Capítulo II
Aquilo não poderia estar acontecendo com ela. Que tipo de pesadelo era aquele que nunca tinha fim? O que havia feito contra os deuses para merecer um castigo daquele?
Li arrastava Sakura pelo convés. Parou por um leve momento e a enlaçou pela cintura para que pudesse assim levá-la para o seu navio, cansada e dolorida a jovem não tinha mais força para resistir. Deixou que o homem a segurasse para que não caísse ao mar quando fizeram a travessia perigosa por causa do mar agitado para o navio pirata. Assim que seus pés descalços pousaram na madeira escorregadia do navio sentiu Li voltar a arrastá-la em direção a algum lugar indefinido. Passaram por uma pesada porta de madeira fazendo Sakura não sentir mais os pingos fortes da chuva que continuava a cair sem trégua. O casal caminhou pelo estreito corredor até Li parar em frente a uma porta, abrindo-a e introduzindo Sakura para dentro do quarto. Tirou a capa pesada de Yamazaki de cima da jovem.
Sakura sentiu o coração voltar a disparar novamente. Seus olhos ardiam sabendo da sua fraqueza e da impossibilidade de fazer qualquer coisa para defender sua honra. Li a virou de costas, desamarrou suas mãos empurrando-a logo em seguida para frente para afastar-se dele. Sakura continuou de costas abraçando-se, incapaz de encará-lo.
O rapaz observou a pequena jovem a sua frente. Os cabelos ruivos estavam molhados e escorridos. Ele percebeu que ela tremia. Talvez de frio, talvez de medo, talvez dos dois. Desceu os olhos pelo corpo vendo que a camisola longa, estava rasgada e suja de sangue. Estava muito ferida, provavelmente havia lutado com muitos homens até o encontro tortuoso que tiveram. Sorriu de lado. Não podia negar, deveria ser belíssima nua.
'Tire a roupa e enrole-se em qualquer lençol. Pela manhã mandarei lhe trazerem uma de suas roupas' Falou por fim depois de soltar um longo suspiro. Estava cansado pela luta com o nobre senhor. Tinha vencido pai e filha, mas não fora tão fácil com tentava demonstrar. Sakura não respondeu abraçou-se mais forte imaginando que a qualquer momento ele a empurraria para o chão forçando-a a ficar entre suas pernas.
"Geniosa demais..." Syaoran pensou para si. Apostaria toda a riqueza que possuía com anos de pirataria como ela poderia ser uma amante insaciável. Mas era uma nobre. Provavelmente isso a tornaria fria e insensível.
'Acredito que tenha muitas belas roupas, não é?' Perguntou com o tom debochado.
Ela não respondeu. Seu queixo tremia tanto que seus dentes batiam uns nos outros.
'Aqueça-se ou irá morrer congelada.' Falando isso saiu do aposento trancando a porta a chave.
Sakura permaneceu parada no meio do pequeno cômodo tentando entender o que estava acontecendo. Virou-se rapidamente para trás apenas para certificar-se de que estava sozinha. Soltou um longo suspiro fechando os olhos e deixando finalmente as lágrimas saírem de seus olhos. Caiu de joelhos no chão sentindo-se fraca. O que seria dela agora sem pai, nas mãos de um malfeitor daqueles? Com certeza ele a faria sua amante por algum tempo até cansar-se dela e a jogar no mar. Era melhor morrer congelada do que servir de divertimento para o assassino de seu pai.
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Li entrou em seus aposentos tirando a roupa molhada. Acendeu todas as velas do cômodo para torná-lo mais quente e acolhedor. Parou em frente ao espelho olhando para seu rosto que estava sujo de sangue. Tocou no nariz soltando um palavrão logo sem seguida. O punho daquela garota era forte como o de um homem, pensou para si levantando o canto esquerdo dos lábios num meio sorriso, mas logo soltou outro palavrão ao tocar novamente no nariz dolorido.
Molhou um pano e limpou o sangue que escorria. Tinha que colocar gelo para que o sangramento parasse. Foi até um balde que usava para guardar as bebidas e tirou algumas pedras de gelo enrolando-as no lenço. Sentou de forma confortável na poltrona e jogou a cabeça para trás pousando delicadamente o saco de gelo no nariz. Soltou outro palavrão amaldiçoando a garota. Fechou os olhos tentando descansar, e logo a imagem de Sakura formou-se em sua mente, para ser mais exato, as formas da geniosa garota invadiram a sua mente. Como era bela!
'Tão bela quanto Tomoyo...' Soltou sem querer. Abriu os olhos fitando o teto iluminado pelas chamas das velas. Levantou-se com o rosto fechado. Novamente estava pensando naquela vadia. Foi até a mesa onde havia uma grande garrafa de rum e a abriu com força, tomando um longo gole da forte bebida. Fitou o nada enquanto lembranças de uma bela jovem de cabelos longos começavam a se formar a sua frente. Como era linda e alegre. Sorriu sem querer apenas apreciando a imagem celestial da garota que havia em sua mente.
Yamasaki entrou no aposento fazendo-o voltar a sua realidade. Virou-se fitando o companheiro que estava com a cabeça abaixada.
'Desculpe-me senhor, só vim avisar de que não encontrei mais nenhuma mulher na embarcação.'
'Que pena! Pensei que haveria mais belas jovens como aquela, mas não tão geniosas.' Ele falou divertindo-se e levando a garrafa novamente a boca.
'Onde está a jovem?' Yamasaki perguntou varrendo o aposento com os olhos.
'Deixei-a no quarto ao lado. Sabe como donzelas são cobiçadas pelos homens, não era seguro deixá-la com os outros prisioneiros.'
'Entendo. Fez o melhor capitão.' Yamasaki falou aproximando-se de Li. 'Mas a jovem está bem? Ela parecia-me muito ferida.'
Li meneou a cabeça de leve. 'Ela deve saber se cuidar. Traga algumas roupas para ela se trocar amanhã.'
'Farei isso senhor.'
'Yamasaki, pare de me chamar de senhor. Sabes que tem a liberdade de chamar-me de Li, porque não o faz?'
O rapazinho sorriu sem graça coçando a cabeça. 'É o costume, senhor.'
Li soltou uma gargalhada. 'Pois então beba comigo, amigo. Temos muito o quê comemorar! Conseguimos uma embarcação do império e ainda de bônus consegui um bom divertimento.'
'Senhor, quer dizer, Li...' O rapaz falou sentando-se a frente dele. 'Dois homens me contaram o que aquela garota fez para não ser violada. Acho que deveria ter cautela.'
Li ergueu uma sobrancelha. 'Ela é apenas uma garota, não é uma leoa.'
'Ela mordeu a mão de Kal quase arrancando um pedaço. Eu mesmo fiz o curativo dele e não pude acreditar quando o vi.' Li riu novamente mais encantado em saber daquilo. 'E não foi só isso! Ela acertou Bunai com alguma coisa que quase fez a cabeça dele abrir pela metade!'
'Não diga?' Perguntou em tom zombeteiro.
'Estou falando sério. Não é seguro entrar num quarto sozinho com ela.'
'Yamasaki! Você acha que eu vou ter medo de uma mulher?'
'Ela não é uma mulher! Eu a vi lutando contra o senhor! Eu já lhe falei que os gregos acreditam quem muitos demônios vinham na forma de belas mulheres para enfeitiçar os homens e matá-los para comer suas cabeças?' O rapazinho perguntou arregalando seus olhos que normalmente são sempre apertados.
Li franziu a testa enquanto bebia mais um gole de rum encarando o amigo. 'Acha mesmo isso? Quando eu era pequeno minha mãe sempre dizia que o diabo tinha olhos verdes...'
Yamasaki levantou-se de supetão. 'Está vendo! Ela não é uma garota normal!'
Li ficou quieto um tempo, depois caminhou até a parede que dividia o aposento dele com o qual havia prendido Sakura e encostou o ouvido tentando escutar algo. 'Não ouço barulho algum.'
Yamasaki fez o mesmo. Ficaram os dois em silêncio com os rostos colados na parede de madeira. Até Li afastar-se um pouco contrariado. 'Será que ela evaporou?'
'Talvez tenha usado uma magia para desaparecer. Já ouvi falar que os monstros podem aparecer e desaparecer do nada. Quando eles somem, uma fumaça branca envenenada aparece impedindo os humanos de verem-no invocando a magia.' Yamasaki esclareceu com o rosto sério.
'Acha que ela desapareceu então?'
O rapazinho concordou com a cabeça. Li vestiu uma blusa qualquer e saiu do quarto acompanhado de seu braço direito. Os dois pararam em frente a porta trancada. Li estendeu o braço para abrir.
'Espera!' Yamasaki gritou fazendo o capitão quase pular com o susto.
'Está querendo me matar, homem?!' Exclamou irritado.
'Precisamos nos benzer primeiro! Estamos para enfrentar algo sobrenatural!'
'Está levando esta história muito a sério.'
'Estou sendo precavido!' Ele falou antes de começar a recitar um mantra de proteção, bateu no peito três vezes e circulou a cabeça cinco vezes com a mão resmungando alguma coisa. Depois parou e fitou Li. 'Não vai fazer o mesmo?'
'Eu não acredito em orações. Rezei durante dez anos para sair do inferno e ninguém me ouviu. Não será gora que as coisas irão mudar.' Respondeu com a voz ressentida. 'Vamos logo, Yamasaki. Isso está virando palhaçada. Ela deve ser só uma garota.'
Li abriu a porta e viu que o ambiente continuava escuro. Yamasaki pegou uma vela que iluminava o corredor e estendeu a frente sem coragem de entrar no quarto. 'Ela deve estar esperando que entremos para devorar nossas cabeças.'
'Você é um covarde!' Li soltou entrando no quarto. Pegou a vela de Yamasaki e estendeu a frente iluminando por completo o quarto. Arregalou os olhos vendo o corpo pequeno encolhido num dos cantos do cômodo. Ela ainda estava com a camisola molhada e suja de sangue. Li deu um passo na direção dela, mas Yamasaki segurou o braço do seu capitão.
'Pode ser uma armadilha.' Sussurrou.
'Para de besteira!' Falou puxando o braço e caminhando até a garota. Abaixou a frente de Sakura apoiando um dos joelhos no chão, observando-a. Ela não se mexia. Estava com a cabeça baixa e os braços estendidos ao lado do corpo, mostrando que estava dormindo ou inconsciente. Com uma das mãos pegou o queixo da jovem levantando a cabeça dela para ver melhor. Constatou que ela estava realmente inconsciente.
'Venha até aqui, Yamasaki. A garota está sem sentidos.'
Temeroso o rapazinho aproximou-se parando ao lado do seu capitão. 'Está desmaiada?'
'Sim. E está fria como uma morta. Talvez não passe desta noite.' Li sentenciou. 'Seu terrível monstro está mais para um cachorro de rua do que para devoradora de cabeças.'
Li entregou a vela a Yamasaki. Pegou Sakura nos braços e a levou até seu aposento que estava mais quente pela iluminação. Yamasaki acompanhou-o ainda falando que deveriam ter cuidado com ela, que poderia apenas estar fingindo fraqueza.
'Yamasaki!' Li o interrompeu de continuar sua ladainha. 'Traga-me cobertas mais quentes, por favor.'
'Não deixarei o senhor sozinho com ela!' Ele respondeu contrariado.
'É uma ordem!' Ordenou com a voz enérgica, mostrando que não aceitaria mais conselhos do pirata. Yamasaki afastou-se ainda reclamando. Li o observou caminhando pelo estreito corredor e saindo pela porta. Rapidamente pode se escutar o barulho da torrencial chuva que não parava de cair no lado de fora.
O pirata depositou a jovem na sua cama e olhou para ela. Deveria aquecê-la o quanto antes.
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Sakura acordou ouvindo barulho de vozes. Não teve coragem de abrir os olhos com medo do que poderia ver. Sentia o corpo dolorido, mas aquecido. Estava numa cama confortável. Ouviu passos seguindo em sua direção e quando alguém sentou-se na cama onde estava, tremeu.
'Já sabe de quem é o navio?' Era a voz daquele atrevido, Sakura pensou irritada.
'É do império, capitão.' Ela escutou a voz de um rapaz, do mesmo que lhe entregara a capa para se cobrir.
'Isso eu já sei pela bandeira, Yamasaki! Não insulte a minha inteligência.'
'Desculpe-me, senhor.' Ele consertou rapidamente.
Li riu um pouco. 'Estou perguntando quem era o nobre ou o diplomata que estava sendo transportado.'
'Ah sim, era o senhor Kinomoto Fujitaka.'
'Kinomoto...' Li repetiu. 'Já ouvi falar dele em terra. É um dos conselheiros direto do imperador. Agora entendo porque havia tantos soldados escoltando-o. Apesar de que aquele bando de inúteis não serviu de nada para o nosso bom homem. Ele soube defender-se melhor do que todos os outros juntos.'
'A jovem é a filha dele. A senhorita Kinomoto.'
'Ah sim agora ela tem nome!' Falou Li rindo-se. 'Ontem a noite era devoradora de cabeças de homens!'
'Talvez ela esteja na forma da senhorita Kinomoto.' Defendeu-se Yamasaki rapidamente.
'Posso lhe garantir que ela é uma mulher normal.' Li falou levantando-se da cama. 'Normal, não. Uma belíssima mulher.'
'Eu sei.' Yamasaki concordou sorrindo maliciosamente. 'Ontem a noite deu para ver as formas generosas que...' Ele foi interrompido por um cascudo na cabeça.
'Não deveria falar assim de uma senhorita.' Li censurou-o. 'Agora vamos logo vistoriar o navio.'
Sakura escutou os passos dos dois homens e a porta abrindo e sendo trancada logo em seguida. Abriu os olhos, receosa, virando-se devagar para observar onde estava. Era um cômodo espaçoso e aconchegante. Podia até observar, uma certa elegância nele. Levantou-se devagar sentando na cama, quando percebeu que estava nua. Cobriu-se rapidamente sentindo o corpo tremer. Havia sido violada. Levou uma das mãos a boca impedindo um grito de pânico. O que seria dela agora? Porque não havia morrido?
Sentiu as lágrimas quentes descendo sobre o rosto machucado e chegando aos seus lábios. Não sabia o que fazer agora. Enrolou-se na manta e caminhou devagar até a janela para ver onde estava. No lado de fora dava para ver o navio onde até ontem a noite estava com o pai. Agora ele estava morto. Seus pensamentos foram interrompidos pela porta abrindo por trás de si.
'Então já acordou.' Ele falou caminhando até a cama e jogando um vestido. 'Mandei que pegassem para se vestir.'
'Para o que eu sirvo, não preciso me vestir.' Falou com a voz sarcástica, reconhecendo a voz do homem que a desgraçou. Recusou-se a fita-lo. 'Assim poupo-lhe trabalho, não acha?'
Li cruzou os braços sobre o peito olhando para a garota que secava o rosto com a manta que a cobria. Ela permanecia de costas provavelmente para que ele não a visse chorando.
'Vista-se. A não ser que prefira encontrar com vosso pai enrolada a uma manta.'
Ela virou-se para ele surpresa. 'Meu pai? Ele está vivo?'
'Lutei apenas uma vez contra ele e já sei que ele não é homem de morrer com aquele ferimento. Admira-me você pensar assim.'
Ela não pode esconder um sorriso de felicidade ao saber que seu pai estava vivo. Correu até o vestido o pegando e olhou para Li engolindo em seco.
'Vire-se.' Ordenou com voz altiva. Poderia estar em desvantagem, mas não permitiria que ele a fizesse aceitar aquela situação de amante. Syaoran cerrou os olhos nela. Realmente era uma estúpida nobre, estava até ontem a um passo de morrer como um cachorro sem dono e agora o olhava com superioridade e lhe dando ordens.
'Está em meu navio. Quem manda aqui sou eu.' Falou com a voz baixa. Viu-a franzir a testa e divertiu-se ainda mais vendo os olhos verdes transmitirem raiva. Ela virou-se de costas e deixou que a manta caísse ao chão revelando a ele seu corpo. Li sentiu a garganta secar fitando as costas nuas da jovem. Estava com várias manchas roxas sobre a pele clara, mas por nem um segundo haviam tirado a beleza daquela mulher. Sakura vestiu-se o mais rápido que pode voltando a ficar de frente para ele.
'Estou pronta.'
Li piscou algumas vezes. Tentando reprimir a vontade de jogar aquela garota na cama e tirar-lhe o vestido que acabara de vestir. Suas calças apertadas avisavam-no de que para aquilo acontecer não custava muito. Ela passou por ele caminhando com o porte altivo de uma dama, mesmo mancando. Li abriu a porta dando-lhe passagem. 'É bom não cometer graçinha alguma. Estão ansiosos para enviar alguém para a prancha e Kal e Bunai estão loucos para que eu escolha você.'
Sakura nem ao menos dirigiu um olhar para ele. 'Quero apenas encontrar o meu pai.'
Os dois antagonistas caminharam até a proa do navio. O mar estava calmo como um lago depois que a tempestade havia terminado. E o céu estava límpido. Sakura deu alguns passos e encontrou logo a multidão de homens em volta de um pequeno grupo uniformizado, que estavam sentados no chão. A jovem não conteve a alegria ao ver entre eles o velho senhor Kinomoto. Correu até o grupo ajoelhando-se a frente do pai e o abraçando com carinho. Fujitaka soltou um expressão de alegria ao ver a filha, infelizmente, estava impossibilitado de abraçá-la, pois suas mãos estavam presas para trás.
'Papai! Pensei que tivesse me deixado.' Ela falou abraçando forte o senhor.
Fujitaka mal conseguia falar tamanha era sua emoção ao ver a filha. Ele também havia imaginado que tivesse perdido-a para sempre. Não era justo perder sua amada esposa, depois seu filho e agora tirarem sua menina. Nunca havia se revoltado contra sua má sorte até noite passada quando imaginou que nunca mais veria sua pequena flor.
Ela afastou-se dele fitando-o com carinho. 'E o ferimento?' Perguntou descendo os olhos para o abdômen do senhor onde havia uma larga faixa envolvendo-o.
'Um rapazinho ajudou-me. Ele disse que você estava bem. Pensei que fosse mentira, mas agora vejo que deveria ter confiado em sua palavra.'
Ela sorriu novamente abraçando-o com carinho, mal contendo a felicidade de saber que não estava sozinha no mundo. As vozes dos piratas chamaram a atenção de Sakura que se afastou do senhor olhando para o que acontecia.
'O senhor prometeu que um iria para a prancha!' Um dos piratas exclamou para seu capitão que estava observando as riquezas que eles haviam trazido do navio imperial.
'Não tenho interesse nenhum em matar estes homens. Já pegamos tudo que havia de valor e isso é que importa.' Respondeu Li pegando algumas moedas de ouro para verificar sua autenticidade.
'Irá soltá-los?' Outro questionou revoltado.
'O que eu faço ou não é problema unicamente meu. Acho que ninguém gostaria de me contrariar, não é?' Falou encarando o grupo que resmungava.
'Eles são vermes, capitão! E perdemos alguns companheiros neste ataque precisamos vingá-los.' Outro pirata se pronunciou aproximando-se de Li.
'Eles também perderam muitos homens.' Li respondeu observando o grupo. 'Yamazaki'. Chamou seu braço direito que correu até seu encontro. 'Quanto acha que conseguimos?'
O rapazinho coçou um pouco a cabeça ganhando tempo para calcular. 'Acho que umas mil moedas, considerando que conseguiremos vender as armas e as peças de valor.'
Li balançou a cabeça de leve. 'É uma boa quantia. O que tinha no cofre?'
'Não conseguimos abri-lo, capitão.'
'Não?' Li franziu a testa mostrando que estava contrariado em ouvir aquilo. 'Tentaram dinamite?'
Yamazaki balançou a cabeça. 'É uma pequena caixa forte. E se tiver notas? A caixa é pequena, temos o risco de perder tudo que há dentro.'
Um sorriso maldoso se desenhou nos lábios do pirata. 'Caixa forte? O que será que tem de tanto valor e pequeno assim para vir numa caixa forte?'
O rapazinho de olhos fechados sorriu. 'Algo de muito valor.'
'Pedras...'
'Talvez esmeraldas ou diamantes! Ou quem sabe ainda...' O rapazinho calou-se observando o capitão. 'Quando maiores... mais valiosas. Não podemos correr o risco de fraturá-las.'
Li bateu uma mão na outra entusiasmado. Caminhou até o grupo de prisioneiros e encarou Fujitaka. Sakura estava a sua frente ainda observando o pai. 'É uma pena interromper tão emocionante encontro entre pai e filha.' Começou com o tom debochado enquanto rodava a espada na sua mão direita como se estivesse brincando com ela. 'Mas temos assuntos muito importantes para serem discutidos, senhor Kinomoto.'
Sakura virou-se para o pirata com o rosto fechado. 'Meu pai não tem assunto nenhum a tratar com você, verme.'
'Sakura, acalme-se...' Fujitaka tentou controlar o gênio da filha.
Li fechou o sorriso debochado encarando a jovem. 'Cale-se ou eu cortarei sua língua, mulher.'
'Experimente.' Desafiou-o levantando-se e encarando-o com os olhos em chamas.
Li não pensou duas vezes, levantou a mão batendo forte no rosto da jovem que foi ao chão a frente do pai.
'Por sua mãe, Sakura! Controle-se!' Fujitaka gritou assim que viu que a filha se levantaria para desafiar novamente o pirata o que resultaria na sua morte. Ela virou o rosto marcado fitando seu pai que tinha os olhos rasos de lágrimas. 'Se eu a perder, morrerei de desgosto.'
"Quando souber o que ele fez a mim durante a noite, também morrerá papai." Ela pensou com pesar. Li observou pai e filha fitando-se e teve uma ótima idéia. Pegou Sakura pelos cabelos levantando-a, a jovem gritou levando as duas mãos até as do pirata que segura com força seus fios.
'Não faça mal a ela! Por Deus! Eu lhe dou tudo que quiser!' Fujitaka exclamou assustado.
'Acho que estamos começando a nos entender.' Syaoran concluiu sorrindo novamente. 'Onde está a chave da caixa forte?'
Fujitaka arregalou os olhos, na caixa forte não havia nada de valor material, e sim documentos imperiais que deveriam ser entregues para o novo governador de Tomoeda. O imperador havia confiado a ele aqueles papéis que dariam a quem os tivesse poder sobre o condado. Aquilo não poderia cair nas mãos de um malfeitor. 'Não há nada de valor.'
Syaoran sorriu cinicamente. 'Quem define valor aqui sou eu, senhor Kinomoto. Mas vou lhe dar uma chance de entender o meu raciocínio.' Disse caminhando até a prancha arrastando Sakura que tentava livrar-se dele. Soltou-a empurrando a garota forçando-a a dar alguns passos pela estreita tábua de madeira. Ela olhou assustada para baixo observando a altura que estava, por alguns segundos sentiu o ar fugindo de seus pulmões. Voltou-se para trás observando Li que tinha um dos pés na tábua e a encarava com sarcasmo. Li balançou um pouco a prancha fazendo a jovem quase perder o equilíbrio. Ela não queria chorar na frente deles, mas não sabia o que fazer. Olhou para a imensidão do mar e não viu nenhuma via de escape, como um trecho de terra, para onde pudesse escapar para sobreviver. Se caísse no mar, morreria.
'Agora me diga, senhor Kinomoto. O que vale mais: a vida de sua filha ou o que está dentro da caixa forte?' Perguntou encarando a face pálida do nobre.
Vendo-o sem reação alguma, o pirata virou-se para a jovem que tinha um olhar de pânico. 'É uma pena que seu pai não dê tanto valor assim para uma filha tão bela.'
'Porco...' Ela soltou entre os dentes.
'Vou contar até dez para que tenha dignidade e pule. Ou vamos empurrá-la!' Ele zombou. 'Mas é claro que seu pai pode evitar este sofrimento dizendo a nós onde está a chave que abre a caixa forte.' Completou virando-se novamente para o nobre.
'Dez é muito capitão!'
Li virou-se para o pirata que havia falado e lhe lançou um olhar tão furioso que o fez calar-se e dar uns passos para trás desculpando-se.
'Dez é a tradição! Bem, vamos começar a contagem?'
'Tenha piedade! É só uma menina!' Um soldado gritou desesperado.
Li virou-se para o rapaz que havia gritado e sorriu de lado. 'Podemos fazer uma troca, o que acha soldado? Gostaria de trocar de lugar com a senhorita Kinomoto?'
'Vamos colocar os dois na prancha, capitão!' Um dos piratas deu a idéia que foi aceita pela maioria.
'Nada disso, senhores! A prancha é algo individual! Vamos deixar que o jovem e corajoso soldado passe por ela depois que a senhorita pular.'
Sakura engoliu em seco sentindo a respiração falhar. Só em imaginar o que ele tinha feito a ela começava a achar que realmente seria melhor se jogar no mar. Quem sabe pelo menos ele teria a dignidade de não contar o ocorrido para seu pai para que o senhor não morresse de desgosto.
'Um... dois...' Li começou a contagem. Sakura deu um passo à frente tremendo. O homem parou de contar observando a garota.
'Três!' Gritaram os piratas. 'Quatro! Cinco! Seis!'
'Eu posso morrer agora, mas juro que eu ainda o verei queimar no inferno.' Ela falou entre os dentes, sentindo lágrimas nos olhos.
Li de maldade balançou um pouco mais forte a prancha fazendo a garota cair de joelhos na madeira e desesperar-se mais ainda.
'Seis!' Os piratas continuaram mal se controlando de ansiedade para ver a garota cair no mar. 'Sete!'
'Eu abro!' Fujitaka gritou a plenos pulmões. Estava traindo a confiança de seu imperador e faltando com sua palavra para com o representante supremo de seu país, mas não podia perder a filha. Ela era tudo o que tinha. 'Mas, por favor, poupe minha filha! Por Deus!' Suplicou ficando de joelhos.
Li sorriu de lado e virou-se para Sakura que observava o pai. 'Acho que ainda não será desta vez, querida.'
'Não me chame de querida, seu ladrãozinho.' Ela falou entre os dentes.
'Chamo-a como bem entender, que-ri-da.' Subiu na prancha e pegou-a pelo braço novamente, puxando-a para dentro do barco terminando assim com a diversão dos homens. 'Tragam a caixa forte!' Ordenou jogando Sakura perto do pai. A garota tremia de ódio.
Dois fortes piratas aproximaram-se trazendo o cofre trabalhado em ferro. Deixaram o objeto entre Li e os Kinomoto. O capitão caminhou até ele e colocou um dos pés sobre a caixa olhando para eles. 'Estou ansioso, senhor Kinomoto. E posso garantir que meus homens também para que sua belíssima filha vá ao mar.'
Sakura franziu a testa encarando-o. 'Juro que ainda verei sua vida esvair-se lentamente pelas minhas mãos, pirata.'
No entanto Syaoran sorriu debochando. 'Ainda tem o direito de sonhar, senhorita.' Virou-se para Fujitaka. 'Onde está a chave?'
O senhor deu um longo suspiro. 'Sakura, o quadro de sua mãe, por favor.'
A jovem virou-se para o pai. 'Mas papai... o imperador...'
'Faça o que estou pedindo em silêncio, Sakura.' Ele falou de forma enérgica olhando para filha. Ela tinha que controlar seu gênio enquanto ainda estavam nas mãos dos malfeitores.
Sakura levantou-se encarando Syaoran. 'O quadro está no nosso navio. Uma jovem de cabelos negros...' Falou contrariada.
Li estalou o dedo e logo um pirata correu para buscar o retrato. Ficaram em silêncio esperando. Logo a pintura estava nas mãos do pirata que observou a figura daquele anjo. Por alguns segundos ficou apenas admirando a bela mulher, levantou os olhos fitando a jovem a sua frente e reparou como eram parecidas, tinham os mesmos olhos verdes belíssimos.
'Posso?' A jovem perguntou estendendo o braço para pegar o pequeno quadro. O pirata entregou para a jovem que o virou e abriu um pequeno compartimento que havia na parte de trás da moldura do quadro. Syaoran sorriu vendo um interessante esconderijo.
A jovem apertou o quadro com a figura materna contra o peito pedindo silenciosamente para que ela a protegesse e o pai. Ajoelhou-se em frente a caixa forte para abri-la. Assim que virou a chave na fechadura, Li a empurrou fazendo Sakura cair sentada ao lado de Fujitaka e puxou a caixa forte para ver o que tinha dentro. Olhou desconfiado para o monte de papéis, não era isso que esperava. Pegou um pergaminho e o abriu olhando para o papel timbrado do império.
Sakura sorriu de forma irônica. 'Decepcionado?' Li tirou os olhos do papel e a fitou. 'Vai me obrigar a ler já que provavelmente não sabe fazer isso?'
'Cale-se ou eu mesmo a jogarei do navio.'
Ela calou-se, mas manteve o sorriso vitorioso, sabendo que o infeliz não sabia nem o que tinha em mãos. Li voltou sua atenção para o papel e arregalou os olhos de leve.
'Hiraguizawa?' Falou em voz alta sentindo o sangue correr de forma rápida por suas veias. Levantou os olhos que tremiam de fúria. Caminhou até Fujitaka com o papel nas mãos. 'Eriol Hiraguizawa foi nomeado pelo imperador governador de Tomoeda?'
Fujitaka e Sakura arregalaram os olhos fitando o pirata irado à frente deles. A jovem decepcionada em saber que ele sabia ler e o senhor não entendendo o interesse dele no jovem nobre.
'Respondam!' Gritou pegando Fujitaka pelo colarinho e levantando-o
'Solte meu pai!' Sakura pegou o braço do rapaz, fazendo-o soltar o senhor. Encararam-se de forma raivosa.
'Estou cheio de você.' Li gritou desvairado.
'Sim! Ele será o governador de Tomoeda e quando souber o que está fazendo com o representante do imperador irá lhe caçar como um rato!' Ela falou mais alto ainda encarando-o.
Li respirou fundo apertando com força o pergaminho imperial. Tinha os olhos cravados em Sakura e ela pode perceber que suas mãos tremiam. Nunca sua curiosidade fora tão aguçada. Qual a relação do pirata com o nobre?
Li soltou vários palavrões amaldiçoando o império por escolher um homem como Hiiraguizawa para representar o imperador. Yamasaki parou ao lado do amigo. 'Está na hora de esquecer, Li...'
'NUNCA!' O rapaz gritou. Ele voltou a caminhar de um lado para o outro impaciente. Não poderia permitir que o porco do Hiiraguizawa, depois de tudo que havia feito, se tornasse o governador de sua terra. Cerrou os punhos tentando controlar a vontade de socar todos os soldados para descontar sua raiva. Até que de repente parou abrindo os olhos e fitando o céu límpido. "Não se enfrenta um inimigo com armas, mas sim com inteligência e sabedoria. A pior vingança não é a morte física, mas a morte da alma. Não há sentimento mais repulsivo que a humilhação, principalmente quando se é humilhado por quem já humilhou." Aquelas palavras do velho Clow invadiram a mente de Li. Poderia jurar que estava à frente do seu velho mestre. Respirou fundo pensando que estava na hora de colocar seus planos em prática, estava na hora de fazer Hiiraguizawa pagar por tudo. Fitou rapidamente Fujitaka e Sakura que estavam sentados no chão a frente da pequena tropa de sobreviventes olhando assustados para a reação do capitão do navio pirata.
'Yamasaki. Por favor, leve o senhor Kinomoto para um lugar mais confortável. Precisamos conversar em particular.'
Continua.
N/A:
FELIZ NATAL!!! Totalmente atrasado, mas sabe como é, né? Final do ano é uma época muito complicada! Mas aí está o capitulo 2 de PdF! Sei que o Syaoran está um pouco mauzinho demais, mas ele agora é um pirata! Imaginem aquele homem tudo de bom com a pele bronzeada, cabelos compridos, barba por fazer... ai ai ai... se eu encontrasse um deste debaixo da minha arvore de natal eu não reclamaria!
Não vou prometer postar logo o próximo capitulo pois ele vai depender de uma série de acontecimentos nas próximas semanas, mas ele já está encaminhado! Logo vocês terão uma surpresa grande com o rumo da história. Já deixei alguns mistérios que envolvem nosso capitão pirata no ar, será que Sakura conseguirá desvenda-los? A curiosidade de nossa lady já foi atiçada!
Gostaria de agradecer novamente a minha querida amiga Rô e a todos vocês que deixaram reviews e mandaram e-mails comentando sobre o fic. Vcs não tem idéia de como isso é importante para mim, este carinho e incentivo de vocês. Desejo a todos, um Ano Novo repleto de realizações, alegrias e amor.
Beijos
Kath
