CAPÍTULO 1 - PROMESSA
Inglaterra, 8 Meses Antes
Silêncio.
A atmosfera de expectativa sufocava mais do que o mormaço das tardes quentes de verão. Ginny cutucava seu café da manhã com uma colher, enquanto os demais à mesa se limitavam a comer. Em silêncio.
Ron estava com uma aparência doentia e, pela primeira vez em muito tempo, Ginny não o viu atacando o prato de comida que estava em sua frente. Arthur tomava pequenos goles de café enquanto olhava para esposa pelo canto dos olhos, enquanto ela espiava pela janela ao menos duas vezes a cada minuto.
"Por que tanta demora?", Fred perguntou impaciente, quebrando o clima de suspense.
"Talvez eles tenham nos esquecido", Ron murmurou esperançoso.
"Nós não vamos nos livrar. Somos jovens, solteiros, em perfeitas condições de lutar", George relembrou pela terceira vez na semana.
"Percy e Charles já estão lá", Ginny murmurou.
"Mas eles são militares, tinham que estar lá e sempre são os primeiros na convocação. É o trabalho deles, no caso de vocês é diferente. Não somos naturais daqui, deve ter algum procedimento padrão e isso demora", Arthur lembrou.
"Mas todos que conhecemos já foram chamados".
"Bill também não foi convocado", Ginny argumentou.
"Bill seria um bom soldado, mas depois do que aconteceu com ele com certeza não vão chamá-lo", Fred comentou.
"Vocês querem parar?", Molly perguntou explodindo todo o seu nervosismo de uma só vez. "Não esperem por essas cartas como se fosse um presente de natal! Não quero metade da minha família correndo perigo, vocês são crianças e não sabem o que estão desejando, vocês-"
"Mamãe...", Ginny chamou, apontando para janela.
Da pequena cozinha, os seis puderam observar o homem se aproximar. As esperanças de Molly foram levadas junto com um suspiro.
No fundo, sempre quis acreditar nas palavras de Ron "Talvez eles tenham nos esquecido". Sim, talvez tivessem esquecido seus filhos. Com certeza existiam outros jovens que queriam lutar e o exército dos Aliados já era tão grande... Não precisavam de mais crianças lutando.
Não precisavam dos seus filhos.
Ginny observou Ron engolir seco. Fred e George tinham expressões idênticas estampadas no rosto: sorrisos.
Desde o começo eles queriam se alistar voluntariamente, mas foram impedidos por Molly. Ela queria retardar ao máximo a necessidade de precisar embarcar seus filhos no trem que os levaria para lutar uma guerra que não era deles.
Ginny abriu a porta e recebeu quatro cartas. Três delas em papel pardo com o emblema das forças armadas do Reino Unido, endereçadas a Ron, Fred e George. Ela as entregou imediatamente.
"E essa outra?", Fred perguntou.
Ginny olhou no verso e leu o seu próprio nome.
"É para mim", informou em tom de surpresa, mas sem conseguir disfarçar a satisfação.
Estariam eles convocando mulheres também? Queria lutar, mas eles não permitiam mulheres no exército, muito menos uma estrangeira. Ainda assim, mesmo que permitissem, provavelmente não seria compulsório como era o caso dos homens. Assim, por ser menor de idade teria que ter permissão de seus pais e isso era algo que jamais conseguiria.
"Estão convocando você também?", Fred perguntou incrédulo, puxando a carta da mão de Ginny.
O papel era azul e não havia um emblema oficial do exército, apenas um carimbo em vermelho.
"É da Cruz Vermelha", Fred informou. "Eles falam que você participou do treinamento ano passado e estão convidando você para se tornar enfermeira aqui do condado", ele continuou lendo. "Devido ao estado de guerra, as enfermeiras e médicos dos hospitais foram para o campo por isso a Cruz Vermelha está atuando na substituição nos principais hospitais".
"Eles não querem que eu vá lutar?", ela perguntou.
"Não, é um convite para auxiliar no hospital daqui".
Entre lágrimas, Molly suspirou mais aliviada. Ginny fechou a cara.
"Partimos neste fim de semana", George informou.
"Já?", Arthur perguntou surpreso. Restavam apenas dois dias.
"A guerra não espera", Fred murmurou excitado, indo na direção das escadas. "Temos que ir buscar o fardamento amanhã no posto de apoio", gritou do segundo andar.
"Nunca vi pessoas tão animadas para morrer", Molly murmurou sombriamente, ainda tremendo.
Arthur se levantou e abraçou a esposa.
"Não é como na Primeira Grande Guerra, Molly. Os Aliados estão muito melhor preparados no que diz respeito a equipamentos, estratégia... Percy me garantiu, você viu como ele estava confiante".
"E você escuta Percy, Arthur?", ela perguntou azeda. "Ele sempre está confiante".
"Nisso eu concordo", ele ponderou. "Mas não podemos fazer nada agora que as cartas chegaram. Se eles não atenderem à convocação o exército vem buscá-los à força, na melhor das hipóteses eles serão presos. Você sabe que na nossa situação de refugiados..."
"Com eles presos eu ao menos saberei onde eles estão e estarão vivos!", gritou, cruzando os braços.
"Ninguém vai morrer, mamãe", Ginny consolou, jogando de lado a carta que havia recebido. "Tudo ficará bem".
-x-
Na manhã seguinte, Ginny acordou com o barulho de Fred e George descendo as escadas aos saltos. Ela tinha demorado a dormir, pois ficou escutando no rádio algumas notícias da guerra. Aliados e Forças do Eixo. Muitos países envolvidos, milhares de pessoas morrendo todos os dias.
Queria fazer alguma coisa, queria lutar, mas por ser jovem e mulher as coisas não seriam como ela queria. Tinha se alistado e feito o treinamento de enfermeiras no ano anterior na esperança de ser convocada para o campo de batalha, mas as esperanças já tinham desaparecido depois de receber a quarta carta pedindo auxílio nos hospitais da região, ou para cuidar de crianças e idosos cujos parentes morreram na guerra.
Levantou-se devagar e abriu a porta do seu quarto. Fred, George e Ron já tomavam café. Teria que se apressar se quisesse acompanhá-los até a vila, pois queria ver o movimento.
Ver Harry.
Vestiu-se rápido e desceu os degraus da escada aos pulos, chegando à cozinha a tempo de exigir que eles a levassem junto com o pretexto de que gostaria de ver o noivo e Hermione, quando na verdade queria ver a movimentação dos soldados e sentir ao menos um pouco a sensação de que poderia ajudar em algo. Não queria ficar sozinha em casa, enquanto os irmãos arriscavam suas vidas. Se houvesse um jeito de ir lutar aquela guerra, ela iria descobrir.
Saiu sem tomar café, seguindo os irmãos. Fred e George estavam animados, Ron era a face da ansiedade. Ginny sabia que ele também queria lutar a guerra, mas ao mesmo tempo sabia da insegurança dele e do medo de fazer alguma coisa errada diante dos amigos.
Harry e Hermione já estavam lá quando chegaram. Hermione usava seu uniforme de enfermeira e auxiliava na entrega dos materiais no posto de apoio. Ela era uma das enfermeiras que iriam pegar o trem e depois um navio para chegar ao continente e desembarcar no meio da confusão instaurada na Europa. Ela foi uma das primeiras a se alistar e fazer o curso de enfermagem, pois a guerra e os pensamentos nazistas confrontavam diretamente com a sua família de origem judaica.
Harry também lutava pela memória da sua família. Lily, sua mãe, era judia e James, seu pai, um convertido. Ambos foram mortos antes da Segunda Guerra começar e tudo o que restou para Harry foi o desejo de fazer justiça e tornar o mundo melhor, mesmo que para isso a Guerra contra o Eixo fosse necessária.
"Bom dia", Harry se aproximou do Weasley, cumprimentando cada um.
"Bom dia", responderam Fred e George, ao mesmo tempo.
Ron apenas sorriu para Harry e Hermione. Os três nunca precisaram de muitas palavras para se entender.
"Oi", Ginny falou.
Harry se aproximou, segurou-lhe as mãos e beijou-lhe a testa.
"Como está?", perguntou.
"Não tão bem. Eu gostaria de ir, sabe?"
"Você não pode se meter nisso, Ginny. Pessoas morrem lá", alertou.
"Você me fala como se eu fosse ficar tranqüila sabendo que você, minha melhor amiga e os meus irmãos estão indo para um lugar onde pessoas morrem enquanto eu fico aqui sem poder fazer nada", respondeu emburrada.
Harry suspirou e se virou para os demais:
"Você precisam apresentar as cartas naquele galpão", apontou para uma grande lona montada em um terreno baldio. "Vão entregar para vocês dois uniformes, uma mochila, calçados e um manual. Também ganharão uma medalha com o nome e o número de vocês para-"
"Identificar nossos corpos caso fiquem irreconhecíveis?", perguntou George.
"É", Harry respondeu sem conseguir conter a sensação de que havia falado besteira.
Fizeram-se alguns segundos de silêncio antes que Hermione quebrasse aquele momento incômodo.
"Venha comigo, Ginny. Preciso mostrar algumas coisas a você. Garanto que vai gostar", falou sorrindo sem graça, estendendo a mão para que a amiga a acompanhasse.
George, Fred e Ron seguiram para o galpão, mas Harry ficou onde estava recepcionando novos recrutas que acabavam de chegar. Ginny acompanhou Hermione, mas ainda olhava para trás buscando Harry a cada dois passos.
"Não precisa ficar preocupada com ele", começou, notando a ansiedade da amiga. "Harry já era um soldado antes mesmo de descobrir a verdade sobre a morte dos pais. É um rapaz sortudo também, não se preocupe. Além do mais, eu e Ron estaremos com ele nessa missão".
"Por que todos tentam me confortar, Mione?", perguntou irritada. "Eu não preciso que me diga o quanto Harry é competente. Eu sei disso, mas queria estar ao lado dele".
"Mulheres não podem fazer parte do exército", lembrou.
"Mas você vai embarcar junto com eles!"
"Não seguirei exatamente para o campo. Apenas médicos homens seguem para as batalhas, enfermeiras apenas dão cobertura".
"Mas você estará lá, será útil. E eu? Fico em casa rezando para que ninguém que eu amo morra?", perguntou mais alto. Alguns soldados olharam para as duas.
Hermione a puxou pela manga das vestes e apressou o passo.
"Você pode integrar a Cruz Vermelha", aconselhou. "Você recebeu outra carta, não foi? Ginny, você já teve treinamento e é capacitada no que diz respeito a cuidar de feridos. Aceite o chamado, cuide dos civis aqui no condado. Se tiver destaque pode ser recomendada a integrar a equipe médica e embarcar nos próximos pelotões, mas Deus queira que a guerra não dure tanto".
Ginny desejava o mesmo, mas queria estar lá para ajudar. Seguir os conselhos de Hermione e aceitar o chamado da Cruz Vermelha seria uma saída, se não fosse uma alternativa que exigisse percorrer um caminho muito longo. Quanto tempo levaria para que se destacasse entre as enfermeiras? Seria tão competente assim?
Ela tinha pressa.
"Granger", alguém chamou e Hermione se virou para atender. Ele estava vestido de branco e tinha uma faixa com uma cruz no braço. "As três enfermeiras novas da equipe chegaram, estão lá dentro ajudando a distribuir o material dos soltados, você quer conhecê-las?", era um rapaz que Ginny conhecia.
"Olá, Michael", cumprimentou.
"Oi, Ginny. Finalmente resolveu ingressar na Cruz Vermelha? Você foi uma das melhores alunas, não entendo por que não ficou conosco".
"Eu ainda-"
"Ela está pensando, Corner".
"Tenho certeza de que fará a escolha certa", falou sorrindo, antes de se afastar.
"Eu posso demorar, Ginny. Seria melhor tentar encontrar seus irmãos. Pegar o material não demora muito e logo eles devem estar voltando para casa", informou.
"Tudo bem", concordou. "Mas antes vou tentar falar com o Harry".
"Você virá se despedir da gente amanhã?", Hermione perguntou.
"Claro", respondeu sorrindo, tentando esconder a frustração por precisar se despedir.
As duas se cumprimentaram e Hermione seguiu para dentro de outra tenda, quase no mesmo instante em que Harry se aproximava.
"Harry, deixe-me ir com você", ela pediu falando baixo assim que ele lhe tocou o ombro.
"Isso não é possível, Ginny. Mulheres-"
"Eles não precisam saber que eu sou uma mulher. Eles não precisam saber que estou embarcando", sugeriu.
Harry deixou um sorriso nervoso escapar de seus lábios e balançou a cabeça.
"Não me perdoaria se algo acontecesse a você".
"Você não precisa se perdoar por nada, eu quero estar com você. Eu sou sua noiva e não quero ficar em casa sentada esperando, sem saber notícias suas".
"Ginny", ele começou sentindo o peso de sua própria voz. "Quando eu partir amanhã, você estará livre", murmurou.
"Livre?"
"Estou desfazendo nosso compromisso, Ginny. Não quero que você espere por mim", informou.
"E você fala isso como se fosse algo fácil, não? Acha mesmo que me deixando você não vai ter com o que se preocupar? Harry, você enlouqueceu?", questionou irritada.
"Eu não quero que deixe de viver por mim, Ginny. Enquanto essa guerra continuar, eu não terei paz. Eu sou um soldado, essa é a minha luta, essa é a minha chance de vingar a morte dos meus pais e ajudar o meu país. Eu não sossegarei enquanto isso não estiver acabado e eu não ficarei tranqüilo se ficar imaginando que você está sofrendo por mim".
"Essa é a coisa mais idiota que você já disse", reclamou. "Você está sendo egoísta".
"Eu nunca pensei tanto em você como agora, Ginny", justificou. "Essa guerra pode durar anos e eu não quero que você espere meu retorno. Se eu vou sobreviver ou não a isso, só o tempo vai dizer. O que eu quero é que você viva, encontre alguém que faça você feliz e-"
"Não vou conseguir convencer você, não é? Já está com a decisão tomada e não há nada que o faça voltar atrás?"
"Isso".
"Está terminando comigo pelo meu próprio bem? Para que não fique em casa esperando por você?"
"Espero que compreenda".
"Harry, eu posso até aceitar isso tudo. Eu tenho que aceitar, mas não me peça para compreender algo que não faz o menor sentido. Eu vou esperar por você".
"Eu não quero que espere por mim".
Ela o encarou com raiva.
"Que seja feita a sua vontade então", ralhou virando as costas e deixando Harry para trás.
Harry sempre a protegia, sempre se preocupava, sempre a mantinha longe. O amava desde sempre, mas ele ainda não tinha aprendido a respeitar as decisões dela. Talvez, apenas talvez, ele acreditasse que ela preferia que ele agisse como um homem à moda antiga. Estava enganado. Ginny era uma garota à frente do seu tempo, e por mais que o amasse não deixaria que ele a tratasse como algo descartável.
Ele a amava de verdade. O problema é que Harry ainda não conseguia compreender que um relacionamento era formado por duas pessoas e duas vontades.
Não apenas a dele.
Ginny viu ao longe os irmãos carregando pesadas mochilas que continham tudo o que eles precisariam em campo. Não poderiam, e não deveriam, carregar nada além do que coubesse ali. Eles ainda não tinham recebido as armas, bem como não tinham muita instruções de como usá-la, com exceção das poucas aulas que tiveram com os militares no ano anterior. Eram crianças, como dizia Molly. Apenas crianças que tinham apenas noções básicas de como atirar e se defender. A maioria dos jovens daquela região não era composta por soldados formados.
Ela alcançou os três e olhou para trás. Harry continuava parado no mesmo lugar, com o mesmo olhar sofrido que costumava carregar. Ginny virou o rosto e seguiu com os irmãos para casa, sem olhar para Harry novamente. Sabia que ele sofria por terminar com ela, mas se ele próprio tinha escolhido isso que agüentasse sozinho.
Ela sempre tinha gostado dele, desde criança, e por ele tinha derramado muitas lágrimas: por não ser notada, por não ter seu amor retribuído ou mesmo por vê-lo desejando outras garotas. Até que veio o pedido de casamento e tudo pareceu se encaixar. Sua vida pareceu perfeita e completa, como um sonho realizado para ser igual aos contos de fadas.
Ela suspirou. Imaginara-se chorando em seu embarque, enquanto se abraçavam calorosamente, fazendo promessas de que mais lágrimas não seriam necessárias, pois voltariam a se encontrar em pouco tempo. Queria que Harry fosse, lutasse, mas que voltasse para seus braços.
Não queria que fosse daquela forma. Não queria ser subestimada, não merecia.
Acelerou o passo para acompanhar os irmãos na caminhada e engoliu o choro.
Não queria mais derramar lágrimas por ele;
Não podia, pois tinha amor próprio;
Não iria chorar.
Era uma promessa.
.
. REVIEWS!! Comentem, por favor.
N/A.: No máximo, a cada quinze dias, eu postarei um capítulo novo. De preferência às segundas-feiras. Comentem por favor. Comentários são coisas felizes =D
