Avisos

I– As personagens do universo Potteriano da honorável JK Rowling não me pertencem. Eu sei que vocês sabem, é só pra esclarecer as coisas mesmo.

II–Essa fic tem conteúdo yaoi, que é o relacionamento amoroso entre dois homens. Se você não gosta, então pare sua leitura por aqui. Não vou aceitar bem críticas a esse respeito

III- E contém SPOILERS de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Depois não digam que eu não avisei ¬¬


Amanhecera há pouco e Remus já estava acordado emora estivesse muito cansado. Reconhecia os móveis arrebentados da casa dos gritos e sabia estar só. O cheiro característico daquela casa impregnava suas narinas quando olhou ao redor. Os raios de Sol de inverno entravam pelas janelas pregadas com pedaços de madeira. Sentia frio.

Levou algum tempo para que se lembrasse do fiasco que havia sido a sua desculpa esfarrapada para Tiago e Sirius. Arrependeu-se por ter feito aquilo mas, por outro lado, teria sido bem pior se tivesse revelado a verdade. Provavelmente teria perdido o seu melhor amigo. Ele sabia que não suportaria ver Sirius olhando para ele talvez com pena, talvez com nojo. Suspirou.

Levantou-se da cama, caminhando em direção ao cômodo que Madame Pomfrey sempre lhe deixava as refeições dos dias em que passava naquela casa. Encontrou tudo como de costume, tomando seu café sem vontade. Era diferente aquela sensação de estar sem vontade. Por alguns instantes, ele se sentiu o pior dos seres. Em outro, procurava cobertas para se aquecer e esperar outra noite de tormento.

Seus amigos estiveram ali? Ele sabia que sim mas não se lembrava de nada, embora tentasse todas as vezes em que se encontrava sozinho. Aquela era a sua oportunidade, ele precisava esquecer Siriius e nada melhor que estar longe dele para fazer isso.

Remus voltou ao quarto e encontrou cobertas em um armário perto da cama. Achou que seria suficiente para aquecê-lo e deitou-se lá em silêncio, apoiando sua cabeça em uma das mãos flexionada. Fechou seus olhos e as imagens vieram sutilmente até que estivesse mergulhado nelas com toda a intensidade que já conhecia. Era como viver tudo novamente, cada traço do rosto de Sirius se formava em seu pensamento... era tão real! Aquele sorriso de tirar o fôlego e os cabelos contra o vento. Sentiu seu coração se aquecer, a alegria já sua conhecida tomou conta de seu peito mas ele precisava arrancá-la de si. Forçou-se a pensar em como seria se contasse tudo a Sirius, a forma como ele provavelmente lhe olharia e depois o afastamento que tanto temia.

E sentir Sirius tão distante nunca doera tanto. Remus não podia sequer correr o risco de que aquilo acontecesse.

Abriu os olhos novamente e constatou que lágrimas escorriam por sua face. Seu olhar permaneceu vidrado olhando para o nada em direção à janela.


O dia amanheceu e Sirius sentia uma dor nas costas que não sentia antes. A noite havia sido boa, com direito a um passeio na floresta proibida que lhe rendera a dor que sentia agora. Se ele se arrependia de algo naquele momento? Apenas de ter deixado Remus dormir sozinho. Ele e sua mania de pensamentos estranhos. Mas era como Moony havia dito: sem rótulos. Então não era necessário pensar se o que havia em sua mente eram coisas gays porque o termo era apenas um rótulo e nada mais.

Ele admirava Remus de todo o seu ser e queria estar com ele naquele dia, enquanto o amigo estaria consciente também, mas não podia porque Tiago havia elaborado um grande plano para aproximar Alessandro Diggory do Moony.

Depois de momentos de silêncio mental, Sirius tornou a pensar se Diggory realmente merecia seu amigo. Alessandro tinha fama de não se envolver profundamente com as pessoas com quem namorava. Talvez a sua fama não fosse tão ruim quanto a de Sirius, porque o úlltimo também tinha uma certa fama de arrasador de corações que não era completamente mentira. Que culpa tinha se as pessoas simplesmente se apaixonavam por ele com maior freqüência?

Ah, não interessava! Diggory parecia não ser bom o suficiente para o Moony. Não para o Moony. Se ainda fosse para o Wormtail vá lá, mas o Moony, não. E ele faria de tudo para que o amigo fosse feliz... mas a dorzinha no peito tornava a passar vez ou outra e incomodava. Por que essa dor?


Sirius comia em silêncio o seu almoço, o que era um tanto anormal para ele. Tiago percebera aquilo e tentava instigar o amigo a falar mas não obteve sucesso a manhã toda. No fundo, havia uma dúvida incomodando Sirius. Ele conhecia aquela dor... sim, ele conhecia aquilo. E se chamava ciúmes... mas ciúmes de quê? Ele tinha ciúmes do amigo? Moony era tão doce apesar da vida muitas vezes amarga que levava... não merece alguém que vai fazê-lo sofrer. Não podia admitir que alguém brincasse com os sentimentos dele. Muito menos um tal Alessandro Diggory que, afinal, não era nada demais. Por um momento, sentiu um ódio extremo de Alessandro.

- Sirius, você tá me assustando... - Tiago o olhava boquiaberto. - Você tá comendo feito um cachorro! - Riu da cara confusa do amigo.

Realmente, Tiago tinha razão. Sirius fizera sujeira no prato e comia uma coxa de peru com as mãos e se deu conta de estar descontando a raiva que sentia ao imaginar Remus e Diggory juntos na coxa do pobre peru. Sorriu desconcertado.

- Olha, tudo bem... você só assustou aquela garota bonitinha do terceiro ano que era afim de você. Tá vendo ela lá? A cara dela não tava boa quando ela te viu comer feito um cachorro... - deu palmadinhas no ombro do amigo enquanto ria abertamente.

- Ah, tudo bem, eu não estava interessado nela mesmo... - Sirius falou sem se importar.

Era impossível não sentir falta do Moony. Geralmente era ele quem ficava de olho nas garotas que pareciam estar gostando de Sirius e o animago não se importava muito com elas. Ele preferia comer com os amigos enquanto falavam toda a sorte de asneiras e planos divertidos para as próximas semanas. Moony fazia falta. Será que ele estava gostando do Moony? Isso talvez explicasse a raiva que sentia de Diggory... e a falta que sentia do amigo. Mas... ele amava o Moony?

- Arrasador de corações! - brincou Tiago.

- Mas então, Prongs, nós não vamos ver o Moony hoje mesmo? - perguntou entretido com sua comida, tentando organizar o prato bagunçado, e, ao mesmo tempo, parecer menos amedrontador enquanto ignorava o comentário anterior.

- Tá com saudades, é? Eu também tô mas nem tanto. A prioridade agora é executar o plano e você vai me ajudar, não vai? Moony é seu amigo também e nós zelamos pelo bem estar dele tanto físico quanto amoroso - falou Tiago solenemente.

- Você tem certeza de que esse Diggory é o cara ideal para o Moony? Porque ele tem uma fama ruim e...

- Mas quem falou em ser ideal? O Moony gosta dele, não é? Então deve ser o ideal, oras.

- E se ele fizer o Moony sofrer?

- O sofrimento é conseqüência do amor, meu caro!

- Então você não se importa?

- Claro que eu me importo mas relaxa, cara. Por que você tá tão preocupado?

- É que eu não consigo imaginar os dois juntos.

- Pois é, nem eu...

- E o Diggory não parece ser bom o bastante para o Moony...

- Ahá! Isso se chama ciúmes? Eu estou louco? Estou ouvindo coisas? Sirius Black com ciúmes?! Hahahahahaahah

- Isso é sério, Prongs! - Sirius começava a se zangar e a corar também.

- É sério mesmo. Acho que seu instinto superprotetor vai acabar sufocando o Moony... a menos que isso não seja um instinto superprotetor e... você tá mudando de lado, Padfoot? - falou Tiago divertido.

- Ah, cara, cala a boca e come, vai - era impossível não perceber que Tiago havia tocado em um ponto sensível. Sirius mudara completamente em questão de segundos e bipolar ele não era.

- Você tá afim do Moony! Não acredito! - Tiago bateu palma como sempre fazia quando havia descoberto algo grande denovo.

- Não, não tô. - Sirius parecia um velho rabugento.

- Tá sim... - Tiago se fazia de maravilhado - Estou vendo no brilho dos seus olhos, Padfoot! Olha pra mim denovo, vai! - o garoto não conseguia se conter. Pegou o queixo de Sirius com firmeza e fez com que o garoto olhasse para ele.

- Tá bem, quer anunciar para a escola toda? Vai anuncia... mas se isso chegar aos ouvidos dele eu juro que vai ter troco. - Sirius semicerrou os olhos em uma expressão de fúria que fez a alegria de Tiago se esvair.

- Eu tava certo? Pads, isso é um problema... - Seu tom voltou ao normal e uma pequena ruga se formou na testa do garoto.

- Não, isso não é um problema porque não vai acontecer nada. Eu não vou dizer nada, você também não vai dizer nada e todos viveremos felizes para sempre.

- Não vai tentar...?

- Absolutamente não! Ele é meu amigo e você sabe que isso nunca dá bons resultados. Além do mais, ele gosta de outro.

Tiago não disse mais nada, limitando-se a abraçar o amigo em sinal de companheirismo. Os planos haviam mudado agora dentro da cabeça dele.


- Moony... - Tiago entrava na casa dos gritos no começo da tarde. Os planos haviam mudado.

Sem obter resposta, Sirius e Tiago procuraram Remus pela casa até encontrá-lo no quarto, de olhos bem abertos e vermelhos olhando para a janela. Havia algo errado com ele porque estava acordado e não respondera a nenhum dos chamados dos amigos.

- Moony! - Sirius se adiantou. - Você está bem? Está... chorando... - Ele não soube de onde, não soube como mas a dor voltou em seu peito e mais forte que nunca. Moony estava chorando e Sirius sabia que não era por ter estado sozinho desde o momento em que acordara... era por ele, por Alessandro Diggory. Quis tocar em seu amigo, quis tirá-lo da cama, abraçá-lo e fazê-lo parar de chorar... queria fazer com que os olhos tão bonitos de Remus voltassem ao normal mas não se moveu. Não podia se mover. Olhou para Tiago em busca de apoio.

- Moony... - Tiago sentou-se na cama de modo a ficar bem próximo do rosto do amigo. - O que houve? - Olhava de Sirius para Remus sem saber qual deles ajudar primeiro.

Remus enxugou rapidamente as lágrimas e tentou se recuperar. Não esperava ser descoberto daquele jeito e nem ao menos os ouvira chegar... Não tinha desculpas naquele momento.

- Oi... ah, nada, eu estou bem. - Sorriu fracamente ao ver Sirius na sua frente, parado olhando para ele. Devia estar em estado de trapo mesmo para que os amigos o olhassem daquele jeito.

Tiago suspirou tentando encontrar palavras cuidadosamente.

- Desculpe nosso atraso... Wormtail saiu com uma garota. Foram para Hogsmeade em uma das nossas passagens secretas. Mas estamos aqui... o almoço, bom, demoramos um pouco no almoço e...

- Tudo bem. Fico feliz por estarem aqui... eu aproveitei o tempo sozinho para colocar as idéias no lugar. - Remus forçou um sorriso e obteve êxito, apesar dos olhos inchados e vermelhos.

- Você está assim por causa dele, não é? - a voz de Sirius saiu mais fraca e rouca que o normal e Tiago logo notou, adivinhando o que se passava na mente do amigo.

Remus não conseguia responder àquilo. Olhava para Sirius e sentia dor. Sabia que teria que ser mais forte que estava sendo para suportar mas simplesmente não pôde articular palavras naquele momento. O sorriso se apagou de seu rosto.

- Não precisa responder... - Tiago se adiantou.

- Nós vamos te ajudar, Moony... por favor, não fique assim, está bem? - O tom de Sirius foi terno quando ele se abaixou para ficar no mesmo nível que Remus estava. Pegou uma das suas mãos hesitante e sorriu triste para o amigo.

Remus apenas assentiu em silêncio, sentindo o peito apertar ao toque de Sirius.

- Você não se alimentou direito - interrompeu Tiago - Precisa comer senão vai ficar muito abatido quando voltar. Vamos, Moony, vamos comer...

E Tiago trouxe a bandeja com os alimentos que Madame Pomfrey havia deixado no almoço. Lá fora, o Sol dava sinais de começar a se pôr e eles sabiam o que isso significava.

Lupin se alimentou mal mesmo com a supervisão dos amigos e Sirius permaneceu a maior parte do tempo calado.


As noites seguiram-se mais silenciosas do que Tiago previra. Com Sirius calado, Remus parecia menos disposto a falar ainda. Parecia o fim dos Marotos, o fim que Sirius tanto temera quando decidira não dizer nada sobre seus sentimentos a Remus.

Aos poucos, Remus tentava tirar Sirius da cabeça e Sirius parecia tentar fazer o mesmo. Tiago era o único a colocar algum plano em prática e nos dias em que Sirius pedia para ficar sozinho com Remus na casa dos gritos, Tiago foi sozinho falar com Diggory.

Em geral, o silêncio se abatia sobre Remus e Sirius nos dias em que estavam sozinhos, pelo menos até que Sirius tentasse dizer qualquer coisa para animar o amigo. As conversas eram superficiais e na maioria das vezes, Sirius tentava compreender o que Remus estava sentindo. Sirius não era nenhum especialista no amor mas parecia entender quando Remus contava sobre os apertos no peito e a angústia que sentia. Tudo o que Remus dizia era o que sentia perto do amigo, e não de Diggory mas ele precisava manter o disfarce para não estragar tudo.

Por vezes, Remus se pegava olhando triste para Sirius, imaginando tudo o que poderia ter sido e não seria. E todas as vezes em que o amigo se aproximava, ele desejava seu toque, a proximidade, as demonstrações de afeto que o outro lhe dava, mas sempre se recusava a aceitá-las, recuando e se odiando por isso. Era algo quase criminoso aceitar as demonstrações de afeto que Sirius passara a lhe dar depois que se disse apaixonado por Diggory. Era criminoso porque ele mentia, mergulhava em mentiras mas que tinham a verdade ao fundo porque as sensações que dizia sentir eram reais mas eram por Sirius. Remus se sentia culpado em receber atenção de Sirius quando as suas intenções não eram as de uma simples amizade como Sirius devia pensar. O lobisomem se sentia miserável com uma freqüência irritante.

Sirius, por sua vez, sentia-se ferido a cada vez que Remus recuava sob seu toque, seu abraço. Não havia nada de errado em abraçar um amigo mas parecia que Remus preferia não fazer aquilo. Talvez Remus tivesse passado a não apreciar mais sua companhia e fosse chegada a hora em que Sirius não mais era suficiente para o amigo, por mais que o amasse. Ele sentia o vazio que era tê-lo perto e não poder tê-lo realmente. Era chegado o momento em que seria melhor se afastar.


Alessandro Diggory havia se mostrado um bom amigo até o ponto onde se precisava ser ouvido. Ele e Remus aproximaram-se de fato após alguns planos mirabolantes de Tiago, mesmo a contragosto porque, na verdade, o que o garoto mais queria era aproximar Sirius Black e Remus Lupin.

À medida em que a amizade entre Remus e Alessandro crescia, a amizade entre o garoto e Sirius parecia desaparecer como em uma névoa sombria. O animago nem sequer se dava ao trabalho de olhar para Alessandro nos dias que se seguiram e muito menos quando ele estava com Remus. Sentia ciúmes, tinha vontade de ir embora, desistir de tudo e simplesmente partir para o lugar mais distante que pudesse encontrar.

Aos poucos, Sirius afastou-se de Remus, que parecia quebrado por dentro, mas todas as vezes em que era pego com o mesmo semblante entristecido, ele dava a velha desculpa de que era por Alessandro a sua tristeza, mesmo que agora ele passasse a maior parte do tempo com o novo amigo. Mesmo assim, Sirius não deixou de aparecer uma noite sequer dos dias em que Remus sofria sua transformação. Limitava-se então a acompanhá-lo durante as noites. Os dias eram preenchidos com a companhia de Tiago, que invariavelmente tentava fazer Remus sorrir. Pedro não se fazia notar, sempre caindo no sono na cama da casa dos gritos geralmente ao lado de Remus, o que fazia com que Sirius corasse e buscasse olhar para qualquer outra coisa mais interessante. Nessas ocasiões, inventava alguma desculpa para ir embora e simplesmente partia.

Claro que Remus não confiou o seu segredo a Alessandro. Apenas um louco faria isso já que o garoto falava demais e vivia entregando segredos dos outros amigos para Remus. No fundo, conversar com outro garoto que amava garotos foi um progresso para Remus. Era possível conversar sobre as primeiras impressões, sobre a forma como as pessoas os tratavam a partir da suspeita e Alessandro conhecia a maior parte dos outros garotos gays de Hogwarts. Remus ficou surpreso ao saber que havia tantos e que eram pessoas com quem ele usualmente tinha aulas ou conversava com freqüência e jamais havia suspeitado de nada.

O lobisomem sentiu a distância entre ele e o animago aumentar mas não sabia se aquilo havia sido de todo mal porque assim era mais fácil esquecê-lo. Sirius ficara ofendido muito provavelmente depois que Remus não aceitara suas demonstrações de afeto... era afeto entre amigos, não tinha nada demais mas mesmo assim Remus achou melhor recusá-lo. Se doía por dentro? Doía e muito mas era necessário.


- Tiago, posso pegar sua capa emprestada? - perguntou um Remus já mais corado que nos dias de lua cheia, quando sua pele adquiria um tom doentio.

- Claro... posso perguntar onde vai? - Tiago era genuinamente curioso.

- Claro que sim! Vou levar Alessandro à sala precisa, onde poderemos conversar melhor que aqui ou no salão comunal. - respondeu com sinceridade no olhar.

Tiago ficou abismado. Na verdade, esperava que os dois se conhecessem e se odiassem porque finalmente Sirius havia colocado na sua cabeça que Remus não era para Alessandro.

- Ahn... então vai - o garoto sorriu um sorriso forçado que se apagou completamente ao ver Sirius entrar no dormitório.

- Você acha que eu estou indo muito rápido? Digo... estou levando ele para a sala precisa e vamos conversar a sós e...acha que ele vai encarar isso como um encontro? - Remus estava realmente confuso. Não queria que parecesse um encontro porque jamais havia cogitado sequer a hipótese de ter alguma coisa com outro garoto que não fosse Sirius. A propósito, o mesmo Sirius que agora o olhava por detrás da cama desfeita.

- Já vai avançar o sinal, Moony? - Foi uma tentativa de brincadeira de Sirius para não soar muito estranho mas pareceu mais um ataque de ciúmes que ele havia tentado reprimir a todo custo nas últimas semanas. O sorriso também não foi dos melhores. Ele sabia que podia fazer melhor que aquilo.

- Olha... -disse Tiago, ignorando o comentário infeliz de Sirius - o cara é mais experiente que você, coisa e tal... Eu acho que ele vai encarar isso como um encontro sim. Eu encararia...

Remus baixou o olhar pensativo por alguns instantes e então colocou a capa da invisibilidade. Era muito mais cômoda a idéia de que nem um nem outro estariam olhando para seu rosto naquele momento. Os planos de Remus se limitavam a contar a verdade para Alessandro, a verdade sobre os seus motivos de ter mentido para os amigos e criado toda aquela situação desconfortável para ambos, ou pelo menos era o que ele achava ser desconfortável. Ele percebia que Alessandro começava a se interessar por ele e não podia levar aquilo adiante. Era errado, era sujo. Ele não conseguia, ia completamente contra os seus princípios.

- Estou atrasado, preciso ir...

- Vai voltar ainda hoje? - Sirius não segurava a boca mesmo.

- Calculo que daqui a umas duas horas. Por quê? - Remus tentou falar com naturalidade mas seu coração se quebrava cada vez mais. O que o animago estaria pensando dele?

- É que... eu... - olhou ao redor e não pôde deixar de olhar nos olhos de Tiago, tentando imaginar se Remus podia sentir a mentira deslavada que ele falaria - tenho planos para as masmorras e queria que você também estivesse conosco... nós quatro, lembra? - era demais querer que Remus desse um pingo de atenção aos amigos ou era demais querer atenção justamente quando o garoto havia encontrado alguém por quem se interessasse? Ciúmes, ciúmes, ciúmes, ciúmes...

- Olha, Padfoot, eu não demoro, tá bem? Juro solenemente! - riu descontraído e saiu sem dizer mais nada.

Tiago olhava incrédulo para o rosto de Sirius, ouvindo a porta bater, o que significava que Remus já havia deixado os dois sozinhos.

- Se continuar desse jeito, eu nem vou precisar contar nada a ele... - sorriu.

Sirius suspirou em resposta, jogando-se na cama e colocando-se a imaginar o que eles fariam na sala precisa. Droga, aquela sala fora uma descoberta dele e de Tiago e agora estava sendo mal usada. Muito mal usada, por sinal.


Remus executou todos os passos para encontrar uma sala precisa adequada às suas necessidades e fez com que Alessandro entrasse atrás dele.

A Sala estava decorada casualmente, apresentando um sofá confortável com almofadas vermelho sangue, uma mesinha de centro de aparência bem antiga e velas flutuantes próximas ao teto, iluminando bem o lugar. Remus se sentiu mais à vontade porque não havia nada ali que caracterizasse o lugar perfeito para um encontro.

Alessandro parecia um tanto desapontado mas Remus realmente não se importava.

- E então... por que me trouxe aqui? - Foi Alessandro quem iniciou a conversa.

Após um suspiro, Remus respondeu:

- Eu preciso ser sincero com você.

- Estou ouvindo.

- Eu amo Sirius Black.

- Ahhhhhh! Era só isso?! Fala sério, cara - deu uma palmadinha nas costas do lobisomem.

- Eu... eu estou falando sério. Estou completamente apaixonado por ele e, bom, acho que a forma como meu amigo Tiago fez começar a nossa amizade... eu quero te dizer que não pode haver nada entre nós, entre eu e você porque...

- Ah, tá. Para, para! Fala sério, Remus, achei que era algo mais construtivo. Você é bem inocente mesmo, hein? E quem não é apaixonado por Sirius Black?! - Alessandro ria sua risada aguda e irritante.

Remus ficou estático. Então Alessandro também era apaixonado por Sirius? Uma raiva começava a crescer dentro dele e percorrer seu corpo como um choque elétrico breve e silencioso.

- Desculpe mas eu não vejo graça nisso...

- Mas tem toda a graça! Olhe só para você, Remus, você é todo fofinho, educado, gentil e a sua fragilidade é amável! Por que perde tempo com Black?

- Não vejo Sirius como perda de tempo. - Remus ficou tentado a mostrar sua fragilidade para Alessandro ali mesmo mas se conteve, respirando fundo, tentando se livrar de uma nova onda de fúria que brotava em seu peito e se distribuía pelos seus braços.

- Ihhh, nem continua! Ele é perda de tempo sim. Eu nunca vi um cara mais hetero que ele! Gostar dele é um martírio ou você ainda não sentiu isso? Devia se amar mais, Remmie! - tocou a bochecha de Remus ao terminar a frase.

- Você não está ajudando. - Disse retirando a mão de Alessandro de perto dele. - Antes de mais nada, ele é meu amigo e...

- Falei pra não continuar, Remmie! - reprovou Alessandro, voltando a se aproximar de Remus - Você tem que se amar acima de tudo. Fica com outros caras pra esquecer dele, é o melhor que pode fazer. Fica comigo, por exemplo, agora?

Remus perdeu a cor. Estava fora de cogitação fazer o que Alessandro queria. Mas antes de conseguir formular uma resposta, sentiu o corpo do outro colar no seu e seus lábios foram forçados contra os dele com força. Odiou aquilo e lutou contra os braços do garoto até que conseguiu empurrá-lo com toda a força que tinha, fazendo-o bater contra a parede oposta.

- Fica comigo e esquece esse seu sonho ridículo. – Diggory tornou a avançar, tomando Remus novamente em um beijo mordido.

- Eu não quero esquecer! – Remus berrou a plenos pulmões, desvencilhando-se do outro novamente e socando seu rosto.

- Você vai se arrepender, Remmie. - Alessandro disse, saindo da sala enquanto segurava a região atingida pelo punho do lobisomem.

Obviamente, Remus não se importou com a ameaça. Ao menos ali ele havia visto vantagem em ser um lobisomem: apesar de sua aparência frágil, a força que tinha era grande.

Ficou sentado por um longo tempo no sofá antiquado e constatou que sua boca estava inchada. Droga, devia ter dado uma punição à altura...

As horas passaram enquanto Remus se dava conta da verdade que gritara naquela noite. Ele não queria esquecer Sirius. Até quando isso duraria? Seria seu eterno martírio?


Sirius ouviu a porta bater e sabia que era Moony voltando do seu encontro. Estava cansado de esperá-lo mas mesmo assim o fizera .

- Duas horas de atraso... - espreguiçou-se na cama um Sirius abatido.

Remus já guardava a capa da invisibilidade quando fora surpreendido pela voz de Sirius. Era a última pessoa que ele esperava encontrar acordada naquele momento.

- Desculpe... eu não esperava que demorasse tanto e, pra ser sincero, não demorou. Eu que fiquei por lá pensando na vida e me atrasei... - Remus tentava evitar a luz da lua, que entrava pelo vidro das janelas e poderia denunciar sua boca inchada. Será que podia mesmo?

Sirius acendeu as luzes do dormitório todo, ouvindo um protesto de Pedro, que se virara para outro lado e continuara a roncar.

- Foi legal? -Não havia tom na sua voz, apenas as imagens dos dois garotos juntos vinham à sua cabeça. E como as imagens haviam torturado cada centímetro do corpo de Sirius nas quatro horas que Remus passara na sala precisa!

- Foi - não sabia porque mentia daquele jeito.

- Estou vendo... - só então Remus percebeu que Sirius o olhava dos pés à cabeça minusciosamente até se deter na boca inchada do garoto.

O lobisomem olhava para Sirius fixamente. Parecia tão abatido...

- Você está bem? - perguntou preocupado.

- Só com sono... - mentiu.

- Então vamos dormir porque eu também estou cansado. - Remus tirava suas roupas e colocava o pijama.

- É, eu imagino... - o tom de Sirius era cansado, como se a vitalidade costumeira tivesse desaparecido por encanto.

- Não imagine. Você não acertaria... - Remus riu internamente, ainda lembrando da expressão de surpresa no rosto de Alessandro quando experimentara da sua força. Fragilidade, bah! Por que diabos Diggory achava que ele era frágil? Seria pelo fato de ser magro?

- Quer apostar? - Sirius apagou as luzes e se enfiou na cama, fechando as cortinhas rapidamente antes de mergulhar na escuridão que eram seus pensamentos.

- Você perderia... - Remus riu silenciosamente no escuro. Odiava quando tentavam forçá-lo a fazer algo que não queria. Era um dos Marotos, não era? Então era, antes de mais nada, livre.

Sirius preferiu não alimentar aquela conversa e mergulhou em silêncio porque o sono lhe fora roubado pelas quatro horas de Remus e "aquele lá" na Sala Precisa. Sentia-se exausto mas incapaz de dormir.


A manhã de domingo chegou rapidamente e Sirius ainda não havia conseguido pregar os olhos. Levantou-se e após um bom banho demorado, sentia-se melhor, com novas idéias em mente.

O café da manhã saiu cedo naquele dia, mesmo que a maioria dos alunos acordasse tarde. Foi possível então, prestar maior atenção aos alunos que levantaram cedo por qualquer motivo. E dentre os alunos estava Alícia Abbot, uma das garotas que eram apaixonadas por Sirius. Ele havia se decidido a esquecer Remus a qualquer custo, mesmo que isso significasse estar com quem não ama, o que era algo novo para Sirius Black.

Tomou o café conversando animadamente com a garota e acabaram por combinar um horário e um lugar para se encontrarem durante a tarde.

Tiago apareceu no salão principal acompanhado por Remus pouco tempo depois. Pedro provavelmente ficara dormindo até a hora do almoço. Quando os dois marotos se sentaram ao lado de Sirius, perceberam-no bem disposto e bem mais feliz que parecera nos últimos dias, principalmente no último.

- Eu tenho uma novidade: tenho um encontro! - disse Sirius com uma dose de alegria semi-forçada mais para Tiago que para Remus.

- Então está... melhor? - Tiago olhou de Sirius para Remus discretamente, apenas para que o animado entendesse o que ele queria dizer.

- Sinto-me perfeito. - disse com uma dose de convicção semi-forçada na voz, dando um largo sorriso aos outros dois.

- Meus parabéns, Pad, quem é a felizarda? - sorriu Moony, com uma pontada no peito.

- Alícia Abbot! - anunciou Sirius. Na verdade, não era lá grande coisa mas era a garota mais bonita da Corvinal.

- Uau, cara... meus parabéns! - Sorriu Tiago um tanto preocupado.

Remus olhava para Sirius em estado de transe. Perguntava-se a si mesmo se algum dia o amigo falaria com aquela alegria sobre ele, sobre estarem juntos ou mesmo sobre terem um encontro. Não, claro que não. Ele gosta apenas de garotas, não vê? Está tão feliz agora que tem uma... tão feliz que deveria ser proibido deixá-lo sem uma. Era uma alegria triste essa de vê-lo tão feliz por causa de uma das garotas que ele sempre arrumava, saía por algumas semanas e depois deixava. Será que ele faria a mesma coisa com um garoto? Com Remus...?

- Moony? MOONY?! - Tiago balançava uma das mãos na frente do rosto de Remus.

- Desculpe... o que houve?

- Pelo visto a noite de ontem foi boa mesmo, hein? Tá sonhando acordado até agora... - Tiago não conseguiu conter um sorriso malicioso ao olhar para a expressão envergonhada do amigo.

- Não aconteceu nada disso que você tá pensando, seu mente suja! - Remus riu.

- Olha lá, hein? Somos seus amigos e não suportaremos que comece a mentir ou esconder coisas de nós, senhor Moony! - disse Sirius, disfarçando a dor que sentia.

- Nós brigamos, Pad. - disse Moony com simplicidade.

Os outros dois garotos o olharam com ar de surpresa. Por que diabos então Remus estava parecendo tão satisfeito?

- É que não parece... você parece tão satisfeito... - Tiago se adiantou. - Então ele não era para você?

- Pois é... não era mesmo. - Remus sorriu e mal fazia idéia do quanto isso alegrava Sirius.

- Mas você disse que foi legal ontem quando voltou... - disse Sirius ainda sem acreditar em quanto uma siomples notícia podia deixá-lo feliz.

- Foi legal porque foi alguma coisa positiva, entende? - respondeu Remus sentindo um arrepio característico daquelas pessoas que são pegas em, uma mentira.

- Você tá escondendo alguma coisa da gente, Moony! - Retrucou Sirius inegavelmente mais contente. - Vamos resolver isso em um jogo da verdade regado a firewhisky hoje à noite. -completou solenemente, sem conter a alegria em sua voz.

Então eram esses os planos de Sirius? Não eram para as masmorras? Remus estava um tanto confuso, um tanto amedrontado mas quem disse que jogos da verdade tinham que ser de verdade? Quer dizer, ele poderia muito bem mentir, não poderia?


Nhay nhay '.' Eu fiquei tão nervosa por postar minha primeira fic que acabei esquecendo de fazer os agradecimentos XD Então aqui vai: Agradeço em primeiro lugar a minha irmã, que me incentiva a escrever mais e mais [ mesmo que ela não goste de yaoi ou de fics, ela lê e comenta XD , a minha beta insanebluecat , que eu amo muito e a todos que lerem ;D Ah, e reviews são sempre muito bem vindas!