CAPÍTULO 2- DESIRELESS – NEVER FORGET YOU
Marchei a passos largos pelo caminho que acreditava me levar até em casa, mesmo não tendo certeza se ele era o certo. Aquela imagem não me saía da cabeça, aquela presença quase que angelical me observando, aquela sensação profunda de tranquilidade...Calma Alice, lembrei a mim mesma, eu devia estar vendo coisas, estava muito abalada para assimilar os fatos com precisão.
Continuei caminhando pelas ruas escuras e desertas, todos já haviam se recolhido para suas casas, e com certeza uma garota de 17 anos não deveria estar vagando sozinha. Tive a impressão de estar sendo seguida, porém depois do episódio da praça preferi não olhar para trás, o que não quer dizer que deixei de espiar sobre os ombros algumas vezes, apenas para checar. Eu estava cansada e minha cabeça doía, eu só precisava de um banho quente e tudo ficaria bem novamente.
Por sorte consegui encontrar a casa. Peguei a maçaneta com cuidado, a virando lentamente para evitar fazer barulho, mas as dobradiças há muito tempo enferrujadas insistiram em ranger de forma estridente, o que deveria ter acordado qualquer um naquela casa. Suspirei derrotada, se o plano era entrar despercebida havia falhado.
Ao contrário do que eu esperava, assim que passei pela soleira não fui repreendida por uma mãe furiosa ou um irmão mais velho me cobrando satisfações. As luzes continuaram apagadas e apenas um abajur iluminava a sala, dando a ela um ar sombrio. Tudo continuava do mesmo jeito que estava quando eu saí, as diversas caixas espalhadas, as mesas e as cadeiras cobertas por finos lençóis brancos que impediam que a poeira impregnasse neles.
Aproximei-me do sofá cuidadosamente, e percebi que minha mãe dormia ali desajeitadamente. De todos da família, ela foi a que mais sofreu com a separação, perdeu muito peso, seus rosto belo estava marcado com profundas olheiras e quase não havia cor em sua pele, deixando-a com um terrível aspecto de doente. Abaixei-me e beijei sua testa com carinho, puxando um dos lençóis que cobriam os móveis e coloquei sobre seu frágil corpo, rumando em seguida para o segundo andar, na intenção de acordar meu irmão Daniel para que levasse nossa mãe para o quarto.
Quando cheguei no quarto, ele dormia tranquilamente, e o pequeno Julian estava encolhido na mesma cama que ele. Meu irmão mais novo ainda não entendia bem as coisas, então gastávamos muita energia para que ele entendesse que papai não moraria com a gente, o que não o convencia bem, já que ele passava praticamente o dia todo perguntando sobre o mesmo. Bem, como explicar a um garotinho de 3 anos que os pais se separaram? Graças a Deus Daniel tem feito tudo o que pode para manter o pequeno distraído.
– Hey, Dan. – Falo baixinho enquanto cutuco um de seus braços. Ele acorda meio desnorteado e me encara com seus profundos olhos castanhos. Dan e Julian tinham os olhos de meu pai, já eu tinha grandes olhos verdes assim como os de minha mãe.
– O que foi, baixinha? – Dan me encara sério. – Onde você estava? Queria te esperar acordado, mas acabei cochilando enquanto fazia Julian dormir.
– Eu fui conhecer a cidade, tomar um ar. – Falo tentando disfarçar meu desconforto com o que acontecera. – Você acha que consegue trazer a mamãe para cima? Ela acabou dormindo no sofá.
– Tudo bem, do jeito que ela está não deve pesar mais do que uma pena. – Ele concorda tristonho, levantando com cuidado para não acordar o pequeno. – Lice? – Diz ele rumando para a porta.
– Sim?
– Você está bem? – Não tinha como mentir para Dan, ele me conhecia muito bem.
– Estou, só um pouco triste, não tem como não estar. – Tento ser o mais sincera que o momento me permite, não iria lhe contar que ando vendo "fantasmas" por aí.
– Vá descansar, está bem? Eu cuido da mamãe. – Dan beijou levemente minha testa e partiu para o andar inferior.
Assim que ele saiu dei um beijo estalado na bochecha de Julian e parti para o meu quarto, a fim de encontrar alguma roupa e tomar um banho bem quente antes de dormir. Amanhã seria sábado, então teria tempo para organizar meu quarto do meu jeito, já que não teria aula.
Abri a porta e acendi a luz, rumando em seguida em direção a minha mala, abri o zíper em seguida e peguei a primeira lingerie que encontrei pela frente, juntamente com minha camisola de seda rosa. Qualquer um que não me conhecesse diria que eu era uma patricinha, a julgar por minhas roupas e pelos diversos anos de balé, mas isso não me incomodava, eu sabia quem eu era, e não era o que eu vestia que formaria minha personalidade, eu apenas gostava de moda, nada demais.
Tomei um relaxante banho quente e aproveitei o delicioso cheiro do meu shampoo preferido, enquanto massageava meus longos cabelos castanhos ondulados. Após meu demorado banho, vesti meu roupão e fui para frente do espelho, limpando com a mão o vapor que se concentrava ali, formando uma espessa camada branca. Encarei meu rosto cansado, eu não era uma garota feia, era digamos, o que chamavam de "pequena fadinha" na minha cidade. Tinha um metro e meio, longos cabelos castanhos, que desciam em cachos por minhas costas, contrastando com olhos grandes e verdes que era m emoldurados por uma pele clara como a neve. Meu corpo era esbelto, não tinha muitas curvas, mas era bem definido em função da dança.
Escovei meus dentes e sequei um pouco meu cabelo, voltando para o quarto em seguida. Arrumei minha cama de qualquer jeito, com certeza eu precisaria de uma nova, já que aquela parecia que desmontaria a qualquer momento. Meu pai ganhava muito dinheiro e prometeu que ajudaria no que fosse necessário, então quando fosse decorar meu novo quarto eu com certeza não economizaria.
Deitei-me na cama e ela rangeu em protesto, e quando puxei o fino cobertor sobre meu corpo ela repetiu o som. Creio que se não ficasse praticamente estática eu não teria uma boa noite de sono. Fechei meus olhos e me concentrei na chuva que havia começado a cair, tentando imaginar como seria a nova escola. De repente uma incômoda dor de cabeça me atinge, e a visão de três jovens caminhando pelo corredor toma conta da minha mente, tento me concentrar nos seus traços, mas a imagem é bastante turva e a única coisa que consigo identificar é que são dois rapazes e uma garota loira. O primeiro rapaz era alto e magro, já o outro era robusto, não gordo e sim forte, os três caminhavam como modelos, no que parecia ser um refeitório pequeno de colégio, tento focar mais minha atenção, porém de repente tudo some novamente. Abro os olhos assustada, seria aquilo um sonho? Não, não parecia um sonho, não fazia nem cinco minutos que eu havia fechado os olhos...
Suspiro cansada, daria tudo para ter aquela tranquilidade que senti na praça de volta... Eu devia estar ficando louca, primeiro vendo coisas que não existem, depois imaginando modelos em um colégio? Eu realmente teria que procurar um psicólogo para por minha cabeça de volta no eixo. Fechei meus olhos com força, balançando a cabeça fortemente, como se aquele simples gesto pudesse espantar todas as loucuras que se passavam por minha mente, ri de mim mesma, desde quando eu era tão pirada?
Voltei a me concentrar na chuva que caía lá fora e deixei que a inconsciência me levasse para um sono absolutamente tranquilo, sem sonhos ou pessoas esquisitas.
Acordei-me pela manhã com um bom humor inexplicável, saltei da cama as oito da manhã em ponto e abri a janela, sem me desanimar com a névoa e a fina garoa que caia sobre a cidade. Fui em direção a minha mala e peguei uma calça jeans e uma camisa meia estação branca com botões e me arrumei animada, até fiz uma leve maquiagem, coisa que não fazia desde que comecei a passar dias inteiros chorando por causa da separação de meus pais. Decidi ignorar esses pensamentos ruins e parti para cozinha, sustentando o melhor sorriso em meu rosto.
Quando cheguei na cozinha, minha mãe servia a mesa cabisbaixa, porém seus olhos logo se iluminaram ao se encontrarem com os meus, fazendo um fraco sorriso brotar de seus lábios.
– Bom dia mocinha, vejo que acordou de bom humor.
– É sim mãe, hoje vou as compras com o cartão que papai me deu. Ele disse que não deixaria nada faltar pra mim, então... – Dei um grande sorriso. Ela sabia que eu era uma pestinha quando queria e tinha entendido perfeitamente o meu plano.
– Você não tem jeito mesmo heim, dona Mary Alice Brandon S... – Ela parou ao sentir meu olhar de reprovação. Eu não queria que aquele sobrenome fosse citado nunca mais. Mamãe disfarçou, indo pegar algo na geladeira, mas eu sabia que estava desconfortável.
Suspirei e fui em direção à pia para pegar um copo d'água, tentando mentalizar que ninguém estragaria meu bom humor, que nem eu mesma sei de onde surgiu. Enchi o copo, e antes mesmo de levá-lo a boca uma forte dor de cabeça me atingiu, escurecendo meus olhos. Senti que o copo foi de encontro ao chão, porém todas as minhas atenções se desviaram para a cena que se passava na minha cabeça. Nela havia um homem loiro extremamente pálido que olhava para mim com malícia, deixando seus dentes completamente a mostra, isso estava me assustando, porém o fato que me deixou completamente apavorada foram seus olhos que era de um vermelho tão intenso quanto sangue. Ele veio em minha direção e eu tentei fugir, porém ele era forte demais, então tudo escureceu e o único som que pude escutar ao fundo foi o grito de minha mãe chamando por mim.
