CAPÍTULO DOIS:
O Noivo
"It is a sin to believe evil of others, but it is seldom a mistake"
"Acreditar na perversidade alheia pode ser um pecado, mas raramente é um erro."
citação de H. L. Mencken, jornalista e crítico social do séc. XX.
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O caminho até a casa do Tommy era meio sem graça. Uma estrada descalçada, coberta de pedrinhas, árvores nos dois lados. Essas árvores davam um pouco de medo à noite, porque pareciam que elas se debruçavam sobre você, e os galhos se sacudiam e as sombras se mexiam, e tudo parecia um cenário de filme de terror (só faltavam a tempestade e os gritos misteriosos).
Mas ainda era de tarde e a noite estava longe, então Remus foi num caminhar alegre até chegar na casa do Tommy. A casa do Tommy era uma casa muito, MUITO grande. Porque os pais do Tommy podiam quase nunca estar presentes, mas eles eram muito, MUITO ricos. E isso era uma coisa boa, porque o Tommy tinha os melhores brinquedos e revistas em quadrinhos que alguém podia ter. Não que Remus ligasse pra isso, ele podia viver sem nenhum Rock-Robot04-2, mas é sempre bom poder brincar com um desses pra se manter atualizado. O chato era que o Tommy quase nunca deixava ele brincar direito, com medo que ele quebrasse algum dos seus brinquedos importados do Japão. O Johnny era o melhor amigo do Tommy, também, só podia ser, ele é o único que tem paciência suficiente para ser amigo do Tommy. Sem maldade, mas o Tommy podia um chato, às vezes.
Ah, mas tinha uma coisa. O Tommy podia ser rico e ter um monte de brinquedos, mas Johnny e Remus partilhavam um segredo que ninguém mais podia saber. Ninguém, muito menos o Tommy. Era o seguinte: os pais de ambos eram bruxos. Bruxos mesmo, não aqueles que a gente vê na televisão fazendo aquelas mágicas fajutas que até o Scooffy saberia fazer. Ou aqueles ridículos de chapéu estrelado e vestes comicamente largas que só sabiam despejaram coisas estranhas num caldeirão mágico. Eles eram bruxos que meio que viviam numa realidade paralela, ou era isso que o Sr. Lupin comentava, feliz da vida por participar dessa tal de realidade paralela. O Sr. e a Sra. Lupin tinham se encontrado quando crianças, e depois mais tarde, numa tal de 'Escola de Magia e Bruxaria' chamada Hogwarts. Mas isso era uma outra história, sobre a qual o pai de Remus adorava fazer mistério.
E a melhor coisa que acontece quando seus pais são bruxos é: você é um bruxo também! Quer dizer, geralmente é. Remus tinha ouvido casos de pessoas bruxas que nasciam sem poderes. O quão horrível deveria ser isso? Ser bruxo, mas não poder fazer mágica nenhuma! Remus faria mágicas quando crescesse, e fosse velho o suficiente para freqüentar uma escola. Às vezes, ele se questionava se isso realmente seria possível; de qualquer forma, ele gostava do mundo dos trouxas. Particularmente na época de feriados, os trouxas é que sabem se divertir!
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Remus parou em frente à porta dos Moore e tocou a campainha. Ding-dong, ding-dong, ding-dong — será que não havia ninguém em casa? Ding-dong, ding-dong, ding — ah, finalmente! Remus foi alegremente atendido por uma criada afobada, que limpava as mãos no avental. Ela se chamava Polly, tinha dezoito anos e um casinho com o filho do padeiro (nenhum segredo estava seguro em Cliffe). Remus gostava dela, ela era simpática e fazia os melhores cookies do mundo.
— Oi, Polly! — saudou o garotinho, alegre. — O Tommy tá aí?
— Oi, Remus — Polly sorriu. — Ele está brincando no quintal. Vai lá, depois eu levo uma bandeja de cookies com leite pra vocês.
Remus sorriu de volta e correu até o quintal. Tommy e Johnny estavam sentados brincando de cartas; Remus aproximou-se e sentou ao lado do Johnny, saudando os amigos. Os dois garotos se sobressaltaram e olharam para o garotinho. Aproveitando o momento de atenção, Remus soltou um "Eu quero jogar!", seguido de um olhar suplicante.
Johnny suspirou.
— Você não vai entender esse jogo, Remus.
— Quem disse?
— É pôquer. — retrucou Tommy dramaticamente. — Você nunca entenderia. É jogo de adultos.
Remus revirou os olhos.
— Como se vocês soubessem jogar.
Os dois amigos se entreolharam.
— Claro que sabemos, Remus — disse Johnny.
— Então me ensina, ué.
Johnny pigarreou.
— Ahmm, mais tarde. Agora, vamos lá pegar o material para o seu Guy!
— Aaaaah. Agora? Mas... a Polly disse que ia trazer cookies pra gente.
— Deixa isso pra depois. Se a gente demorar muito, vai escurecer e a minha mãe disse pra não ficar fora de casa até tarde — disse Johnny, fazendo uma careta.
Remus deu de ombros. Tommy e Johnny estavam certos. Afinal, era pra fazer o Guy que ele estava lá. Além do quê, ele havia prometido à sua mãe que ia voltar cedo e, mesmo faltando muito tempo para a noite chegar, o melhor a fazer era construir o boneco logo e voltar a casa. E, se alguém perguntasse, Remus achava pôquer uma coisa muito estúpida feito pra velhos que passam o dia inteiro no pub.
— Tá bom, então. Vamos pra floresta!
Johnny e Tommy gelaram.
— Floresta?
— Remus, você tá louco?
Remus revirou os olhos e disse, com um ar superior:
— Por quê, vocês estão com medo? Ah, que bando de maricas!
— Eu prefiro ser um maricas a morrer! — Tommy exclamou, um tanto histericamente. — Remus, as pessoas tão desparacendo quando andam sozinhas por aí. Você não viu a Sra. Schirmann e o cachorro dela? Ou o cara do correio? Ou aquela mulher estranha que morava na beira da floresta? Todos eles sumiram de repente. O que você acha que aconteceu? Você acha que eles acordaram um dia e falaram "Oh, é um belo dia para desaparecer e nunca mais voltar pra Cliffe"? NÃO, REMUS, ELES FORAM MORTOS! ELIMINADOS! MASSACRADOS! ASSASSINADOS! — ele finalizou teatralmente, sacudindo o amigo pelos ombros.
Remus arregalou os olhos e piscou várias vezes, assombrado.
— Mas... Tommy. A gente só vai na borda da floresta. Pegar gravetos e folhas. Todo mundo tá fazendo isso. E é de tarde, ainda. E além do quê, meu pai disse que ainda não acharam nenhum cadáver ainda, então você não sabe se eles tão mortos de verdade!
Tommy fez um barulho de descrença.
— Ah, gente, por favor. Vamos lá! O Dia de Guy Fawkes é amanhã e eu não vou ter nenhum boneco pra queimar na fogueira. Eu vou ser o garoto mais... sem-boneco de todos. E todo mundo vai se divertir e cantar e eu vou ser o único só olhando e comendo batatas. Vamos lá, por favor?!
— Esquece, Remus. — disse Tommy — eu não vou perder minha vida por uma coisa tão boba assim.
— Você não vai morrer, Tommy. Eu juro que não! Não é, Johnny?
Johnny estava olhando pro chão, pensativo.
— Johnny...?
— ... Droga. Tá bom, Remus. Eu vou com você. Mas só porque ainda é cedo, e a Lua tá longe, longe de aparecer. — disse Johnny, sério.
Remus arregalou os olhos.
— ... Lua?
— Vamos logo. — ele empurrou Remus com uma mão. — Tommy, você não vai, mesmo?
Tommy olhou para os dois amigos, como que avaliando a situação. Passado alguns instantes, ele suspirou:
— Ok, eu vou, mas o Remus tá me devendo essa. Esperem aí, eu vou pegar meu casaco. — e entrou dentro da casa.
Johnny concordou, e depois se voltou rapidamente para Remus, cochichando num tom grave.
— Eu ouvi uma conversa ontem à noite, do meu pai falando com a minha mãe. —ele sussurrou. — Remus, eles acham que sabem quem tá matando todas essas pessoas.
— Mas você nem sabe se elas tão mortas--
— Eles acham que é um lobisomem, Remus. Um de verdade. Andando pela nossa floresta.
Remus ficou um tempo em silêncio, e depois olhou seriamente nos olhos do amigo.
— Como eles sabem? Não dá pra saber, pode ser qualquer coisa!
— Pensa, Remus, pensa. As mortes tão acontecendo há algum tempo. Uma morte a cada mês. Pessoas que costumam andar sozinhas, vagando pela noite, pegando estradas desertas. Nenhum corpo encontrado, nem ao menos pistas. Só pode ser isso, um lobisomem.
— Mas então... o que a gente faz?
— A gente não faz nada, Remus, deixa de ser bobo. Meu pai disse que vai avisar o Ministério, mas eu aposto que nem vai acontecer nada.
— Então a gente vai deixar essa coisa matar todo mundo sem que ninguém ficar sabendo de nada? — Remus disse, incrédulo.
Johnny suspirou.
— A gente não precisa ter medo. Hoje não, eu falei, a Lua tá longe e a gente vai voltar antes. Mas, Remus... e amanhã? Amanhã é dia de Guy Fawkes. Não tem jeito de fazer esse monte de pessoas no vilarejo ficar dentro de casa. E se for Lua Cheia? E se ele aparecer? Meu pai tava preocupado. Ele falou que não sabe, mas acha que amanhã é Lua Cheia — ele nunca foi bom de contas. Se for...
Remus ergueu a cabeça e olhou com tom desafiador para o Johnny.
— Se for, não tem problema. A gente toma cuidado. A gente fica longe da floresta. — Johnny abriu a boca para retrucar — E daí se alguma coisa acontecer?! Meu pai já enfrentou um monstro quando era criança. Foi quando ele tinha mais que a minha idade, mas ele sempre fala que eu ajo como se tivesse mais que a minha idade. Meu pai brigou com um lobisomem e ganhou, então eu consigo também. Eu sou filho dele.
— Ele não ganhou, Remus. Ele só saiu vivo. Isso não é ganhar de um lobisomem!
— Não tem problema, Johnny. Mas por favor, por favor não fala nada pra minha mãe. Ela não vai deixar eu ir se você falar, e eu quero muito ir... o meu boneco vai ser o mais legal de todos, e eu quero ver a fogueira e levar o Scooffy pra comer as batatas. Não conta nada, tá?
— Eu? Eu nem ia contar nada, mesmo. Eu tenho certeza que o meu pai não vai me deixar ir... aí eu vou dizer que quero ir, e ele vai ficar bravo, e eu vou insistir, e ele vai me pôr de castigo. E, se ele descobrir que eu ouvi a conversa dele com a minha mãe, ele vai ficar mais bravo ainda. Não, eu não posso contar nada pra ninguém.
— Ah... yes! — disse Remus, repentinamente alegre. — Então combinado, você não conta nada, e eu não conto nada. E amanhã à noite eu tomo cuidado, e nada de ruim vai acontecer. Legal, cadê o Tommy? ÔÔÔ, TOOOMMY! VEM LOGO! — chamou ele.
Tommy apareceu segundos depois, com uma cara de poucos amigos. Remus riu, e junto com os dois amigos, foi pulando alegremente pela estradinha sem-graça que ligava a casa do Tommy à estrada principal. Ele tinha um pressentimento bom em relação à tudo isso; afinal, amanhã era Dia de Guy Fawkes, o dia mais divertido do ano!
— Olha lá!
— O quê?!
— É, o quê? Eu não tô vendo nada demais...
Tommy parara abruptamente no meio da estrada, apontando para uma região mais à frente.
— Aquele homem lá... vocês não conhecem ele?
— Não! — respondeu Remus, curioso. — ...Quem é?
— Ele é o Noivo! — disse Tommy.
Johnny arregalou os olhos.
— Noivo, Tommy? Você quer dizer do casamento da Srta. Wescott?
— É! Eu vi ele e ela juntos, foram visitar meus pais. Nooossa, o que será que ele tá fazendo aqui, no meio da estrada? Mamãe disse que ele não gosta de andar por aí... tá fugindo das senhoras fofoqueiras que vivem tentando conhecer ele só pra ganhar convite.
— Hm... eu não sei, mas vamos lá descobrir! — Remus disse animadamente, e começou a correr em direção ao estranho. Ignorando os gritos de repreensão dos amigos, ele rapidamente alcançou o homem, que observava serenamente o céu carregado de nuvens, apoiando as duas mãos em uma bengala desgastada.
— Oi! — cumprimentou Remus, fazendo com que o homem se voltasse para ele, surpreso.
— Olá... — respondeu ele, abrindo um sorriso que acentuava, de um modo sombrio, seus dentes caninos. — Quem é você?
— Meu nome — o garotinho ergueu a cabeça, com um ar levemente brioso — é Remus, Remus Lupin.
O estranho riu, agora mostrando todos os dentes. Deu uma olhada rápida para Johnny e Tommy, que encaravam o amigo apreensivamente, e depois se voltou novamente para o garotinho à sua frente.
— Remus Lupin? Muito prazer, Remus. Meu nome é Craig Bryenfrek.
— Bryenfrek? Que nome engraçado! — o garotinho riu, divertido. O Sr. Bryenfrek tossiu dissimuladamente.
— Eu sou estrangeiro. — apressou-se em dizer. — Polonês.
— É, você fala estranho também. — disse Remus, com o mais inocente dos sorrisos.
Bryenfrek tossiu novamente, e sentiu que era hora de mudar o assunto.
— Sabe, eu conheci seu pai há muito, muito tempo atrás. — fez uma pausa crítica, analisando a reação do garoto. Remus não se impressionou — praticamente toda a Cliffe conhecia o Sr. John Lupin; aparentemente ele era bastante popular, pelo menos na infância. Remus continuou:
— Ahh. Meu amigo disse que você é o noivo da filha do Duque Wescott, é verdade?
Bryenfrek alargou o sorriso.
— É sim, é verdade. Eu e a Srta. Drusilla vamos nos casar no próximo mês. Você vai ao nosso casamento, Remus?
Remus deu de ombros.
— Eu gostaria que você fosse, Remus. — disse Bryenfrek.
— Eu queria ir, também. Mas minha mãe não vai deixar. Eu tive que fazer o maior escândalo só pra ir amanhã no Dia de Guy Fawkes! Imagina pra um casamento de gente que eu nem conheço...
Os olhos de Bryenfrek brilharam maliciosamente.
— Dia de Guy Fawkes?
— É! É amanhã, sabe, e todo mundo vai estar lá, pra ver a fogueira, e soltar os fogos, e eu vou queimar meu boneco, e o Scooffy vai lá também!
— Scooffy?
— É o meu gato de estimação. Ele é muito pequeno e bobo, provavelmente vai correr atrás de qualquer inseto se eu deixar ele solto, mas eu vou tomar cuidado, porque eu quero muito que ele vá pra comer bastante e se divertir que nem todo mundo.
Bryenfrek sorriu afetadamente.
— Sim, você deveria levar seu gatinho. Mas você não é pequeno demais pra ir num evento desses... sozinho? Seus pais vão estar lá?
Remus fechou a cara, e olhou desafiadoramente para o homem.
— Eu não sou pequeno. Eu já tenho seis anos, e meu pai falou que eu sou melhor que muitos garotos de dez anos por aí. Eu posso cuidar de mim mesmo e eu posso cuidar do Scooffy — então não tem problema se a gente vai, juntos e sozinhos, pra ver a fogueira e comer as batatas.
Bryenfrek agachou-se, de forma a ficar da mesma altura que Remus.
— Que bom que você pensa assim, Remus. Você me lembra bastante o seu pai. — e nesse ponto, seu olhar endureceu — Mas tome cuidado, porque logo, logo vai escurecer.
Remus estava pronto para retrucar algo que inspirasse impressões de coragem, mas Bryenfrek levantou-se repentinamente e, com um último sorriso presunçoso, começou a se afastar. Remus pensou em ir atrás dele e dizer que era falta de educação ir embora repentinamente enquanto conversa com uma pessoa, mas deu de ombros e voltou para falar com Johnny e Tommy.
— E aí? — perguntou Johnny — É ele, mesmo?
— É! O nome dele é Bryenfrek, e ele veio da Polanda.
— Polônia, Remus — corrigiu Johnny — E o que ele tava fazendo aí, no meio da estrada?
— Ih! — o garotinho menor arregalou os olhos — Esqueci de perguntar!
— Que lesado — Tommy girou os olhos — mas pelo jeito, ele tava de bobeira, mesmo. Do que vocês falaram o tempo todo que ficaram aí?
— Sobre amanhã — Remus sorriu — aliás, vamos logo! Ele falou que ia escurecer daqui a pouco — o que deve ser mentira, nem vi ele olhar no relógio. Mas vamos mesmo assim.
Os outros dois concordaram, e rumaram em direção à Floresta.
Duas horas depois, os três garotos voltaram exaustos, mas contentes, pela mesma estrada. O Sol já estava se pondo atrás das nuvens densas, o céu mesclava um tom de azul alaranjado. Remus carregava em seus braços uma porção dos mais diferentes materiais, de pétalas a galhos e folhas estranhas. Tommy, que empolgara-se demais e esfolara o joelho enquanto corria entre as árvores, carregava uma expressão chorosa no rosto. Remus não parava de encarar as lindas folhas que segurava.
— Pelo menos você conseguiu o material pro Guy, Remus! — Johnny comemorou — Você tem sacos de batata? Põe tudo dentro e costura. Depois pega umas roupas velhas e coloca o boneco dentro! Vai ficar todo molenga e fofinho, todo mundo vai gostar.
— Ele podia ter usado jornal — resmungou Tommy — Dava na mesma!
— Mas você usou um algodão importado, Tommy! — espantou-se Johnny — Aliás, foi boa a idéia do Remus de pegar pétalas. Vai ser super legal quando o boneco estourar na fogueira!
Remus riu, deleitando-se nas possibilidades. Momentos depois, eles chegaram à casa do garotinho. Remus perguntou se algum dos amigos queria entrar.
— Nah — disse Tommy — Vou pra casa, vai ficar tarde e a Polly fica toda histérica quando escurece. Tchau, Johnny! Tchau, Remus!
Remus acenou, e depois sorriu pro Johnny, que morava na casa ao lado.
— Tchau, Johnny! Depois eu te chamo pra ver meu Guy. Você vai ver, ele vai ficar o melhooor!
Johnny virou os olhos e riu, entrando em sua casa. Remus o imitou, e abriu a porta fazendo o maior estardalhaço.
— CHEGUEEEEEEEEEEI! Mãe, pai, onde vocês estão? AI, SCOOFFY! Saaaai!
O gatinho tinha pulado agressivamente no monte de folhas e pétalas que Remus tinha nos braços. O garotinho e o gato lutaram numa fúria silenciosa durante certo tempo, até que Remus resolveu ceder e largar o emaranhado, com o gato e tudo, no quintal.
— Mãe, eu tô com fome! — o garotinho gritou pra escada, depois de constatar que não havia ninguém na sala. — A gente tem cookies aí? Aaah é, me ajuda a costurar meu Guy, por favor? MÃE, VOCÊ TÁ AÍ?
Segundos de silêncio sem resposta de passaram. Remus esperou, até resolver subir as escadas.
— Mãe...? — ele chamou baixinho.
— Eu estou aqui, Remus! — ele ouviu uma voz abafada vinda do quarto dos pais. Remus andou até a porta e avistou a mãe sentada à escrivaninha, remexendo alguns papéis. Ele sabia o que ela estava fazendo: escrevendo mais uma daquelas histórias bobas de amor que ela adorava publicar, e que todas as garotinhas de Cliffe liam às escondidas dos pais (por quê às escondidas, Remus não sabia). Remus se aproximou, e a Sra. Lupin o fitou atrás de seus óculos de leitura. — Que foi, Remus?
— Ah? Nada... cadê o papai?
— Ele foi comprar mais tinta. Coitado, ele está tão animado com o quadro da Srta. Wescott... — a Sra. Lupin suspirou e tirou os óculos — eu não sei, Remus, mas eu não tenho um bom pressentimento em relação à tudo isso. Mas e você, querido? Conseguiu fazer o que queria?
Remus riu, e respondeu:
— Sim! E o Johnny disse que vai ficar super legal, porque eu catei um monte de pétalas lindas, e vai ser massa quando o Guy explodir na fogueira! — o estômago de Remus revirou ao lembrar-se de Johnny e suas suspeitas quanto à mortes misteriosas, e sentiu que era melhor mudar de assunto. — A propósito, mãe, você tem que me ajudar, o meu Guy precisa ser costurado.
— Depois, Remus. Agora vamos descer, eu preciso preparar o jantar. — e levantou, conduzindo gentilmente o filho até o andar de baixo. Remus desceu, ligeiramente chateado; odiava ser posto em segundo plano. Por outro lado, ele realmente estava com fome — e a essa altura ele desistira das chances de arranjar algum cookie pela casa —, então simplesmente largou-se no sofá e folheou, sem convicção, sua cartilha de francês, terminando seu estudo interrompido.
E quando sua mãe chamou suavemente seu nome, alertando que o jantar estava pronto, Remus praticamente pulou para fora do sofá. Ele simplesmente não conseguia decorar a seqüência numérica em francês (un-deux-trois-quatre-cinq), isso era fato indiscutível. Talvez Remus devesse desistir da tarefa impossível; saber contar nunca se provara tão útil quanto, por exemplo, saber assobiar com os dedos na boca. Mas isso era algo que sua mãe nunca entenderia, então sugerir a idéia de abandonar os estudos franceses provavelmente causaria uma grande polêmica na casa. Mesmo que Remus soubesse tudo ser culpa do cinco, sempre ele, seu número de azar.
E, pensando nisso, Remus repentinamente gelou. Cinco. Tudo que envolvia esse número envolvia sua perdição. E hoje, justo hoje, tinha que ser dia quatro de novembro. E amanhã, o esperado amanhã, haveria de ser nada mais, nada menos, do que dia cinco de novembro, feriado oficial britânico, o dia mais divertido do ano. Remus não acreditava; seria coincidência demais? O alerta de Johnny, o alerta do Senhor Noivo, ambos sugerindo que Remus não fosse à comemoração amanhã. E, por um segundo, Remus viu-se vacilante; o que deveria fazer? Porque ele era, sem dúvida, uma criança sensata, mas estava prestes a mentir para a sua mãe em troca de uma noite de diversão. Uma noite, e talvez nem o Johnny fosse...
No entanto, o momento de indecisão praticamente dissolveu-se quando Remus lembrou do feriado no ano passado. Em todo seu ano como um garotinho de cinco anos, o Dia de Guy Fawkes fora, de longe, o melhor dia de todos. Piada, se comparado à seu aniversário, no qual a mãe se enganara e pusera uma quantidade generosa de sal, ao invés de açúcar, em seu bolo de aniversário. Ou ao dia de Natal, onde passara o dia inteiro na cama, devido à uma pesada gripe que pegara por ficar tempo demais fazendo bonecos de neve no quintal.
O dia de Guy Fawkes fora especial. Lá, ele fizera amizade com Johnny, seu vizinho, e Tommy, seu amigo. Lá, ele pôde contemplar as pessoas com ares de alegria, livre das preocupações que pesavam suas atitudes no dia-a-dia normal do vilarejo. Lá, ele fitara encantado a fogueira e suas faíscas, que mais pareciam pequenos vaga-lumes zigue-zagueantes perdendo-se no céu. E os fogos de artifício, o maior fascínio do qual podia lembrar em toda sua existência; milhares de chiados e centelhas, chocando-se e explodindo em cores deslumbrantes. Remus passara a noite inteira festejando, não tinha muita certeza o quê, mas o que valia era a comoção que o evento proporcionara; algo tão forte que era capaz de unir a todos e fazer com que o divertimento fosse coletivo. Isso, para Remus, era mágica, uma mágica maior que qualquer bruxo ou bruxa seria capaz de realizar.
E Remus não queria perder mais um ano dessa mágica, de jeito nenhum. Não podia! Justo agora, que planejava fazer seu próprio Guy para queimar na fogueira... quem sabe quem encontraria esse ano? Quem sabe o quê aconteceria? O que perderia, se não fosse? Não, Remus precisava ir, ou do contrário se arrependeria pelo resto da sua vida.
ִ Após o jantar e a chegada melodramática do Sr. Lupin (chovia pesadamente lá fora, e o Sr. Lupin saíra desprovido de qualquer tipo de proteção), Remus decidiu que iria para a cama cedo. Ele estava muito cansado — andara pela floresta durante duas horas—, e queria acordar cedo, para persuadir a mãe a ajudá-lo na construção do boneco. Então às oito horas da noite ele já estava na cama, esfregando os olhos para espantar o sono iminente.
— Wahhhh... Pai, eu encontrei o Noivo, hoje. — Remus disse, enquanto seu pai o cobria, num prelúdio de "boa-noite".
— Ah, é? Você quer dizer o noivo da Srta. Wescott?
Remus confirmou com a cabeça, e depois bocejou.
— Ele é polonês. E o nome dele era... Brad Bryenfrek... ou alguma coisa do tipo.
O Sr. Lupin agachou para ajeitar o lençol, e comentou desinteressado:
— Ah, é? Isso não soa como um nome polonês comum.
— Hm, talvez ele seja um polonês diferente. Você já conheceu algum polonês, pai?
O Sr. Lupin se endireitou na cadeira, e assumiu uma expressão nostálgica:
— Ah, já... quando eu tinha a sua idade. O nome era Franciszek Ksawery Wieczorek, o que corresponde ao "Frank Xavier" inglês, mas ninguém sabia pronunciar isso na época — então a gente chamava ele de "Francis", mesmo. Um dia, jogávamos futebol no campo aberto, naquele onde o pessoal estoura os fogos de Guy Fawkes. Eu, o Pete e o Jeff contra o Francis, o Georgie e o Paul. Você sabe, o meu time era o mais fraco, porque o Pete era o goleiro, e aquele cara só serve para assar pães, mesmo. Então nós perdíamos de uma diferença de nove a um. E o Jeff estava ficando realmente irritado, já que perder, para ele, era —e ainda é— a pior coisa do mundo. Então chegou uma hora que ele realmente se enfureceu e mandou uma bola peso-pesado pro Paul, o goleiro do outro time. Oras, todo mundo sabia que o Jeff era só um brutamontes sem mira nenhuma— e advinha onde a bola foi parar? Além da entrada para Cliffe, nas orlas das bordas dos limites da floresta. Eu revirei os olhos e falei "Bom garoto, Jeff, agora vai lá pegar". O cara ficou realmente furioso — isso prova que, com seis anos, eu já irritava bastante gente, heh. Bom, aí ele jurou que ia me matar, e talvez matasse mesmo, não fosse o Francis entrando na briga como mediador. E ele, olhando sério, com o sotaque chiado dele: "Não vale a pena. Eu ir pegar a bola". E foi mesmo, sem deixar tempo pra nenhum de nós responder. E a gente ficou lá, com cara de bobo, só esperando o Francis voltar — eu sentado à distância máxima do Jeff, olhando de esguelha tentando esconder o sorriso. Porque eu lembro, era muito engraçado provocar aquele cara. De qualquer forma, eu estava um pouco preocupado com o Francis; escurecia, sabe, e é sempre perigoso andar pela floresta à noite, eu já te falei isso mil vezes, Remus. Mas bem, o resto de nós estava começando a ficar impaciente. Chegou uma hora que o Paul não agüentou mais e declarou dramaticamente que ia para casa. E um após o outro, todos o seguiram em silêncio. Jeff foi o último — partiu lançando um olhar furiosamente ameaçador para mim. E eu sobrei. Esperei o máximo que podia, sem ficar entediado. Então pensei em ir atrás do Francis, mas a essa altura o sol já havia se posto e as aves noturnas começavam a piar. Estava ficando assustado, e repentinamente correr para casa pareceu-me uma boa idéia. E foi, Remus; no dia seguinte descobrimos Francis num estado abalado, totalmente afetado por algo que havia acontecido na floresta. Não sei direito, não falei muito com ele — eu estava com um pouco de medo. Mas, pelo que ouvi, balbuciava frases incoerentes a respeito de bestas sangrentas e a proximidade do Fim dos Tempos. Pobre Francis, nunca se recuperou. Partiu de Cliffe, para fora da Inglaterra, menos de um mês depois — e foi bom que tivesse feito isso mesmo, com a chegada da maldita Guerra e tudo o mais. Mas veja você, Remus — eu aposto que o que Francis viu não era diferente do que eu vi, e enfrentei depois. Aquela criatura horrenda, asquerosa... me dá calafrios só de lembrar...
E, neste ponto de sua narrativa, o Sr. Lupin interrompeu-se para lançar um olhar caloroso ao filho, que já ressonava ruidosamente debaixo das cobertas. Rindo suavemente, abaixou-se para beijar levemente a testa do garotinho. Com um suspiro, levantou-se para apagar a luz, e saiu do quarto cabisbaixo.
Todos adoravam lembrá-lo o quanto Remus se parecia com ele.
Mal sabiam eles que era exatamente isso que o Sr. Lupin mais temia.
-- TBC.
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NOTAS FINAIS.
1. sobre o capítulo; não dá aflição ficar ouvindo o Remus dizer "eu vou tomar cuidado!", "nada de ruim vai acontecer!"...? pobre pequeno garotinho desiludido. e Cliffe, essa cidade interiorana... eu gosto de pensar que Remus cresceu numa cidade pequena. combina com ele, ou não? aliás, Cliffe é pequena, mas não é subdesenvolvida nem parada no tempo, apesar de ser essa a impressão que dá. ah, e a Sra. Lupin é escritora; grande surpresa? escrever, ao meu ver, é praticamente tudo que as damas da sociedade bruxa podiam fazer! e eu leria os romances dela, mesmo que parecessem aqueles livretos de banca de jornal. somuchforhiddenplots!
2. sobre personagens novas; wow, quem será esse misterioso Bryenfrek? (eu rio toda vez que eu tento pronunciar isso). bom, na verdade, eu não vou contar, mas acho que vocês advinham por si sós ;P. aaawhn, a Polly não é fofa?! ... que inveja dela, ela sabe fazer cookies. e que inveja do Remus, ela conquista todo mundo, até a pessoas que fazem os cookies mais gostosos do mundo!
3. sobre reviews; infelizmente, minha bola de cristal foi pra manutenção e agora eu não tenho jeito de saber o que vocês estão achando da fanfic oO" mas nós podemos mudar isso! clica no botão GO ao lado do 'Submit Review', e deixa a sua opinião. ou então, se você preferir, me manda um e-mail no hollymoon(arrouba)gmail(ponto)com ... lembrem-se. elogio ou crítica, o que importa é que você se expressou (thumbs up).
♥acho que eu falei tudo que tinha falar. menos uma coisa. EU ODEIO O FF(DOT)NET! por causa dele, eu não posso formatar as coisas do jeito que eu quero. e formatar é uma das únicas alegrias da minha vida! lol, pobres leitores, devem achar que eu sou maníaca. eu não sou não. i mean, nem tanto... hee. :)
