Final de Agosto

Todos estavam reunidos ao redor da grande mesa da cozinha d'A Toca. Os primos e seus respectivos pais conversavam, riam e aproveitavam os últimos dias das férias antes das aulas de Hogwarts retornarem. Todos estavam ali exceto, como Albus notou, Rose. Não que isso fosse estranho ou incomum, o filho do meio de Harry Potter sabia que – atualmente – a prima preferia ficar sozinha em seu quarto, escrevendo secretamente em seu diário, do que se juntar à bagunça organizada da família. Mas ele se preocupava com ela.

Ele e Rose tinham a mesma idade e frequentavam o mesmo ano em Hogwarts, por isso eram bastante próximos e sabiam tudo um do outro: e Albus sabia que o rompimento recente do namoro que tinha com um Corvinal de nome Henry Bingley, dois anos mais velho que ela, estava abalando a garota.

Antes de começar a namorar Rose sempre fora a garota mais desejada de toda Hogwarts e ela sempre parecera gostar da popularidade; porque nunca cortava ou dava fora em ninguém, apenas sorria seu belo riso e deixava aquela dúvida no ar. E ela apenas permanecia em seu altar, inalcançável aos olhos dos meros mortais que a observavam de longe, que a desejavam para si, mas sem ter coragem real de conquistá-la. Causava uma explosão de sentimentos em todos, com o seu jeito indecifrável. Rosy era um mistério até mesmo para o primo: ela era gentil num minuto, no outro destilava sarcasmos e fúrias. Os segundos momentos no entanto, ela guardava apenas para os amigos mais próximos, amigos que não fechavam uma mão. Era bela em seu inocência calada, o que a tornava sexy, sedutora, misteriosa...

Até mesmo os amigos de Al comentavam sobre sua aparência, sem se importar com o olhar de censura do primo ciumento: Rose era esbelta, acinturada e alta. Seus olhos eram como piscinas azuis, ressaltando-se no mar de cabelos cacheados e ruivos que lhe caiam até a metade das costas. Usava muitas pulseiras, anéis e colares e os olhos estavam sempre delineados de preto, o que só fazia ressaltar o brilho em seu olhar. E ela ia ganhando admiradores por todos os lugares, admiradores que não se atreviam a se aproximar demais. Mas Henry se atreveu e conquistou-a, provocando certa inveja nos outros.

Todavia, nem quando começara a namorar Henry, a garota deixou de chamar atenção nos corredores; era algo intrínseco a ela, de sua natureza selvagem e bela. E Rose sabia que era bela, e seus modos em relação aos outros não eram vulgares, nem propositais. Ela apenas sabia utilizar o sorriso nas horas certas, elogiar nas horas certas, jogar os cabelos alheia aos olhares. E desse modo, a garota tinha tudo que queria, na hora que queria, inclusive da família. Ela era – de certa forma – mimada por todos à sua volta. Albus Potter estava entre eles e sabia disso.

Por isso vê-la tão acanhada, desanimada, apagada, sem demonstrar seus momentos gentis ou os momentos de ira intensa, preocupava o garoto. Volta e meia Albus se virava para a porta da cozinha na esperança que Rose aparecesse com suas costumeiras roupas roqueiras, com seu cabelo ruivo e comprido preso numa trança, e se juntasse ao resto do pessoal para também rir e conversar, coisa que não aconteceu até o cair da noite quando provavelmente ela sentiu fome e resolveu procurar alguma coisa nos armários da avó, passando quase despercebida pelo grande grupo animado da cozinha.

Albus viu apenas a sua tia Hermione se levantar sorrateira para trocar algumas palavras inaudíveis com a filha e deixá-la com uma expressão preocupada logo em seguida. Obviamente ele não era a única pessoa ali que se preocupava com a garota, e ele observou Rose pelo canto do olho, enquanto ela girava lentamente sobre os calcanhares para sair dali tão imperceptivelmente quanto havia entrado. Ela estava murchando, pensou Al, os cabelos estavam secos e sem brilho, assim como seus olhos. Sua pele alva estava doentemente pálida e ele pensou se ela não teria perdido alguns quilos nos últimos dias.

Distraído e preso em seus pensamentos, Albus assustou-se quando uma grande coruja preta raspou por sua cabeça e voou em direção ao seu pai que até então parecia entretido numa conversa com seu tio Ron e seu tio George.

Os olhos igualmente verdes de Harry Potter percorreram rapidamente as palavras escritas no pergaminho enquanto todos da sala paravam gradualmente de fazer barulho para observá-lo franzir o cenho de maneira preocupada.

-É uma carta de Slughorn. – contou ele, sem desviar o olhar da carta. – Parece que está bastante doente e foi afastado do posto de professor de Poções. Ele conta aqui que já estava se preparando para se aposentar definitivamente e que tal evento apenas acelerou as coisas. Está pedindo que eu vá visitá-lo algum dia.

-Ele deve estar nas últimas. – Tio Ron falou, sem se preocupar em soar indelicado, o que lhe rendeu um pequeno olhar de esguelha de sua mulher.

-Talvez devêssemos todos ir juntos. – sua mãe – Gina – comentou, chegando mais para o lado para também ler a carta e continuou: – Ele gostaria disso. Slughorn sempre gostou de estar rodeado por várias pessoas.

Todos ficaram em silêncio por alguns instantes e Albus teve certeza que relembravam com graça e saudosismo o professor de Poções.

-Imagino quem será o nosso novo professor então... – comentou sua irmã mais nova, Lily, chamando atenção para o novo tópico, e aos poucos todos voltavam a falar e sugerir nomes para o cargo.

Albus não ouviu muito bem o resto. Anotava mentalmente a informação para não esquecer de contar a Rose. Ele sabia que ela adorava Slughorn e sua matéria.

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