Conveniência
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Capítulo 2 – O Noivo
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"Eu, que não amo você, envelheci dez anos ou mais nesse último mês."
(Engenheiros do Hawaii – Eu que não amo você)
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Alguns dias antes, os anciãos do clã Hyuuga se reuniram no templo para falar sobre as freqüentes rixas entre membros da Souke com os da Bunke.
Hiashi convidara Neji para participar, acreditando ser ele o mais sensato entre todos os que conhecia daquele clã. O rapaz concordara depois de muita insistência, mas pareceu relutante a entrar naquele templo que era famoso por apenas receber visitas escolhidas no dedo. Os anciãos, os mais experientes ninjas, as mais sábias esposas. E agora, ele, um mero membro da família secundária, estaria compartilhando daquele espaço com todas aquelas pessoas.
Aos olhos de todos, Neji não era apenas alguém da Bunke. Era sobrinho do líder do clã e todos sabiam ser ele o maior gênio dentre os Hyuugas. Suas habilidades eram sinônimas de orgulho para a família secundária e às vezes até constrangimento para nobres da Souke.
A reunião começou com um bradar de vozes roucas e pesadas numa rajada de reclamações sobre o comportamento de alguns jovens que estariam profanando as ideologias do clã.
Neji gravou claramente a voz masculina a se pronunciar:
- Aquele filho da mãe usou o Juin Jutsu no meu companheiro! Se eu não temesse que ele o matasse, juro que o teria esfolado!
Um suspiro longo e quente saiu de seus lábios. Nunca havia sofrido o uso do Juin Jutsu e até considerava esse fato estranho. Lembrou da luta contra Hinata e involuntariamente questionou-se o porquê de ela não ter apelado para isso. O controle através do selo em sua testa. Logo a lembrança o abandonou quando pôde ouvir a voz de Hiashi pela primeira vez no encontro.
- Diga o nome do responsável e eu mesmo o farei – silenciou a todos e pôde finalmente expor suas idéias. – O Clã precisa de uma reforma – barulho, gritos e agitação. – Souke e Bunke não funcionam juntas há tempo! A família secundária tem servido a Souke por uma obrigação dolosa! Falam nas ruas que escravizamos a Bunke!
- Talvez o povo não conheça uma palavra mais branda – ironizou a mesma voz que se pronunciara antes.
- Talvez – repetiu Hiashi com seu comum ar de superioridade – Talvez não haja outro termo para definir a relação das famílias.
Neji arqueou a sobrancelha ao imaginar a si mesmo como um escravo da Souke.
- E que reforma você sugere, Hiashi-sama? – indagou uma senhora de sorriso gentil e que levava à mostra o selo na testa.
O líder do clã se preparou para falar, encarou os olhos calmos de Neji e depois voltou a sua atenção para todos ali presentes.
- Eu quero que se faça uma união sólida entre as duas famílias, para logo depois extinguir a necessidade do selo que têm os membros da Bunke. Uma união que fará com que essa tola tradição seja extinta do clã Hyuuga... a tradição da família secundária... Quero unificar o clã.
- No que raios você está pensando, Hiashi?
Neji revirou os olhos, já irritado com o dono daquela voz rouca.
- Um casamento entre um Hyuuga da Souke com um Hyuuga da Bunke. Um enlace matrimonial realizado com tudo que se tem direito em um casamento sério!
- Mas que absurdo! – voltou a bradar, pondo-se de pé. – Como se já não houvessem jovenzinhas atiradas e rapazinhos afoitos trocando carinhos entre as duas famílias por aí!
- Kotaro-sama – era a voz de Hiashi, e Neji não se sentiu feliz por ter finalmente sabido o nome daquele velho resmungão, mas já sabia que ele era da Bunke. – Eu disse Enlace Sólido! Não estou falando de permitir namoricos! Será uma grande festa! Quatro horas de festa e espaço para cem convidados se necessário – a mera menção do número assustou os ouvintes (1) – Troca de presentes entre noivos e parentes, lua-de-mel, enfim! Tudo que tiverem direito os noivos! E serão noivos de grande nome e lugar no clã – a surpresa voltou a abrilhantar os olhos. – Quero casar a herdeira do meu título, Hinata. E aproveito essa reunião para perguntar a Neji se ele a aceitaria como esposa – ao dizer isso, fez uma reverência ao rapaz que pareceu menos transtornado que os outros presentes.
Várias exclamações de "que absurdo" e "isso é loucura" foram ouvidas, mas ao fim todos se calaram para ouvir a resposta do gênio do clã que ainda observava atônito a reverência que recebia do tio.
Seus olhos perolados passaram pelo rosto de todos os curiosos e depois se vidraram nos cabelos do tio que ainda o reverenciava em espera.
- Eu e Hinata-sama? – seria estranho deixar de ser o guarda-costas e passar a esposo. Viu-se numa situação em que sua vontade não ia contar muito, afinal Hiashi era o líder do clã. Negar um pedido dele seria uma tremenda falta de educação ou juízo. Mas aquele pedido em especial merecia atenção. Quando o seu tio trocara a razão pela loucura? O que ele estava pensando ao oferecer a filha da herdeira de seu título a um rapaz da Bunke?
- Vamos, rapaz, - a velha senhora tomou a palavra. – acho que não há ninguém aqui que seja contra isso. Será bom para o clã inteiro que uma união dessa magnitude aconteça.
- Embora Hiashi tenha feito sozinho essa decisão, - uma nova voz reclamou. – acredito que todos concordam que essa é uma boa solução para as freqüentes rinchas. Você e Hinata são os únicos que poderiam pôr fim nisso...
- Bem, - o velho Kotaro pigarreou, tentando parecer um pouco contrariado. – tenho de admitir que o fato do rapaz ser filho do nosso querido Hizashi e de a menina ser filha do Hiashi-sama é interessante... Se esses dois se unirem, terá fim os rumores sobre ódio eterno entre os dois por causa da luta no Exame Chuunin e também da falta de educação do rapaz que por muitas vezes desafiou a Souke...
A mínima menção sobre o Exame Chuunin fez Neji estremecer. Todos pareciam concordar com aquele absurdo, mas e Hinata? Se Neji resolvesse ser o salvador do Clã e casar com ela para acabar com a divisão existente, como ela reagiria? Aliás, será que ela já estava a par dessa decisão do pai?
Era óbvio que o fato de Neji ser o gênio do clã, filho de um herói, sobrinho do líder e responsável pela proteção de sua filha contava pontos para que ele fosse escolhido, mas, ao mesmo tempo, lembrava-se dos orbes de Hinata naquela luta em que ele a deixou inconsciente e com várias complicações internas. Como poderia aceitar se casar com alguém em quem ele sequer conseguia olhar nos olhos?
- Neji – a voz de Hiashi soou com leve impaciência e o rapaz se sentiu ainda mais pressionado a responder. Por maior que fosse a sua vontade de mandar todos aqueles loucos ao inferno, sabia que isso seria retomar a veracidade dos rumores dos quais falou Kotaro.
- Será uma honra, Hiashi-sama – disse com rouquidão. Seus olhos mal se movimentando e todos os músculos contraídos num desconforto indescritível.
Alguns burburinhos, risos, aplausos e agitação. Hiashi ergueu o tronco para fitar os olhos tremulantes do sobrinho e levantou a mão na direção do mesmo. Neji o cumprimentou.
Estavam fazendo um bom negócio para todo o clã. Depois daquele casamento, a Bunke se tornaria uma parte da história triste dos Hyuuga e a Souke, uma elite esquecida e misturada com pessoas antes controladas por eles. O Juin Jutsu, Neji bem sabia que seria considerado uma técnica proibida para os Hyuugas. Tudo isso por causa de um "sim".
O rapaz se arrependeu de ter aceitado participar daquela reunião. Responder àquele pedido sob pressão fora a pior forma de iniciar um noivado. Além do que, estava cansado de ouvir durante as missões Tenten falando sobre amor e casamento serem companheiros. Não tinha mais do que obrigação de cuidar de Hinata, fora a imensa vergonha de lhe encarar nos olhos por ter se vingado nela por algo que só existiu em sua cabeça. Não havia amor e, agora, certamente haveria casamento.
- Hiashi-sama... – o azedume do tom de Kotaro atiçou a raiva de Neji. – O que Hinata-sama pensa a respeito disso?
Pela primeira vez, Neji quis agradecer ao velho. Era a mesma pergunta que estava ecoando em sua mente confusa.
- Ela não precisa pensar nada – retomou seu ar superior e estufou o peito. – Eu como pai dela teria de decidir um bom casamento um dia. Ela poderá apenas concordar.
Neji quis desistir e novamente mandá-los ao inferno para depois sair correndo daquele templo, mas conteve seus instintos e apenas revirou os olhos ao notar a prepotência existente nas expressões faciais do tio.
Mais alguns assuntos foram tratadas na reunião, mas Neji estava distante demais para prestar atenção neles. Sabia que aquele casamento seria como uma missão ninja, porém isso envolvia bem mais que sacrifício próprio... Hinata estava envolvida e ele não queria estar por perto quando ela recebesse essa notícia.
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Lee finalmente derrubou o tronco de árvore que insistia em tapear. Tenten soltou um muxoxo imaginando quando ele resolveria ouvir o que ela tentava dizer há horas.
- Beleza! – exclamou o ninja, cerrando os punhos. – Finalmente consegui!
- Hei, Lee, não acha que o Neji está demorando muito?
- Hum? Agora que você falou... é verdade!
Tenten revirou os olhos, indignada com tamanha distração do companheiro de equipe. Procurou pelo outro membro do time, Maito Gai, que tinha saído, segundo ele, para resolver um duelo com Kakashi e também parecia que ia demorar.
- Estou cansada de esperar – bufou, irritada.
- Tenten! Se você estivesse treinando nem notaria a falta deles! Vamos, lance algumas kunais em mim para eu treinar meu incrível taijutsu! – sorriu, coisa que arrancou risinhos da amiga.
- Olha, o Neji chegou.
O jovem de longos cabelos negros aproximou-se sem pronunciar palavra alguma. Passou diante da jovem e lançou um olhar desprendido aos dois que ali estavam. As mãos na cintura e uma distante preocupação estampada nos olhos frios.
- Ai Neji! Você demorou! – reclamou Tenten, cruzando os braços para ele. – Onde estava?
- Não interessa. Vou treinar pouco hoje. À noite tenho um compromisso com... tenho um compromisso – reafirmou sem querer entrar em detalhes.
Tenten arqueou a sobrancelha, a curiosidade aumentando nela. Coçou a maçã do rosto e fez um bico com os lábios. Posicionou-se diante dele e abriu um largo sorriso.
- Que compromisso seria esse?
- Tenten! Deve ser coisa de homem – disse Lee, com o cenho franzido e contrariado com a atitude abusada da amiga. – você não deve ficar se metendo na vida dele!
- Ai! Mas é da minha conta, sim! Neji, que compromisso é esse?
- Tenten! – insistiu Lee, fazendo uma careta. – Está falando como se fosse a esposa dele! Que feio!
Neji agradeceria a Lee se não soubesse que o amigo fizera aquilo na intenção de ficar sabendo sobre o tal compromisso depois, numa autêntica "conversa de homens". Espantou alguns pensamentos e iniciou o treino com os outros dois.
Tenten não parou de atazaná-lo com milhões de perguntas, mas de nada adiantou. Permaneceu mudo pela maior parte do tempo, limitando-se a responder perguntas sobre missões ou técnicas. Nada sobre o tal compromisso.
Na impressão do Hyuuga, naquele dia tinha anoitecido mais cedo. Talvez pelo fato de que ele teria que voltar para casa e encarar a prima, agora noiva. Odiava-se por ter dito 'sim' ao tio, pôde até concluir que agira realmente como um escravo da Souke.
Lee acabou por não conseguir a tal conversa, pois Neji tratou de sair o mais rápido que pôde da presença dos amigos logo que o treino terminou. Não queria voltar para casa logo, mas não podia também adiar aquele encontro. Era chegada a hora de receber seu novo destino.
Tenten insistira muito por um beijo de despedida, mas ele não podia se dar ao luxo de aproveitar a situação e tornar daquilo um ponto final a um conturbado relacionamento que mantinha com a colega de equipe. Negou o beijo e preferiu deixar a conversa com ela para outro dia.
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Já em casa, o rapaz caminhou silencioso pelos cômodos, imaginando quando encontraria o tio ou outra pessoa da família. Tinha cuidado de tomar um bom banho antes de se apresentar e podia se sentir mais tranqüilo agora. Afinal, era apenas um noivado... isso não queria necessariamente dizer que ele e Hinata teriam de fingir se amarem, coisa que estava bem longe da realidade. Ele bem sabia que respeitava aquela jovem, mas que sentimento algum além desse existia nele por ela.
- Neji-nii!(2) – a voz de Hanabi ecoou pela casa e o fez parar.
- Olá, Hanabi. Onde está o seu pai?
- Com a Hinata, no quarto dela. Diga-me, o que está acontecendo? Minha irmã chegou e, depois de falar com o papai, desmaiou... meu pai não me deixa falar com ela!
Neji umedeceu os lábios, evitando dizer qualquer coisa que não devesse. Ergueu o olhar para uma porta que dava acesso à ala dos quartos. Hiashi saiu dela.
- Neji, que bom que chegou. Hinata está no quarto e creio que ela não está disposta a sair de lá, então... peço que converse com ela lá mesmo.
O rapaz engoliu um seco. O que dizer a ela? Esperava que Hiashi já tivesse dito tudo. Estava ali certamente para que juntos dissessem que aceitariam o destino de unificar o clã.
Sem pronunciar palavra alguma, Neji foi até o quarto da prima.
Hanabi, ainda mais confusa, lançou um olhar interrogativo ao pai, que se limitou a dizer "na hora certa, você saberá, querida". Só podia chegar à conclusão de que a notícia lhe afetaria diretamente e seu coração ficou inquieto.
No quarto, Hinata estava com as pernas cobertas e tinha um copo de chá nas mãos. O rastro de uma lágrima manchava-lhe o rosto e seus olhos estavam vermelhos.
- Hinata-sama? – bateu na porta e esperou que ela o recebesse, mas ouviu-a dizer "entre" com desânimo e apenas obedeceu.
- Neji... – já ia cair em prantos de novo, quando sentiu as mãos de Neji tirarem o copo de suas mãos e fitá-la intensamente.
- Como se sente?
- Eu... sinto que... Eu não sei, Neji-kun – estranhou o interesse do primo. Eles não costumavam conversar.
- Conversou com Hiashi-sama?
- Não sei se posso chamar de conversa, mas... ele me disse o que terei que fazer – dessa vez, não pôde conter as lágrimas e levou as mãos ao rosto para apará-las.
- Sim, entendo. É pelo bem do clã, não é? Hinata-sama?
Ela estranhou que ele já soubesse e mais ainda ele estar ali, no quarto dela, agindo como um ouvinte tão calmo.
- Eu... eu não quero isso, Neji...
Ele franziu o cenho. Não adiantaria muito dizer que também não queria, mas aí ela cobraria um motivo para ele não ter dito não... Ah, pelo mesmo motivo que ela: faltou-lhe coragem para enfrentar Hiashi e todo o clã Hyuuga.
- Nós não temos escolha.
- O que disse? – surpresa, a jovem o encarou, esquecendo até mesmo das lágrimas. – Como assim 'nós'?
Neji sentiu um nó na garganta. Seria possível que Hiashi tivesse deixado a mais complicada parte da notícia para que ele mesmo desse? Sim, seria. Agora Hinata estava mais angustiada ainda e ele teria de explicar detalhadamente aquela história.
- Você terá que casar, Hinata, nós teremos. É o que quero dizer... Somos nós dois os escolhidos para firmar a unificação do clã Hyuuga.
- Nós... dois? Você... quando ele lhe contou isso? Hoje também?
Neji prendeu a respiração. Sabia que Hinata o odiaria por ter aceitado aquele pedido, mas teria de entender que ele, sendo da Bunke, tinha de agir como o seu pai agiria, aceitando aquilo como uma missão para o bem do clã. Ela teria de entender.
- Ele me perguntou se eu aceitaria casar com você e eu aceitei. Foi isso.
Hinata emudeceu. O tremor nas mãos tornou-se mais óbvio, entreabriu os lábios para dizer alguma coisa, mas não conseguia formular uma frase que fizesse algum sentido. Ficou encarando o olhar tão seguro e frio do primo, devaneando sobre o porquê de ele ter aceitado aquilo.
- Po-por quê... Neji! Por que aceitou isso... assim... eu... eu... – caiu em prantos novamente, rejeitando a mão do rapaz que tentou consolá-la ao pousar sobre seu ombro. – Eu não o amo, Neji-kun! Não sinto nada por você e... e eu não poderia casar assim... por favor! Não me obrigue a isso, eu...
Ele não ficou nada contente ao perceber que a culpa tinha toda se voltado para ele. O que ela estava pensando? Que o próprio Neji se ofereceria como noivo? Que diabos passava pela cabeça daquela "menina"?
- Você está louca? – indagou em tom de repreensão. – Não fui eu que pedi para me casar! Tampouco com você! Hinata-sama, com devido respeito, seu pai me fez esse pedido diante de todo o conselho do clã! Diante da Souke e da Bunke. Não era algo que eu pudesse rejeitar! Eu fui designado para protegê-la desde o meu nascimento e não tenho autoridade nenhuma para rejeitar um pedido do Hiashi-sama.
- Mas você poderia...
- Você é a filha dele! Se não está contente, reclame com ele – sua voz era calma, mas era óbvia a irritação expressada pelos olhos. – Você é a herdeira do título de líder do clã, é a filha mais velha, é maior de idade e acho que bem grandinha para fazer as suas decisões, certo?
- Neji-kun... – entre soluços, tentou retomar a paz da conversa, mas sabia que havia verdade nas palavras de Neji. Ele era da Bunke e negar aquele pedido seria imperdoável e ela... bem, ela era a filha de Hiashi! Tinha que se impor! – Espera que eu diga 'não' ao meu pai?
- Você está presa numa cama só por saber que vai casar... duvido muito que tenha coragem para negar a ordem do pai.
- Eu...
- Farei o que for preciso pelo bem do clã, Hinata-sama, e se isso implica casar com você, não vejo porque fazer uma tempestade.
- Sempre imaginei casar com alguém a quem eu amasse e... me perdoe, Neji-kun, mas não acho que você seja essa pessoa.
- Não me importo. Entenda-se com o seu pai. Eu já dei minha resposta diante dele e do conselho Hyuuga. Está em suas mãos quebrar ou não esse compromisso – levantou e caminhou até a porta. – Caso precise conversar, sabe onde me encontrar. Com licença – e, dizendo isso, partiu.
Mais um pouco de choro e Hinata levantou da cama. Seu quarto era acolhedor, mas parecia frio naquela noite. A janela estava aberta e o vento balançava as cortinas, provocando arrepios na pele sensível da Hyuuga. Foi até lá e pôs-se a observar o jardim que tinha logo à frente da casa. Neji e Hiashi estavam chegando lá, pararam e conversaram por alguns minutos. Logo em seguida, o rapaz foi embora, mas não antes de lançar um último olhar à sua janela, obviamente notando-lhe a presença.
A maior preocupação de Hinata agora estava voltada à irmã Hanabi. Sabia muito bem dos sentimentos que ela nutria pelo primo e, agora, teria de ouvir a irmã mais velha dizer que casaria com ele. Sim, por que tinha plena consciência de que nem Hiashi, nem Neji iam se dispor a contar isso para a caçula.
Suspirou. Agora, era a vez de pensar um pouco nela mesma. Casaria com o primo sem amor, sem vontade e com a simples missão de unir o clã. Missão... ela estava cansada de missões. E, agora, teria de realmente deixar pra lá todos os sentimentos que a acompanhavam desde a infância, em especial o que alimentava por aquele rapaz... aquele Uzumaki Naruto. Já estava passando da hora dela deixar pra lá aqueles sentimentos tolos... mas Hinata sabia que não podia mandar no coração. Ainda sentia formigamento ao pensar nele, ao vê-lo e até ao lembrar-se dele! Como seria capaz de aceitar aquela 'missão' se seu coração a mandava desabafar tudo o que guardava há tanto tempo?
Hanabi entrou no quarto, silenciosamente. Ao notar a sua presença, Hinata tratou de enxugar as lágrimas e tomar uma postura mais adulta. Tinha de dar aquela notícia à irmã.
- Hinata-nee... o que está acontecendo?
- Hanabi... é sobre o Neji-kun...
- Neji? – seus olhos se arregalaram, denotando preocupação. – O que houve? Ele está com algum problema?
- Sente-se aqui. Nós... nós temos que conversar.
- Não! – aflita, a garota voltou à porta. – Eu vou procurá-lo agora! Seja o que for, ele me dirá!
- Hanabi! Por favor, me escute! É melhor conversamos nós duas... Neji não sabe dos seus sentimentos e...
- Eu vou procurá-lo, Hinata!
A mais velha sabia que Hanabi nutria um sentimento platônico pelo primo Neji e sabia também que fazia muito mais tempo do que ela julgava ser. Lembrava nitidamente do dia em que a irmã reclamou por estar passando menos tempo com Neji do que Hinata, assim como se lembrava do dia em que ela, em prantos, assumiu para a irmã sua paixão.
Hinata estava no salão de treinos do clã praticando ao lado de Neji sob a supervisão do pai, Hiashi. Já tinha se tornando rotina os dois treinarem juntos. Hiashi sempre repetindo que Neji devia protegê-la em qualquer situação e fazendo-a crer que treinar era, para ela, inútil, sendo que o primo estaria pronto para defendê-la até da própria sombra.
Algumas cicatrizes ainda restavam em conseqüência da luta que os dois tiveram no primeiro Exame Chunnin do qual participaram. Não cicatrizes físicas, mas no coração, nos sentimentos. Neji não costumava olhar Hinata nos olhos. Ela não sabia se por vergonha ou por descaso, mas, por sua vez, não conseguia passar mais que dez minutos na companhia dele sem se sentir incomodada. De certa forma, ainda não tinham se perdoado por acontecimentos da infância.
- Façam uma pausa. Já não estão com o mesmo empenho de algumas horas atrás – bradou Hiashi em tom de ordem.
Obedeceram e sentaram sobre o tatame. Não demoraria muito e Hanabi chegaria, trazendo algo para comerem e um suco, como sempre fazia antes de iniciar o treino com o pai. Sabiam disso por que Hiashi já os tinha deixado sozinhos no salão e iam se seguir os torturantes minutos de silêncio até a chegada da caçula da família. Não eram mais do que quatro minutos, mas parecia uma eternidade para aqueles dois suportarem. Nesse dia, porém, algo novo aconteceu, um assunto surgiu.
- Hinata-sama, - chamou de repente, fixando o olhar no tatame, evitando contato com ela. – ontem à noite Naruto pediu para eu lhe dar um recado. Acabei esquecendo...
O coração da jovem bateu acelerado, desacompanhando a respiração. Ela o fitou por meros três segundos e desviou o olhar.
- Naruto-kun? O que... o que ele queria?
- Pediu para dizer que você faz... ótimos bolinhos de arroz, - um leve rubor cobriu as maçãs do rosto dele, mostrando o quanto lhe era frustrante trazer um recado tão bobo como aquele. – e pediu perdão por não ter agradecido logo que os recebeu.
Hinata se lembrou de uma missão que compartilhara com o Uzumaki e sorriu. Tinha o hábito de oferecer a ele bolinhos e sucos preparados por ela mesma. Ele os devorara com tamanha vontade e rapidez que não era estranho esquecer-se de agradecer depois.
- Oh, mesmo? – riu, tímida, deixando à mostra a alegria de Naruto ter se lembrado dela. – Obrigada por trazer o recado, Neji-kun.
- Aquele idiota... me fez jurar que não ia esquecer de lhe dizer isso.
Ela riu mais abertamente, logo tapando o rosto com uma das mãos, sentindo uma quentura no rosto. Era estranho como tinha vergonha de expressar algum sentimento diante de Neji. Ele sempre lhe parecia tão seguro e aquilo, de certo modo, a fazia sentir um tanto reprimida.
- Não se acanhe, Hinata-sama – pediu com um meio sorriso. – Sei que não sou de fato seu amigo, mas não precisa se sentir mal em minha presença. Não temos boas lembranças juntos, mas acho que não precisamos guardar isso para a vida toda, certo?
- S-sim... Neji-kun. Peço perdão por isso.
- Então concordemos que Naruto é mesmo um grande idiota!
Pela primeira vez em muitos anos de treinamento juntos, Hinata via um sorriso no rosto do primo, que quebrava uma ponta do gelo que os separava há tanto tempo. Óbvio que já tinham conversado antes, mas nunca sobre um acontecimento assim, diferente. Suas conversas se limitavam à luta, ao treino, a alguma missão ou qualquer assunto do clã ou da vila. Não havia troca de sorrisos ou de gentilezas. Eram apenas dois ninjas falando sobre seus trabalhos.
Pela primeira vez, Neji estava sorrindo para ela ao falar de um amigo que tinham em comum e isso a fez relaxar.
Hinata voltou a rir, ainda cobrindo a boca com a mão, quando Hanabi chegou com uma bandeja em mãos. Pigarreou e logo cortou o clima de descontração que surgira entre os primos que ali estavam.
- Atrapalho? – indagou, deixando transparecer seu incômodo ao encontrá-los trocando sorrisos.
- Hanabi-sama, de forma alguma – respondeu Neji ao retomar seu olhar sério.
Depois de comerem alguns bolinhos e um suco, Hinata e Neji não se falaram. Ela seguiu para o quarto onde encontrou Hanabi, que com certeza já estava atrasada para treinar com o pai.
- Anee-chan... – começou a caçula no instante em que a outra adentrou o quarto. – Pode conversar um pouco?
- Você não tem que treinar agora, Hanabi?
- Vai ser rápido.
Eram raros os momentos em que ela realmente queria conversar com Hinata, então não era uma chance que a Hyuuga mais velha quisesse perder.
- Tudo bem. O que houve?
- Você e Neji-nii-san... vocês estão se tornando muito próximos por treinarem juntos, não é?
Confusa com a pergunta, Hinata fez um breve silêncio que durou por alguns segundos e logo retomou a voz.
- Não sei do que está falando. Continuamos como sempre fomos. Não há proximidade nenhuma e... Neji-kun não é alguém com quem eu... realmente queira ter alguma aproximação.
- Você o odeia por ele ter te vencido aquela vez?
- Não! Eu não odeio... só não o vejo como alguém com quem eu possa ter uma amizade, realmente...
- Oh, sendo assim... me sinto mais tranqüila.
- Por que está me perguntando isso, Hanabi?
- Ora, anee-chan! Não é óbvio? – jogou-se sobre a cama da irmã e abraçou com força um travesseiro. – Por que Neji-nii-san vai se casar comigo um dia! E não quero ter de disputá-lo com você! – riu.
- Oh... é isso? Francamente! – comentou entre risos, empurrando a irmã para o seu treino. – Espero que tenha um bom casamento então! Agora vá antes que nosso pai te proíba até de pensar no Neji-kun!
Hanabi deixou o quarto rindo e dando passos barulhentos pelo corredor. Hinata ainda riu um pouco da ousadia de sua irmã caçula, mas os seus pensamentos logo se voltaram para o recado que recebera do primo.
Voltando ao presente, já não tinha tanta importância o recado. Agora, o maior temor de Hanabi tornava-se o de Hinata. Hiashi tinha lhe imposto um casamento com Neji e não havia uma forma mais delicada de dizer isso a irmã.
Dizer não ao pedido do pai passava pela cabeça da herdeira Hyuuga, mas ao mesmo tempo sabia que isso seria um erro, uma afronta que seu pai jamais perdoaria. Ela nunca fora a filha preferida de Hiashi, tinha consciência disso, então se casar com Neji era a única forma de ele reconhecê-la como uma shinobi capaz de fazer qualquer coisa por seu clã. Talvez conseguisse o reconhecimento dele, embora perdesse todas as esperanças de casar com alguém que amasse.
A própria Hinata queria dar aquela notícia de uma forma que a irmã compreendesse não ser sua culpa, mas ela estava indo ao encontro de Neji agora. Com certeza, ele não mediria as palavras para avisá-la. Hanabi se sentiria traída... e Hinata se sentiria a causadora de sua dor. Quanto a Neji, estava encarando aquilo como uma simples missão corriqueira, sem importância alguma. Sobre o pai, ela não sabia o que pensar dele.
Correu tardiamente atrás da irmã, depois de muito refletir sobre o que lhe dizer. O problema é que sabia o quanto Hanabi podia ser rápida e furtiva. Já estava longe o suficiente para alcançar Neji, o suficiente para ouvir o que não queria.
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(1) – Casamentos japoneses costumam chegar no máximo a 50 convidados, 100 é um absurdo!
(2) – Nii/Onii e Nee/Anee correspondem, respectivamente a 'irmão mais velho' e 'irmã mais velha'
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N/A: Céus! Neji é com certeza o segundo personagem mais maravilhoso de naruto! (Sim, por que o primeiro com certeza é o Gaara!)
Reviews
Tia Juh Thereza, pois é! Neji é um filho da mãe que aceitou isso! (ainda bem, por que se não, não haveria fic) Mas ele também teve sua dose de pressão psicológica né? É pelo clã e tal...
Lavinna, isso vai dá em muita dor de cabeça, com certeza! Mas teremos bons momentos! XD
Chibi Anne, é claro que Hinata vai aparecer mais! Não seria Neji/Hinata se não aparecesse! XD A história vai de desenrolar aos poucos, paciência!
Bannana Potter 2, filhota, você é louca! Mas eu te amo! E claro que tem que puxar meu saco! Filhas são pra isso mesmo, oras! Uhahua! Adoro você!
Blueberry-chan, se Neji/Hinata não dominar, certamente Tenten/Lee sim! São tão maravilhosos esses shippers!
Deby20, Hinata é uma garota bobinha... do tipo que faz tudo que papai mandar. Acho que por isso ela só se ferra.
Taliane, acompanhe mesmo! Ou juro que puxarei sua perna a noite! Hohoho!
Tsukishiro Lory Kanya, você seria minha filha se já não tivesse mãe, juro! Bem, você sabe que também te adoro! XD Beijocas, querida!
.bru-chan, bem... não é uma idéia que muitos já não tenham pensado! Mas eu quero desenvolver isso de forma mais dramática e digamos... os dois terão problemas de relacionamento, óbvio.
Suh-chan s2, na verdade já pensaram nisso antes! Mas não tem problema! Afinal, cada um tem uma forma diferente de descrever os fatos e sentimentos... então, é uma opção a mais certo? XD
E-Pontas, também adoro esses casamentos forçados! Soam tão dramáticos! Fora que Neji e Hinata se encaixam nos perfis Noivo Frio e Noiva Frágil. Bem, a fic promete! XD
Pink Ringo, não posso garantir capítulos maiores, mas garanto que a história será longa! E que bom que gostou da escrita! Tenho me esforçado pra melhorar sempre! .
