II
Paralisei. Aquela prisão era onde Atena deixava seus prisioneiros de guerra anteriormente, para testa-los em seu caráter. Se houvesse algo de bom em suas almas, os deuses os libertariam. Se não houvesse, e as divindades dessem seu veredicto final... eles se afogariam.Pois a cela era abaixo do nível do mar, e quando a maré subia, cobria toda a cavidade.
Senti vontade de me beliscar. Só podia estar sonhando, é claro. Saga, o meu bondoso irmão, por mais imparcial que fosse, não seria capaz de fazer isso. Não; eu era seu único parente vivo! Deveria significar a vida para ele, da mesma forma que ele era a vida para mim.
Forcei a porta. Estava realmente ifechada/i.
"Não vai fazer isso, vai?", balbuciei.
"A decisão não é minha. Se eu o deixar impune, serei cúmplice num plano de proporções terríveis. No entanto, o julgamento não cabe a mim, e sim aos deuses. Eles o têm nas mãos agora."
"Você sabe que é humanamente impossível sair daqui! É muito provável que eu morra! Vai deixar isso acontecer? Vai imatar/i seu irmão gêmeo, Saga?"
"Se você perecer, não serei eu quem o terá matado."
Comecei a bradar, cada vez mais desesperado. Chantageei-o emocionalmente até onde pude, embora não tivesse uma noção plena de que o que fazia era chantagem. Tudo em vão. Saga não se deixava levar por esse tipo de coisa.
Por último, gritei que um dia ele libertaria a criatura então ainda latente em si. E, nesse dia, se lembraria de mim.
Ele simplesmente respondeu que não a deixaria escapar de seu controle jamais. E antes de virar as costas, vi um brilho inédito em seus olhos.
Enquanto via meu irmão indo embora, continuei bradando em angústia tão grande que minhas pernas fraquejaram, e caí de joelhos. Gritava, mas não sabia nem o que saía de meus lábios.
Idéias mórbidas, outrora belas, vinham em minha mente, tais como as de que nós tínhamos nascido juntos; que jamais havíamos passado uma noite longe um do outro; dormíamos no mesmo quarto desde quando viemos ao mundo, e antes ainda, no ventre de nossa mãe, passamos os nove meses. E mais anteriormente ainda, éramos um só óvulo. Nunca havíamos chegado a nos separar de fato até então.
Tais pensamentos me doíam na alma, e me apertavam o coração de forma tão forte, ante a situação em que eu estava naquele momento, que as lágrimas vinham, ácidas e involuntárias.
Eu ainda inão acreditava/i que Saga havia feito aquilo. Detestei a vida e os deuses mais do que tudo, pois qualquer um poderia ter feito tal coisa comigo, iqualquer um/i, e eu não me doeria nem um pouco no espírito. Odiaria o tal fulano, e buscaria meios de me vingar mais tarde, caso sobrevivesse, mas não ia sentir que perdia um vínculo, uma afeição, pois o único vínculo que tinha na vida era com meu irmão.
E havia sido justamente iele/i, a pessoa que mais importava pra mim, tanto quanto um deus, que havia me trancafiado. O iúnico/i que podia ferir minha alma. E feriu-a. Escolheu feri-la, tudo por causa daquela deusinha maldita.
A raiva e a indignação mal cabiam no meu peito; gritei, para ver se as tirava, ao menos um pouco. Elas só aumentaram. Soquei as paredes, o chão, tudo; apenas consegui ferir as mãos, e aprofundar o sentimento de ódio e perda.
Perda... na noite anterior mesmo, eu havia tido muito medo de perder Saga. Eu sabia! Sabia que, mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria.
O povo não o amava de verdade, Saga. Ele apenas idolatrava uma iprojeção/i de você. A única pessoa que sabia como se constituía sua personalidade de fato era eu. O resto apenas se deslumbrava, como acontece com qualquer fetiche, e o trocariam por outro caso sua imagem ficasse gasta; eu não. Jamais o trocaria por ninguém. Jamais seria capaz de feri-lo, ao contrário do que você fez comigo. Tanto que sequer me defendi quando você me jogou no chão pela primeira vez, antes do soco que me imobilizaria. Poderia, não? Deveria até. Mas não fiz nada.
Como odiá-lo, Saga? Como odiar a única pessoa que eu amara em tantos anos? Talvez tenha amado nossa mãe também; mas mal lembro de sua figura, e naquela época não era diferente. A maior lembrança que tenho é do dia em que ela morreu; as lembranças dela antes disso aparecem anuviadas em minha memória. Mas de você, irmão, eu lembrava imuito/i bem. Até demais pro meu gosto na ocasião.
Continuei me remoendo em angústias; mesmo que eu não quisesse fazê-lo, os pensamentos simplesmente não deixavam minha mente. Talvez porque eu sempre pensava nas coisas relacionando Saga a elas. Quando íamos treinar nos programávamos juntos, mesmo quando ele ia na frente; quando eu voltava para casa, pensava em encontrá-lo; até quando tinha alguma comida nas mãos, como frutas ou coisas assim, pensava em dividir com ele. A falta de contato com quase todos fez com que eu acabasse convivendo apenas com Saga. A exclusão acabou gerando o medo obsessivo em perder meu irmão! Afinal, se eu vivia apenas com ele, pensaria apenas nele, querendo ou não.
Aquela eterna presença dele na mente era horrível. Não conseguia me desviar do hábito, e o pensamento acabava caindo sempre nele, e no que ele havia acabado de fazer. Isso me levava àquele mesmo ponto: ele me odiava.
Tal idéia me corroia a alma. Sequer a afeição de meu irmão gêmeo eu conseguira conservar. Agora estava vazio de amor, às portas da morte a qualquer momento. Ninguém, nem mesmo ele, viria me ajudar, ou pensaria em mim. Nem mesmo ele! iMuito menos ele/i, pois por mais que colocasse a responsabilidade nos deuses, haviam sido suas as mãos que me aprisionaram lá.
Com esses e outros pensamentos mais sinistros, nada pude fazer além de me encolher num canto, e chorar.
Isso até o mar começar a invadir o lugar. Logo tive de me erguer e tentar encontrar algo para subir em cima, caso quisesse passar daquele dia e daquela noite.
Apesar de não querer exatamente morrer, a idéia da morte era o que menos pesava. Na verdade, diante daquele abandono, o fim de minha vida parecia não tão sinistro. A única coisa que restava para me apegar era a idéia de dominar tudo e me vingar de todos caso me livrasse daquela. Blasfemei contra todas as divindades; já não me interessava ganhar seu favor apenas para sobreviver, já que parecia que morreria de qualquer jeito.
Em alguns momentos, quando a angústia mais pesava, eu tinha ganas de me jogar de vez nas águas, e deixar elas fazerem o resto do serviço. Mas quando meu orgulho se agitava dentro de mim, indicando que havia esperanças de eu virar o jogo, me soerguia e fazia de tudo para respirar o mais que pudesse.
O mar nunca chegou, de fato, a cobrir toda a caverna quando estive lá. Pois um cosmo misterioso sempre a fazia baixar quando já estava no limite.
Meu maior problema não foi a maré alta, graças a esse cosmo. Com o tempo, senti fome e sede. Por sorte, alguns peixes passavam por ali. Eu os matava e comia crus. A água veio indiretamente através deles ao meu organismo, pois a do mar não prestava para beber.
Quando a primeira noite veio, pensei que aquele era o horário de eu ir para casa. Mas já não havia ninguém em meu antigo lar que me esperasse ou se importasse comigo. Saga talvez não se comprazesse em pensar na minha morte, mas também não devia sentir compaixão ou sofrimento. Havia me prendido com tanta frieza...
Então me ocorreu a idéia de que Saga não sentia ódio por mim, mas sim indiferença. Parecia que, para meu irmão, não importaria se eu morresse ou continuasse vivo. Isso era pior do que ter seu ódio. E o desespero me invadiu mais que tudo.
O tempo foi passando; fui marcando os dias com uma pedrinha, raspando-a na parede toda vez que o sol nascia.
Durante o dia, tinha de me controlar para não ficar pensando no que Saga estaria fazendo. Caso contrário, iria enlouquecer. Conjecturava se ele ao menos lembrava que fazíamos esta ou aquela coisa juntos àquela hora do dia. Era impossível que não lembrasse. Mas provavelmente já sem nenhuma emoção.
Mesmo nos momentos em que a maré baixava e eu podia me sentar um pouco, não conseguia sequer cochilar, até após alguns dias lá dentro. As idéias mórbidas, a angústia e todo o resto não deixavam.
Passei assim durante dez dias. Aquilo me cansou, afinal. Queria ver um fim: que os deuses me matassem logo, ou me libertassem, coisa essa que, àquela altura, eu mal cogitava. Para quê manter aquela sub-existência, mantida a peixe cru e noites em claro? Aquela tortura devia terminar.
Concluí que eles só podiam estar querendo me castigar ao limite, postergando algo definitivo sobre mim, me deixando na terrível incerteza o máximo que podiam.
Numa noite, quando a dor interna ainda me corroia mais do que a fome por algo que não fosse peixe ou a sede por água de verdade, mesmo após dez dias, vi um estranho brilho vindo de uma parte da caverna.
Fui até lá e cutuquei a parede daonde provinha tal cintilação. Estava mais frágil que o resto; mas por quê? Antes não estava assim. Nos primeiros dias tentei sair de todas as formas, por todos os lugares, e apenas me cansei.
A esperança se agitou intensa em mim. Desferi um golpe contra a rocha. Ela se partiu, e descobri um corredor.
Mal acreditei. Eu havia encontrado a saída da cela considerada inepugnável!
iContinua.../i
