02 - Cullen
Eles tinham-me sentado no sofá - eles também estavam sentados. Queriam conversar comigo, pelo que tivera percebido.
"Quem são vocês?" perguntei cautelosamente.
"Chamo-me Carlisle Cullen e esta é a minha mulher Esme Cullen. Nós acolhemos-te e vamos ensinar-te como deves viver nesta tua nova vida." Acenei. Estava disposta a aprender com eles. Não me torturariam nem me matariam. Eram bons.
"Quem era os outros?" Eu não me estava a referir aos maus - nem me atrevia a perguntar por eles.
"Era o resto da minha família." Disse calmamente.
"E a humana?" Eu queria que ele me ensinasse mas se não pudesse matá-la, então seria preferível eu ir embora ou ela ausentar-se durante um pouco.
"Também faz parte da nossa família."
"Como é que vocês conseguem não matá-la?"
"Nós não bebemos sangue humano, não achamos correcto." Surpreendi-me. Seria essa a maneira como eles vivam, as suas regras? Agradava-me! "Se quiseres ficar connosco terás de aprender as nossas regras - e nós não bebemos sangue humano. Se decidires partir, nós aceitaremos a tua decisão."
"Não. Não quero partir. Não quero matar." Disse simplesmente encolhendo as minhas pernas e abraçando-as.
"Muito bem, então." Esme aproximou-se de mim e abraçou-me carinhosamente. Até fazia lembrar a minha mãe. Deixava-me mais confiante, confiante de que teria um bom futuro. "Estás com sede?"
Neguei confusa. "Se vocês não bebem sangue humano, o que vocês bebem? Como se alimentam?" Carlisle sorriu. Ele estava à espera que eu fizesse perguntas, ele queria ver como eu estava interessada em aprender as suas regras.
"Animais." Ergui o sobrolho. "Repara: a única forma de nos alimentarmos é bebermos sangue. Então, tens duas escolhas: sangue humano ou animal. Tens de fazer uma escolha. Preferes matar pessoas humanas, que têm a sua família, o seu trabalho, a sua vida, apenas para saciares a tua sede? Ou preferes matar animais? Os humanos também matam animais por isso, podes considerar esta dieta a mais humana possível."
Acenei com a cabeça. Tinha lógica. Difícil seria resistir. O sangue dos animais não parecia ser tão bom quanto o de humanos. Eu não sabia como iria conseguir resistir. Teria de ser forte o suficiente para conviver com uma humana e não matá-la.
A loira que olhava-me com desagrado perto da fogueira, entrou na sala de repente com um olhar assassino apontado para Carlisle. O rapaz grande e musculado vinha mesmo atrás dela, não com a expressão assassina mas com a testa franzida, como se quisesse impedir a loira de fazer o que quer que ele fosse fazer.
Carlisle levantou-se do sofá e suspirou. "Rose…"
"Carlisle, tens uma mania irritante de decidir as coisas por todos nós! Não é justo!" Gritou a loira furiosa.
Reparei nos pequenos detalhes; eles comportavam-se como humanos. Talvez fosse dessa dieta humana, deixava-os mais humanos. Eu não tinha necessidade de me mexer mas reparava que Rose, a loira, mexia as mãos enquanto estava furiosa, que Carlisle andava pela sala enquanto tenta acalmá-la, que o rapaz grande e musculado atrás de Rose se apoiava nas pernas e trocava o peso entre elas e que Esme cruzava as pernas e minutos depois, trocava-as novamente. Esme ainda me abraçava com ternura - eu achava-a muito querida e amável. Mal me conhecia mas já me tratava com tanto carinho.
Eles conversavam com vozes mais altas do que era necessário. Falam sobre mim e eu preferi desligar toda a minha mente para não ouvi-los. Sabia que a loira não gostava de mim e sabia que o seu desejo podia estar bem perto do de Jane: ver-me morta. Eu fiquei sentada no sofá, encolhida, abraçando as minhas pernas, e sendo abraçada por Esme.
"Hei" ouvi muitos minutos depois de começar a estar habituada a não ouvir. "Hei Bree" Olhei para quem me chamava. Surpreendi-me ao perceber que quem me estava a chamar era o rapaz grande e musculado. "Queres aprender uma lição de como caçar animais, agora?" Depois de ele perguntar-me aquilo fez-se, na sala, um silêncio assustador. A loira olhou-o com raiva, fúria, rancor e a seguir, com desprezo. Carlisle olhou para mim com uma cara curiosa.
Será que não fazia mal eu aceitar as suas aulas? E se aceitasse e a seguir a loira me torturasse? Lembrei-me: eu também tenho força. Talvez não tanta com o rapaz enorme, mas força o suficiente para defender-me. Não queria magoar ninguém, nem se quer matar, mas se alguém fosse fazer-me mal, eu tinha força suficiente para defender, certo? Então, não haveria problema algum.
"Sim…" disse com uma voz um tom mais fraca do que era habitual. A loira fechou os olhos, serrou os punhos e inspirou pesadamente.
"Vá lá, Rosalie. Ela agora é uma de nós, adapta-te." respondeu o homem grande. Rosalie saiu da sala com passadas fortes, como se precisássemos de saber que ela estava a ir embora, e que estava extremamente zangada.
O rapaz grande olhou para mim e fez o sinal para o seguir. Olhei para Esme que rapidamente sorriu para mim, a seguir olhei para Carlisle que assentiu com a cabeça como uma motivação. Levantei-me e o rapaz grande começou a correr pelo que tive que fazer o mesmo para acompanhá-lo - o que não era difícil, eu era bastante rápida. Parámos numa clareira onde tudo à minha volta estava completamente verde. Ele começou a observar pequenos detalhes com um sorriso traquina. Eu ri-me, mentalmente, disso porque ele era enorme, como um levantador de pesos e no entanto tinha uma cara muito infantil - não que isso fosse negativo. Ele reparou que eu tinha vontade de rir. Mostrou-me um sorriso da parte dele.
"Sou o Emmett."
A minha cabeça ficou mais pesada do que qualquer outra. A quantidade de flashbacks que vieram contra mim eram tão enormemente familiares que fizeram-me cair de joelhos com uma dor de cabeça terrível. Emmett. Emmett. Emmett. Aquele nome. Emmett.
"Estás cansada?" perguntou-me ele quando me viu no chão. Ri-me mais uma vez - para ele tudo parecia tão simples e concreto.
"Tens um nome bonito" disse-lhe. Ele gargalhou e rapidamente se entusiasmou para a caça. Levantei-me tentando afastar todas as memórias de humana que tinham atingido. Ele olhou para mim quando reparou que levei mais tempo do que o normal para me levantar. A sua expressão mostrava curiosidade. "Estou bem." assegurei-lhe.
"Isso foi tudo por te ter dito o meu nome?" ele riu-se. "Queres que eu te diga o meu peso e altura?"
Gargalhei com o seu sentido de humor. "Não. Foi só mesmo o teu nome."
"Nunca tinha reparado que era assim tão bonito…" Ele gargalhou também e começou a correr novamente pelo que o segui. "OK, acredita em mim quando digo que os ursos são os melhores." disse animadamente.
Quando parou, um urso estava exactamente a centímetros à sua frente. Ele agarrou no urso, com uma força enorme - embora eu soubesse que provavelmente também podia ter aquela força - e mordeu-o. Começou a sugar o sangue… eu conseguia cheirar. Não era tão bom como o dos humanos, mas teria que saciar-me com isto. Quando acabou, virou-se para mim e riu-se.
"Acho que consigo faze-lo. Talvez melhor, sem me sujar tanto." disse-lhe rindo-me. Ele gargalhou com as mãos na cintura observando-me para ver se conseguia fazer melhor.
Eu avistei um urso enorme por perto - foi no tempo perfeito. O urso não era tão calmo como os humanos costumavam ser por isso tive que investir mais da minha força para realizar a missão. Peguei nele - sentir a sensação de poder era reconfortante - e mordi-o mesmo no pescoço, sabendo que a partir daquele momento os seus movimentos eram fracos. Suguei todo o seu sangue, não deixei nem uma gota mas mesmo assim, o fogo da minha garganta ainda não desaparecia. Quanto mais teria de matar para apagar o fogo? Olhei para Emmett que percebeu a minha expressão de desespero.
"És recém-nascida… é difícil saciar a tua sede." Disse-me rindo.
Inalei todo o ar que consegui e era evidente que havia muitos mais ursos naquela zona. O Emmett gargalhou e começou a correr. Segui outra direcção totalmente oposta que me daria para um outro lugar. Ele estava à espera de uma competição de ursos - eu já previa isso. Mesmo assim, eu iria escolher outro tipo de alimento que não fosse urso… nem humanos, obviamente. Eu senti, a alguns metros, o cheiro de um grupo esquisito de gnus. Seria uma experiência nova… tal como tudo isto do vampirismo vegetariano. Embora a minha chegada perto deles tivesse sido silenciosa, assustou-os pelo que eles começaram a correr. Ri-me para mim mesma. Eles não conseguiriam ser mais rápidos do que eu.
A minha sede não continuava tão saciada como antes, quando bebia o sangue de humanos, mas eu acho que conseguia suportar tê-la assim. Talvez por alguns dias, até. Teria de ser capaz… Salvá-las não matá-las. Volvei para perto de Emmett que me levou para a mansão novamente. Eu consegui sentir o cheiro da humana, ela estava lá…
Não sabia se conseguiria ser capaz.
