CHARLOTTE HOLMES E O MISTÉRIO DA POMBINHA BRANCA

01/05/2012

16:51

Uma grande tempestade inundou a minha cidade, levando meias de varais, pessoas muito magras e também a minha eletricidade.

Que maravilha.

Mas, não, isso não foi irônico. Eu adoro chuva. O barulho relaxante dos pingos agressivos caindo no chão da minha sala por causa da goteira. Dias de chuva são bons para pensar, por um motivo muito simples – a Internet vai embora. E você é obrigado a fazer algo mais útil.

Porém, como estou me sentindo particularmente inútil hoje, resolvi encarar a parede branca até ela mudar de cor. Resumindo, estou entediada. Muito entediada.

Tenho procurado empregos pela cidade, só para agradar Mamãe e Sophie, mas sempre acabo surpreendentemente me encontrando na frente da delegacia, sentada num banco qualquer comendo pipoca, esperando os policiais chegarem com novos criminosos se debatendo algemados nos carros. É sempre muito divertido.

E foi nesse momento da minha vida que eu resolvi abrir a minha agência. Porque eu gosto de histórias de detetives. E de detetives. E eu posso muito bem ser uma se eu quiser.

As pessoas ainda me ignoram na rua, e riem quando eu falo que gosto de manteiga de amendoim com geleia, principalmente porque eu não gosto de manteiga de amendoim, muito menos com geleia.

De qualquer forma, minha vidinha medíocre continua a mesma.

Onde está a aventura? Os dragões, as princesas indefesas? Onde está a EMOÇÃO? Onde estão meus fãs? E os casos, quando irão aparecer?

Afinal, tive um grande papel na busca da alegria geral da nação.

Pensei que as pessoas viriam em milhares para a porta da minha humilde residência clamando por ajuda. Desde ir catar bichanos de cima de árvores até proteger o presidente da Ucrânia em uma missão suicida. Tô aceitando qualquer coisa.

Por que ninguém vem?

Por que ninguém mais liga para lições de moral, clichês, pães super gatos e finais felizes?

Eu não entendo.

Além do mais, sinto muita falta do meu elementar amigo Watson, que nunca, NUNCA, será somente um pedaço de pão para mim. Mas com certeza ele está sendo muito bem cuidado pelo mendigo-velhinho-gente-boa que eu achei na rua.

E, pra completar tudo isso, hoje é Dia do Trabalho, e eu sempre choro no Dia do Trabalho. Precisa comentar mais algo?

Cara, como eu queria ser alguém.

Aí vem você e diz: Mas você já é alguém.

Só que eu quero ser alguém, e não alguém, sacas?

E você: Não.

Então, sinceramente, eu quero que você se explod...

...

...

...

...

...

...

...

Desculpe. Este papo estava tão entediante que eu cochilei um pouco.

E foi a coisa mais útil que eu fiz nessa semana.

Ah, falando em coisas, a tia da irmã da cozinheira da casa da minha dentista comprou um...

TOC TOC

O que foi isso?

TOC TOC

Ah, a porta.

...

TOC TOC

Ah, atender.

Espero que não sejam aquelas escoteiras chatas de novo com aquele biscoito engasga-gato de novo. Isso mesmo, Vaga-Lumes, estou falando com vocês.

Abro a porta despreocupadamente quando um ser invade a minha casa, completamente desesperado.

- Você é Charlotte Holmes? – ele perguntou ofegante.

-Depende. Você é cobrador?

-Não.

-Então, sou Charlotte Holmes, a sua disposição.

-Ouvi falar do trabalho, foi-me muito bem indicada. Enfim, preciso da sua ajuda. Vidas dependem disso.

Opa. Gostei disso.

-O que é, senhor? É questão de vida ou morte? O presidente está envolvido?

-Sim, é questão de vida ou morte. E não, o presidente não está envolvido. O caso é que, minha pombinha, tão saudável, tão magnífica, parece estar muito chateada com algo. Já tentei de tudo, mas ela não melhora. Penso que talvez ela esteja doente. E isso deixa meu coração tão triste...

Arregalei os olhos. ESSA ERA A QUESTÃO DE VIDA OU MORTE? UMA POMBA FRESCA? Eu e meu talento estamos sendo muito subestimados. Onde já se viu...

-Por que o senhor não procurou um veterinário? – perguntei com falsa calma. – Sabe, veterinários cuidam de animais como a sua pombinha, não sei se o senhor sabe...

-NUNCA!

O grito dele me fez estremecer. Tá, tudo bem, se é pra cuidar da pombinha, eu cuido.

-Ok. Aceito sua proposta. Mas, o que eu tenho que fazer, exatamente?

-Acompanhe-me.

Táááá, se vamos ser misteriosos, tudo bem. Eu NÃO me importo, viu? Agora, como eu vou fazer pra ajudar o maluco de pedra e a sua pomba, eu não sei, mas...

-WOW! - Deixei um grito de surpresa escapar. O cara podia ser um maluco, mas ele era um maluco que tinha uma FERRARI!

Mas como que chegamos aqui tão rápido?

Noffa, eu preciso controlar meus pensamentos. Eles me deixam completamente avoada. Nem vi que já tínhamos chegado à rua. Vai que um dia minha casinha está pegando fogo e eu nem percebo e...

-Vamos?

Pensei um pouco. Um cara maluco e desconhecido, que chega na minha casa do nada, diz que tem uma pomba precisando da minha atenção, e está me convidando para entrar na sua Ferrari. Nada estranho até aí.

Mas, ainda sim, faltava algo. Sentia isso.

Olhei para a padaria que ficava estrategicamente localizada do lado oposto da rua.

TOUCHÉ! JÁ SEI!

- Claro – respondi. – Mas preciso fazer uma coisa antes. É rápido, não se preocupe.

Voltei da padaria com um Croissant. E não, não iria comê-lo. E isso mesmo, você adivinhou. É o Watson.

Como o último Watson foi uma Baguete, resolvi não ficar repetindo as coisas. Meu elementar e necessário amigo Watson, dessa vez, é um Croissant.

Guardei-o na bolsa pra dar sorte. -Agoooora, podemos ir.

Subimos na Ferrari e senti o vento bater nos meus cabelos enquanto ele acelerava até os 180 km/h, cantando pneus.

Mentira.

Ele estava dirigindo mais devagar que uma lesma. Olhei no velocímetro: 10 km/h. Até as tartarugas que passavam pela rua pareciam zombar da gente.

Espera... tartarugas na rua?

Perdi a linha do raciocínio quando ele me interrompeu:

-Chegamos.

Como assim, "Chegamos"?

Entramos no carro faz menos de um minuto.

Foi aí que eu percebi que estávamos em um lugar completamente diferente. E por "completamente diferente", entenda: na frente de uma mansão gigantesca e imponente, debaixo de outra tempestade vinda de não sei onde.

ÓTIMO. Minhas meias novas estão molhadas.

Ele saiu do carro apressadamente em direção à mansão e fechou a porta atrás dele. Bruto.

Como não tive escolha, saí correndo para a mansão também. Eu que não ia ficar parada que nem um dois de paus nessa chuva, com cara de tacho.

Conforme adentrávamos a sala principal, pude perceber a excêntrica decoração da residência. Móveis antigos, empoeirados e quadros. Muitos quadros. Todos pareciam nos seguir com olhar. Assustador.

Em um canto da sala, estava uma gaiola dourada, e dentro dela havia uma linda pomba branca, apoiada em um pequeno suporte. Ela realmente parecia muito abatida.

-Eu não sei mais o que fazer – ele choramingou, desviando minha atenção da pomba. – Ela não quer mais comer, não quer mais se mexer, não quer mais fazer nada! E é tão pequena... Praticamente recém-saída do ovo...

-Senhor – eu demorei um pouco para continuar. – Eu realmente não entendo nada de animais. Mas prometo fazer tudo que estiver ao meu alcance para que a sua pombinha...

-Lizzie – ele me interrompeu.

-Certo. Para que Lizzie fique boa novamente.

-Muito obrigado. – disse sincero.

Analisei mais uma vez a... Lizzie. Parecia que ela tinha tudo lá, comida, água, brinquedo para aves e... um cata-vento. Suas penas estavam perfeitamente brancas e macias, ou seja, fortes e saudáveis. Por que, Lizzie? Por que você está assim?

-Ela ainda consegue voar?

-Como assim? – ele perguntou confuso.

- Voar, você sabe. Bater as asinhas e sair do chão – imitei um passarinho voando.

-Minha Lizzie não voa.

-Como assim? – agora fui eu que perguntei.

-O mundo é perigoso demais. Ela pode se machucar. É muito melhor que ela fique exatamente onde está, para evitar problemas.

-Senhor, desculpe-me a intromissão, mas Lizzie é um pássaro. E faz parte da natureza dos pássaros voar. É o que os definem, a coisa que mais prezam no mundo. Por que tirar essa satisfação deles? E por motivos egoístas? – interroguei-o levemente irritada. – Dê-me um argumento convincente.

Ele encarava o chão inexpressivamente. Estaria assim por dentro, também? Afinal, ele tinha tudo que um homem pode desejar. Uma boa casa, um bom carro. Pra quê tanta amargura? Tanta indiferença? Tanta proteção?

Continuei esperando pela resposta que não veio, mas não ousei mover meu olhar. O senhor na minha frente também não. Vendo que não iria ceder, continuei:

-O que o senhor faria se lhe colocassem em uma caixa, para que nunca mais pudesse andar? Como se sentiria? Como se sentiria sabendo que nunca mais sentiria a grama sob seus pés, a textura do asfalto, a refrescância da água num dia de calor? Diga-me. Ou melhor, pergunte à Lizzie. – disse amarga. – Ela sabe muito bem como é.

-Você não entende nada – ele finalmente replicou. – É jovem demais, sonhadora demais. Não viveu o bastante, não conhece o mundo, não sabe nada sobre as dores da vida. Portanto, não ouse me julgar.

-E o que o senhor sabe tanto que eu não sei a respeito desse caso em particular? Porque acredito que, jovem ou não, uma pessoa tem noções do certo e do errado, do que é bom e do que é ruim. Isso – gesticulei para ele. – é ruim.

-Isso o quê?

-Tudo. Suas atitudes, seu jeito, suas ações. Está fazendo mal a si mesmo e também a um pobre ser vivo, que nada tem a ver com seus "complicadíssimos" problemas. Até imagino: "Oh, o meu iate afundou no Oceano Pacífico, terei que viajar para a Itália e comprar outro para repor a perda".

-Não presuma nada sobre mim, garota. – ele rosnou. – E respeito com os mais velhos.

Rolei os olhos.

-E o que eu preciso saber, então, para compreender o senhor?

Ele parou por um momento. Como se lembrasse de algo. Enfim, ele iria ceder. Voltou seus olhos castanhos e cansados na minha direção.

-Você pensa que eu tenho tudo. Na verdade, eu não tenho nada. Perdi tudo que um dia já foi valioso para mim. Dinheiro, mansões, iates, tudo isso não compra o que eu mais almejo.

-E o que é? – perguntei curiosa.

-Minha família. De volta. - houve uma pausa – Fui um crápula com todos que desejavam o meu bem, e passei por cima de quem estivesse no meu caminho. Ganhei milhões... mas perdi minha esposa. E meus filhos. Agora é tarde demais.

-Nunca é tão tarde demais, é o que dizem.

-É, sim. Além do mais, eles não devem me querer de volta. – olhou para baixo. – Eu não quereria.

Pela primeira vez durante todo o nosso encontro, ele sorriu. Um sorriso terrível, desesperado, uma simples puxada do lábio superior direito, acompanhado de um soluço.

-Eu tenho dois filhos. Já são adultos, agora. O mais velho tem uma filha da sua idade, pelo que ouvi falar. Todos formados. Minha esposa... Ela faleceu faz alguns anos. Não tive a oportunidade de me despedir... Ainda os amo muito. Sempre amei. Mas minha hora já passou. Eu tenho agora somente Lizzie para me fazer companhia.

-O senhor ama a Lizzie? – perguntei. – Ama mesmo?

-É óbvio que sim, você sabe que sim.

-Então deixe-a ir e viver... por favor. – acrescentei. – Ela não tem culpa de nada. Não merece viver presa, como o senhor. Um já é demais. Mas dois? – minhas palavras pairavam no ar.

Ele considerou por um momento. Olhava de Lizzie para a janela, da janela para Lizzie, de Lizzie para a janela, de mim para o carpete. Durou uma eternidade.

-Lizzie – ele disse carinhosamente, tocando suas penas com a ponta dos dedos. – É isso mesmo que você quer?

Eu podia jurar ter visto o pássaro acenar com a cabeça. Eu realmente estou enlouquecendo.

Então, ele abriu a gaiola.

Talvez não só a gaiola material, aquela dourada que estávamos vendo, mas talvez também a sua gaiola. A qual ele esteve preso por não sei quantos anos. E que iria libertar os dois.

Lizzie sacudiu todo o seu corpinho enquanto se encaminhava para a saída, ainda um pouco desconfiada. E então, parou.

-Vamos, Lizzie – encorajei-a. – Se eu pudesse escolher um dia para voar, seria hoje. Veja como o céu está lindo...

Espera. Lindo céu? Mas não estava chovendo TORRENCIALMENTE há alguns minutos? E agora vem um lindo pôr-do-sol e um... arco-íris? Que tempo maluco...

Ela abriu as asas, talvez pela primeira vez em toda a sua breve vida, e começou a chacoalhá-las para cima e para baixo.

Logicamente, eu estava acompanhando TODOS os movimentos com meus braços para incentivá-la. Se era pra fazer, que fosse bem feito.

Lizzie pegou impulso e...

Voou.

Com suas asas brancas, deu voltas por toda a sala, deixando-me boquiaberta.

Não porque ela estava dando voltas pela sala, mas porque estava, literalmente, iluminando todo o lugar que passava. Metaforicamente, é claro.

Antes de dirigir-se a janela, deu um olhar significativo para o senhor ao meu lado, que sorria feito bobo. Se eu não conhecesse bem as aves, diria que ela estava agradecendo.

Mas animais não agradecem com o olhar. E não falam... que isso fique bem claro.

E então, ela partiu.

Voou para fora da sua grande prisão.

No final, não havia uma grande piada ou uma grande aventura.

Havia apenas duas grandes ironias: "a pombinha branca da paz" e "Droga, eu chorei no Dia do Trabalho. De novo".

Mas havia também algo melhor.

Esperança. Porque enquanto houver uma pessoa nesse mundo que puder parar para apreciar um momento como este, eu sei que ela não irá embora.

Silenciosamente, eu acompanhei o voo tranquilo da pequena pomba, até o pontinho branco se confundir com o horizonte infinito. E além.

FIM – Ou será que não?

Acordo atordoada, gritando "VOE PARA A LUZ! A LUZ".

AH, NÃO!

Sonho? De NOVO?

Sinceramente, isso já está ficando muito clichê.

Sério que não podia acabar a história assim? Final bonitinho, lição de moral, paisagem de filme e tal?

Se bem que eu realmente estava notando algumas coisas estranhas, e...

AH, NÃO! ESTOU SEM MEU AMIGO WATSON DE NOVO!

Mundo crueeeeel.

Por que eu NUNCA consigo ficar junto do meu amigo? Sempre tiram ele de mim, não é justo...

Tenho trauma de comer pão, agora.

ÓTIMO.

Virei para o lado e voltei a dormir.

AGORA SIM

FIM


Conto transitório da série Charlotte Holmes. No próximo, as coisas já começam a ficar mais sérias... E logo alguém importante irá aparecer - de verdade - na história ~momento de mistério e tensão~. Espero que estejam gostando.

If convinient, review.

If inconvinient, review anyway.

-AK