APENAS AMIGOS?

por Nina Neviani

Capítulo II

Um mês depois...

Faz um mês que conheci a namorada do Ikki. Passado o choque inicial, percebi que a Esmeralda – já consigo falar o nome dela sem ter aquela vontade de quebrar o que estiver na minha frente! Então... percebi que a Esmeralda é uma garota legal. E me custa muito admitir isso. Só que é a verdade. Tenho quase certeza de que se ela não fosse namorada do Ikki eu gostaria dela.

E tem mais uma coisa: O Ikki não iria continuar solteiro para sempre. Se não fosse ela, seria outra.

Até alguns minutos atrás eu estava decidida a não ir ao encontro desse mês, mas eu tenho que me acostumar com os dois juntos.

Força, Minu! Você consegue!

Enquanto eu pego o primeiro vestido que vejo no meu guarda-roupa, fico analisando outros motivos para eu ir para o encontro.

Bem, eu não posso deixar que esse relacionamento seja um empecilho na minha amizade com os oito demais membros do grupo. Quer dizer, sete e meio. A Saori não conta totalmente como uma amiga. Porque não ter esperança de ficar com Ikki já era horrível. Agora ficar sem Ikki e sem os amigos seria insuportável!

Ao colocar os sapatos, eu admito para mim mesma: estou indo especialmente para ver o Ikki.

Óbvio.

Talvez eu goste de sofrer. Porque sem dúvida eu sofrerei muito ao vê-lo sorrir para Esmeralda, abraçar a Esmeralda, beijar a Esmeralda...

Arggg!

Pega logo a chave do carro e vai logo, Minu!


São oito e meia. Estou meia hora atrasada, ele vai implicar, mas tudo bem. O meu carro se recusou a pegar, talvez fosse um sinal dos céus que eu ignorei.

Bem, agora já estou aqui.

A espelunca não está tão cheia como no último encontro. Menos mal. Consigo chegar sem maiores contratempos à mesa que sempre ocupamos.

E a surpresa do mês, é:

Uma cabeça loira a menos!

O quê?

Conto de novo (Matemática nunca foi o meu forte!).

Três: Hyoga, June e Eire.

Já estou próxima demais da mesa para pensar em hipóteses sobre...

– Minu!

A alegria do Seiya dessa vez não me irrita. Ele afasta a cadeira para que eu possa sentar. Seiya, agindo como um cavalheiro? Desde quando? Só que outro fato me chama atenção:

Dez cadeiras.

Tal fato faz com que a minha mente de jornalista pense em possíveis possibilidades:

A péssima: Eles continuam juntos e ela só foi ao banheiro. O fato de ter apenas dez cadeiras é porque eu fui definitivamente excluída do grupo.

A boa: Eles terminaram!

A ótima: Eles terminaram porque ele viu que a mulher perfeita pra ele sou eu!

Minu, possibilidades pos-sí-veis!

Ok, só uma das duas primeiras.

– Olá, pessoal!

Todos respondem o meu cumprimento, menos ele, que está olhando no relógio.

– Antes que você fale alguma coisa, Ikki. O trânsito estava horrível e meu carro demorou pra pegar, por isso me atrasei.

Mas o sr. Ikki Amamiya ergue uma irritante sobrancelha e com a voz mais cínica do mundo diz:

– Que foi, Minu? Eu não falei nada!

Irritante. Irritante. Irritantemente lindo.

– Ei, não comecem vocês dois! – Foi Hyoga quem nos interrompeu.

– Ok. – Concordo, e faço a pergunta que tanto me intriga – Onde está a Esmeralda?

Silêncio profundo.

Depois de alguns segundos, longos e intermináveis para mim, Ikki responde.

– Não sei.

Por mais incrível que possa parecer, a voz dele parecia indiferente.

Lógico que apenas essas duas palavras não iriam me deter.

– Como assim? Você não sabe onde a sua namorada está?

Ikki calmamente toma um gole da sua bebida, antes de dizer:

Ex-namorada. Nós terminamos faz duas semanas.

– O quê? Ela te chutou?

Quando eu dei por mim já tinha falado. Bom, pra mim que conhecia o Ikki há anos, era óbvio que a decisão de romper o relacionamento tinha sido dela. Pelo simples fato de que se ele tivesse terminado, ele diria "EU terminei", mas como foi ela que terminou, ele disse "NÓS terminamos"...

– Minu!

Foi June quem me repreendeu verbalmente. Todos os outros, entretanto, me olhavam como se eu tivesse cometido um dos pecados capitais. Ora, eu só falei a verdade! Não era a mentira que era um dos sete pecados? Deixa pra lá, nunca fui muito boa com os pecados também!

Eire por entre os dentes me disse:

– Seja mais sutil, Minu.

Na mosca! Ele foi chutado.

Não sei fico exultante pelo rompimento, ou se fico triste pela sanidade mental da Esmeralda. Afinal, quem em sã consciência largaria o Ikki?

Mesmo Eire tendo falado baixinho, Ikki escutou e respondeu.

– Tudo bem, Eire. Sutileza, infelizmente, não é uma das qualidades da nossa amiga. Minu, será que é por isso que você está tão... encalhada?

Se eu tivesse uma arma, alguém já estaria morto nesse instante!

Não apenas morto. Mas completamente perfurado por balas.

Outro silêncio profundo.

E na minha mente apenas quatro palavras se repetiam...

Ikki, você me paga! Ikki, você me paga! Ikki, ....

– O que você vai querer para beber, Minu?

Era o anjo do Shun. Querendo remediar o estrago do irmão. Como uma pessoa tão bondosa podia ser irmão... daquilo!

Não seja ridícula, Minu! Você faria tudo para ter "aquilo" no seu quarto!

– O de sempre.

Passado o momento desagradável, a conversa voltou a fluir naturalmente.

Claro que eu, sempre que podia, lançava meus olhares assassinos para Ikki. Que ou não notava, ou fingia não notar.

Instantes depois, Eire quis ir ao banheiro e me convidou para ir com ela.

– Por que as mulheres nunca vão sozinhas ao banheiro? Eu nunca entendi.

Era Seiya.

Brincando respondi.

– Nem tente entender, Seiya. Está além da sua compreensão.

Ele riu como os demais. Seiya raramente se ofendia com as minhas provocações. As provocações dele também não me chateavam.


Mal entrei no banheiro e já perguntei pra Eire.

– Quero detalhes, já! Porque eles terminaram?

– Minu, você tinha que ser mais discreta.

– Ah, Eire! Escapou. Quando eu vi já tinha falado. E não fique com pena dele, porque ele sabe se defender muito bem. Não viu o que ele falou depois?

– Se ele soubesse que você está sozinha por causa dele...

– Eire, não saia do assunto, sim? Quero saber os motivos.

– Pelo que ele deu a entender, a Esmeralda reencontrou um ex-namorado pelo qual ela era apaixonada, e eles decidiram voltar.

– Quer dizer que ele não foi apenas chutado: ele foi trocado!

Eire riu.

– Nossa, isso deve ter feito um mal tremendo para o ego dele. – Ponderei.

– Duvido que algo arranhe o ego do Ikki. O fato é que ele está disponível novamente.

– É.

– Ah, vamos lá, Minu! Até parece que você não gostou de ele estar solteiro!

– Não! Eu estou contente. Mas, se não for a Esmeralda, vai ser outra. E analisando bem, ela até que era legal.

– Minu? É você mesma?

Apenas revirei os olhos em resposta.

– Mulher, por favor! Ele está disponível. Você também.

– Por muito tempo nós dois já estivemos disponíveis e nada aconteceu. Por que aconteceria logo agora? Não... Não...

– Sim! Sim! Só que não venha dizer que achou a Esmeralda legal, porque eu vi nos seus olhos a vontade que você tinha de estrangular a garota!

– Não era tanto!

– Era sim!

– Tá bom. Confesso que você não está totalmente errada...

Eire exibiu um sorriso de triunfo. Por que nunca se consegue esconder nada da mãe ou da melhor amiga?


Na mesa, a conversa continuou animada por muito tempo. Como era bom ficar com os amigos!

Horas mais tarde, o primeiro casal a se despedir foi Shiryu e Shunrei, porque tinham plantão no dia seguinte. Os próximos a saírem foram Shun e June, e logo depois Seiya e Saori.

Cerca de meia hora depois, eu, Ikki, Eire e Hyoga decidimos que era hora de irmos. Acertamos o dinheiro, e enquanto Ikki foi pagar, eu, Eire e Hyoga fomos para o estacionamento.

Lá, me despedi do casal.

Ao entrar no meu carrinho ponderei que a noite tinha sido melhor do que eu imaginara. Ikki estava novamente disponível, o que já era suficiente para me fazer dormir imensamente feliz. Se eu conseguir dormir.

Sorrindo, girei a chave na ignição.

E... nada.

Oh, droga!

Tentei de novo.

Nada.

Nada.

Nada.

Será que eu nunca vou ter um dia totalmente feliz, e sem contratempos?
Com uma rápida olhada no estacionamento, percebo que Eire e Hyoga já estão longe.

O desânimo fez com que eu abaixasse a minha cabeça até a o volante. Fiquei ali por alguns segundos até me assustar ao ouvir.

– Problemas?

– Ai! Ikki, que susto!

Um sorriso sarcástico foi a resposta dele.

– O que foi, Ikki?

– Nada. Pensei que você estivesse precisando de ajuda. Acho que me enganei. Boa noite, Minu.

Ele começou a se afastar.

Arrrg! Era horrível ter que pedir um favor para ele.

Saí do carro e chamei.

– Ikki!

Ele se virou novamente com aquele sorriso cínico e disse:

– Sim?

Ah, como eu odeio Ikki Amamiya!

– Parece que o meu carro não quer funcionar.

– E?

– Será que você poderia me dar uma carona?

Ele pensou um pouco antes de responder:

– Tudo bem. A sua casa não é longe da minha.

– Obrigada.

Ele deu de ombros.

Dentro do carro, o silêncio reinava. Pelo menos, ele não estava me perturbando.

Fiquei distraída por alguns minutos. Até que a linda e grave voz do Ikki, disse:

– Chegamos.

– Como?

Estávamos na frente da casa dele.

– Ikki, estamos na sua casa.

– Sim.

Eu começava a perder a paciência.

– Ikki, a carona.

– Ah, sim. Eu disse que a sua casa não era tão longe da minha. Você pode percorrer o resto do caminho a pé.

Não acreditei no que ouvi.

– Ikki. Eu. Odeio. Você.

Sem pensar no que fazia, saí correndo do carro.

Metros à frente, braços forte me seguraram.

– Me larga, Ikki!

– Minu, desculpa. Eu tava brincando.

Eu não queria ouvi-lo, e tentava me soltar.

Até que ele me deteve.

Com um beijo.

O quê?

Estou sendo beijada pelo Ikki!

Depois de anos sonhando, estou finalmente sendo beijada por ele.

Era maravilhoso. Ele beijava imensamente bem. Sentir as mãos dele na minha cintura era algo indescritível. Poder afundar meus dedos no cabelo dele, também.

Mas... não era o beijo que eu queria.

Foi um beijo pra me silenciar.

Quando me dei conta disso, o beijo perdeu toda a magia. E eu fiz algo que jamais imaginei que faria: afastei-me de um beijo do Ikki.

Ficamos quase um minuto em silêncio. Até que eu comecei a andar na direção da minha casa. O que o fez dizer.

– Vamos para o carro, Minu.

– Não. Obrigada pela carona, Ikki.

– Minu, era só uma brincadeira. Eu só queria te provocar. É claro que eu ia te levar pra casa!

Dei de ombros.

– Se você for a pé, tudo bem, mas eu a seguirei. Acho que é mais rápido ir de carro.

Concordei. Tudo o que eu queria era me jogar na minha cama e chorar. Quanto antes eu chegasse em casa, melhor.

Poucos minutos depois, o carro estacionava na frente do prédio onde eu morava.

– Obrigada, Ikki. – Resmunguei enquanto abria a porta do carro.

Mas ele segurou o meu braço.

– Minu, sobre...

– Esqueça, Ikki. – Interrompi. – Esqueça.

E saí do carro.

Continua...


Revisado em 27/01/2010