Louco: Que perdeu a razão, doido, alienado, insenstato.


Monstro.


Relatos de uma velha senhora.


Por que eu não ouvi a minha irmã e fui morar na Alemanha? Não, mas eu tinha que escolher logo essa casa do lado da casa mal-assombrada do vilarejo. Francamente, isso só acontece comigo!

Logo depois de meu marido sair de casa – devia ser umas seis horas da manhã –, ouvi umas coisas estranhas da casa ao lado – a mal-assombrada – como se alguém estivesse resmungando por lá, sabe? Mas não era um resmungo qualquer, era um lamento ! Alguém estava lamentando numa casa vazia ! Devem ser vampiros, lobisomens, fantasmas ! Deus me livre e guarde ! Isso é coisa de louco! EU é que não ia ficar ali, em casa, junto daquela maluquice toda! Para resfriar a cabeça, fui dar uma volta e comprar algumas frutas.

E qual foi a minha grande surpresa quando eu voltei ?!

Ah, isso tudo é um grande absurdo ! E meu marido ainda diz para não fazer grande alarde, diz que eu estou louca, que não existe nada disso! Imagine só ! Isso porque não foi ele que, quando abriu a porta, encontrou um monstro de asas negras, chifres e... com pernas que mais pareciam de pássaros!

E o que ele estava fazendo na minha casa? Roubando comida! Sim! Dei um grande grito, mas ele me calou – não sei de onde ele apareceu, nem o vi se mexendo e ele já estava tapando minha boca com aquelas... mãos ?

"Obedeça-me senão te matarei."

E, claro, com meu bom senso, não contrariei. Assenti com a cabeça.

"Ótimo. Quero que me faça alguma comida e me dê algumas roupas. Uma de homem e outra de mulher."

Meu Deus ! Meu Senhor ! Eu pensei que ele ia me seqüestrar! Tremi e suei frio, mas ele logo continuou.

"Não é para você, mulher. Agora, apresse-se antes que eu mude de idéia e tire sua vida. A mulher é jovem e esbelta. A roupa masculina é para mim. Pegue algo que dê. Rápido. Não tenho tempo."

Claro que não pude deixar de ter – imagine só! – pena. Ele estava com ferimentos. Corri para o meu quarto e de meu marido, peguei um vestido velho que minha sobrinha deixou aqui quando veio nos visitar – bem jovial, acrescento – e, para a roupa masculina, peguei a primeira blusa e calça que vi – acidentalmente foram calça e blusa social, devido ao casamento que fomos há alguns dias, e a roupa estava ali, após ser lavada e passada, para ser usada novamente. Corri para o banheiro e peguei um kit de primeiros socorros – não se sabe o que aquilo poderia pedir.

Desci as escadas correndo. Ele estava sentado no meu sofá – imagine só o trabalho que me dará tirar aquela sujeira! – e me olhou de um modo frio e perturbador. Juntei as roupas e o kit em uma cesta que eu e meu marido usamos para piquenique. Apressei-me para a cozinha, a fim de preparar alguma refeição.

Ele olhou o kit, enquanto eu separava um pouco de arroz, salada e punha o frango para esquentar.

"O que é isso?"

Arregalei os olhos, olhando para ele, o que o deixou muito irritado.

"Responda-me."

"É um kit para primeiro socorros. Presumi que, como está com ferimentos, precise..."

Ele olhou torto da cesta para mim e depois voltou para a cesta e depois para mim...

"Certo. Agradeço isso. De qualquer modo, o que faço com isso ?"

Ai Senhor ! Minha voz está muito trêmula ! Juntei o resto de coragem que me restou e respondi. "Bem, basicamente, você deve limpar a ferida e depois fechá-la. O importante é parar o sangramento."

Ele fitou-me sério, com o cenho franzido. Eu devo ter dito alguma coisa que não notei, porque ele começou a me apressar mais ainda.

"Ande logo, mulher. Não preza sua vida?"

E, num súbito movimento, aumentei o fogo do forno.

Em pouco tempo, a comida estava toda pronta e posta dentro da cesta.

"Agradeço seu apoio. Vire-se."

Eu nem perguntei nada, só me virei.

"Precisa de mais alguma coisa?"

Perguntei, e, sem obter resposta, me virei. Ele havia sumido.

Logo depois, meu marido chegou, eu lhe contei tudo e, veja só!, ele riu da minha cara.

"Um homem-pássaro, Constance? Está tomando muito sol, querida!" E gargalhou.

Francamente, Senhor, o que eu fiz para merecer isso?! Devo estar louca mesmo.


Agradeço a todos que leram até aqui.

Estão gostando, de verdade?

Comentem.

Agatha C.