Capítulo Segundo

Tywin Lannister desenrolou o pergaminho, cujo lacre em forma de truta denunciava que seu pedido já tinha uma resposta. Era exatamente o que esperava. Em meia volta de Lua, Catelyn Tully estaria pronta para proferir os votos. Algo em Tywin não sabia o porquê de estar fazendo aquilo, mas imaginou que a melhor coisa a se fazer, agora que já não era mais Mão do Rei, seria garantir que o Oeste tivesse laços fortes, e ele já não podia contar com Jaime para isso. Cersei seria rainha, isso era algo indiscutível.

Fechou os olhos lembrando-se de Joanna, sentindo se aquilo que estava pretendendo fazer não seria, de algum modo, traição à sua memória. Então considerou que a garota Tully também passara muito tempo comprometida com alguém, e que dentre qualquer outra donzela de Westeros, ela o compreenderia. Nada mais o interessava. Era uma donzela bem nascida, bela como poucas outras e jovem o suficiente para gerar herdeiros fortes e saudáveis. Ela teria obrigação de gerar um filho homem, para herdar o Rochedo. E o restante do tempo, ela precisaria apenas compreender que ele apreciava seu próprio espaço.

-O que? –Cersei berrou, jogando o guardanapo sobre a mesa, claramente enfurecida- Você irá substituir minha mãe por uma mulher que... que...

-Que, o que? –a voz sem energia de Tywin silenciou Cersei.

-Ela deve ter minha idade!

-Exatamente sua idade. Um ventre forte e saudável para gerar herdeiros. Você, independente do que aconteça, será Rainha, então se cale e termine de comer, ou se decidir seguir com suas reclamações, vá para o seu quarto, mas assegure-se de que eu não ouça mais sua voz.

Voluntariosa, Cersei deixou o ambiente. Tyrion, pequeno, e não apenas por ainda ser bem jovem, apenas tomava sua sopa parecendo bastante satisfeito.

-E você, Coisa? Nada a dizer sobre o assunto?

-Não exatamente. –ele respondeu descansando a colher no prato por um instante- Mas se a vinda dessa mulher está deixando Cersei tão irada, certamente me divertirei com isso. Responda-me, meu pai...

-Pergunte. –Tywin desprezava o filho, que nascera deformado e cheio de deficiências físicas, mas não podia bani-lo, ou jogá-lo de cima do Rochedo, afinal ele era um Lannister.

-O senhor já viu essa moça?

-Não tenho uma memória muito clara a respeito, mas acredito que ela estivesse presente no torneio de Harrenhal.

-Ruiva de olhos azuis. –Tyrion comentou, levando uma colher a boca e mantendo-a presa entre os lábios.

-O que você quer dizer, Tyrion? Apenas despeje de uma vez!

-Eu não quero dizer nada, meu pai. Apenas será bom ver outras cores por aqui.

Cersei foi obrigada a partir com o pai, para o casamento que ela considerava o mais infame de todos. Não havia muita gente quando enfim chegaram a Riverrun, afinal a maior parte dos homens estava na guerra. Tywin observou uma moça, ruiva e de olhos azuis... O nariz algo maior do que deveria ser, rosto muito longo e pele pálida. Os cabelos tinham pouco volume e pouca vida. Não era, de todo, feia. Mas estava longe de ser a beldade propagada pelos sete reinos.

Antes de descer do cavalo, com Tyrion de um lado e Cersei em seu corcel negro do outro, ele pareceu querer desistir por um instante. E aquilo nada tinha a ver com a aparência da moça, e sim com o fato de que apenas um nome ecoava em sua mente. Joanna... Joanna... Joanna...

-Se essa é sua futura esposa, meu pai... –Cersei começou, em tom de deboche.

-Engula a língua, minha querida. –ele disse simplesmente, apeando do cavalo e ajudando Cersei a descer.

Caminhou em direção ao homem que reconhecera ser Lorde Hoster. A moça, que usava um vestido azul claro, ficou um pouco atrás. Saudaram-se com cortesia, trocaram algumas palavras sobre a viajem do Rochedo até ali e logo a moça de azul, que apenas olhava sorrindo para Cersei em seu vibrante vestido carmesim, e Tyrion, usando algo muito semelhante às vestes do pai, foi introduzida.

-Esta é Lysa, minha filha mais jovem. Senhora das Terras do Vale. –o homem indicou- Catelyn machucou o tornozelo quando descia as escadas de sua torre. Ela o espera no salão.

Então aquela não era a noiva? Esforçar-se para sorrir para ela havia sido desnecessário. Após apresentar Cersei e Tyrion, que dispensava qualquer apresentação, ele acompanhou o Lorde para o interior do castelo. Era algo bem diferente de Casterly Rock. Era iluminado por janelas muito altas e a tapeçaria era predominantemente azul. Era um lugar agradável, cercado de flores e jardins, cobertos ou não.

Num dos extremos do salão, sentada numa cadeira de espaldar alto e reto, uma moça de cabelos ruivos e cacheados, parecia perdida em pensamentos. Observava algo na manga de seu vestido e esperava pacientemente. O vestido era verde claro, ela não trazia as cores de sua Casa.

-Catelyn! –anunciou Hoster Tully em voz alta, o que sobressaltou a moça- Venha até aqui, querida.

Então o homem pareceu recordar que ela estava com o tornozelo torcido e foi até ela. Ofereceu-lhe o braço, que ela aceitou na ajuda de içar-se da cadeira, e com uma leve careta de dor, endireitou o corpo. Tywin prendeu a respiração.

Era, de fato, primorosamente linda. Os cabelos incrivelmente vermelhos, o rosto arredondado e de feições delicadas, os olhos azuis, ainda que bem expressivos, não eram exatamente grandes. Tinha um pouco de sardas sobre o nariz, as sobrancelhas eram finas e os cílios eram longos e vermelhos. Caminhava com certa dificuldade, o que fez Cersei assumir uma expressão debochada. Quando Hoster Tully parou diante dele trazendo a filha, e Tywin lhe estendeu a mão para cumprimentá-la, ela de fato precisou segurar-se nele.

-Meu Senhor. –ela saudou, educadamente.

-Lady Catelyn.

-Peço desculpas por meu caminhar comprometido, mas duas noites atrás eu pisei em falso num degrau que dá acesso a minha torre e torci o tornozelo.

-Seu meistre deve estar tratando do machucado?

-Sim, está melhor do que estava ontem, e amanhã estará ainda melhor.

-Catelyn, estes são os filhos de Lorde Lannister. –Hoster Tully anunciou- Esta bela donzela é Cersei, vocês nasceram no mesmo outono.

-Estou encantada, Lady Cersei. –Catelyn fez uma reverencia com a cabeça, e Cersei apenas a imitou após Tywin brindar-lhe com um olhar venenoso.

-Eu seria capaz de dizer o mesmo. –Cersei respondeu, com um sorriso desgostoso.

-E este é Tyrion.

-A senhora é realmente uma linda moça, Lady Catelyn! –o anão beijou-lhe as costas da mão- Sinto muitíssimo por seu machucado, espero não estar incomodando muito.

-É um prazer conhecê-lo, Senhor Tyrion. Meu tornozelo ficará bem.

-Eu acredito que todos devem estar cansados da viajem. –Lysa Arryn pronunciou-se- Foram preparadas acomodações para todos. Acredito que devem estar do seu agrado.

-Lysa foi muito prestativa ao cuidar disso por mim, eu tenho evitado escadas. –Catelyn disse com um sorriso educado.

-Eu gostaria que pudéssemos conversar um pouco, antes de me recolher. –Tywin disse, oferecendo o braço a Catelyn, que o aceitou automaticamente.

-Lysa, você pode cuidar das instalações de Lady Cersei e do Senhor Tyrion? –ela perguntou.

-Certamente, irmã. Não se preocupe. Acredito que se Lorde Lannister não se importar em ajudá-la no caminho, o Jardim das Orquídeas deve estar com uma temperatura amena a essa hora da manhã.

Catelyn apenas indicou uma direção e ambos começaram a caminhar lentamente em direção a uma estufa que havia no interior do castelo. O sol era filtrado por um vidro azulado e por toda volta havia as esquisitas orquídeas, nas mais variadas cores. A caminhada até ali pareceu custar a Catelyn uma eternidade pelas pontadas de dor que vinham com cada passo, ainda mais por seu noivo não ser tão falante quanto o anterior.

-O que Meu Senhor está achando de Riverrun?

-Eu já estive aqui antes. É um bonito lugar, diferente de Porto Real e certamente muito diferente de Casterly Rock.

-Acredito que cada um dos lugares deve ter sua beleza.

-Lady Catelyn... –ele a encarou, e titubeou um pouco. Planejava ditar as regras do casamento que aconteceria dentro de um par de dias, mas algo no modo como os cílios dela se uniam e se afastavam o desencorajou a prosseguir.

-Sim?

-Eu apenas gostaria de lhe perguntar pessoalmente se essa união está de acordo com o que você espera para sua vida. Eu sei que você esteve noiva de um senhor do Norte e que esse foi um longo noivado.

-Da mesma forma, eu sei que o senhor esteve casado com uma mulher, a qual devotaste amor incomum e imensurável, mas assim como eu perdi Brandon, também a perdeu.

-Eu não lhe farei perguntas que considero inúteis. Eu apenas desejo saber se, mesmo sabendo que minha idade não condiz com a sua e que eu tenho uma filha de atitude difícil... E um filho deficiente...

-Meu senhor, vamos nos ater aos detalhes práticos. Unir nossas casas significa aumentar os domínios do Oeste e fortalecer os vínculos que as Terras Fluviais têm com outras regiões de Westeros. Pode ser uma união decisiva nessa guerra que se desenrola, já que como sua noiva e futura esposa, tudo o que eu peço é suporte a Eddard Stark, Robert Baratheon e a causa que os levou a guerra, que está muito além de ser apenas por Lyanna.

-Então você espera a queda de Aerys II?

-Eu peço que sua influência e seu poder ajudem os rebeldes a conquistar Porto Real.

Aquilo já era algo que Tywin tinha em mente, mas vindo da boca dela, esperado como uma espécie de presente de casamento, tornava tudo ainda mais interessante. Joanna não seria tão incisiva. Tudo o que Joanna conseguia ser era uma doce e inabalável companheira.

-Você está, devo entender assim, perfeitamente de acordo com nossa união?

-Sim, meu Senhor. Eu estou.

( Notas da Autora

Hey, eu sei que tá inusitado pra caramba, mas mesmo assim, muito obrigada por lerem. Eu estou postando muito rápido, por motivo de que já tem muita coisa escrita e porque os capítulos não são tão grandes.

Super SUPER obrigada por estarem me dando essa chance! S2