Recebeu um novo silêncio como resposta, mas Kanon não insistiu na indagação, tentando discernir aqueles novos fatos, e como difícil estava sendo.
– Saga... – os olhos de uma costumeira seriedade do francês, foram substituídos por um semblante de surpresa – Você tem um irmão gêmeo?
Ambos volveram o olhar ao ruivo, existia desaprovação em seus olhos, ainda queriam encontrar alguma lógica naquela situação um tanto que inesperada para os dois.
– Está acontecendo algo de muito errado aqui... – As palavras do médico entoaram em um tom estupefato.
Neste mesmo instante, Kanon nota que o colar que tentava recuperar, estava nas mãos de Camus, não escondeu sua surpresa ao encontrá-lo daquele modo repentino.
– O colar... – murmurou, dando passos lentos em direção ao francês, ignorando o outro grego, parecia estar hipnotizado ao rever o objeto. De maneira abrupta, seus passos vacilaram, suas pernas pareciam não o obedeceram. A dor que veio em seguida, o fez perder forças, indo de joelhos ao chão, era colossal, como se estivesse sendo queimado vivo. Sua visão tornou turva, tentou sem muito sucesso, colocar-se de pé.
Visualizando aquela cena, Saga foi ampará-lo de algum modo, fazendo-o ficar sentado.
– O que aconteceu? O que você está sentindo? – Perguntou o médio, tentando compreender a situação.
– O colar... a maldição... eu não sabia... – deu uma breve pausa entre as palavras, sendo difícil pronunciá-las. Estrelas foram vistas, até serem tomadas pela escuridão e acabou por desfalecer.
– Saga! – O francês o chamou – O colar. Olhe.
A joia de cor genuinamente carmesim emanava um brilho incomum, difuso, permaneceu assim antes de apagar totalmente.
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Aquela situação parecia mais um filme de ficção a que real. Um colar estranho que reluzia, um suposto irmão e ainda gêmeo, tudo tão repentino, o que mais esperar? Levou Kanon ao hospital que trabalhava, ficando encarregado de examiná-lo, mas era esse seu intento, para compreender a situação ocorrida.
– Estranhas queimaduras na perna direita. – Pensou, notando ter utilizado um tom de voz audível, estava com uma prancheta na mão, verificando o quadro do paciente – Uma situação bastante anormal, ou é o caso mais estranho da minha carreira médica, ou ele era um excelente ator, porque não consigo encontrar nada de estranho. Mas o desmaio parecia bastante verídico, e essas queimaduras...
Perdeu-se enquanto observava o outro, sendo acordado por uma segunda voz.
– O resultado do teste acabou de sair, doutor – o enfermeiro emergiu no quarto, entregando um envelope claro. O médico agradeceu ao terceiro que se retirou do quarto em seguida.
Pegou com cautela aquele documento, hesitando por um momento em descobrir a verdade que estava o sufocando. De um modo moroso, acabou por abrir o envelope, mas antes que pudesse tomar conhecimento do conteúdo, ouviu um som atrás de si, ao se virar, deu de cara com o outro sentado sobre a cama o fitando.
As paredes caiadas e o cheiro do ambiente denunciavam onde estavam, olhou para todos os cantos antes de fixar seu olhar no médico. Um ar frio passou pelo seu quarto, notando quão gelada a sala se encontrava, estava vestindo apenas os trajes frágeis de um enfermo. Tocou sobre sua cabeça, sentindo uma branda dor, mas não passava de um mero incômodo.
– O que estou fazendo aqui? E quero as minhas roupas. – Indagou Kanon, e com certa dificuldade, levantou da cama. Saga abandonou o documento sobre a mesa, fazendo o outro tornar a voltar para cama.
– Espere... Como está se sentindo? – Perguntou o médico, demonstrando-se preocupado, sem responder a indagação de Kanon, lhe fazendo outra.
– Estou bem – foi totalmente ríspido quando o retorquiu – Afinal, o que eu faço aqui? E quem é você?
O novo silêncio entre os dois foi lacônico, Saga não sabia muito bem o que dizer, mas acabou sendo interrompido por Kanon, que tornou a se colocar de pé.
– Onde está o colar? – Questiona Kanon, com o olhar inquiridor sobre o médico ao reparar que o objeto não estava no quarto.
– Vamos por partes – sua voz foi serena, mesmo após a acrimônia do outro – primeiramente, sou Saga, médico deste hospital. Você desmaiou e acabei o trazendo para cá. O colar está com um amigo, ele quer analisá-lo.
O homem de jaleco conteve-se para não mencionar os fatos ocorridos e o suposto, e inegável parentesco de ambos, pois estava bastante curioso sobre sua origem e identidade. Esperaria para se aprofundar nos assuntos mais delicados em um momento que achasse apropriado. Quando Saga mencionou sobre o desmaio, deixou o mais moço um tanto que perdido, tentou recordar inutilmente, pois não sentia nada, nem mesmo as queimaduras que macularam sua tez, ainda não havia as notado.
– Sou Kanon – começou, mas seu tom não possuía a mesma serenidade de Saga – E não tenho que te dizer nada. Só quero pegar a droga do colar e dar o fora daqui. – Fechou por um momento seus olhos – E não me lembro de ter sentido nada. Onde esse seu amigo está?
"Kanon". Aquele nome tiniu em seus ouvidos de um modo familiar. Onde havia o escutado? E quando? Não ouviu as palavras seguintes e a grosseria que o outro lhe dirigiu.
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Era uma casa em estilo vitoriano, simplória, pintada em cores claras, rodeada por um bonito jardim. Espaçosa, porém silenciosa, muito silenciosa. Depois de divertir-se brincando entre as cortinas de veludo vermelho, o menino – aparentava ter entre oito a nove anos – foi até o quarto principal, encontrando entre os pertences do pai um álbum.
Possuía bonitas fotos, algumas mais antigas e desgastadas em sépia e outras em preto e branco. O trouxe para fora do armário, o arrastando, encontrou certa dificuldade nisso. Utilizou o pé da cama para escorar suas costas. Folheava as páginas do livro com sua curiosidade pueril, visualizando cada legenda, foto e data.
Encontrou por lá retratos seus de quando ainda era bebê, mas algo o chamou atenção. Uma foto, que estava solta, o trazia ao lado de outro bebê, ambos sorriam. A fotografia era um pouco maior que sua mão. Aquele outro menino era uma réplica perfeita sua e aquilo o deixou surpreso. Atrás da foto dizia apenas: Saga e Kanon.
Guardou aquela pequena foto em seu bolso, deixando o álbum no mesmo lugar de antes. Ficou a tarde inteira pensando sobre aquilo. Até á noite, que seu pai chegou do trabalho. Preferiu ir até ele, e não tocar o assunto com sua mãe.
– Posso falar com o senhor? – Indagou o menino, sentando ao lado do homem no sofá.
– É claro. – Abaixou o jornal para dar atenção ao filho.
– É isso. – Mostrou a fotografia ao homem, que ao vê-la suas feições mudaram quase que instantaneamente.
– Onde encontrou isso? – Retirou das mãos de Saga, sem se preocupar em ser delicado.
– No seu quarto... eu... – Acabou por empacar, sabendo que levaria uma bronca ao revelar que esteve mexendo nos objetos pessoais do pai.
– Conte á ele, querido – a voz feminina e doce interrompeu qualquer ação ou menção do homem, tocando delicadamente no rosto do menino – se queria brincar com o álbum filho, era só pedir.
– Me desculpa mamãe. – A voz saiu baixa, estava constrangido, desviando o olhar.
– Meu filho – começou o homem, tentando encontrar as palavras certas para explicar a situação – você já teve um irmão. Mas papai do céu o levou.
– Porque ele não me deixou conhecê-lo? Eu sempre quis ter um irmão. – Indagou a criança, estranhamente incomodada quando soube daquela situação.
A pergunta do filho o fez calar, respirou fundo, deixando o ar sair devagar. Ficando por alguns instantes em um silêncio, seu semblante se alterou para um triste.
– A vida é assim, Saga. Ele precisou do Kanon lá com ele.
– Pai. – Depois de um silêncio o chamou.
– O quê?
– Posso ficar com a foto?
– É claro. – Entregou-a ao menino, desejando mentalmente que as indagações findassem – Acho que já hora de dormir, não é mesmo? – Tentou dispensá-lo usando isso, voltando a ler seu jornal – ou melhor, fingindo – queria apenas ocultar sua consternação de rememorar sobre esses fatos.
E então foi a primeira e última vez que ouviu aquele nome. A foto foi perdida com o tempo. Até que...
x-x-x
Seu estado de estupor após as lembranças foi interrompido de rompante quando os olhos de tonalidade lápis-lazúli o fitavam de um modo impaciente.
– Responda, logo! Você está ouvindo? – Parou bem perto de Saga, cruzando os braços na altura do peito.
Novamente o ignorou, foi até a mesa buscando o envelope, o abrindo finalmente.
– Irmão... meu irmão... – murmurou, sem fitá-lo diretamente – meu pai falou que você estava morto.
– O que você está falando? Nunca ouvi falar de você. – Contestou, estava novamente ao lado de Saga – E o que é isso?
– Um teste de DNA – respondeu, volvendo sua atenção ao recém-descoberto parente – Vai negar nosso parentesco? Não está na cara? Somos gêmeos.
– Um teste de DNA? Eu não autorizei algo assim – Após essas palavras, um silêncio foi instalado entre os dois e sua raiva foi abrandando. Não poderia objetar, Saga estava certo, era algo evidente, não precisava ser um observador astuto para encontrar o parentesco entre os dois.
Desviou o olhar do médico, sentindo incomodado com aquilo, o silêncio, os fatos, tudo. Várias perguntas brotaram em sua mente. Porém, o silêncio se prolongou. Quando finalmente absorveu essa nova situação, recuou alguns passos, e perto da cama estavam seus pertences. Foi diretamente até lá, indo pegá-los. Sua nova expressão era estarrecida, engolindo qualquer resquício de fala. Foi em direção à porta, não queria mais passar nenhum minuto naquele lugar.
– Kanon, espere – começou a notar a mudança de atitude do irmão, e a menção de que deixaria a sala – Vamos conversar. Nós precisamos...
Suas palavras não foram suficientes para impedi-lo de sair do quarto, esquecendo até mesmo do colar. Pensou ir atrás dele, mas desistiu. Muitas coisas estavam sem explicação, não conseguia compreender aquela atitude do outro.
Encostou sobre a cama, novamente olhando para o resultado do exame.
"Por que haviam os separado assim? Por que seu pai nunca quisera realmente tocar naquele assunto? Por que Kanon agira assim? Por quê?"
Eram tantas perguntas, ficou absorto tentando decifrá-las.
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Combinou com o francês de encontrarem-se depois do término de seu expediente. Queria descobrir informações sobre aquele colar. Poucas luzes se mantinham acessas na biblioteca.
– Camus? – Chamou-o, tentando buscá-lo com os olhos, porém foi inútil.
– O que quer com o meu francês? – Ouviu uma voz desdenhosa atrás de si. Olhou em sua direção.
Estava uma figura esbelta, com longos cabelos dourados o fitando com olhos inquiridores, quando ia respondê-lo, o francês emergiu do final da biblioteca.
– Milo, ele é o amigo que comentei. – Ficou entre os dois, segurava um livro com uma das mãos – Saga, nem o ouvi entrando. Milo poderá nos ajudar no caso do colar.
– Não vai me apresentá-lo, Camus? – Interrompeu o escorpiano, insatisfeito com as palavras do aquariano.
– Pardon. – Revirou os olhos – Saga, esse Milo, meu...
– Namorado – o loiro respondeu por Camus, recebendo um olhar de reprovação – Quis dizer amigo.
– Pare de me interromper. – Escondeu seu desconcerto diante as palavras ditas pelo grego. Saga divertia-se com aquela troca de palavras entre os dois.
– Ok, ok, francês, continue – suspirou de maneira audível.
– Ele poderá nos ajudar.
– Prazer, Milo – o geminiano o cumprimentou com um sorriso.
– Olá, Saga – correspondeu o gesto de um modo lacônico.
– Por favor, sentem. Temos algumas coisas para conversar. – Indicou a mesa. Os dois anuíram e então se sentaram.
Continua...
Bem, primeiramente preciso pedir desculpas pelo atraso. É que acabei escrevendo em um caderno e mudei muita coisa. Tive que entrar com o Milo nessa. Camus sem Milo não dá. haha
Estou pensando em tornar os dois mais ativos na história, o que acham?
E outros certamente irão aparecer. Hum.
Espero que tenham gostado desse capítulo. O capítulo três talvez demore um pouco, porque estou com o intento de escrever uma fic de um capítulo único sobre os gêmeos, mas farei de tudo para não demorar.
Beijos, obrigada aos que leram. E ao meu Saga que sempre me inspira. Haha
Até mais!
