Disclaimer: Twilight não me pertence, mas está fanfic, sim. Então, por favor, respeitem.

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1. NASCIMENTO

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"Todo o amor baseado no interesse cessa com a causa que o fez nascer; mas o amor desinteressado dura para sempre."

- Textos Judaicos -

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Phoenix, Arizona, Estados Unidos da América
20 de junho de 1989.

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Era uma noite chuvosa de final de primavera, os primeiros sinais da estação subsequente estavam evidentes – o ar abafado, as poucas rajadas de vento indicando que um tornado iria em breve surgir ao horizonte, e a chuva absurdamente quente. Uma mulher de cabelos tingidos de um loiro acinzentado corria contra o vento pelas ruas escuras e esburacadas de Downtown; em seus braços protegidos do vento e da chuva havia um pequeno embrulho, que na escuridão e pela proteção da mulher, ninguém poderia desconfiar o que era.

Elizabeth ainda sentia a dor nauseante de algo forçando o seu ventre para sair, da mesma maneira que sentia falta do peso extra que carregou pelos 8 ou 9 meses em sua barriga. O seu 'chutador', como ela carinhosamente havia apelidado, não lhe faria companhia por muito mais tempo. Ela relembrava saudosamente das noites frias daquele inverno atípico para aquela região, onde ele fora a única companhia que não a obrigava a nada.

Ela não fizera acompanhamento médico, pré-natais ou sequer um ultrassom. Entretanto, desde o momento que tomou consciência de sua situação, sabia que o que crescia em seu ventre era um menino, o seu 'chutador' era um menino.

Inesperadamente, um relâmpago seguido de um trovão ecoou pelas ruas estreitas e escuras em que ela caminhava, assustando o pequeno garoto que estava em seus braços. Tão fugaz quanto o barulho, o bebê se pôs a chorar. Apesar de ter vindo ao mundo um pouco mais de 8 horas atrás, o menino de cabelos arruivados e olhos claros – contudo indecifráveis para a mulher – chorava alto e extremamente agudo, o que deixava Elizabeth incomodada de uma maneira inesperadamente diferente do que normalmente faria. Ela nunca fora o tipo de mulher que gostasse de crianças, ou sequer as entendia; para ela crianças só serviam para chorarem alto e atrapalhar a vida dos adultos.

Contudo, tais ideias não se aplicavam ao seu pequenino 'chutador'. Ela poderia não compreender a linguagem dos bebês – e normalmente era este o ponto que a fazia ficar impaciente ao lado das pequenas criaturas - todavia, pela primeira vez em sua vida, o fato da criança não falar não a incomodava, pois em seu imo ela sabia o que ele sentia. Ela partilhava do mesmo sentimento que o pequenino: medo.

Não era o medo de ser descoberta, mas sim do desconhecido. Do não saber o que seria do pequenino garoto no segundo que o deixasse naquele Monastério. Mas no seu íntimo, ela sabia que abandoná-lo naquele lar religioso repleto de mulheres que deram a sua vida a causas religiosas, era muito melhor do que deixa-lo a mercê de um lar de adotivo, ou então, mantê-lo em sua vida desgarrada, cheia de promiscuidade, pecados e erros imperdoáveis.

Infelizmente ela não poderia mantê-lo para si, por mais que desejasse.

Dando passos largos, e tentando ao máximo proteger o embrulho da chuva que caia mais forte do que minutos atrás, Elizabeth virou uma ruela, caindo exatamente atrás do Monastério, onde anos atrás mulheres que queriam abandonar seus filhos os deixavam ali não fornecendo nenhum dado ou arrependimento.

Nervosa, a mulher lançou olhares para os dois lados da pequena viela, agradecendo internamente por não encontrar ninguém. Nervosamente, ela deu os últimos passos para o local onde deixaria o seu pequeno 'chutador', com a consciência que jamais iria encontrá-lo novamente.

Suas mãos tremiam, enquanto ela começava a tirar a capa protetora do menino sobre um alambrado que os protegia da chuva. O menino que antes chorava com a incidência do relâmpago e trovão, agora dormia profundamente, inerente a qualquer coisa que acontecia a sua volta, inerente ao fato que sua mãe iria abandoná-lo.

Elizabeth admirou com cuidado os traços do garoto sob uma luz precária. Ele tinha traços claros do seu mais querido cliente, aquele que ela fora perdidamente apaixonada, mas que a chutou como se fosse escória quando soube da gravidez. Ela deveria odiá-lo, mas ela o amava, assim como ela amava o seu bebê.

Com lágrimas inesperadas, contudo extremamente grossas e cheias de arrependimento rolando por seu rosto, Elizabeth deu um beijo carinhoso no fronte da criança, fazendo uma oração silenciosa a um Deus que há muito ela havia deixado de acreditar; pediu para que seu pequeno tivesse um futuro brilhante longe do pecado e da promiscuidade que ela vive.

Com um último olhar a criança, ela o colocou no cesto que ficava sob um grande sino na porta do monastério, demorando um longo tempo para ajeitá-lo nos lençóis e cobertores que ela havia conseguido da parteira. Depois que o menino estava bem acomodado e o máximo de confortável naquelas circunstâncias, colocou sobre a sua diminuta barriga um único pedido:

"Que se chame Edward, como o pai."

E com isto, dando uma última olhada a seu precioso Chutador, balançou a sineta com toda a força que possuía em seus braços e saiu correndo pela ruela que anteriormente havia caminhado, deixando o menino nas mãos daquelas mulheres de Deus.

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Phoenix, Arizona, Estados Unidos da América
13 de setembro de 1990.

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Uma mulher de cabelos castanhos arruivados e embaraçados caminhava trôpega pelas ruas de Downtown com um embrulho em seus braços. Contudo, não havia precaução alguma no manejo daquele pequeno pacote, o que permitia que a fina chuva de final de verão caísse no rosto diminuto da criança. Era visível que ela estava embriagada, seus passos não seguiam uma linha reta, seus braços e pernas estavam frágeis, era como se ela fosse cair a qualquer momento.

Para qualquer mulher, o nascimento de um filho deveria ser uma data a se comemorar. Mas não para Elizabeth. Pela segunda vez, em menos de dois anos, ela teve o desprazer de gerar uma criança. Ao contrário do seu precioso 'chutador' - o menino de cabelos ruivos e olhos verdes - o bebê que ela carregava em seus braços era uma prova de seus erros - o abuso de álcool, cigarros e drogas.

A gestação durara cerca de 7 meses. A criança, uma menina, nascera frágil e com a saúde precária, devido aos abusos da mãe. Contudo, Elizabeth não queria saber se a garotinha iria ou não viver, ela somente queria jogá-la fora e nunca mais sequer pensar nela. Aquela criança nada mais era do que um erro. Um enorme erro.

Tanto que para efetivar o seu plano, literalmente sequestrou a criança da maternidade onde havia dado a luz para que conseguisse abandonar a garota no mesmo lugar onde abandonara o seu adorado e saudoso 'chutador'. Ela não sabia o motivo por estar levando a menina para o mesmo lugar, já que ao contrário do outro bebê, por este ela sequer se importava. Deveria ser algo de seu imo nublado pelas substancias ilícitas, mas a questão é que pela segunda vez em pouco mais de 1 ano, ela estava deixando outra criança no mesmo cesto do mesmíssimo monastério.

Desta vez, Elizabeth não se incomodou em deixar o cesto confortável para o bebê. Ela somente o colocou ali, não tomando nenhum cuidado, e olhando com visível desprezo para a minúscula menina que era tão parecida com o seu pior cliente. O seu explorador, o seu rufião, o seu cafetão. Ela sempre desprezou Caius, mas quando ele começou a lhe fornecer drogas por troca de pequenos serviços sexuais, ela não conseguiu conter seu desejo, sua ânsia de anestesiar a falta de seu amante e de seu bebê. Por isto, ela acabou aceitando a oferta.

Definitivamente aquela menina sem nome era a personificação de sua desgraça, era a filha do demônio, aquela que não merecia viver; Tanto que quase como uma vingança à pobre criança, deixou-a no relento da chuva, tomando friagem em seu pequeno corpo nu com o curativo ainda no cordão umbilical. Elizabeth saiu tropeçando pela viela sem sequer tocar a sineta do monastério.

A chuva de final de verão se intensificou, tornando-se uma verdadeira tempestade, ferindo com seus grossos e pesados pingos a pele pálida e suave da recém-nascida. A pequena chorava aos prantos para ninguém em especial, por conta do seu sofrimento, pedindo e ansiando por calor, conforto ou algo para apaziguar a sua dor.

Fora quase que por um milagre divino que a Irmã Irina resolveu verificar que animal estava chorando na chuva diante da porta do convento. Porém, se surpreendeu ao encontrar a pequenina menina recém-nascida sofrendo com o frio cortante. Irmã Irina entrou em absoluto desespero quando pegou a criança em seu colo – completamente molhada e fria como a morte, e em seu ato de desespero, a enrolou em suas vestes e correu para dentro do Monastério, onde aos pratos acordou as outras irmãs e o padre Eleazar para que chamassem um médico.

A criança passou duas semanas no hospital em observação, e como um verdadeiro milagre, nada de grave havia lhe acontecido. Entretanto, sua idade prematura era preocupante, mas nada que alguns dias na incubadora não resolvessem seus problemas iniciais e os maus tratos de suas primeiras horas de vida. Fora com um pedido da equipe médica da Santa Casa de Phoenix, que a menina ficara mais uma semana no berçário do hospital fazendo uma infinidade de exames e confirmando que ela estava realmente bem. Quando a pequena menina voltou ao monastério onde foi amparada e cuidada pelas freiras, recebeu o nome de Isabella, a que se dedica a Deus.

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Nos anos em que Edward ficara no Monastério Nossa Senhora de Guadalupe, ele fora a alegria de todos ali - das irmãs, dos padres e até mesmo das outras crianças. Sua pele alva, de traços angelicais, cabelos ruivos e intensos olhos verdes eram hipnotizantes; diversas famílias que vinham ao Monastério para conhecer crianças a serem adotadas, ficavam encantadas com o menino. Entretanto uma família de posses de Chicago fora a que o garotinho escolheu; e durante dois anos, apesar de continuar no lar enquanto o processo de adoção tramitava na corte, Edward só falava de sua nova família, de seu papai médico e de sua mamãe linda que tinha o cabelo da mesma cor que o dele: ferrugem.

Isabella em contrapartida ao irmão desconhecido, era quieta e reclusa. Sua saúde era ligeiramente frágil, alergias e constantes resfriados eram comum na vida da pequena menina. Ela passava horas na capelinha do Monastério rezando ou apenas acompanhando as freiras, com quem ela havia criado um intenso laço maternal. Isabella, ao contrário do menino de cabelo de cor engraçada e olhos cor de árvore, não ficou tão animada com a sua nova família – que conhecera no seu aniversário de 2 anos.

O homem que seria o seu papai tinha uma vasta bigodeira escura que parecia atrapalha-lo para falar e comer, já a mulher que seria a sua mamãe parecia não conter as suas mãos, ansiando por passar entre seus cabelos ou apenas tocar a menina. Entretanto, Isabella estava agradecida a Deus por aquelas duas pessoas terem entrado em sua vida. Em breve, eles tornariam-se seu pai e sua mãe. Como a Irmã Irina havia lhe dito em uma noite, ela fora um milagre, e um milagre como ela, iria iluminar a vida de qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo.

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Era um dia como qualquer outro no Monastério, as irmãs e os padres se dividiam em suas orações e nos cuidados das 10 crianças que ali viviam. Hoje haveriam 2 festinhas. A primeira seria em comemoração ao aniversário de 3 anos da querida e adorada Isabella, a outra seria a despedida de Edward, que partiria para a sua nova casa no dia seguinte, logo nas primeiras horas da manhã.

As crianças estavam animadas, e apesar da instituição cristã receber muitas doações, era raro para elas terem salgadinhos, doces, bolos e refrigerantes em abundância. Aqueles que administravam o Monastério preferiam investir em alimentos ricos em vitaminas, proteínas e extremamente saudáveis, ao invés de gastar rios de dinheiro com que muitos consideravam um luxo desnecessário.

Isabella terminou de colocar a fita de cetim azul celeste em seus cabelos castanhos como mogno, com a ajuda da Irmã Irina, e se encarou no espelho. O vestido floral feito das sobras de um tecido qualquer, lembrava uma jardineira, moldando com delicadeza o corpo da menina. Com seus grandes e intensos olhos castanhos admirou sua forma, demorando-se em suas novas sandálias brancas, um presente dos seus possíveis pais, Charlie e Renée Swan. A garotinha sorriu com a imagem, nunca em seus 3 anos de vida Isabella tivera algo tão bonito, novo e totalmente seu.

- Eles serão um bom papai e uma boa mamãe para mim, não é mesmo Irmã Irina? – perguntou a menina cabisbaixa e com a voz melodiosa, contudo com uma pitada de apreensão.

- Claro que sim minha princesa, lembra que eu disse que você é um milagre? E que qualquer família que a ter será abençoada por Deus? – replicou a freira, com um sorriso amoroso em seu rosto e seus olhos emocionados. Irina desde que recolhera Isabella naquela noite chuvosa em frente ao Monastério há exatos 3 anos, desenvolveu uma afeição maternal pela menina, e até mesmo havia jurado a Deus que se ninguém a adotasse até seus 5 anos, ela o faria, mesmo que tivesse que abandonar a sua vida de devoção a Cristo.

Isabella encarou o rosto emocionado da irmã, e agindo como ela sempre fazia quando estava com Irina, jogou-se em seus braços e deu um suave beijo em seu rosto.

- Eu nunca vou esque... 'esquecelme' de você Irmã Irina. Você é a minha 'Vigem' Maria. – sussurrou a menina com a voz diminuta. Irina, que retribuía o abraço tomada pelo momento, cerrou seus olhos para conter a emoção que avançava como uma torrente por seu corpo.

- E você é um milagre, Isabella. – compactuou a Irmã, com a voz embromada pela emoção.

A menina e a mulher ficaram por um longo tempo abraçadas na pequena cela que Irina dormia. Contudo, o som alto das crianças rindo do teatro que o padre Eleazar e o padre Garret faziam no pátio, quebrou a magia do momento e ambas desvincularam-se do abraço para unirem-se aos outros.

Edward depois do banho vestiu uma calça de percal marrom claro e uma camisa azul claro de linho – que era quase um uniforme masculino no Monastério - apenas passou seus dedos por seus cabelos arruivados e correu para o pátio, para poder se despedir de todos e curtir o seu último dia naquele lugar que ele adorava, já que era o único que conhecia em todo o mundo.

O menino de 4 anos estava empolgado por saber que no dia seguinte estaria andando de avião junto de seu novo papai e sua nova mamãe para aquela que seria a sua nova casa, que pelas fotos que havia visto era enorme – branca e com amplas janelas de vidro - onde ele teria um piano de cauda preto para aprender a tocar e também dois Husky Siberiano, que era o cachorro mais lindo que ele já vira na vida.

Suas conversas sempre traziam à luz seus novos pais, o médico neurologista Carlisle e sua esposa Esme. O garoto estava excitado em falar sobre as coisas que tinha na casa deles em Chicago, e que em breve Edward poderia ter. Seus comentários poderiam ser inocentes, e eram, ainda mais pela a idade do menino, todavia, algumas crianças um pouco mais velhas estavam morrendo de ciúmes, pois pareciam que nunca seriam adotadas.

Edward estava empolgado contando ao padre Alistair sobre a sua nova casa e as coisas que teria. O padre o ouvia com um sorriso enviesado em seu rosto. Todos no Monastério Nossa Senhora de Guadalupe nutriam um carinho especial por cada criança que eles criavam, por mais que não fossem um lar adotivo, e não recebessem verbas para isto, cada misera doação ou cada criança que encontrava um novo lar, era uma notícia abençoada para todos; e Alistair sendo um dos padres mais velhos da irmandade ao ver uma criança animada com a perspectiva de fazer uma família feliz era o melhor presente que ele poderia ter, pois era como que a sua missão de vida fizesse total sentido para si.

- Então padre você já viu um Husky Siberi... 'Siberigano'? – perguntou Edward animado ao padre, que riu divertido pelo erro do garoto ao dizer a raça do cachorro.

- É Siberiano Edward, e sim eu já vi um desses, da aldeia que vim na Itália tinha um senhor que tinha criação deles. – explicou o homem, evidenciando o seu sotaque do norte da Itália, algo que mesmo depois de viver há mais de 25 anos nos EUA, ele não havia perdido.

- Mesmo? – empolgou-se o garoto arregalando seus grandes olhos verdes em admiração ao padre. – É verdade que eles são próprios para andar na neve? – pediu com admiração.

- Sim, eles saíam da Sibéria e iam até o Alasca puxando trenós com alimentos e medicamentos. Sem contar que são animais rápidos, fortes e resistentes. – pontuou o padre Alistair com intensidade.

- Rápidos que nem eu, padre? De conseguir correr todo o 'Monastélrio' em poucos segundos? – insistiu empolgado, esquecendo a sua modéstia ao dizer que conseguia correr com agilidade.

- Exatamente Edward. – divertiu-se o homem bagunçando ainda mais os cabelos do menino.

- Legal! – exclamou o garoto, perdido em seus pensamentos. Porém, seus pensamentos não perduraram por muito tempo, já que o teatro realizado pelos padres Eleazar e Garret iria começar. Como em uma despedida educada aos moldes católicos, o garoto despediu-se do Padre Alistair e correu para o lugar onde todas as outras crianças se acomodavam.

Todas as crianças assistiram a história de Daniel na Cova dos Leões que os padres e duas noviças encenavam, deslumbrados com os diálogos e cenas que desenrolavam diante de seus olhos. Após a peça de teatro, todas as crianças, freiras, noviças, padres e frades se reuniram no refeitório para celebrar o aniversário de Isabella – que ficou vermelha como tomate maduro quando toda a atenção foi voltada para si durante o parabéns – e também celebrarem a despedida de Edward, desejando-o tudo de bom.

O garoto ao contrário da meia-irmã desconhecida não ficou tímido, na verdade Edward adorava uma atenção, e quando todos estavam olhando para ele, não hesitou em dizer que mandaria brinquedos para todos – Esme havia lhe dito em segredo que ele poderia fazer isto quando fosse para Chicago com ela e Carlisle.

Isabella ao ouvir a sentença do menino, torceu o nariz, pois mesmo com sua tenra idade, ela não gostava de luxo e de pessoas que se vendiam por dinheiro. A menina já sabia identificar aquelas pessoas que achavam que porque tem dinheiro têm o mundo, e claro, ela havia se deslumbrado com a sandália de tiras que havia ganhado do casal que estava tentando adotá-la, mas como Irmã Irina havia lhe dito, aquele par de sapatos era algo necessário, não era para luxo, e por isso que a menina aceitara.

Todos comeram e se esbaldaram com os salgadinhos, os docinhos, o imenso bolo de frutas com chocolate e os refrigerantes que tinham na festinha. Eram tão poucas as vezes que tinha tudo aquilo no Monastério que quando tinha, todos aproveitavam como se fossem a última refeição que fariam.

Isabella, entretanto não estava muito animada com a sua festa – ela normalmente não gostava de multidões - e por isto saiu discretamente do refeitório e foi ao pátio onde sentou sob uma amoreira e ficou admirando o céu ao anoitecer. Ela pouco sabia da noite que fora encontrada por Irmã Irina, ou sobre a sua mãe – já que apesar de ter nascido prematura nenhum hospital de Phoenix parecia ter o prontuário desta - e a única coisa que Isabella poderia fazer, era pedir a Deus, Jesus e a Virgem Maria para iluminarem sua mãe biológica e livrá-la de todos os pecados que ela tinha, inclusive por abandoná-la.

A menina de apenas 3 anos era uma alma bondosa, altruísta; e mesmo sendo abandonada quando tinha apenas algumas horas de vida, ainda pedia as divindades para que protegessem aquela que a gerou.

Seguido de suas orações, à menina emendou um cântico sobre o Espirito Santo, fechando seus olhos e sentindo a suave brisa que batia em seus cabelos castanhos e sua pele alva. Ela estava tão distraída que sequer notou a aproximação de Edward.

O menino sempre a observara de longe junto com as freiras ou simplesmente sozinha na capelinha rezando. Ele não entendia o porquê ela gostava tanto de fazer estas coisas, ao invés de brincar como todos os outros. Por mais que ela tivesse uma saúde debilitada, ela poderia ser uma criança, pelo menos era o que ele pensava. Mas mesmo ele não a conhecendo efetivamente, ele tinha um desejo, uma ânsia esquisita de protegê-la; era como se não o fizesse, ela poderia se machucar.

De qualquer maneira, por mais que nunca tivesse falado com ela, ele queria despedir-se dela. Era uma necessidade absoluta, e por causa disto que ele a seguiu ao pátio. Para despedir-se da menina. Ele ficou um longo tempo escondido entre as pequenas árvores observando Isabella primeiramente rezar e depois cantar, e cada vez que seus olhos verdes a admiravam, ele sentia algo estranho em seu corpo. Seu coração batia mais rápido e gotículas de suor escorriam de seus dedos.

Lentamente, ele ajeitou a sua camisa e pegou o pequeno lírio que havia colhido para dar a menina, e seguiu a passos decididos para onde ela estava murmurando o cântico cristão.

Dando uma longa e profunda respiração, Edward disse:

- Oi. – imediatamente a monossílaba assustou a menina, que arregalou seus olhos castanhos como chocolate. – Ei! Fica Calma, não quero te assustar, quero te dar isto, e também parabéns. – explicou o menino esticando a flor para a menina que temerosa a pegou.

- Por quê? – pediu curiosa. – Por que você está me dando uma flor? – exigiu saber.

- Porque é seu aniversário Isabella. – respondeu Edward chutando uma pedrinha. A menina o intimidava, o que era estranho.

- Não me chame de Isabella. – defendeu-se a menina.

- Por quê? Este não é seu nome? – replicou confuso.

- É, mas eu não gosto. 'Pelfiro' Marie, igual à mamãe de Jesus. – defendeu-se a menina, levando o lírio alaranjado até o seu nariz e aspirando o aroma.

- Ninguém a chama de Marie, todos te chamam de Isabella. – Edward disse confuso.

- Eu sei. – suspirou pesadamente a menina. - Mas eu não gosto. Isabella pode até sign... 'signi ficacar' devoção a Deus, mas não me sinto assim e acho que é porque a minha mamãe me deixou aqui. – deu de ombros.

- Você conheceu a sua mamãe? – pediu Edward confuso. A menina rapidamente negou com a cabeça. – Mas então por que você age assim? Você não deve ter pe-pe... pecado como a sua mamãe. – disse com sensatez o menino.

A menina deu de ombros.

- O bispo Vladimir disse que nós 'carregalmos' os pecados dos nossos pais em nossa alma. – ponderou a menina.

- E você acredita no Bispo Vladimir? Ele nem sabe como pôr as calças, ele vai pe-pelado rezar a missa. – defendeu-se Edward, insinuando que o que a menina estava dizendo era o maior absurdo do universo, assim como um padre rezar uma missa completamente nu, por baixo da batina.

Isabella escancarou a sua boca diante das palavras de Edward.

- Não se 'polde' dizer isto sobre um padre ou bispo, é pecado! – exclamou fazendo o sinal da cruz.

- Tudo é pe-pecado aqui, até respirar às vezes acho que é um pe-pecado aqui. – suspirou pesadamente o menino sentando-se ao lado da desconhecida irmã na mureta.

- Você não tem medo de ser condenado por Deus, por dizer isto? – advertiu. – Isto é um pecado, uma 'blasfêminia'...

Edward deu de ombros.

- Não me 'impolto'. – replicou para a surpresa de Isabella. – De qualquer forma, esse assunto é chato, já falamos disso to-todos os dias nas aulas de religião. Eu quero me des-despedir de você, amanhã eu estou indo embora.

- Por quê? – pediu a menina confusa, o garoto a encarou da mesma maneira. – Por que você quer se 'despeudir' de mim? Você nem me conhece. – pontuou com sensatez.

- Claro que eu te conheço Marie, você que nunca se importou com mais ninguém. – gracejou o menino com um sorriso enviesado. Isabella rolou seus olhos.

- Você é tão bobo. – desdenhou a menina.

- O que você quer ganhar de aniversário? Meu novo papai e minha nova mamãe estão vindo me buscar amanhã, mas posso falar para eles comprarem alguma coisa pra que eu possa te dar de pre-presente. Uma boneca? Um vestido azul? – pediu o menino ansioso. – Ou eu posso pedir para que eles a adotem.

- Eu não quero dinheiro! – exclamou a menina. – Dinheiro em ex-ex-excesso é coisa do... – ela apontou o seu dedinho indicador para baixo. – do coisa ruim. – murmurou acima de um sussurro quando percebeu que Edward não entendeu o que ela estava dizendo. – E eu já tenho um papai e uma mamãe que vão me levar com eles. Eles são muito legais, e não ficam falando de dinheiro como os seus, eles sabem que dinheiro é do mal.

- Dinheiro não é do mal. – defendeu-se Edward. – Dinheiro é neces-necessário, sem ele não se come, não se veste, não vive. Até Jesus sabia disso! – exclamou o garoto. – Você é uma boba se acha que pode viver sem dinheiro.

Isabella deu de ombros, balançando suas perninhas e levantando-se com um salto da mureta.

- O essencial pra viver não é pecado, é neces... 'necessálrio'... – falou enquanto começava a caminhar em direção ao prédio central do monastério.

- Ei! Onde você tá indo? – chamou Edward, saindo da mureta e correndo para onde Isabella estava.

- Ficando longe de você. Você só sabe falar de dinheiro, e Deus não gosta disso e nem eu. – replicou a menina com um ligeiro biquinho.

- Oh... desculpa, eu não vou mais falar de dinheiro. – prometeu Edward levantando seus dedos aos lábios e fazendo uma rápida promessa. – Quer conhecer a minha caverna 'secleta'? – pediu com um sorriso enviesado. – Quando você quiser ficar sozinha, você pode ir pra lá, ninguém me achou lá. – disse misterioso, atraindo a atenção da menina.

- Onde fica? – perguntou interessada.

- Venha aqui, eu te levo lá. – falou o menino, agarrando a pequenina mão da menina com as suas e a levando para o lado mais afastado e escuro do pátio.

Nenhum dos dois irmãos compreendeu o que estava acontecendo naquele momento. Suas mãos eram encaixes perfeitos, algo esquisito para os dois. Era como se uma energia corresse entre eles, fazendo com que uma ligeira cosquinha se formasse em seus estômagos. Era natural andarem de mãos dadas, como se tivessem destinados a serem assim.

Ao chegarem à caverna – que nada mais era do que duas pedras sobrepostas que deixava uma fenda aberta – as duas crianças sentaram-se e ficaram admirando o céu. Às vezes contando coisas aleatórias, outras vezes apenas em silêncio. Ambos pensavam a mesma coisa, sentiam a mesma coisa, numa clara conexão de irmãos, mesmo que ambos desconhecessem esse fato.

Quando já se estava tarde e precisavam voltar aos seus quartos, fizeram a promessa de manterem contato, e de um dia voltarem naquela caverna e contarem sobre a sua nova vida.

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Edward fora para Chicago com o Dr. Carlisle Cullen e sua esposa Esme Everson um pouco antes do almoço. O garoto estava animado, ainda mais porque a sua mãe havia trazido roupas novas e de tecidos finos para ele usar.

Isabella fora adotada pelos Swan de Forks alguns dias antes do Natal daquele ano, enrolada em uma japona vermelha que seus novos pais haviam lhe comprado. Não era nada caro ou chique, mas era um verdadeiro troféu que a menina aceitou de bom grado o agasalho que a protegia do frio anormal.

As crianças como irmãos, ou amigos como acreditavam que eram, nunca mantiveram contato, mas seus pensamentos conforme cresciam vire e mexe iam para aquela noite quente de setembro onde compartilharam de uma conexão sobrenatural, que talvez nem mesmo a genética possa explicar.

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N/A: E aí amores? Gostaram deste primeiro capítulo?

Ele necessariamente conta a história de como os dois nasceram, onde passaram o início de sua vida antes de serem adotados. Quero deixar claro desde o começo a diferença na criação deles; enquanto Edward foi desejado e amado pela mãe deles, Bella foi literalmente rejeitada, e este fator meio que contribuiu para a formação do caráter inicial deles, vemos que o Edward gosta do luxo, dos prazeres da vida – mesmo sendo criança ele sabe que o dinheiro pode lhe comprar qualquer coisa -, a Bella em oposição, sabe que o dinheiro é importante, mas sabe que ele corrompe as pessoas, levando-as a fazer coisas ruins. Essa diferença de realidades que eles vivem é algo que vai se tornar muito clara quando eles se "conhecerem" de verdade.

Agora convenhamos essas crianças juntas não são fofas?

Obrigada a Gaby por ler e betar essa loucura, dando opiniões e tudo mais. Obrigada também a quem se animou e quis me acompanhar nesta jornada um pouco controvérsia, prometo fazer algo que vocês irão gostar. Espero vê-los no próximo capítulo que sai na próxima semana, combinado?

Beijos,

Carol.

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