Acordo no dia seguinte me sentindo e parecendo péssima, meus olhos estão inchados e nem os quilos de corretivo que passei conseguiram disfarçar. Odeio não ficar feliz por ela, mas não consigo evitar. Sinto como se sempre minha vida não fosse minha, que tenho de viver a dela, como se de alguma forma ela fosse mais importante.

Vou pra cozinha e engulo um pedaço de pizza amanhecida com refrigerante enquanto me visto. Coloco a latinha gelada nos olhos para ver se melhoram a aparência estufada das minhas pálpebras. Não me preocupo com a hora, pois minha mãe se esqueceu de me chamar mais uma vez, então vou chegar atrasada de qualquer jeito.

Nota mental: preciso de um despertador novo.

De qualquer forma corro pra escola, que por sorte fica a apenas cinco quarteirões de casa, mas quase sou trancada pra fora e mesmo assim perco a primeira aula.

Que legal.

O dia segue numa série de torturas sem fim, três períodos de matemática, física, química e ainda geometria analítica. O que fiz pra merecer isso? Quem foi o desgraçado que fez meu horário?!

Recito uma prece de agradecimento quando bate o sinal e posso finalmente ir embora. Chego em casa e arremesso meu material na mesinha de centro, como sempre faço, e me dirijo para a cozinha.

-Estou em casa! - Ninguém responde. Eu já sabia que ninguém ia responder, mas nunca perco a esperança de ouvir "Que bom que você chegou Lene, querida! Já lavei sua roupa e também passei. O almoço está na mesa, fiz sua comida preferida. Arroz de forno com broto de feijão!" ... sonho meu.

Pego um pacote de salada pronta e um vidro de molho italiano, depois que coloco a roupa pra lavar, e sentando no sofá como a minha comida deprimente enquanto assisto uma reprise de Friends na tv. Sabe, às vezes é duro ter de fazer tudo sozinha. Queria, de vez em quando, ser um pouco mimada, que minha mãe só uma vez fosse igual as outras mães.

Termino de comer e depois de Friends não consigo achar mais nada para assistir. A televisão á tarde é uma droga, tanto como a televisão de todos os outros horários, mas eu estou amarguíssima hoje, então tudo parece pior. Penso em pegar uma barra de chocolate para ver se consigo adoçar minha vida, mas sinto meus olhos piscarem cada vez mais e minha mente ficar entorpecida enquanto lentamente caio no sono.

-Lene... Lene, acorda!-Uma mão fria me sacode, mas não consigo abrir os olhos.

-O quê? Quê? Quem?

-Lene! Acorda, filha!

-Ah, é você? O que você quer, mãe?

-Vai ter um jantar familiar de comemoração na casa do Régulo.- A voz dela sai num fluxo veloz e incontido de animação, contenho um gemido de frustração, mas não consigo deixar de suspirar.

-Nossa, legal. Faça bom proveito. -Respondo seca enquanto viro de costas pra ela e tento voltar a dormir.

-Lene!-Mamãe parece infinitamente chateada quando pronuncia meu nome. –Você também vai.

-Eu?- Levanto do sofá ligeiramente irritada.- Por quê?

Ela me encara com seus imensos olhos verdes cheios de lágrimas e parece que eu acabei de dizer "Mãe, eu te odeio!". Ela sabe me dobrar, o que posso fazer?

-Você - e ela sublinha bem a palavra- é minha família! – Minha mãe vira as costas e sai da sala com um soluço.

Ai! Essa foi forte. Sentindo-me terrivelmente culpada corro pra abraçá-la e afirmar que "É claro que eu vou, mamãe! Eu estava brincando!". Bom, eu não estava, mas agora é tarde.

Corro para me arrumar e seguindo as instruções da minha mãe coloco um vestido amarelo claro, meia-calça, meu sobretudo de cachemira creme e sapato de salto alto. Ela disse pra eu ir bem arrumada o que eu quase levei como uma ofensa. O que ela quer dizer afinal? Que eu ando por aí desmazelada?

Chegamos à casa de Régulo oito em ponto e eu quase tenho um troço ao vê-la. É imensa! Com um pórtico de mármore e pilares e um jardim maravilhoso e mil esculturas. Minha mãe estaciona muito mal, mesmo eu tendo servido de guia, ao lado de um chafariz murmurante com Cupido e Psique soltando água por suas asas. Nós saímos do carro e seguimos em direção à porta dupla de madeira nobre, numa aldrava dourada tem um "B" engastado cheio de arabescos.

Como sempre, quando estamos nervosas nos damos às mãos e rimos bobamente uma pra outra.

Uma vez quando eu tinha 14 anos fui chamada à diretoria da escola por ter batido num menino que chamou minha mãe de vadia, entre outras coisas ainda menos edificantes na frente dos meus amigos (o pai dele havia saído com a minha mãe antes de ela abandona-lo pelo meu professor de ballet que nós todos achávamos que era gay). Estávamos na rotatória da escola, prontas pra entrar, ela olhou pra mim, pegou minha mão e nós desatamos a rir. No segundo seguinte saímos correndo e nos mudamos daquela cidade.

Foi uma das poucas vezes em que eu amei a covardia da minha mãe.

Ela aperta a campainha ao mesmo tempo em que esmaga minha mão. Quando a porta se abre eu vejo Régulo sorrindo abobalhado com os olhos brilhando. Ele puxa minha mãe, que solta minha mão, num abraço apertado e os dois se beijam, eu viro pra lado e finjo que vou vomitar. Ele me abraça também e diz que está muito feliz por eu ter vindo, no que eu acredito. Não posso negar que ele parece ser um cara legal.

Quando entramos eu fico ainda mais embasbacada, o saguão da casa é todo de uma madeira quente, brilhante e polida. Tem quadros, que eu tenho certeza são caros, e móveis que parecem ter saído de uma revista de decoração todos estofados de uma pano claro e macio e de uma madeira dourada.

Régulo nos leva até uma sala redonda com sofás em couro branco, uma televisão imensa e estantes pálidas cobertas de livros e enfeites, como: lunetas, estátuas de cavalos e uma ampulheta enorme.

Num canto, eu reparo finalmente, num garoto ridiculamente alto, que não deve ser tão garoto assim, pois está com um copo na mão cheio de um líquido âmbar que parece ser whisky. Ele se vira pra nós e sorri, neste momento eu quase tenho uma síncope porque o cara é tão bonito que sinto meu estômago dar um pulo e meu coração acelerar. Perco o fôlego por alguns segundos, mas me forço a tentar respirar normalmente. Não quero que percebam minha reação ridícula.

-Lene...Helena - Régulo sorri cheio de expectativa- este é o meu irmão mais novo, Sirius. Sirius, minha noiva Helena e sua filha, Marlene.

-Muito prazer!-Dizemos juntas.

-O prazer é todo meu!-Retruca todo sorrisos o garoto que não é garoto.

Eles nos oferecem bebidas e minha mãe aceita uma vodca com limão, eu aceito uma coca-cola, pois sou menor de idade e ao contrário do bonitão aqui costumo respeitar regras. Além do mais, provavelmente terei de voltar dirigindo, pois mamãe é fraca pra bebida e costuma beber um pouco à mais quando está nervosa.

Nos sentamos no sofá que de tão macio quase afundo nele e ficamos jogando conversa fora, na verdade eles ficam, estou nervosa demais com tudo isto e está parecendo real por fim. Minha mãe vai realmente casar com esse cara.

Me pego murmurando e fecho a boca nervosamente quando percebo que Sirius está olhando pra mim e rindo. Sinto meu rosto esquentar e tenho certeza de que fiquei vermelha. Mas é uma mania que eu tenho, quando tudo é demais pra mim meu cérebro manda minha boca falar para aliviar a tensão e tendo a analisar melhor os problemas quando os discuto comigo mesma. Embora as pessoas encarem esse meu hábito de falar sozinha como loucura, sou uma garota bastante centrada e sensata, levando em consideração a criação que tive.

Por fim vamos para a sala de jantar e eu, novamente, fico estupidificada com as dimensões e decoração do aposento. Uma mesa enorme com 12 lugares se estende na sala, metade dela coberta com prataria e taças, estou certa, de cristal, e peças de porcelana e um imenso arranjo de flores no centro.

Depois de acomodadas numa ponta da mesa, mamãe está ao lado do seu noivo e de frente pra mim e Sirius está ao meu lado e de frente pro irmão, os empregados, que surgem das brumas vestidos impecavelmente em uniformes azuis e aventais brancos e engomados, começam a nos servir e Régulo começa a nos anfiotrionar (essa palavra existe? Mas é o único modo de descrever o modo como ele nos leva a conversar e dispersa a tensão que paira no ar).

-Mas Régulo - minha mãe o interrompe depois de um tempo - seu irmão parece ter mais ou menos a idade da Lene!
-Mas ele tem. Meus pais o tiveram quando já tinham 40 e poucos anos, ele foi a ultima raspa do tacho. -Ele ri deliciado com o que pensa ser um comentário espirituoso.

Eu olho pra Sirius furtivamente, levemente interessada, enquanto ele pega sua taça e dá um gole comprido no que parece ser vinho. Whisky e agora vinho? Será que Régulo sabe que nós não podemos beber? E que somos menores de idade?

-Sirius, você não estuda em Hogwarts, não é? Lene nunca falou de você e ela sempre comenta comigo dos meninos bonitos. -Elogia mamãe com um sorriso encantador, o que me faz ter vontade de sair correndo. Deus! Às vezes eu queria matá-la! Ela gosta tanto de me entupir de vergonha.

Encolho-me na cadeira mortificada por causa desse comentário e é com muita força de vontade que me obrigo a permanecer sentada, visto que já estou odiando tudo nesta noite. Essa casa enorme e opressiva, esses ricaços metidos e, principalmente, minha mãe apaixonada.

-Não, eu estudava em Durmstrang, antes de ser... transferido, ainda estamos tentando uma vaga pra mim . E eu também sempre comento sobre os meninos bonitos, não é verdade, Reg? -Sirius responde olhando pro irmão com certo desdém e um ar de riso debochado.

-Não, não é verdade! Ele está brincando. Deus sabe que seria melhor, não teria que aturar tantos pais e mães reclamando de sua conduta depravada com suas filhas e...- ele se interrompe ficando terrivelmente vermelho, o que quase me faz cair da cadeira ao tentar segurar o riso –Bem, o que quero dizer é que Sirius tem grande interesse pelo belo sexo.- Régulo fica em silêncio depois desse seu pequeno rompante de moralidade e, por fim, ignorando Sirius volta toda sua atenção pra minha mãe, começa a olhar pra ela daquele modo que faz eu querer me suicidar.

Mexendo a comida com o garfo tento me concentrar em minha refeição, tentando não pensar na mudança que isso acarretará na minha vida, nem na forma asquerosa e cheia de amor com a qual os dois estão se tratando pra realmente ouvir o que eles dizem. Até que percebo o silêncio e noto que estão esperando uma resposta minha.

-Oh, desculpem! Eu não estava prestando atenção. O que é?

-Nós queríamos mostrar o seu quarto pra você. -Responde Régulo.

-O meu quarto?

-Sim, o seu quarto. -Repete mamãe.

-Do que é que vocês estão falando?-Pergunto começando a me irritar.

-Oras, visto que nós vamos nos mudar pra cá, meu amor, nós achamos que seria bom você ver qual vai ser o seu quarto.

-Você enlouqueceu de vez? - Eu grunho me levantando da minha cadeira e olhando enraivecida pra minha mãe. - Eu não vou me mudar pra cá! Eu não quero morar nesse mausoléu! - Percebo que estou quase gritando e me controlo a tempo, peço desculpas e saio da mesa.

Fico vagando por corredores intermináveis até encontrar um banheiro. Que vergonha! Como posso ter me descontrolado assim? Eu que sempre sou tão calma. Lavo o rosto com água fria, tentando me acalmar e então percebo que estava chorando. E o meu pai? Onde ele vai ficar quando vier me ver?

Papai, sempre que vem visitar, fica hospedado em casa porque ele prefere poupar dinheiro pra colocar na poupança que ele fez pra mim e pra minha meia-irmã, Amanda, podermos ir pra faculdade, já que não dá pra contar com minha mãe e seus empregos temporários nesse quesito. Sempre foi maravilhoso, ele e mamãe riam e se davam bem e isso foi uma das coisas que alimentou minhas esperanças durante esses anos todos de que os dois ainda iam ficar juntos de novo e agora ela quer acabar com isso.

Abro a janela do banheiro que dá pra um jardim bem cuidado, estou me sentindo sufocada. Decido pular a janela e ir pra lá, preciso pensar um pouco, preciso de ar, sem contar que estou muito envergonhada pelo meu comportamento e pela minha falta de modos.

Um cheiro de neve invade meu nariz e o céu noturno, esbranquiçado de nuvens, e vento gélido me dizem que logo vai cair a primeira geada. Mas não me importo com o frio, prefiro congelar a voltar lá pra dentro.

Estou sentada num banco de pedra, assistindo meus dedos dos pés e das mãos se tornarem azuis quando sinto alguém colocar um casaco ainda quente e cheirando a perfume masculino sobre os meus ombros, olho pra cima e vejo Sirius. Ele está só de camisa e está fumando um cigarro fedorento.

Ele se senta ao meu lado e sopra a fumaça pra longe, posso ver seu perfil simétrico e bonito, mas não tenho coragem de falar ou de olhar diretamente pra ele.

Me encolho dentro da proteção do casaco tentando me esquentar, mas não parece estar funcionando, sinto que estou gelada por dentro.

-Sua mãe está esperando você lá dentro. -Ele diz por fim sem olhar pra mim.

-Me desculpe. –Respondo numa voz minúscula, me sentindo a pior pessoa do mundo enquanto tiro o casaco e o deixo sobre o banco.

Dirijo-me pra casa muito lentamente com medo de ver tristeza e decepção nos olhos da minha mãe, por isso, quando entro e, por fim, os encontro, não olho pra ninguém. Espero minha mãe se despedir e me despeço também, mas antes de sair pela porta peço desculpas a Régulo que diz que não há problema, que ele compreende como devo estar me sentindo e que só preciso dar uma chance a ele de provar o quanto realmente ama minha mãe.

Depois desse pequeno discurso quero me enterrar numa cova bem funda e morrer, mas não posso, tenho de nos levar pra casa. No carro não trocamos uma palavra, posso ver o quanto ela está chateada comigo pelo modo com o qual coça o nariz pra evitar chorar.

Quando chegamos em casa ela corre pro quarto e eu me sinto cada vez pior, cada vez mais culpada.

-Mamãe -eu digo parando na porta do quarto dela- me desculpe por ter sido rude, tá?-E saio em seguida me trancando no meu próprio quarto.

Eu posso me sentir culpada por ter sido rude, mas fico com ódio por ela nunca pensar em mim! Por falar o que eu penso, eu não vou me sentir culpada. Não vou!

Então porque será que fico chorando até dormir?


Nota:

Ah, é...eu fiz aqui uma ligeira adaptação, liberdade poética, e o Régulo é o irmão mais velho.

É só.