Capítulo 1 – Primeira Visão
Estação de King's Cross, Plataforma Nove ¾.
Eu estava plenamente consciente de que hoje eu iria pela primeira vez embarcar no expresso para a escola de magia e bruxaria de Hogwarts. Estava plenamente consciente que deixaria meus pais e só voltaria a vê-los meses depois. Estava plenamente consciente que eu estava morta de medo e ansiedade. E, acima de tudo, tinha consciência que essa ansiedade não iria diminuir se continuasse a ficar pensando no que eu ia passar lá.
Meu tio Harry, estava conversando com meus pais, eu não prestava muito atenção. Devia ser engraçado, agora pensando, você ter vindo a esta estação que eu estava agora como um aluno, e anos depois, você voltar, para deixar o seu filho nela. Como se fosse uma coisa transpassada de geração em geração. Mas é uma besteira eu pensar isso, afinal, isso não é questão de geração, eu vou para essa escola para estudar, para aprender, é minha obrigação, o que é bem semelhando a questão da geração.
Pensamentos inúteis como esse me vieram à cabeça e me absorveram desse mundo durante o diálogo de meus pais com meus tios, agora que tia Gina também entrava na conversa. Era interessante o modo como a convivência de meus pais conseguia ser tão completa. Minha mãe me disse que conheceu meu pai no primeiro ano de Hogwarts, mas só chegou a ter alguma coisa com ele no último ano.
Sete anos. No meio de uma guerra, no meio de uma convivência de sete anos, eles decidem florescer o amor deles. Soou cômico e abafei a risada de meus pensamentos colocando minha mão sobre a boca. Olhei para os lados, ninguém pareceu perceber e rapidamente me recompus.
Passado mais algum tempo, fui detida de meus pensamentos por ouvi meu pai falar meu nome. Como não estava prestando atenção, só consegui captar algo como "Rosinha" e "Você herdou a inteligência de sua mãe", não dei muita atenção, apenas sorri.
Para variar minha mãe o repreendeu, mas a resposta do meu pai me deixou curiosa.
- Você tem razão, desculpe – mas acrescentou para mim – mas não fique muito amiga dele, Rose. Vovô Weasley nunca perdoaria se você casasse com um sangue-puro.
Depois ele olhou rapidamente para o lado e eu acompanhei seu olhar. Uma família não muito longe de onde estávamos embarcava o filho. Era um garoto magro, já vestido com as vestes de Hogwarts, tinha os cabelos loiros e brilhantes e, apesar de estar a uma distância considerável da minha família, podia ver-se claramente que era um rosto fino e superficial, claro que na hora, não deu tempo de pensar em muita coisa, pois James – meu primo mais velho – apareceu e começou a fazer escândalo por que o Teddy Lupin estava se agarrando com Victoire, o que até me arrancou risadas.
Depois das despedidas e entrada, fui com Alvo procurar uma cabine vazia, conversávamos sobre para qual casa iríamos entrar, Alvo dizia que tio Harry falou que não importava a casa, que todas eram boas, mas eu tinha muito medo de acabar na Sonserina, a verdade é que eu queria entrar logo para a Grifinória e acabar logo com isso.
- Alvo, não importa o que tio Harry fale. Papai nunca iria aceitar eu entrando para outra casa se não a Grifinória, muito menos a... – engoli em seco - Sonserina. Ai, Alvo! Estou com medo, e se eu entrar para a Sonserina?
- Não se preocupe Rose, papai disse que você pode escolher pra qual entrar, é só pedir para o chapéu seletor.
- Você pode pedir para que casa entrar?
- Papai disse que o chapéu seletor leva em consideração sua escolha.
Então se eu escolhesse que casa eu preferia ficar ele iria levar em consideração, isso era um alívio para mim. Soltei um suspiro longo, nem podia contar quantas noites fiquei pensando nisso.
- Seu pai escolheu entrar para a Grifinória?
Alvo fez que sim.
- E o chapéu seletor queria colocar ele em que casa?
Alvo hesitou.
- Bem, ele não me falou. Não tenho certeza, mas a Sonserina que não deve ter sido.
Dei de ombros, afinal, não era um assunto muito relevante. Chegamos à última cabine, todas estavam lotadas, nessa última, ao abrirmos, encontramos um garoto magro, loiro e de rosto fino, rapidamente o reconheci como o garoto a quem meu pai me referia, ele estava lendo uma revista qualquer e ao abrirmos o compartimento, levantou os olhos brevemente para depois voltar a ler a revista.
- Oi, todas as cabines estão lotadas... – Alvo o olhou de forma estranha – então, será que podíamos ficar aqui?
- Tanto faz. – o garoto deu de ombros.
Aproximamos-nos e sentei eu à sua frente e Alvo ao meu lado. Alvo hesitou antes de falar.
- Então, ham... Você deve ser Scorpius, estou certo? – seus olhos brilharam um pouco ao falar isso, mas eu não entendi muito bem o por que.
- E a quê te interessa saber ou não quem eu sou? – perguntou o garoto, em um tom seco.
- Entendi agora por que seu pai disse para não virar muito amiga dele. – cochichou para mim.
- Falando em amigo, onde está James? Não o vejo desde aquele escândalo que ele fez lá fora na estação.
- Não sei, mas acho que ele deve estar com uns amigos dele, melhor a gente ficar na nossa, James me disse que não quer que eu o fique seguindo pelo colégio – Alvo bufou – como se eu realmente fosse fazer isso e...
Nessa hora, Alvo parou de falar e encarou o garoto Scorpius que estava nos encarando descaradamente.
- Que foi? – perguntou secamente.
- Você é um Potter?
- E a quê te interessa saber ou não quem eu sou? – perguntou Alvo, com o tom mais frio que eu já o vi usar.
- Não interessa, simplesmente.
- Então por que perguntou?
O garoto abriu a boca e voltou a fechá-la, repetiu o ato algumas vezes até se conformar que não tinha resposta para a acusação, se levantou abruptamente e saiu da cabine, deixando a sua revista para trás. Suspirei e depois me agachei para pegar a revista.
- Melhor você ir lá devolver a revista.
- Eu que não vou devolver a revista desse garoto mal educado.
- Ok... – Alvo me olhou incrédulo com minha aceitação – eu vou. – falei por fim.
Eu ia me levantar, mas Alvo segurou meu braço, me virei para ele.
- Sim Alvo?
Alvo hesitou um pouco antes de falar
.
- Tenha cuidado com esse garoto Rose, - me encarou nos olhos – boa pessoa ele não deve ser.
- Ok, se acalme, só vou devolver a revista do menino.
Alvo relaxou o aperto e eu me soltei dele, sai da cabine batendo a porta e andei pelos corredores a procura do garoto.
Quando estava no terceiro vagão, vi a figura de um garoto magro e loiro abrindo uma cabine e entrando nela, corri, quando cheguei à frente da cabine, hesitei, mas por fim a abri para encontrar outra cabine vazia apenas com uma figura fina e nublada, como nuvens em forma de carneiros.
O garoto levantou a cabeça e me olhou incrédulo, me aproximei um pouco e estendi a revista sem hesitar.
- Ham, você deixou essa revista lá na cabine.
Ele pegou a revista bruscamente da minha mão e não falou nada, me encarou por um tempo e eu me senti revistada com aquele olhar cinzento e penetrante, o garoto tinha olhos exóticos, nunca havia visto olhos tão nublados e ao mesmo tempo tão penetrantes. Passei um tempo encarando aqueles olhos até que o garoto quebrou o contato e virou bruscamente a cabeça, depois balançou ela como se estivesse expulsando um pensamento indesejoso de sua mente, coisa impossível, e seu nublado se refletiu no vidro da janela, quando ele virou a cabeça para a mesma.
Fiquei parada, apenas observando, o garoto parecia tão sozinho, tão triste. Tive uma vontade repentina de acolhê-lo, de conhecê-lo, de saber o que estava pensando, mas meus pensamentos foram interrompidos quando uma voz seca entrou em meus ouvidos, penetrante.
- Que você ainda faz ai?
Levei algum tempo para raciocinar, por fim falei uma razão que passou rápida por minha mente.
- Estou esperando você me agradecer.
- Está esperando um milagre.
- Por quê?
- Por que não vou agradecer você, nunca.
- Não diga nunca, por que nunca é uma palavra muito vaga. – sorri sarcástica. Nesse momento me passou uma idéia que eu não hesitei em usar.
Entrei na cabine, fechei a porta e sentei no banco na frente do garoto. Ele me olhou de esgueira e eu o dei um sorriso extremamente falso.
- Que é que você quer garota? – ele falou isso com extrema repulsa.
- Gratidão, é isso que eu quero, e não saiu daqui até recebê-la. – cruzei os braços e fechei o sorriso.
- Você não vai receber nada meu, Potter.
- Não sou Potter.
- Não? Então é o que? Pottar? – falou emburrado.
Ri do comentário, a raiva dele era evidente.
- Sou Rose Weasley.
- Ah, claro, uma Weasley, se não é Potter, é Weasley. Mesma coisa, um bando de traidores de sangue!
- E você é Scorpius, certo? Scorpius o quê? – ignorei seu comentário.
- Malfoy. – falou mais emburrado.
- Ah, claro. Um Malfoy! Entendi agora o comentário de meu pai e o tratamento de meu primo.
- Hã? Que comentário?
Corei furiosamente, me levantei de um salto e sai do vagão sem me atrever a olhar para ele. Já fora do vagão, me encostei à parede do corredor e dei um longo suspiro. Por que eu fiz aquilo? Por quê? Afinal, eu poderia simplesmente mentir. Meu coração deu um salto mortal e eu me agarrei a uma nova idéia. Esperei um bom tempo e depois eu voltei à cabine, sem hesitar, rápida e composta, como minha mãe dizia para eu fazer.
O garoto, a me ver, fez uma cara de espanto que logo mudou para desprezo. Ignorei a cara dele, ignorei os seus olhos de raio X e me conformei em apenas sentar e ficar quieta.
Passou-se algum tempo, o garoto parecia ficar lutando atrás da revista de tanta agitação, em certos momentos, não sei dizer, ouvi alguns suspiros quase inaudíveis. Então ele fez uma coisa que eu não esperava fazer, abaixou a sua revista e me encarou, não fez mais nada, parecia hesitante, mas ficou me encarando como se apenas isso me fizesse sair da cabine. A verdade é que eu estava bastante desconfortável.
- Então, por que você voltou? – acho que o que ele queria perguntar era o porquê de eu sair correndo, mas também acho que o orgulho do magricela era muito grande para se rebaixar a tal ponto.
- Só fui ao banheiro, disse para você que não iria sair da cabine até que você me diga obrigado. – dei de ombros, ele não pareceu acreditar na minha desculpa esfarrapada, a verdade é que eu estava me divertindo com ele, além disso, se eu fosse ficar com Alvo, ele provavelmente ia ficar falando de Quadribol se parar, não que eu não goste de Quadribol, mas não era bem o que eu queria agora.
- Hum, então, Rose Weasley, - ele falou meu nome com certo desprezo – filha de traidores de sangue, - fez uma careta – por que o comentário sobre a minha família?
- Comentário? Que comentário? Não fiz comentário sobre a sua família. – me fiz de desentendida.
- Ah, não é? Pois eu me lembro de você ter dito que seu pai comentou algo sobre mim, e quando falei que era um Malfoy, você falou que só podia ser.
Engoli em seco.
- Haha, como se você não tivesse feito o mesmo quando eu disse que eu era uma Weasley. – lancei a ele um olhar de superioridade.
- Não me olhe assim, sua anãzinha, como se você fosse muito maior do que eu! – ele me retribuiu com um olhar muito mais potente.
Meu sangue ferveu e eu tive vontade de dar um tapa na cara daquele palito com peruca de Barbie. Passou-se algum tempo com a gente se encarando, até que eu decidir fazer uma coisa que qualquer Weasley sempre faz: ser gentil com aqueles que não merecem.
- Olhe, - suspirei fundo – sei que nossos pais têm um passado meio... – olhei para seus olhos, estavam repletos de escárnio – conturbado.
- Haha, conturbado é pouco, Weasley.
- Mas nós não somos eles e não precisamos levar isso à diante, podemos pelo menos conviver pacificamente... – ignorei o que ele falou, estava ficando boa em ignorar o que ele dizia – então... De acordo? – estendi a mãe para ele em sinal de paz.
Ele hesitou um pouco, depois pegou minha mão e a virou para que ficasse de costa para minha palma, esperei pelo que ele ia fazer, ele olhou para minha mão e seus olhos vagarosamente se levantaram para os meus. O que ocorreu foi muito breve. Senti como se eu tivesse pisado em uma tomada e levasse um choque que subiu até o topo de minha cabeça, ofeguei um pouco e depois virei meu rosto para o lado, quebrando o olhar. Ele pareceu acordar e balançou mais a cabeça. Olhou para a minha mão de novo e como se nunca tivesse tido pior idéia contraiu os lábios e cuspiu nela, depois sorriu triunfante, mas reparei que não se atreveu a me encarar nos olhos novamente.
Passei um tempo olhando para minha mão, ele a soltou e ela estava escorrendo saliva. Depois aproximei a mão de minha blusa e a limpei como se tivesse derramado qualquer coisa.
- Você só vai conseguir isso de mim, Weasley.
Olhei para ele, desaprovadora. Às vezes achava que eu era muito madura para a minha idade, afinal, eu tinha onze anos. Talvez, mas eu descobri depois que a verdade é que eu me comparava às pessoas erradas.
- Estou vendo que sim. – depois disso eu me levantei e me retirei da cabine, o deixando sozinho.
Essa foi a minha primeira conversa com Scorpius Malfoy.
Depois de sair da cabine, fui à procura de meu primo, afinal, não queria ficar sozinha. Estava andando pelos vagões distraidamente, pensando na conversa que tive com o Malfoy. Ele parecia o típico garoto sonserino. Lembrar disso me fez pensar que se eu fosse para a Sonserina, além de ter de agüentar meu pai, ia ter que conviver com pessoas como o Malfoy. Definitivamente eu não iria querer ir a Sonserina.
Estava tão distraída que não percebi a presença de outra pessoa no corredor. Convenientemente, com minhas grandes capacidades de equilíbrio e atenção, ao me esbarrar na pessoa não só cai como também acabei por rasgar as vestes do garoto.
- Ah, Merlin! Desculpe-me! Eu estava tão distraída que nem percebi que tinha alguém andando aqui, me desculpe!
O garoto se levantou e limpou as vestes, tinha um pequeno buraco na capa que eu fiz quando me segurei para não cair de costas com força.
- Não tem problema, eu conserto isso depois. – apontou para o rasgo na capa ao perceber que eu estava o encarando com preocupação – quer ajuda ai?
E então eu percebi que estava no chão, de pernas abertas e em uma posição extremamente desconfortável. O garoto ergueu a mão para eu segurar, eu aceitei de bom grado.
- Obrigada, - percebi que ele usava uma gravata vermelha e dourada – então, de que ano você é?
- Hã? Ah! – ele pareceu despertar de um longo pensamento – Segundo, estou no segundo. Nunca te vi na escola, deve estar entrando esse ano, já tem noção de para onde quer entrar? A propósito, eu sou Quinnity, Quinnity Wood.
- Sim, já tenho, quero ir para a Grifinória. A propósito, sou Rose Weasley.
- Rose Weasley? Filha de Ronald e Hermione Weasley?
- Er, a própria. – soltei uma risadinha desgostosa.
- Que legal! Que tal você sentar comigo e meus amigos Rose?
- Claro! Quer dizer... Pode ser. – dei um sorriso fraco – mas antes eu queria encontrar o meu primo.
- Quem é seu primo?
- Alvo Severo. – respondi, tomando cuidado para não dizer que era um Potter, não queria pessoas que ficassem nos atormentando com isso.
- Alvo Severo Potter? – o olhei com surpresa – Ele esta lá na nossa cabine com o James.
- Você é amigo do James?
- Ah, sim, claro. Acho que o James não ia se incomodar de eu a levar para lá. O Alvo parecia preocupado quando entrou na nossa cabine.
Ai eu lembrei o que tinha acontecido e que ele devia estar me esperando há horas enquanto eu ficava esperando um "obrigado" da Barbie com aplique.
- Meu Merlin. – murmurei – Quinnity, onde esta a sua cabine?
- Ah, é dois vagões mais para trás. Eu ia lá à frente ver se a moça com os doces estava para eu comprar logo, por que não vem comigo?
- Não sei... – estava pensando que quanto mais rápido encontrasse Alvo e explicasse o que aconteceu, mais rápido eu ia me livrar do peso nas costas.
- Vamos Rose, ninguém vai morrer, além disso, você não sabe como chegar ao vagão só. Quer algum doce? – sorriu para mim. Agora que eu reparei como ele era fisicamente. Um garoto alto de cabelos castanhos claro, tinha os olhos azuis marinho, seu sorriso era muito bonito.
Corei um pouco e abaixei os olhos para o chão.
- Hã, na verdade eu ia comprar uns sapos de chocolate.
- Então eu compro pra você! – sorriu mais ainda, agarrou meu braço e me puxou para acompanhá-lo.
- Quinnity, isso não é justo. Eu rasgo sua roupa e você que vai pagar meus doces? – dei um risada, já sentia como se o garoto fosse meu amigo há anos.
- Não se preocupe com a roupa. Além disso, só de você estar indo comigo já é um pagamento, certo?
Corei furiosamente com o comentário, por fim cedi.
Depois de comprar os doces, Quinnity me levou à cabine onde estava Alvo e James, ao entrarmos nela, Alvo pulou do banco e me agarrou, começou a fazer um escândalo.
- Rose, sua idiota! Eu fiquei por duas horas esperando você voltar! Você me disse que só ia entregar a revista para ele, o que diabos você estava fazendo durante esse tempo todo? – parou para respirar, estava todo vermelho.
- Eu... Eu não... – o olhei e vi que não dava para mentir nessa hora, por fim falei a verdade – Eu estava na cabine com o Malfoy.
Se Alvo estava vermelho, agora ele estava com uma cor que não era existente no dicionário de cores.
- VO-VOCÊ O QUÊ? – Alvo deu um berro tão alto que fez todos que estavam na cabine darem um salto.
- Calma aí maninho, aposto que deve ter uma ótima explicação para tudo isso, certo Rosalinda? – James sorriu para mim, aquele sorriso que só ele conseguia dar, que me fazia derreter todinha.
James era tão lindo, com seus cabelos castanhos e bagunçados, com seus olhos levemente melados com um tom próximo a acaju, assim como o da tia Gina. Quando ele sorria para mim o mundo parava e só existia ele e eu, claro, mais ele do que eu. Eu parei tudo, esqueci de tudo que estava acontecendo para contemplá-lo, fazia tanto tempo que eu não o via, quer dizer, sem contar quando ele fez aquele escândalo na plataforma, eu mal o vi, estava totalmente absorta em pensamentos, mas agora que parava para olhá-lo dava para perceber como ele tinha mudado. Estava mais bronzeado pelo sol que pegou na viajem que fez com sua família, suas sardas estavam mais destacadas, o sorriso mais brilhante, estava mais alto e esbelto, estava lindo.
- Rosalinda? Ta me ouvindo? – James tirou o sorriso do rosto e me encarou preocupado, ele estava preocupado comigo, que amor.
- JAMES! – dei um grito e pulei no pescoço dele, para abraçá-lo, como da para ver, eu realmente era louca pelo meu primo. Louca até demais.
- Rose... Tudo bem com você? Faz meses que a gente não se vê, não é? Senti sua falta sabia, pirralha? – sorriu maroto pra mim.
- Não me chame de pirralha, eu não gosto. Além do que, eu só sou um ano mais nova que você, seu chato. – dei um beijo na bochecha dele e depois mostrei a língua. Estava tão absorta em James que me esqueci das pessoas na cabine.
- Hump-hump. – Alvo pigarreou, aquele estraga prazeres.
- Que é Alvo? – perguntei.
- Você ainda não explicou o que estava fazendo na cabine com o Malfoy. – falou.
- É Rosalinda, o que você estava fazendo na cabine do bastardo que teve o pai transformado em fuinha? – James perguntou.
Sai de cima de James e suspirei audivelmente. Olhei para Alvo como se pedisse desculpas e sentei em um dos assentos. Respirei fundo e comecei a contar o que aconteceu, só fui interrompida em um momento.
- O quê? Você perguntou se ele podia ser seu amigo? – Alvo e James estancaram, Quinnity apenas assistia com um sorriso cômico no rosto.
- Não. Eu queria convivência pacífica, só isso, e nem isso ele me deu. – suspirei – que garoto mimado.
- Eu te disse que ele não era uma pessoa boa Rose, você que não quis ouvir. – Alvo fez uma expressão de vitória. Olhei pra ele desaprovadora, o repreendendo.
- Alvo, ninguém é cem por cento ruim.
- Menos o Malfoy. – fez uma cara emburrada.
- Fique você com sua opinião. – falei seca.
- Está defendendo ele, Rose? – James pareceu chocado
.
- Claro que não. Apenas tenho meus princípios. Princípios esses que eu evito mudar apenas pra satisfazer as opiniões idiotas e vagas de seu irmão. – fiz uma pausa para me tocar do que eu acabara de dizer, virei para Alvo – desculpe, sem ofensas, foi só um comentário idiota que eu fiz.
- Tudo bem. – Alvo deu de ombros, era acostumado com isso.
Depois disso não fui interrompida até terminar a história. Ao terminar de relatar o ocorrido (claro que tirei algumas partes, como descrever os olhos do menino ou sentir choques) faltava pouco mais de meia hora para nós chegarmos a Hogwarts, por isso, fomos nos trocar para colocar as vestes da escola. Quando voltei à cabine, só James já tinha voltado, ele parecia absorto em alguma coisa, pois nem quando eu entrei na cabine ele levantou a cabeça.
- O que é isso James? – perguntei curiosa, sentando ao seu lado.
- Não é nada, só uma foto de meus avôs que papai me deu. – guardou a foto no bolso da veste e se virou sorrindo para mim.
Retribui o sorriso.
- Então, já sabe qual casa quer entrar?
- Ai não, mais gente me perguntando isso. – ri da minha desgraça.
- Como?
- Nada, não é nada. Quero ir para a Grifinória, pelo bem dos nervos de meu pai. – claro que a Grifinória parecia uma boa casa, mas não via problema nas outras.
- Sou da Grifinória, se você for de lá, pode andar mais comigo do que de outras casas. – ele ficou um pouco vermelho, mas eu mal reparei.
- É... É outra razão para eu ir.
- Então, posso atrapalhar? – Quinnity entrou na cabine.
Sorri pra ele.
- Não está atrapalhando em nada. – afirmei para ele, apesar de não ser uma grande verdade.
- Hum, certo então. – soou um pouco falso.
- Então... Onde está Alvo? Ele esta demorando bastante. – perguntei.
- Esta com problemas com o zíper. – Quinnity soltou uma gargalhada. – emperrou! A propósito, James, Alvo esta o chamando para ajudá-lo.
James o olhou incrédulo.
- Eu? Por que eu? Você estava lá, devia ter ajudado ele!
- Ora, vamos James. Eu não vou pegar nas calças de um homem desconhecido! – Quinnity levantou os braços como se dissesse uma coisa obvia.
Reprimi um riso.
- E conhecido você pega? – James soltou uma gargalhada. – que bom saber, não vou mais me vestir no dormitório.
- Você entendeu, vai logo.
- Ta bem, ta bem. Agora, se eu voltar com um Alvo gay me acompanhando, você não pode me culpar. Aposto que ele queria você no meu lugar.
Ri abertamente.
- Deixe de ser idiota James, ele é seu irmão, vai logo antes que a gente chegue! – disse.
- Ok Rosalinda, só por que você pediu com tanto jeitinho! – piscou pra mim e saiu da cabine.
- NÃO ME CHAME DE ROSALINDA! – berrei, mas já era tarde, ele não deve ter ouvido.
Depois de James sair, a cabine ficou extremamente silenciosa, virei meu rosto para a janela e fiquei olhando o trem passar pela estrada. As plantas ficavam de um verde borrado e o céu já estava ficando escuro, daqui a pouco o trem ia parar.
- Por que James te chama de Rosalinda? – Quinnity me perguntou.
- Não sei, ele sempre muda meus apelidos, desde que eu era pequena, ele fala que os meus apelidos são baseados em meu estado. – dei um leve sorriso – Teve uma vez que ele me apelidou de Rosguita. Ele me explicou que foi pelo fato de eu gritar demais, sabe? Rose e gasguita. – dei uma risada gostosa – Ele é muito criativo. – disse sonhadora.
- É. Dessa vez ele te apelidou de Rose e linda. Deve estar te achando bonita. – Quinnity sorriu.
Olhei pra ele incrédula. Demorou um tempo, mas eu liguei os pontos afinal.
- Nossa. – só isso que eu consegui dizer antes que Alvo e James entrassem na cabine.
- Olha lá! Nem virou gay! – Quinnity gritou.
- Como é idiota? – Alvo falou.
- Nada, não dê ouvidos para esse retardado, Alvo. – Falou James, depois sorriu pra mim e piscou.
Reprimi o riso com a boca. Alvo me olhou desconfiado e depois de um tempo deu de ombros e sentou. Ficamos conversando besteiras até o trem parar. Olhei para a janela e vi as silhuetas de um imenso castelo através da luz do luar, uma cena digna de um filme. Fiquei apreciando o grande castelo até Alvo me puxar pelo braço falando que tínhamos que sair do trem. Levantei e sai da cabine, andamos até a ponta de um vagão onde tinha uma porta, ao sairmos, James veio até nós dois.
- Olhe, nós vamos de carruagem, mas vocês do primeiro ano vão de barco, então a gente se vê no salão principal, o Hagrid vai acompanhar vocês.
Mau ele terminou de falar quando o guarda-caça de Hogwarts começou a chamar todos os alunos do primeiro ano para acompanhá-lo. Entramos em um barco acompanhado de mais dois alunos, a trilha que percorremos foi breve, achei que vi alguma coisa se mexer embaixo de mim.
- Cuidado com a lula gigante!
Rapidamente tirei o braço de perto da água e Alvo soltou uma risada. Ao chegarmos à porta do castelo, Hagrid nos mandou fazer uma fila, entramos no salão principal desajeitados, a fila estava bem desarrumada.
O salão era extremamente grande, tinha quatro grandes mesas e acima de cada mesa tinha uma enorme cortina com o símbolo de cada casa, na mesa da Grifinória vi James e Quinnity acenando para mim e Alvo, retribuímos o aceno. A frente das mesas das casas tinha a mesa dos professores, lá pude reconhecer o tio Neville, que era nosso professor de herbologia, segundo mamãe e papai. Também reconheci a diretora Minerva McGonagall e os professores que minha mãe me mostrou na foto de formatura, Flitwick, professor de feitiços, Madame Hooch, de voô e Slughorn, mestre de poções.
No meio da confusão acabei por me esbarrar em alguém e quase cair no chão, se não fosse por esse alguém segurar minha mão. O susto foi tão grande que nem notei de quem se tratava.
- Meu Merlin! Desculpe-me, estava tão distraída, me desculpe! – abri os olhos e fiquei chocada com o que eu vi – ah, é você, então retiro o que disse. – falei sem pensar.
- Que bom que você notou Weasley, mas eu a perdoou por ter me tocado sem que eu permitisse, sei como é difícil para você se conter perto de mim. – Malfoy sorriu com escárnio e soltou uma risadinha debochada.
- Saia de perto de mim Malfoy, cale essa boca! – larguei sua mão com brutalidade e me virei para procurar Alvo, que aparentemente desaparecera. – Alvo! ALVO!
- Cale a boca, Waesley! Já vai começar a seleção! – Malfoy falou no meu pé do ouvido, e eu me amaldiçoei por ter tremido.
Agora que eu reparei que tinha um chapéu muito sujo e remendado no meio do salão, ele se mexeu e eu tomei um susto quando notei que um rasgo se abriu em forma de uma boca e ele começou a se mover.
A diretora se levantou e começou a chamar os nomes das pessoas para irem se sentar no banquinho e colocar o chapéu na cabeça. A seleção se transcorria bem, achei muito legal e assustador o fato do chapéu gritar o nome da sua casa.
- Mcmillan, Marry!
A garota correu e se sentou no banquinho, colocou o chapéu e logo foi gritado.
- Lufa-Lufa!
Várias pessoas da mesa da Lufa-Lufa deram gritos e bateram palmas, a garota deu um salto e correu para sua mesa.
- Malfoy, Scorpius!
Ele sentou e colocou o chapéu, passou-se um tempo, o chapéu parecia conversar com ele, por fim o chapéu gritou "Sonserina!" e as pessoas da Sonserina bateram palmas, ele foi se sentar lá com uma cara de cansaço.
Tempos depois chamaram Alvo. Ele foi se sentar no banco. Passou-se o tempo, ele também parecia discutir com o chapéu. Todos olhavam ansiosos, como se a decisão do filho do Potter fosse crucial. Algum tempo depois, o chapéu se manifestou.
- Sonserina! – gritou.
Fiquei espantada. Um medo enorme se alastrou sobre mim e eu fiquei pensando que o chapéu não considerou a opinião de Alvo.
Quando me chamaram, eu estava tremendo, o caminho para a cadeira pareceu muito comprido, e quando eu estava chegando eu tropecei e quase caí, algumas pessoas riram, mas eu não prestei muita atenção, me recompus e sentei no banquinho. Colocaram o chapéu seletor sobre mim. Ele começou a murmurar coisas desconexas como "hum, esperto" ou " Corvinal seria uma boa opção", mas eu não queria a Corvinal, eu queria a Grifinória. Por fim ele falou.
- Você tem certeza de sua escolha? – falou o chapéu seletor.
- Sim, quero a Grifinória. – falei, certa.
- Está bem. Então se você quer... GRIFINÓRIA! – a última palavra o salão inteiro ouviu.
Todos da mesa da Grifinória aplaudiram e James começou a gritar coisas como "Essa é minha garota!". Sorri triunfante e corri para a mesa, onde James e Quinnity abriram um espaço para eu sentar entre eles.
Depois que o último garoto foi selecionado, a diretora se levantou e anunciou para nós um bom jantar, em todas as mesas apareceram várias comidas e começamos a comer, não deixei de olhar algumas vezes para a mesa da Sonserina, preocupada. Mas pelo que pareceu, Alvo estava bem confortável lá, não parava de sorrir.
- Por que o Alvo foi pra Sonserina? – perguntei para o James.
- E eu que vou saber? Olha, Alvo é um garoto estranho, tenho certeza que ele teve um motivo tão estranho quanto ele para querer ir para a Sonserina. – respondeu – Mas olhe, não comente com ele isso, acho que por enquanto é melhor manter o assunto no vácuo. – sorriu para mim.
- Está bem.
Teddy e Victoire estavam no final na mesa, conversando. Preferi não interrompê-los, pareciam muito entretidos em si mesmos. Depois que acabamos de comer, as comidas desapareceram e a diretora declarou que deveríamos nos recolher.
Fomos levados ao retrato de uma mulher gorda. Quinnity falou a senha – "Felix Felicis" – e entramos dentro do salão comunal da Grifinória. Era uma sala enorme e toda decorada com as cores da Grifinória, rapidamente me despedi dos rapazes e me dirigi ao dormitório feminino, no qual James me mostrou onde era. Ao entrar, me deparei com duas garotas sentadas em uma cama, conversando, levantaram a cabeça quando eu entrei.
- Sua cama é aquela. – falou a garota loira – Foi a que sobrou.
Dei de ombros, não ligava para que cama eu fosse dormir.
A garota morena se aproximou de mim e se sentou ao meu lado, na cama.
- Oi garota, sou a Caroline Thomas e aquela é a Helga.
- Helga Chang, prazer.
- Oi, sou Rose, Rose Weasley, é um prazer conhecer vocês. – sorri abertamente, era bom falar com garotas para variar.
- Já pegou os horários Rose?
- Hum? Horários? – então eu lembrei que se tratava de uma escola e que escolas têm aulas com horários – Ah... Não. Esqueci-me de pegar.
- Tudo bem. – Caroline riu – eu peguei, posso te mostrar!
- Obrigada! - me aproximei mais dela para ver, Helga se levantou de sua cama e veio se sentar conosco.
- Amanhã não é um dia muito bom, creio. – disse ela.
- Por quê? – perguntei, sem realmente ver razão.
- Bem, poções e herbologia nós temos com a Sonserina, e qualquer aula com a Sonserina não deve ser considerada boa. – falou como se fosse a coisa mais obvia do mundo.
- Se você diz. Bem, está ficando tarde, é melhor dormirmos. – falei, bocejando.
- Ok, a gente se fala amanhã. Boa noite.
- Boa noite.
E essa foi minha primeira noite em Hogwarts.
