O Mistério do Rei

À Meia-Luz

Ele estava cansado, três noites seguidas até a solução do caso, mas tinha conseguido. Afinal ele sempre conseguia.

David apagou o cigarro com um sorriso no rosto, desta vez ele tinha ganhado uma nota preta. Adoraria levar o crédito por tudo sozinho, mas sua equipe era muito boa. Em primeiro lugar estava seu irmão Sean, destemido e encrenqueiro. quando a coisa esquentava, Sean era o homem certo, no presente momento ele contava com um olho roxo por ter tentado beijar a mulher de Karl. Uma mulher linda, com corpo de deusa e a voz de um anjo, seu estimado irmão apagara o fato inconveniente de ser Alana ser prima de ambos.

O esquecimento lhe custara um olho roxo, um sorriso satisfeito. Afinal, Alana o beijara e Karl lhe dera um soco. E tudo valeu a pena.

David sorriu mais uma vez , esse era o seu irmão. Havia ainda, Bernard, o booker, com altas dicas sobre os negócios ilícitos e os casos quentes. E finalmente, havia ela, sua assistente e amante, Miranda.

--- Um dia eu casarei com ela – David disse em voz alta, não havia outra mulher para ele. Quando ela caminhava, em seu conjunto eficiente, saltos altos, os cabelos loiros ondulados e seus lábios pintados de vermelho, ele enlouquecia, mas se controlava. Ela era bem convencida sozinha. Não cabia a ele ajudar. E invencível nas apostas. David pensava na magia de Miranda, ela apostava nos cavalos certos e ganhava todas. Perdera as contas de quando ela dera conta de pagar as contas do pequeno escritório que tinha.

Ah, aquela sim, era mulher para ele. E David sabia disso, um dia a pediria em casamento! Ele só precisava ter certeza que ela aceitaria. Como disse antes, Miranda era bem convencida. De vez quando ele fingia estar olhando para outra, apenas para enciumá-la. O que conseguia? Castigo. Um doce castigo.

Ele tentou apagar as lembranças, mas elas estavam vívidas em sua lembrança. Acendeu outro cigarro e serviu-se de uma bebida, um Bourbon, devidamente providenciado pelo seu irmão. As bebidas eram todas ilegais agora.

--- Malditos federais, não querem que ninguém seja feliz. – mas ele não podia reclamar, não depois da noite passada.

Estava de costas para porta com os pés esticados sobre a poltrona. Em breve, Miranda estaria de volta e seu passo cadenciado, jogaria todas as suas teorias por terra. Em breve.

A batida do relógio na parede interrompeu seu pensamento. Meia-noite. Ela estava atrasada e internamente, ele ficou preocupado, Miranda era dele. E odiava pensar que algo poderia acontecer com ela.

Fechou os olhos e alisou o rosto da barba que começava a crescer, à meia luz, sempre ficava sensível. Era nessas horas que quase confessava o seu amor a ela. Com o risco de ouvir uma sonora gargalhada, quando a tinha em seus braços e sentindo o perfume do seu cabelo, quase, quase cometia aquele ato tolo: confessar o seu amor, como um adolescente apaixonado. Quantas vezes, não segurara a língua e a chamara por aquele nome estranho, mas poético, as sílabas brincando em sua língua.

Éowyn. Os seus olhos cinzentos encontram a chave da gaveta, tocou-a levemente e decidido abriu a gaveta. Lá, estava. O anel da proposta, fazia quanto tempo que comprara aquela belezinha? Sim, Dois anos. Sean estava certo, ele era mesmo ridículo, comprara o anel no dia seguinte que a conhecera. Antes mesmo de Miranda olhar para ele. Guardou o anel e trancou a gaveta. Se apenas tivesse certeza!

David riu de si mesmo, a meia –luz , ele ficava realmente sensível, o seu bem construído personagem de detetive indiferente caia por terra. Precisava resgatar as fases mais difíceis da sua vida. E voltar ao prumo.

O som da porta interrompeu seus pensamentos.

David girou a cadeira e olhou para a figura a sua porta. E que figura. Uma mulher alta, de longos cabelos negros e olhos azuis, seu vestido negro exibia a perfeição da silhueta e um véu cobria o seu rosto de porcelana. Bem, em qualquer lugar no mundo, aquela sim era a definição de uma mulher bonita.

--- Por favor, entre.! – disse com uma estranha voz gentil, a mulher a sua frente exigia uma riqueza nas palavras.

---Boa noite, desculpe o horário, mas é urgente.

--- Sente-se.

A mulher sentou-se, ela tinha a pose de uma rainha, e dava para perceber que era fina e educada. E rica – Sean diria.

---David Ithilien. Seu nome foi muito bem recomendado. O caso é urgente.

David estava habituado a esse tipo de urgência. Seu papel era ficar silencioso e atento, assim ela sentiria confiança e contaria o motivo de sua visita, a postura discreta daquela dama o impressionava.

--- Meu nome é Liv. O meu marido ele foi seqüestrado. Desapareceu, ele nunca fez isso.

--- Senhora...

---Antes que continue, saiba que meu marido nunca, nunca me trairia, ele é um homem honrado, se ele não mais me amasse, ele diria. Causar dor ou tristeza não faz parte da sua personalidade. Ele precisa ser encontrado! – emocionada, a bela mulher abaixou a cabeça enquanto as lágrimas afloravam em seus olhos.

David retirou um lenço do seu casaco e estendeu a ela. A colônia fina invadiu seu escritório, como se aguardasse o momento adequado para se apossar do ambiente.

Liv aceitou e secou as lágrimas e com uma postura invejável, recuperou-se.

--- Viggo – este é o seu nome.

David arqueou as sobrancelhas com surpresa e choque. Não podia ser. A esposa reclusa de Viggo Elessar? A sua mente investigativa e apaixonada pela alma humana e suas nuances apagou os traços do cansaço e seu rosto belo, recobrando o brilho e luz. Além de Miranda, apenas uma nova investigação o excitava.

--- Viggo Elessar é o seu marido? O patrono das artes e organizador da resistência contra a depressão, com seu trabalho para restituir a sociedade? O único a apontar que proibir o consumo de álcool teria o efeito contrário a nossa sociedade? E terminaria por se tornar alívio da população. – se havia um rei naquela cidade, David contemporizou, era Viggo Elessar, não importa que lado da lei você estivesse, Elessar era o modelo máximo, todos sonhavam ser como ele, ou ter seu respeito.

Com movimento sutil, sua postura se elevou, com orgulho!

--- Sim, ele mesmo. Entende o que quero dizer? Se ele tivesse que me deixar, o faria de forma digna. Ele não acredita na dor como aprendizado. O riso marca a sua vida. É um dos motivos por todos amá-lo.

Abandoná-la. O que ele nunca faria, pensou David, consigo mesmo. Aquela mulher não era uma rica deslumbrada, era membro da realeza ou um anjo caído. Um homem como Elessar não seria burro de deixá-la.

--- Onde ele foi visto pela última vez?

--- Há cinco horas atrás, no Museu da cidade. Ele receberia um novo marchand.

--- Cinco horas? Madame Elessar, isso não é suficiente para uma procura.

--- Você não o conhece. Seus amigos mais próximos, meus irmãos, seus pais, ninguém sabe onde ele está. E o marchand também desapareceu. Detetive.

--- David, pode de me chamar pelo nome.

--- Nossa, que intimidade! –Miranda adentrou a sala, silenciosa como uma gata, como sempre o surpreendendo e pegando-o em péssimo momento.

David se levantou e observou as curvas sinuosas de sua assistente escondidas pelo seu vestido tubinho e o cabelo loiros jogado à Verônica Lake. Mas em seus olhos estava a sua fúria. Ela ficava sublime em sua fúria.

E ele pode ler em seu olhar de fênix: Você vai pagar caro por isso.

--- Madame Liv Elessar, minha assistente, Miranda Edoras.

As duas se cumprimentaram e David pode sentir o ambiente ficar frio, o som do salto alto e fino de Miranda, estocando o piso. No entanto, Liv com tato, repetiu sua história. A animosidade de Miranda diminuiu com a emoção real da esposa de Elessar. Ele conhecia o grande coração de sua amante. Ela fingia-se de durona, mas quantas vezes não dormiram abraços, enquanto ela chorava, desesperada, a tocante dor daquela mulher que apesar de bela e rica, era o suficiente para derreter o seu coração.

Miranda Edoras era a mulher para ele. Só precisava criar coragem.

Sua atenção voltou a sua cliente, que ofereceu um sorriso para ele. Liv Elessar passara os últimos minutos observando o casal. E apesar da sua tristeza, teve certeza que eles o encontraria.

Eles estavam apaixonados e podiam entendê-la.

--- Senhora – iniciou Miranda.

--- Por favor, Liv. Devo ser apenas um ano mais velha que você.

Ponto de novo. David sorriu, nada agrada mais uma mulher do que um elogio masculino, no entanto, o respeito de outra mulher tem mérito e ponto que os homens nunca poderiam entender. Aparentemente, Liv Elessar, conhecia as regras do jogo. E jogava bem.

--- Liv, alegou Miranda, com um sorriso quase terno, vamos começar as investigações agora mesmo.

--- As palavras de Miranda são as minhas. – O que não vai me livrar do castigo por ter admirado sua beleza! Admitiu sentindo em perigo.

Ela deixou o seu cartão e saiu com a mesma elegância que entrara e seu perfume como registro da sua presença

--- Nossa, quanta gentileza com a bonequinha de porcelana.

--- Miranda, ela está sofrendo.

--- O cavaleiro andante da modernidade sempre socorre, mulheres indefesas. Por favor!

--- Miranda! – vem aqui.

--- Não vou. Que coisa! Lá vem você. Acha que um beijo vai resolver os meus problemas.

---Querida, irá resolver os meus.

Impulsiva, Miranda pegou o guarda lápis e atirou no detetive.

--- Cheguei em boa hora! – entrou Sean com um sorriso malandro. As brigas daqueles dois eram fantásticas. Ele já estava escrevendo um livro usando o diálogo envenenado do casal apaixonado e impetuoso. Vou vender os direitos para Hollywood e ficar rico.

--- O que eu perdi?

--- Seu irmãozinho caçula dando em cima de uma ricaça!

--- David, que orgulho!

--- Cala a boca, Sean!

--- Querida, você sempre pode casar comigo!

--- Cala a boca, irmão.

--- Eu só queria ajudar. Que gênio, vocês têm. Quem é a dama?

Miranda respondeu inflamada: --- Liv Elessar perdeu o marido.

--- Ela não perdeu o marido, ele desapareceu! – comentou David, exasperado.

--- E o cavaleiro decidiu encontrá-lo e fornecer um lenço. Hum, Nada escapava aos seus olhos. - Pode me chamar de David. – alfinetou.

Sean sorriu. Katherine Hepburn interpretaria Miranda e Spencer Tracy, David, pegou a calculadora. Cada diálogo melhor do que outro, registrava cada palavra mentalmente, sua memória prodigiosa e o casal fariam dele um homem rico e cercado de pelas mulheres.

--- E quem é o marido?

Miranda e David se entreolharam em duelo e depois se voltaram para Sean.

--- Faria muito bem ler os jornais, Sean. – atacou Miranda.

--- Cansaram de brigar e sobrou para mim. – fingiu-se de ofendido. Um terceiro personagem seria necessário. Quem o interpretaria? Ah, Cary Grant, alguém com estilo.

--- Viggo Elessar.

Sean congelou.

--- O quê? Vamos ter dificuldades, então, mano.

David arqueou a sobrancelhas pela segunda vez naquela noite movimentada. Nada prepararia o casal para a resposta ou Sean à reação do casal.

--- Eu sumi com Elessar.

Os dois se moveram em perfeita sintonia, inclinado o corpo sobre a mesa. A expressão repleta de espanto e fúria.

Ele estava encrencado.

Em uníssono, Miranda e David gritaram:

--- O QUÊ?

O grito derrubou Sean da cadeira. Como contar a verdade agora, sem exatamente contar a verdade, seria um grande problema.

I&I&I&I&I&I&I&I

Glossário

À Meia-Luz – com Ingrid Bergman & Charles Boyer. (filme noir)

Sean – Boromir

Karl – Éomer

Alana – Lothíriel

David Ithilien – Faramir

Bernard, o booker – Théoden

Miranda Edoras - Éowyn

Liv - Arwen

Viggo Elessar - Aragorn

Reviews, please???

Dani de Rohan