Anjo Avernal


Esta Fic foi feita exclusivamente para o site "Snape Fics", de Meghara Rayanneh -


Ato II – Lembranças Malditas.


Uma mulher em seus trinta e poucos anos estava deitada numa imensa cama de lençóis brancos ricamente ornamentados com bordados e rendas. Seus cabelos negros e lisos se espalhavam pelo travesseiro. A sua jovem beleza havia sido muito debilitada pela doença que a consumia rapidamente. Com muito esforço, levanta sua mão na direção em que seus olhos negros sem viço tremulam. Os lábios ressecados forçam-se no esboço de um sorriso e um som chiado sai de sua boca. Gotículas caem sobre seu busto, manchando o tecido da camisola que usava. A mão da mulher cai pesadamente ao lado de seu corpo. Os lábios e olhos semi-serrados já não demonstravam qualquer sinal de vida, que acabava de se extinguir.

Um menino, em seus nove anos, joga seus braços e cabelos sobre o colo da mulher morta, em soluços desesperados e murmúrios ininteligíveis. Seus cabelos curtos e negros se espalham pelo rosto da mãe, fazendo contraste com a pele de cor cadavérica. Mãos gentis seguram o menino pelos ombros e o afasta da mãe morta. Seus olhinhos negros e brilhosos pelas lágrimas excessivas fixam sobre o ventre da mulher, que remexia-se involuntariamente, como se o que ali estava, quisesse escapar da iminente morte que o aguardava. A mãe do pequeno Severus, cuja doença a levara dele, levava consigo seu irmãozinho, que ainda era apenas um feto de seis meses.

Desesperado e suando frio, o jovem Severus acorda e senta-se subitamente na cama, arfando em fúria. Em seu rosto, as lágrimas se misturavam ao suor que escorria de sua testa e têmporas.

Rispidamente afasta a cortina de veludo verde do dossel da cama, buscando o ar que lhe faltava ali. Trêmulo, tenta alcançar a jarra de água, que estoura a poucos milímetros de seus dedos, fazendo voar cacos e água para todos os lados.

Irritado, Severus leva suas mãos espalmadas ao seu rosto e continua nessa posição por longos instantes, enquanto arfava fortemente e seu corpo continuava a tremer pelo estresse. Todas as noites seus pesadelos o perseguiam. Pior do que serem pesadelos, seus sonhos eram lembranças reais. Nas últimas duas semanas vinha sonhando com as mortes de seu pai e sua mãe. Cada vez os pesadelos lhe mostravam detalhes diferentes, dos quais sequer julgava ter conhecimento ou lembranças... talvez fossem peças pregadas por seu subconsciente... mas, antes fosse. Ele não se odiava a ponto de cometer tais perversidades consigo mesmo.

Mas, nesta noite, fôra a primeira vez que sonhara com a morte de seu irmãozinho. Não que tivesse chegado a vê-lo de fato, mas não se lembrava desse detalhe... o ventre de sua mãe remexia e se contorcia pelo bebê que ainda vivia dentro do corpo defunto da mulher. Uma agonia que se perpetuou por muito tempo. Como podia um ser puro e inocente sofrer tal pena? O que aquele bebê havia feito de tão ruim para morrer daquela forma, sem ao mesmo ter tido a chance de sequer vir ao mundo?

Severus deslizou suas mãos pelo rosto, subindo seus dedos pela testa e enterrando-os em seus cabelos molhados pelo suor. Estava mais calmo, mas não era capaz de voltar a dormir naquela noite ainda.

Jogou por sobre o ombro um manto negro e longo, que o cobriu até os pés. Prendeu com uma fivela na altura da garganta e saiu do dormitório em passos apressados, fazendo tremular o manto atrás de si.

Alcançou o Salão Comunal da Sonserina e logo as escadarias que davam acesso ao corredor principal de Hogwarts. Subiu para o saguão e saiu para os jardins, afastando a imensa e pesada porta de carvalho da entrada.

Era verão e ainda faltava pouco menos de um mês para o início das aulas em Hogwarts. O castelo se tornava muito agradável nesta época. As rochas milenares que formavam toda a sua estrutura garantiam o frescor e umidade no mais intenso dos verões. O silêncio era absoluto; não fosse pelo atrito de seus passos no solo, o farfalhar de suas vestes pelo seu movimento e o chiar manso de sua respiração, Severus poderia jurar que havia ficado surdo.

Assim como eram quase todas as noites de Verão, o céu estava totalmente limpo, mas suas estrelas mantinham um brilho ofuscado. A Lua estava em fase crescente e só era possível ver metade se sua plenitude, mas era o suficiente para iluminar satisfatoriamente os jardins do castelo.

A brisa seca que soprava naquela noite varria a vegetação e farfalhava melodiosamente as copas das árvores da Floresta Proibida e dos pequenos arbustos. Severus se adiantou até as margens do Lago da Lula Gigante, cuja silhueta repousava sobre a superfície do espelho d'água, que refletia as estrelas pálidas e o luar tímido. Jogou-se sentado na grama e usou uma pedra sobresselente como apoio para sua cabeça, deitando e mirando seus olhos negros para o céu noturno igualmente negro.

Respirou fundo e, mesmo involuntariamente, começou a repassar mentalmente os seus últimos dias ali naquela escola. Não conseguiu afastar a idéia de infortúnio e inveja. Enquanto ele estava ali, desgraçado, sofrendo os dias posteriores à morte de seu pai, todos os outros alunos, inclusive seus inimigos, saboreavam das tão desejadas férias em companhia de suas famílias, totalmente felizes e completamente alheios às mazelas do mundo.

Seus olhos se marejaram, mas não permitiria que uma gota de lágrima fosse derramada. Já havia chorado o suficiente à morte de seu pai. O que havia agora era apenas a sua vingança. E para se vingar era preciso se tornar cada vez mais forte e poderoso!

E era exatamente isso que faria: colaboraria para a derrubada de Voldemort! E com a ajuda de Alvo Dumbledore, iria vingar a morte de seu pai e a desonra de seu Clã!


—O Senhor deve estar louco!! Com quer que eu me junte a Voldemort depois de tudo o que aconteceu?!! – Perguntava quase aos gritos um enfurecido Severus Snape, que mantinha-se curvado para frente e os punhos fechados com força, após levantar-se subitamente da poltrona de veludo carmesim ricamente adornada. Seus cabelos finos e oleosos caiam por sobre seu rosto, ocultando parcialmente sua expressão de revolta.

Com uma expressão divertida, Dumbledore respondeu ao garoto, assentindo lentamente com a cabeça e quase um sorriso nos lábios. A voz suave e calma se contrastava à revolta de Severus.

—É exatamente isso que quero que faça, Severus. Eu quero que você se alie ao Círculo das Trevas de Voldemort e consiga ser o seu mais fiel Comensal da Morte.

A cabeça de Severus girou. Ele não podia estar ouvindo direito, era essa a verdade. Como poderia, em sua sã consciência, receber ordens de Dumbledore para se juntar aos Comensais da Morte e ser fiel aquele demônio que torturou seu pai até a morte?! Era preferível um milhão de vezes tornar-se um trouxa do que abaixar a cabeça para aquele bruxo maldito! Dumbledore só podia estar brincando! Ou ele estava mesmo se tornando um senil esclerosado...

—O Senhor está brincando, é isso! Pois eu lhe digo, Prof Dumbledore: é uma brincadeira de profundo mau gosto! Eu, jamais, durante toda a minha vida, me juntarei ao Círculo das Trevas e menos ainda me tornarei um servo daquele imundo!! EU JAMAIS ME TORNAREI SERVO DE QUEM QUER QUE SEJA!!

—Então me diga, meu jovem: como pretende vingar a morte de seu pai? Deixará impune aquele que atirou à lama o nome de sua família, uma das mais importantes de todo o Reino Unido por séculos? – Dumbledore mantinha-se calmo, mas um brilho estranho pairava sobre seus olhos claros e seus lábios esboçavam um sorriso cínico mal disfarçado.

O jovem Severus abrandou sua revolta ante a pergunta do velho mago. Ele não era tolo e tampouco burro de acreditar que, sozinho, poderia destruir aquela aberração chamada Voldemort. Sabia não ser fraco, sabia ser até mesmo muito poderoso para a sua pouca idade e pouca experiência de vida. Tinha muitos conhecimentos sobre Magia Negra, mas isso tudo ainda era insuficiente para derrotar o Lorde das Trevas. Num duelo, ele sequer conseguiria fazer um arranhão naquele rosto deformado e estaria morto antes que terminasse de ouvir o som da Avada Kedavra, isso se ele tivesse a sorte de ser morto de forma rápida e limpa.

Como se o teto estivesse se apoiando em seus ombros, o garoto sentiu-se muito fraco e cansado. Cabisbaixo, deixou-se sentar pesadamente na poltrona vermelha, os braços apoiados em suas pernas e seu rosto encarando o chão de pedra suntuosamente ornamentado. Seus cabelos de fios retos e médios faziam-se de cortina para seu semblante que denunciava sua prostração. Num sussurro cansado, finalmente responde à pergunta de Dumbledore, que aguardava com toda a calma do mundo, como se o seu tempo fosse eterno.

—Eu não sei... eu não pretendo deixar aquele monstro impune, mas não sei o que poderia fazer para destruí-lo agora... Não sou nenhum idiota que não enxerga suas próprias limitações, mas não sei o que fazer... pelo menos não agora...

O garoto postou-se ereto na cadeira, voltando a encarar o Diretor.

—... talvez, daqui alguns anos... se eu treinar todos os dias, desenvolver minha força e meu poder... talvez eu consiga destruí-lo...

Severus recostou-se na cadeira, desviando seu olhar para qualquer ponto dentro daquela sala redonda. Um sorriso torto e afetado passou por seus lábios, enquanto suas mãos batucavam os braços da poltrona.

—Eu sei que posso me tornar muito mais poderoso que aquele mestiço desgraçado... mas, até lá... talvez eu seja morto por ele... talvez ele até me queira morto, pra acabar de vez com minha família... eu morreria feito um imbecil que não levou sua vingança até o fim!

—Então... torne-se um Comensal de Voldemort e torne-se o mais fiel de todos seus seguidores. – Dumbledore falou numa forma tão simplista como se para ele aquela fosse a idéia mais básica e sensata que havia.

O garoto mirou novamente o Diretor, incrédulo e desconfiado. Ali teve o pressentimento de que as coisas não eram bem o que aparentavam ser. Já que não tinha nada a perder, talvez fosse interessante entrar nesse jogo.


Uma dor aguda nos joelhos o fez voltar à realidade. Severus estava caído no chão, apoiado com dificuldade por suas mãos. Arfava desesperado, os seus olhos arregalados. Gotas de suor caiam de seu rosto e formavam pequenos círculos de mancha no chão.

Dumbledore observava de queixo erguido o garoto por sob seus óculos de meia lua. Perto de sua presença onipotente, qualquer um se sentiria um verme... e era assim como Severus sentia-se: um verme.

—Quantas vezes mais terei que lhe dizer para trancar a sua mente? Continuo a ter acesso a todos os seus medos e fraquezas, garoto! Com isso poderia induzi-lo à morte apenas usando a psicologia! Levante-se e recomponha-se, Severus!

Severus mirou o bruxo de pose austera com todo o seu ódio. Como poderia Dumbledore submetê-lo a esse tipo de coisa?! Fazê-lo se lembrar dos piores momentos de sua vida?!

—Não é nada simples, professor! – Severus levantou-se, mas mantinha seus joelhos flexionados e apoiava suas mãos sobre eles. —O Senhor é infinitamente mais poderoso do que eu! Não dá pra evitar que invada minhas memórias!

—Será que terei que repetir tudo de novo, garoto? – Dumbledore deu dois passos adiante, encarando ainda de queixo erguido o jovem Severus. —Se eu soubesse que você era incapaz, jamais teria designado-o para essa missão. Você aprenderá Oclumância, Severus, nem que eu tenha que derreter seu cérebro para isso. E nenhuma outra magia negra lhe será tão útil quanto esta. A Oclumância salvará a sua vida diante de Voldemort.

Severus ficou ainda encarando o Diretor, mas sem dizer nada. Não fosse por seu pai, desistiria de tudo e sumiria pra sempre de Hogwarts. A sua vingança jamais o deixaria desistir, fugir, esconder. Postou-se ereto, sem nunca desviar os olhos de Dumbledore. Enfrentar era a sua única forma de livrar-se de tudo isso.

Dumbledore esticou sua mão nua em direção ao garoto que ainda o olhava com ódio. Um sorriso de satisfação se desenhou em seu rosto antes de pronunciar o feitiço. Desta vez Severus conseguiria fazer o que tinha que ser feito:

— Legilimens!


A luminosidade do sol já despontava por sobre as copas das árvores da Floresta Proibida aos fundos do lago. As nuvens de aspecto plumoso se coloriam em tons de vermelho e dourado. Pássaros em bando atravessavam o céu e muitos outros preenchiam aquele nascer do dia com cantos melodiosos. A brisa fresca trazia consigo perfumes diversos da mata.

Severus despertou do estado de vigília em que se encontrava. Piscou em profusão algumas vezes e esfregou seus olhos, levantando-se do gramado e pondo-se sentado. Por rápidos instantes ficou admirando o céu refletido no lago até lembrar-se de que sua vida não era e jamais será tranqüila como aquela visão tão bela e tão singela como o raiar de um novo dia.

—...talvez seja.. se destruirmos aquele maldito... e se eu aprender a sobreviver com tudo isso...

Levantou-se e espanou de seu manto algumas folhas secas que ficaram agarradas ali. Em passos longos e lentos, subiu a pequena inclinação do terreno, indo em direção ao castelo. Parou e voltou seu olhar novamente para o lago, para apreciar uma última vez aquela paisagem que, por mais que as pessoas sofressem, era imutável... bela e eterna.

Esperançava, naquele momento, viver algum dia apenas para isso, apenas para apreciar o mundo a sua volta.


Fim do ato I – continua...

By Snake Eyes – Novembro de 2004.


Agradecendo aos reviews!


Claire R. Black!

Minha primeira review pra AA!

Oiê! Você não é das minhas leitoras constantes, então espero que eu tenha te ganhado com essa fic :) Leitores novos são sempre muito bom de melhor :))

É, 'maquiavélico' é o termo perfeito para o Dumbledore da fic... e até no livro ele é meio assim, então não inventei nada (afinal um cara que sempre sabe das coisas antes de acontecer e não faz nada pra mudar isso, só deve tá querendo ver o circo pegar fogo mesmo, não?).

E vamos botar bastante trevas nessa fic.. porque o Snape não pode ser sempre esse babaca que se amarra em qualquer uma em romancezinhos baratos, não? E depois de 4 fics assim, quero mais é dar uma boa mudada :-P

Oh! Mil desculpas, mas acabei demorando pra postar este 2º cap ¬¬"

Bjusss! E obrigado pelo comentário!


Anita McGonagall!

Mto obrigado pela solidariedade e por ter se compadecido com apenas um review para a fic, snif ;;

Minha modéstia não permite me dizer, mas... concordo plenamente contigo XD

Ah! E que tal uma fanart pra essa daqui tb, heim :D

Bem, tá aqui a continuação... demorô, mas tá aqui ;)

Bjusss!


Sheyla Snape!

Pôxa, e nem fiz tão pavoroso quanto gostaria....

Essa cena eu me inspirei no filme "Os caçadores da arca perdida", no final do filme quando o nazista abre a arca e todos que estava com ele e presenciaram as "maravilhas" escondidas foram consumidos aos poucos. E o lance do tentáculo tirei de "Final fantasy - movie". Legal né?

É, heheh, as aparências enganam... Dumbledore, mesmo o do livro, é maquiavélico, como a Claire falou. Não vou fazer nada demais com ele, mas não deixarei essa imagem de vovô bonzinho e caduco não.

E, SORRY, but... NO shipper! Não vai entrar romance nessa fic não, por mais que o Snape precise. Vamos judiar bastante dele aqui, heheh XD

Bjus!


E a todos que leram a fic: MUITO OBRIGADO!

E quem não comentou: COMENTE! Review é o combustível do fanfiqueiro XD

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