I
— Esse seu sorrisinho tão cedo me irrita profundamente…
— E essa sua carranca tão cedo deixaria qualquer um mal humorado, mas… Não tem como me deixar mal humorada então pode continuar fazendo o seu bico a vontade aí — Erza disse em um tom animado. O rapaz que ocupava a mesa à frente da dela girou os olhos. — Você quer uma dica de algo que te deixaria com um sorrisinho também, Gray?
— Não se atreva! — Gray exclamou irritado.
— Tem quatro letras… — Erza riu.
— Pode parar que eu não quero ter imagens mentais de você e aquele seu marido sem graça na cama — Gray fez uma careta.
Erza ergueu a sobrancelha.
— Primeiro, você é realmente muito pervertido para ficar imaginando isso — ela disse enquanto largava a bolsa em cima da mesa. — Segundo, por que você andou prestando atenção se o meu marido é sem graça ou não? Homem não fica observando essas coisas no outro — provocou e riu quando as orelhas de Gray começaram a ficar vermelhas.
— Eu nunca ganho essas discussões com você — ele resmungou.
— A Juvia arrasta um cargueiro por você — Erza comentou.
— Você sabe que eu não vou me envolver com ninguém para ficar nessa vida dupla que nem você leva.
— Nem vem… — Erza resmungou demonstrando incomodo. — A Juvia sabe o que a gente faz. Esqueceu que ela foi uma das nossas missões?
— O fato de ela saber o que fazemos não faz com que eu possa contar sobre as nossas missões. E você viu como a Juvia é... Ela não vai me deixar sair com a simples frase: "Estou indo em uma missão. É secreto então não pergunte nada e não faça cobranças". Ela simplesmente não me deixaria passar pela porta sem explicar tim tim por tim tim pra onde eu estou indo, com quem eu estou indo, o que eu vou fazer e quando eu volto.
— Nisso você tem razão — Erza ponderou.
— Eu não sei como você consegue mentir na cara dura pra ele — Gray disse após um suspiro. — Nossa vida já é complicada demais pra ainda ter que passar por isso.
— Eu me sinto péssima, mas é para a segurança dele.
— Não sei o que eu faria no lugar dele se um dia descobrisse algo assim, mas acho que ficaria muito, muito, muito puto e não sei se conseguiria perdoar. Não pelo trabalho em si e todo o perigo que representa, mas pela mentira. Você simplesmente não é a mulher que ele acredita conhecer.
A ruiva abriu a boca para responder, mas um colega bateu à porta da sala e disse que um dos superiores estava chamando os dois para uma reunião.
Erza os seguiu meio que no automático, pensando no que Gray havia dito. Ela queria contar a Jellal sobre o seu trabalho algum dia, mas tinha medo: primeiro pela reação dele e segundo pela segurança dele que poderia ser colocada em risco.
— Estão atrasados! — Erza ouviu Gray resmungar qualquer coisa sobre "idiota soberbo irritante!", mas preferiu ignorar.
— E o mestre Makarov? — Erza perguntou.
— Ainda no hospital. O susto que ele deu na gente dessa vez foi grande — Laxus respondeu enquanto pegava duas pastas em cima da mesa. — Mas ele vai se recuperar. Vocês sabem que meu avô é mais teimoso do que todos nós juntos. Mas, enquanto isso, eu continuo dando as ordens por aqui.
— Isso que eu temia — Gray resmungou e Erza deu graças aos céus por Laxus não ter ouvido senão os dois engatariam em uma discussão que só Deus sabe que horas iriam parar.
— Chegou um pedido de uma missão e não consigo pensar em outra equipe que não sejam vocês — Laxus entregou as pastas aos dois.
Erza começou a ler as informações do dossiê e logo entendeu porque Laxus havia dito que não conseguia pensar em outras pessoas para a missão: tratava-se de um caso de suspeita de exploração infantil e escravidão.
— Vai ser muito arriscado, mas tenho certeza que vocês vão conseguir dar conta do recado — Laxus não era do tipo de distribuir elogios então quando ele o fazia era porque realmente acreditava que estava dizendo uma verdade. — Vocês atualmente são os espiões mais capacitados da Fairy Tail, mas se não quiserem a missão basta dizer. Vocês conhecem nossas regras.
Erza trocou um olhar rápido com Gray. Era obvio que nem passou pela mente dela não aceitar a missão. Ela conhecia na pele o que era ser explorada e escravizada e não conseguiria ficar quieta sabendo que crianças podiam estar passando pelo mesmo que ela.
A ruiva perdeu os pais muito cedo e foi morar com uma tia. Essa tia era uma pessoa péssima que não pensava em nada além do próprio umbigo e vendeu a sobrinha sem dó nem remorso para um traficante de pessoas. Ela passou três anos trabalhando em uma mina, carregando pedras, cavando em busca de ouro, até ser resgatada pela Fairy Tail. No começo foi difícil confiar, mas aos poucos Makarov e todos os que lá viviam se tornaram sua família. Adulta, ela decidiu que trabalharia como uma das espiãs da organização mesmo sabendo todos os riscos que a profissão trazia. Enfrentou o duro treinamento imposto por Makarov e ao longo daqueles anos já havia resgatado inúmeras pessoas que precisavam de ajuda.
Porém, a Fairy Tail era totalmente secreta (somente os altos escalões dos governos dos países sabiam sobre a sua existência e enviavam pedidos de missões quando as polícias locais falhavam na solução dos casos. Era uma espécie de CIA, porém ainda mais secreta) e Erza não podia contar para ninguém que tipo de trabalho ela realmente fazia. Inclusive, Jellal. E não poder contar a verdade para o marido a devastava. Entretanto, ela havia feito um juramento e nada, nem mesmo o seu amor por Jellal, a faria quebrar a sua palavra.
Jellal, assim como Lucy, Natsu e todos os seus outros amigos, acreditava que Erza trabalhava em uma empresa de publicidade (que eles ironicamente também batizaram de Fairy Tail). De fato, havia uma parte da organização que fazia trabalhos publicitários para manter as aparências. Erza, porém, nunca nem chegou perto de qualquer trabalho desse tipo. Seus instrumentos de trabalho não eram computadores, mas sim armas e explosivos. Ela, inclusive, era faixa preta em judô e sabia manejar uma espada melhor do que qualquer outro da Fairy Tail.
— É lógico que nós vamos aceitar — Gray se manifestou.
— Ótimo. As passagens já foram compradas. Vocês partem depois de amanhã — Laxus informou.
Os dois foram dispensados e retornaram para a sala que dividiam.
— Quero estudar esse dossiê direito antes de bolarmos um plano… — Erza disse. — Esse negócio de "vamos invadir e ver no que dá" não rola mais.
— Foi só daquela vez… — Gray resmungou. — Além disso, se não tivéssemos feito aquilo corríamos o risco da Juvia ser leiloada e levada sabe-se lá para onde.
Juvia havia sido uma da missões dos dois. Ela havia sido sequestrada quando saia da faculdade e estava sendo mantida em uma casa de preparação para prostituição. Os pais dela estavam desesperados e já não sabiam mais a quem recorrer quando foram informados da existência da Fairy Tail. Depois de alguns meses de investigação, Erza e Gray descobriram onde ficava o lugar em que Juvia estava sendo mantida, porém eles não tiveram muito tempo para se infiltrar e tirar Juvia de lá sem fazer muito estardalhaço já que ela seria leiloada na noite seguinte. Então, Gray decidiu que eles iriam entrar lá, quebrar a cara de quem estivesse pelo caminho e resgatar Juvia.
— Com certeza entrar lá daquele jeito causou uma impressão e tanto nela já que ela não consegue mais pensar em nada que não seja no "Gray-sama" — Erza provocou.
— Seu apelido não é Titânia por nada — Gray ignorou a provocação. — Tenho certeza que você dá conta do plano "Dividir e destruir".
— Nem pensar. Vamos ser cautelosos dessa vez — Erza disse enfática. — Isso aqui parece ser muito maior do que o caso da Juvia. E ao que parece tem muitas crianças envolvidas. Não podemos simplesmente agir sem pensar.
— O que você vai dizer ao Jellal?
— O de sempre... — Erza encolheu os ombros.
— Você sabe que um dia isso não vai colar mais, né?
— Prefiro não ficar pensando no futuro.
Dando o assunto por encerrados, os dois se concentraram no dossiê da missão e não conversaram mais sobre nada que não fosse relacionada a missão.
[…]
Quando Erza entrou em casa sentiu o cheiro da comida vinda da cozinha.
— Não acredito — ela exclamou assim que entrou no cômodo e viu Jellal terminando de colocar a mesa. Ele estar usando apenas um short e o avental. O avental rosa que Erza costumava usar quando ia para a cozinha tentar fazer algum doce (culinária realmente não era a especialidade dela e depois que ela quase colocou fogo na casa Jellal a proibiu de chegar perto do fogão).
— Eu tenho que comprar outro avental — ele resmungou. Erza riu, se aproximou dele, deu um beijo nas costas dele e o abraçou por trás.
— Temos alguma ocasião especial e eu esqueci?
— Você me chamou de vagabundo — Jellal resmungou.
Erza riu.
— E você resolveu que não é vagabundo preparando o jantar de hoje?
— Eu terminei de desenhar as joias que tinha que enviar para a empresa e como tinha um tempo livre resolvi fazer o jantar — Jellal disse orgulhoso.
— Bem, melhor você usar o seu tempo livre para fazer o jantar do que ficar estatelado na frente da televisão fazendo maratona de sei lá o que na Netflix.
— Hey! — ele reclamou. — House of cards não é sei lá o quê.
— Tudo bem, tudo bem — Erza balançou os ombros, fazendo pouco caso. — Vamos comer que eu estou morrendo de fome. Ah, mas, amor, quando não estiver com vontade de cozinhar ao invés de ficar largado no sofá na frente da televisão fazendo maratona de sei lá o que vai correr um pouquinho no parque. Isso aqui tá deixando de ser um tanquinho e virando uma pancinha — ela deu um soquinho no abdômen dele e riu da cara indignada que ele fez.
Erza gritou quando Jellal a pegou pela cintura e a fez sentar na mesa. Depois ele tirou o avental, segurou a mão dela e a fez descer lentamente pelo seu peito até chegar ao mencionado tanquinho. A ruiva mordeu o lábio com força e soube que tinha que engolir as palavras.
— Repete — Jellal provocou com a boca a poucos centímetros da dela. Inconscientemente Erza passou a língua pelos lábios os umedecendo e estar pronta para passar a mão pela nuca dele e puxá-lo para um beijo, mas o fogão apitou indicando que o que quer que estivesse lá estava pronto e Jellal se afastou. Erza resmungou sobre o péssimo timing do fogão.
— Eu nem sei porque sou um marido tão bom e faço macarronada com bolo de chocolate de sobremesa — Jellal disse enquanto tirava a tigela do forno. Os olhos de Erza brilharam quando ele disse a palavra "chocolate". — Você me chama de vagabundo e pançudo!
— Tá, tá — Erza o abraçou. — Não está mais aqui quem falou. Cadê o bolo?
— Interesseira! — ele exclamou fingindo irritação.
Ela riu e os dois terminaram de colocar a mesa juntos. O jantar transcorria bem, com troca de brincadeiras entre os dois e conversas amenas.
— Ah, eu vou viajar… — Erza disse de repente. Jellal fez uma careta.
— De novo?
— Pois é, um treinamento — ela forçou seu melhor tom casual.
— Por que sempre você tem que ir? — Jellal reclamou.
— São ordens dos superiores, Jellal, não posso recusar.
— Eu sei, mas… Ah, esquece. Quanto tempo dessa vez?
— Ainda não sei. Depende do desenvolvimento da turma.
Jellal parecia absolutamente contrariado e Erza se sentiu ainda pior por saber que nenhuma palavra que estava saindo da sua boca era verdade.
— Você sabe que eu vou morrer de saudades, não sabe? — ela murmurou enquanto segurava mão dele que estava sobre a mesa. A expressão dele se suavizou e ele apertou a mão dela com força.
— Vou ficar contando os minutos até que você volte — Jellal respondeu. Era algo que ele costumava dizer quando ela dizia que ia viajar, mas não importava quantas vezes ela ouvisse isso, sempre havia um frio bom no estômago ao ouvi-lo dizer aquelas palavras.
— E eu vou voltar o mais rápido que puder — ela sussurrou em resposta.
Jellal sorriu e eles voltaram a comer em silêncio, mas todo o apetite de Erza parecia ter desaparecido.
"Você simplesmente não é a mulher que ele acredita conhecer".
O que Gray havia dito mais cedo não parava de a atormentar.
