinal de sua mala. Ela murmurou uma oração fervorosa para que o cocheiro contratado a tivesse entregado ao condutor da carruagem na qual se encontrava agora. Todos os seus pertences estavam naquela mala. Pequenas lembran¬ças da mãe, que só tinham valor para o coração de uma filha. E seus livros, tesouros cujas páginas, bem folheadas sussurra¬vam-lhe esperanças e sonhos.

À medida que ajeitava os cabelos, a massa desalinhada ia assentando. Dentro de pouco tempo, o coque estava refeito, pre¬so com grampos, na base da nuca. Ela só esperava causar uma boa impressão em sua chegada a Manorbrier. O fato de não ser nenhuma beldade contava a seu favor, já que poucos de¬sejavam contratar uma preceptora que fosse considerada um diamante de primeira água.

Rin tinha a pele lisa e sem manchas, e se orgulhava de seus cachos longos e espessos. Ela herdara os cabelos escuros da mãe, bem como os olhos castanhos e o temperamento. Tinha uma natureza alegre e prática que a fazia enfrentar as adversidades com sucesso, porque preferia ver a vida como um exci¬tante desafio.

Acalmada pelo som da chuva que enfraquecera até um mo¬nótono tamborilar no teto da carruagem, Rin relaxou e se reclinou no assento. O interior da carruagem permanecia um casulo, protegendo-a da noite escura.

De repente, um som fraco e quase imperceptível chamou sua atenção. Ela estremeceu. Por certo estava imaginando o ritmo fixo de uma respiração suave. Um ruído macio e constan¬te de inalação e exalação que não era o dela.

O som continuou. O que se tratava de uma leve suspeita transformou-se em certeza absoluta. Ela não estava sozinha na carruagem. Havia mais alguém dividindo com ela aquele espaço escuro. Oh, o que não daria por uma lanterna, naquele momento! Até mesmo uma única vela serviria.

— Quem está aí?

Sua imaginação de súbito invocou uma besta com olhos vermelhos e brilhantes e uma língua que se projetava de uma boca aberta repleta de dentes afiados e mandíbulas vo¬lumosas. Rin piscou na escuridão. Não havia nenhum olho vermelho olhando para ela. Nenhum dente afiado. Nenhum bafo de animal. Na realidade, não havia nem mesmo uma sugestão de som.

Também não houve nenhuma resposta à sua pergunta.

Talvez ela tivesse imaginado aquele som de respiração. Quase riu alto da própria tolice.

Então, um ruído discreto de unhas arranhando despertou-lhe o pior dos medos, fazendo-a perder o controle sobre os pen¬samentos. Antes de ter a oportunidade de conter as emoções mais uma vez, um feixe minúsculo de luz iluminou um ser en¬rolado no assento oposto da carruagem. O brilho vinha de um ponto próximo ao rosto da criatura.

Rin reagiu sem pensar e do fundo de sua garganta escapou um pequeno grito de terror que cresceu, transformando-se em um berro ressonante que ricochetou para fora da carrua¬gem, antes de escapar para a noite e o mundo inteiro ouvir.

Ela pausou para tomar fôlego e o silêncio breve encheu-se com o tom de uma voz masculina.

— Santo Deus, mulher! O que você tem nessa sua cabeça? Meus ouvidos estão zunindo com seu grito!

O medo de Rin se reduziu com uma velocidade espan¬tosa, sendo substituído por uma suspeita de que o homem à sua frente seria seu novo patrão. E ela havia gritado no ouvido dele. Oh, Deus...

Pressionando a mão sobre o peito, esforçou-se para acalmar as batidas aceleradas do coração.

A pequena chama que ardia no interior da carruagem con¬tinuou revelando as superfícies e sulcos do que ela percebia agora tratar-se do rosto de um homem, e logo abaixo a mão que segurava o que sobrara de um fósforo. O fogo correu ao longo do palito, queimando os dedos que o seguravam. Rin soube que tinham sido chamuscados porque ouviu um assobio um pouco antes de o fósforo se apagar abruptamente, deixando-a só com o homem e a escuridão.

— O senhor me assustou — arriscou ela no silêncio. — Se eu tivesse conhecimento de sua presença desde o início, não teria gritado tão... tão alto.

Ele não respondeu de imediato, mas quando o fez, a voz ecoou no interior da carruagem, grave e macia.

— Evite elevar a voz com meu filho.

Aquilo trouxe a Rin a confirmação da identidade do homem. Estava em companhia de lorde Sesshoumaru Craven e havia se comportado de modo ridículo. Não era um começo muito promissor.

Sem saber o que responder, continuou em silêncio; parte de si achava que ele lhe devia um pedido de desculpas por tê-la assustado daquela maneira.

— Não há necessidade de se encolher na extremidade do assento como uma pequena carriça. — A voz soou num tom mais divertido do que bravo.

Os olhos de Rin se alargaram. O homem devia ter a vi¬são de um gato para conseguir enxergá-la naquela escuridão. Os olhos de um gato e os modos de um babuíno.

Ele emitiu um som baixo com a garganta.

— Acha que eu a estava espreitando de propósito na escuri¬dão, esperando uma oportunidade de assustá-la?

Rin havia pensado exatamente isso, mas ouvir a pergun¬ta feita tão abruptamente fez a idéia soar absurda.

— Não, claro que não — mentiu.

O silêncio se prolongou e então lorde Craven explicou:

— Eu adormeci. Quando acordei, não fazia a menor idéia de que a senhorita desconhecia a minha presença na carruagem. E então a ouvi gritar.

— Entendo.

Bem, agora ela sabia que seu patrão não tinha por hábito espreitar e assustar as jovens que empregava.

— Onde está a dama de companhia que pedi?

Dama de companhia? Por um momento ela se sentiu es¬tranhamente tocada pelo fato de ele ter tido aquele tipo de consideração. Embora a idéia fosse ridícula. Tia Cecilia jamais gastaria dinheiro para contratar uma dama de companhia. Consideraria um desperdício, levando em conta que Rin já carregava a mácula devido às circunstâncias do seu nascimen¬to. Na realidade, se pudesse, Cecilia a teria vendido de bom grado para...

— Ah, deixe-me adivinhar... Sua tia Cecilia achou que meu dinheiro seria mais bem empregado em outra coisa, e sua tia Hortense devia estar sob o efeito de uma boa dose de conha¬que, misturado ao chá, é claro, e por isso não teve forças para interceder a seu favor. Não que fosse se incomodar com isso se estivesse sóbria. Teria simplesmente tomado mais chá e mur¬murado: "E isso mesmo, é isso mesmo".

O tom dele era afiado, mas havia uma nota sutil de humor.

Rin conteve uma risadinha assustada ao ouvir o monólogo irreverente do lorde. Uma pequena parte do medo que sentia se acalmou pela descrição sarcástica e precisa sobre suas tias. Após um breve silêncio, Sesshoumaru Craven comentou:

— A chuva parou.

Rin prestou atenção. De fato, o ruído dos pingos batendo no teto da carruagem havia cessado.

— Sim.

— Chuva maldita.

Algo na voz do lorde tocou-a por dentro, fazendo-a imaginar por que ele repugnava a chuva daquela maneira. Em seguida perguntou-se por que estava se preocupando com aquilo. Foi salva de ter de elaborar uma resposta pelo rápido solavanco da carruagem, que anunciou o término da viagem e o começo de sua nova vida.

Um sussurro macio denunciou o movimento de lorde Craven no assento oposto. Rin percebeu sua proximidade. Tensa, ofegou e enrijeceu ao contato morno dos dedos másculos que lhe to¬caram o queixo, a face e o lábio inferior num movimento suave.

— Então você veio, apesar da tempestade e dos rumores, sozinha, para um lugar tão longe de casa.

Rin percebeu algo no tom dele, admiração ou talvez surpresa.

— Não tenho casa — sussurrou e então desejou não ter dito aquelas palavras tão reveladoras.

Sesshoumaru Craven estava tão próximo que ela podia sentir o toque morno da respiração dele de encontro à sua face e um perfume masculino e sutil de sândalo. Atraída pelo adorável aroma, inspirou ligeiramente, e depois mais fundo.

— Dei minha palavra que viria — revelou no silêncio. Sua palavra era o seu mais valioso tesouro.

Rin sentiu o corpo do lorde tensionar.

— Menina corajosa — disse ele num tom suave. A voz não exibia nenhum tom de humor agora e parecia conter um elogio e uma advertência ao mesmo tempo.

Corajosa? Em face de que perigo? Abriu a boca querendo questioná-lo, mas antes que pudesse formular os pensamentos, Sesshoumaru Craven moveu-se no assento e abriu a porta.

A silhueta alta e poderosa encheu sua visão, enquanto ele deixava a carruagem e caminhava em direção à casa. Sentindo-se estranhamente vazia pela partida abrupta do lorde, Rin espiou através da porta aberta, vendo-o se afastar. O vento le¬vara a tempestade para longe, deixando para trás o céu notur¬no enluarado e o cheiro de terra limpa e molhada.

Sesshoumaru galgou os largos degraus de pedra. Chegando ao topo, parou e se virou ligeiramente, deixando o perfil delineado de encontro à luz que provinha das lamparinas que flanqueavam a porta da frente aberta. Rin teve a impressão que seus cabelos eram escuros, pelo menos pareciam à distância. Tinha o queixo forte e o nariz reto e perfeito. O resto não dava para ver, mas a impressão geral era de um homem alto e perigosa¬mente bonito.

Pouco disposta a deixar de fitá-lo, apoiou-se um pouco mais para a frente. Sesshoumaru inclinou a cabeça, parecendo falar com alguém. Então, com um relance rápido na direção dela, ele se virou e desapareceu no interior da casa.

De repente um som chamou a atenção de Rin. Ela olhou para a esquerda e se deparou com um estranho de pé próxi¬mo à carruagem. A luz que chamejava tão brilhante junto à entrada da casa reduziu-se a um brilho tímido, sombreando o rosto do homem. Sulcos profundos, cicatrizes terríveis e rugas ao longo de suas faces e queixo, eram marcas permanentes que o rotulavam como um afortunado.

Afortunado porque havia sobrevivido. A varíola matava ou deixava cicatrizes naqueles cujas vidas eram poupadas. Ela o encarou, desejando saber quantos parentes queridos ele havia enterrado enquanto permanecia vivo para pranteá-los. Lágrimas queimaram no fundo de seus olhos quando pensou na própria mãe, vítima da mesma pestilência terrível, morta muitos anos antes, mas nunca esquecida.

— Então este é Manorbrier? — perguntou, com uma alegria forçada. Não tinha dúvida sobre o local onde se en¬contrava, mas queria iniciar uma conversa e dispersar o humor melancólico.

— Sim, senhorita — respondeu o condutor, com expres¬são vazia.

— E seu nome é?

O homem a encarou por um longo momento.

— Myouga.

Rin exalou um suspiro de alívio. Durante um segundo temeu que ele não fosse responder, virando-se e desaparecendo como seu amo enigmático.

— E um prazer conhecê-lo, sr. Myouga.

— Senhor, não. Apenas Myouga. E você é Rin Parrish. Agora que já nos apresentamos, deixe-me levá-la à sra. Kaede.

Enquanto o cocheiro a ajudava a descer da carruagem, Rin virou-se lentamente, perscrutando os arredores. O cas¬telo parecia uma sombra enorme e escura contra o fundo vasto do céu da noite. Dois grandes lampiões flanqueavam a porta da frente, e a luz se derramava sobre os degraus e parte do caminho de pedra. Perplexa, encarou a fachada da casa por um momento. Havia algo estranho naquelas janelas. Não havia luz em nenhuma delas. Aliás, o único foco de luz no local provinha dos lampiões na entrada.

Perplexa com a estranheza do lugar, virou-se e examinou o longo passeio de pedra; este atravessava um enorme portão que se encontrava em meio aos muros em ruínas que cercavam o pátio. Como um diamante escondido em um amontoado de pedra, a casa mais nova se aninhava dentro da concha degra¬dada do castelo original.

Ao sul erigia-se a silhueta de uma torre circular que pa¬recia ser tão velha quanto os muros. Inclinada ligeiramente para a direita, dava a impressão que poderia cair a qualquer momento. Isso tudo foi visto graças à luz do luar, que dava ao cenário um aspecto tímido e sombrio. Rin disse a si mesma que seria diferente quando visse o lugar no dia seguinte, à cla¬ridade do sol.

De repente, no alto da torre ela viu um brilho muito rápido, que quase se extinguiu antes que ela o percebesse.

— Oh! Viu aquilo, Myouga? Lá, no alto da torre?

— Não, senhorita. Não vi nada.

— Um flash de luz. Brilhou agora mesmo.

O homem pegou a bagagem com um grunhido. Ignorando o comentário, começou a caminhar em direção à porta da frente do solar. Rin ergueu a bainha da saia ainda úmida e o se¬guiu, relanceando um olhar à torre por sobre o ombro.

— O que traz aqui? Pedras? — perguntou Myouga.

— Não, livros — respondeu ela, olhando mais uma vez para a torre. — Mas eu vi uma luz. Um flash luminoso... Parecia uma chama, um pouco maior do que a de um fósforo. Brilhou por um segundo e depois sumiu...

Myouga parou tão de repente que Rin se chocou com ele. Virou-se de frente lentamente e seus olhos se estreitaram.

— Se eu fosse uma preceptora que viesse trabalhar em Manorbrier... — disse ele, medindo cada palavra — ...não prestaria muita atenção à torre circular. Nem sequer olha¬ria para lá.

Recuando um passo, Rin o encarou, com expressão abor¬recida. Fora arrancada da casa em que vivera pelos últimos cinco anos. Apesar da atitude malévola das tias, ainda conse¬guia sentir prazer em alguns aspectos de sua vida como hóspe¬de na casa delas. Adorava a cozinheira, a arrumadeira Annie, as flores no jardim e os momentos de liberdade roubados quan¬do as tias dormiam à tarde. Qualquer pequeno senso de segu¬rança que havia desfrutado se esvaíra naquela longa e chuvosa viagem rumo a um castelo longe de qualquer coisa conhecida e familiar. A advertência de Myouga fora a gota d'água.

Empertigou-se, alcançando apenas o ombro do homem, e inclinou a cabeça para encará-lo. Sua intenção era estabelecer algumas regras educadas, mas firmes, para a relação futura dos dois, regras que incluíam uma ausência de ameaças ocul¬tas e advertências.

— Há morte na torre circular, senhorita. Morte. Fique longe daquela torre. — Myouga olhou para ela com intensidade, como se quisesse fazê-la entender sua advertência.

Rin estremeceu ao perceber o que ele quis dizer. Myouga tinha medo da torre e queria que ela tivesse também.

— O quê?

Ignorando a pergunta assustada, o homem suspendeu a mala mais uma vez e se virou.

Uma sombra surgiu na entrada iluminada. Rin ergueu o olhar para ver uma mulher que bloqueava a passagem. A senhora tinha cabelos grisalhos, vastos e encrespados, com lon¬gas mechas que haviam se soltado do coque que ela fizera na tentativa de melhorar a aparência. Os olhos cinzentos eram rasos e pareciam frios, uma impressão sustentada pelo fato de as sobrancelhas espessas formarem uma carranca e os cantos da boca curvos para baixo uma expressão de menosprezo.

— Pela entrada dos criados, por favor. — A mulher perma¬neceu firme enquanto Myouga se aproximava.

— A mala está pesada, sra. Kaede. — Ele trocou a mala de mão.

Rin engoliu e deu um passo à frente, mais do que dispos¬ta a entrar por qualquer porta que gerasse menos controvérsia, mas, para sua surpresa, a mulher se afastou para o lado, dei¬xando o cocheiro passar.

— Pode levar a mala dela para o quarto azul no andar superior.

O cocheiro parou, olhando para a mulher com a boca aberta como se desejasse dizer algo.

— O quarto azul — repetiu ela num tom firme. — Até sa¬bermos de que tipo ela é.

Com um aceno, Myouga se virou e subiu os degraus da larga escadaria no final do hall de entrada, deixando Rin do lado de fora da casa, proibida de segui-lo pela barreira representada pelo corpo robusto da sra. Kaede. Desnorteada pela estranha mudança, espreitou além da mulher, relanceando um olhar rá¬pido às lajotas de mármore pretas e brancas do piso geométrico e à mesa de centro de pau-rosa polido que ostentava um arranjo de rosas vermelhas.

Voltando a atenção mais uma vez à sra. Kaede, que lhe bar¬rava a entrada, hesitou. Ficou tentada a se curvar em uma mesura, mas como a nova preceptora de Manorbrier, achou a atitu¬de imprópria. Então sorriu e estendeu a mão.

— Sou Rin Parrish. Prazer em conhecê-la, senhora.

— Não estamos em uma festa, srta. Okawa— respondeu a cria¬da, ignorando a mão que Rin lhe estendia.

O olhar frio esquadrinhou-a da cabeça aos pés e então a mulher se virou e caminhou até os degraus, a saia do vestido preto flutuando com o movimento. A sra. Kaede abaixou-a com a mão direita.

Rin então reparou na imobilidade do braço esquerdo da mulher, e notou que a manga esquerda do vestido esvaziava um pouco abaixo do ombro. A mulher fazia movimentos sutis para disfarçar a manga vazia, rodando o ombro para segurar o que lhe restara do braço.

— Venha — disse, sem olhar para trás, e Rin a seguiu.

A sra. Kaede carregava uma única vela para iluminar o ca¬minho, enquanto ambas escalavam os degraus e caminhavam ao longo de um corredor escuro. Todos os quartos pelos quais passa¬ram estavam escuros e silenciosos. A criada subiu um segundo lance de escada e um terceiro. Então, alcançaram um quarto no final de um corredor. O ar tinha um odor envelhecido, carregado de pó e desuso.

Com os olhos fixados na vela que fora deixada no quarto, a sra. Kaede parou abruptamente do lado de fora da porta aber¬ta. Rin não tinha certeza, mas imaginou que a expressão da empregada era de medo.

— O quarto azul — entoou a mulher num tom inflexível, afastando-se para o lado.

Rin espreitou além da sra. Kaede e viu que Myouga ha¬via deixado a mala dela no chão ao lado da cama de ferro estreita. De um dos lados da cama havia uma mesa pequena e nela uma única vela acesa que lançava sombras bruxuleantes nas paredes e no chão. Em um dos cantos havia um armário e a única outra mobília existente era uma cadeira decorada com uma bonita almofada azul e branca, ao lado da lareira, onde uma chama alegre crepitava, proporcionando um con¬fortável calor.

Rin sorriu. Myouga devia ter acendido o fogo para ela. Talvez tivesse feito um amigo em sua nova casa.

Virando-se em direção à criada que esperava em silêncio com sua postura brava e inflexível, Rin falou para disfarçar o embaraço quando seu estômago roncou ruidosamente:

— Obrigada por me acompanhar até meu quarto, sra. Kaede. A mulher a encarou e após um momento disparou:

— Usará velas de sebo aqui em seu quarto, e de cera quan¬do andar pela casa. O lorde não gosta do cheiro de sebo.

— Está bem — murmurou ela, contraindo os lábios quando o estômago roncou novamente.

— Não lhe trarei uma bandeja com comida — disse a criada num tom brusco.

Rin abriu a boca para protestar, dizendo que não tinha essa intenção, mas a sra. Kaede sacudiu a cabeça e a fitou em silêncio.

— Mas pedirei à cozinheira que lhe prepare algo na cozi¬nha. Desça a escada à esquerda e depois desça mais um lance, caminhe ao longo do corredor, então desça a escada dos fundos à direita e depois vire na primeira entrada à esquerda. E de agora em diante passe a utilizar a escada dos fundos e a en¬trada dos criados, a menos que esteja acompanhada pelo jovem amo. Com uma última carranca, a criada se virou. — Agora, trate de se secar.

Santo Deus, seria um milagre se achasse a cozinha, pensou Rin, sabendo que a mulher não tinha nenhuma intenção de repetir as instruções.

Parada na entrada do quarto, observou a luz da vela da sra. Kaede se afastar na escuridão. Na metade do corredor a cha¬ma dançante parou e Rin apenas podia discernir o formato escuro das vestes da mulher.

— Nunca deixe uma vela acesa sozinha — preveniu ela, num tom de voz lúgubre que ecoou pelo corredor vazio.

Logo as sombras engoliram a sra. Kaede, enquanto ela con¬tinuava a caminhar, até que a pequena e distante vela parecia flutuar pelo ar. Então a luz desapareceu, deixando-a só para ponderar o pouco que presenciara daquela casa desconhecida. Seus pensamentos giravam confusos e inquietos. Que lugar es-tranho e sinistro!

Myouga, o cocheiro cheio de cicatrizes, fitava-a com os olhos cheios de medo, sussurrando advertências vagas; a sra. Kaede, a criada mal-encarada, a fitava com um olhar cauteloso; e ain¬da havia lorde Craven, com sua capa preta e beleza perigosa que ela vira esboçadas de encontro à luz. Ainda podia sentir o toque daqueles dedos mornos em sua pele fria... O som grave da voz masculina...

Rin respirou fundo, desejando saber por que pensar em seu novo e enigmático patrão a perturbava tanto.

Menina corajosa.