Pela estrada até Bri
Eles seguiram pela estrada. A viagem até Bri foi calma. Seguiam pela estrada,que os levara para fora dos limites do Condado, durante dias. Agora, a estrada de terra ia se alargando e as árvores iam ficando mais espaçadas entre si e mais baixas. Predominavam arbustos verdes e fartos.
- Olhem, logo, estaremos em Bri- Gandalf chamou a atenção de todos. Logo, avistaram as cercas de madeira que circundavam a cidade e inúmeros pastos do lado de fora. Perto da cidade, havia muitas fazendas. Os campos dourados brilhavam ao crepuscúlo.
"ficaremos no pônei saltitante, como sempre" O mago informou, enquanto entravam no portão muralha feita de grossos troncos. E todos entraram na cidade, que estava agitada. Homens fazendeiros levavam animais como cavalos, vacas e porcos para venderem na cidade. Vendedores instalavam estandartes nas principais ruas e tinham em exposição enorme diversidade de mercadorias.
Na hospedaria de dois andares,com tijolos escuros e uma placa com o desenho de um equino, ao entrarem, o atendente, um homenzarrão de sobrancelhas espessas e negras, calvo sai do balcão vai até eles e com um sorriso receptor, saúda-os :
- Olá, Gandalf! Que bom vê-lo de novo!
- Boa tarde!- sorri Gandalf. Ele olha para seu grupo, atento e pensativo- Por favor, uma mesa para oito e três quartos!
O atendente rapidamente realiza as solicitações de Gandalf e junta duas grandes mesas. Também providencia os pratos, ouvindo cada pedido de cada integrante do grupo.
Na mesa já arrumada e bem servida, todos comem famintos. A maioria pediu cerveja e pão com guisado. Conversam alegremente, recuperando-se bem do cansaço da longa viagem:
- Ei, Bilbo!- provoca Gerânia mais uma vez, enquanto toma um suco de uva- A comida não vai fugir!
Bilbo, que atacara uma enorme baguete inteira com imensa voracidade, a olha atravessado e responde, incomodado:
-Muda de lado, Gerânia!
Balin ri discretamente com a cena, enquanto pousa a colher no seu prato de guisado.
- Aqui a comida e a cerveja são ótimas- comenta Ori para Glóin que bebericava a amarela e gelada cerveja interessado.
- Sim- diz Glóin, satisfeito- Valem um barril de ouro.
Gandalf, mais reservado nas conversas, pergunta ao homem do balcão que distribuia outros canecos na grande mesa:
-E as notícias daqui?
O homem suspira, ainda concentrado no seu trabalho.
- Está tudo normal em Bri, sabe,um dia, uns homens estranhos vindos do leste apareceram, mas foi só isso que ocorreu.
Nisso, duas figuras com um capuz acinzentado chegam de fora e cercam a mesa, rapidamente. Os anões olham para trás e,instintivamente, Ori saca seu punhal. A mão de Gandalf aperta o cajado e Bilbo vai para debaixo da mesa,enquanto Gerânia se encolhe. Porém, um dos anões aperta os olhos,indagando:
- Bofur, Bombur? - pergunta Dori incrédulo.
- Olá- diz Bofur, formalmente- Há quanto tempo.
Gandalf se vira para os dois anões, surpreso e preocupado:
- Que inesperado! O que fazem aqui, meus caros amigos?
Bofur suspira e começa a explicar:
- Nós e nossos companheiros estavámos impacientes, esperando por vocês e decidimos que nós dois viajaríamos, para encontrá-los e termos algumas notícias. Dori reuniu um grupo e foi para Bri, atender o pedido de Gandalf. Mas, eu, Bombur, Bifur, Óin e Nori decidimos ficar, pois, resolvemos ajudar Dáin no ataque aos Orcs.
-Nós fizemos essa jornada até aqui, caso vocês demorassem ou não pudessem se juntar a nós. Queremos saber a resposta de Gandalf logo e assim saber se vamos a guerra de Dáin ou ficamos.- explica Bombur, parecendo ser contra àquela viagem que estava realizando.
Gandalf olha severamente para os dois e diz:
-Meus amigos. Apesar de sua impaciência, não tenho muito para lhes dizer, não precisavam fazer essa viagem. Vou ao encontro do grupo, é claro.
- É.- concordou Bombur, endireitando-se- Mas, nós, pelo menos, deveríamos ir até Bri, assim não atrasaríamos mais ainda.
Bofur sacode a capa:
-Ufa! Estou cansado da viagem, portanto- ele se volta para o atendente- me vê uma cerveja e o prato do dia!
Enquanto estão terminando a refeição, Gandalf reconta a história das relíquias e narra o trajeto até Bri. Depois se reuniram na sala da hospedaria, do lado esquerdo do Pub e o mago arrumou um jeito de acender a lareira com a lenha empilhada na frente desta. Os anões e Gandalf acenderam seus cachimbos e começaram a conversar sobre assuntos gerais da Terra Média.
Cansado de Gerânia tagarelando bobagens para ele e do ambiente, Bilbo resolve passear nos arredores da hospedaria...
-Além do mais a noite está fresca e a lua está linda!- Ele olha para o céu sorridente e fala alto, mesmo sendo para si mesmo.
- Verdade, senhor Hobbit!- um homem velho, de olhos miúdos, sobrancelhas ralas, nariz arrebitado, chapéu de palha e sobretudo marrom e surrado está ao lado de Bilbo, o observando esse tempo todo. Assim, ele tenta iniciar uma conversa com o Hobbit, que fica imóvel de susto, mas, depois, acalma-se.
Era um velho senhor que parecia inofensivo. Os dois começaram a conversar, sobre o condado, entre outras coisas. O senhor era um vendedor famoso na região. Seu nome era Zaragalabân. Ele vendia de tudo, tudo mesmo.
- Sabe, senhor Bilbo! Se precisar de alguma coisa, tenho tudo para vender! Há ótimas ofertas!
Bilbo se entusiasma. Ele gostou muito de Zaragalabân e estavam falando sobre o ofício do homem. O hobbit ainda não tinha a intenção de comprar nada, apesar das fartas moedas do seu alforje no cinto.
-Você tem alguma mercadoria agora? Posso ver?
O homem abriu sua enorme bolsa e estendeu a toalha no chão, visivelmente interessado em fazer negócio com Bilbo. Ele depositava suas mercadorias uma a uma. Talheres, jóias, tinteiros...
O Hobbit via as mercadorias, atencioso e no fim,elogiou as belas mercadorias,mas disse que não havia necessidade de comprar nada. Zaragalabân não o deixou se retirar, pois ainda ia lhe mostrar o que julgava ter de melhor.
-Mas eu tenho uma mercadoria especial para o senhor. Não mostro para qualquer um, viu? Mas gostei de você, viu, senhor Bilbo?
- E o que é?- perguntou Bilbo, vagamente.
- Mas, vou logo avisando: é algo impressionante, inacreditável!- qualificava o vendedor.
- Diga, por favor o que é, estou louco para ver!- Respondeu o Hobbit, impaciente.
O homem finalmente revela, em voz baixa:
- É uma doninha ruiva, muito linda, senhor Bilbo! Ela é mágica!
- Espere- disse Bilbo, confuso com o que havia sido dito. Era só um homem comum, não podia vender artigos mágicos,tampouco seres que apresentassem essa característica- Como posso saber se isso é verdade? E como assim ela é mágica?
O homem explica pacientemente:
- Algumas vezes, seu pêlo brilha durante a noite! Ela é bem ágil e inteligente, também! E ela canta muito bem!
- E eu poderia vê-la , então?- disse Bilbo, rindo por dentro. Não podia ser verdade, era só uma estratégia de vendedor desesperado
-Espere um pouco! Moro perto daqui. Vou buscá-la! Hehe!- Disse Zaragalabân, entusiasmado.
Depois de algum tempo, Bilbo a viu. Realmente, seu pêlo era ruivo e muito lindo! Ele brilhava de forma de forma bela ao luar, realmente, mas não de uma forma mágica, não como se fosse um astro. Bilbo não soubera dizer quanto tempo a fitou. O animal tinha um olhar altivo e profundo que deixou Bilbo sem palavras. Uma sensação estranha tomou conta do peito dele. A doninha não cantou e nem cantaria nos momentos que se seguiriam, mas se movia de modo gracioso e parecia inteligente. Ela o olhava de forma displicente para Bilbo e ele retribuía seu olhar, mas de forma maravilhada.
-Algumas descrições não pareciam ser muito certas, mas sinto que, mesmo assim, há algo de especial nela. Bem diferente... Vou levá-la.
- Fez a escolha certa, senhor Bilbo- disse o homem, feliz em fechar negócio. Apesar da doninha lhe ser muito lucrativa, custava para ele ter que cuidar do bichinho o tempo todo que ficava na gaiola encolhido, desmotivado para comer - Poucas pessoas abririam seu coração e descobririam as maravilhas desse animalzinho que eu encontrei vagando pelos arredores daqui. Achariam que eu minto.
Então, Bilbo paga com o dinheiro do seu alforje e quando recebe a gaiola, diz para o animal, carinhosamente:
- Você vem comigo.
E cruza a rua para entrar na rua perpendicular àquela, a do Pônei Saltitante.
Bilbo encontrou Gerânia e Balin, Dwalin, Glóin e Bofur sentados no sofá na aconchegante sala da hospedaria,com o fogo baixo crepitando na lareira. Ele não queria falar nada sobre a doninha, então escondeu a gaiola, na capa que ele estava trajando, para atravessar a sala cheia de seus amigos. Todos estavam de costas e quando Bilbo tentou subir direto para os quartos:
-Bilbo?- Pergunta Glóin, alçando o braço forte nas costas do sofá.
-Onde estava?- pergunta Dwalin, olhando para trás, depois de ouvir Glóin.
-Aonde estava passeando? E por que esse pano?- Gerânia pula do sofá e para em frente do Hobbit.
Bilbo olha incomodado para seus rostos preocupados ou curiosos.
-Você não precisa saber, precisa?
Gerânia franze as sobrancelhas.
-Oras! Perguntar tortura, mata?- Ela diz, indignada, com as mãos na cintura bem definida. Quando Bilbo se afasta, ela tenta chamá-lo de volta, sem sucesso- E... Ei! Volte aqui! Hunf, seu porco esquisitão!
Então, Bombur aparece da escada, pretendendo descer. Ele havia visto Bilbo nervoso subindo as escadas, quase correndo e sem falar com ele. Então, pergunta, ao ver um dos anões chamando o Hobbit, mesmo depois dele sair da sala:
- Eu perdi alguma coisa?
-Bilbo está estranho hoje- explica Glóin. Ele pensa um pouco e também lhe diz - Mas quem sabe amanhã seu humor não melhore, os Hobbit devem ser assim mesmo...
Gerânia o censura com os olhos, mas por pouco tempo. Depois, irrequieta, se recolhe para perto da lareira e uma vez sentada no chão,está imersa em novos pensamentos.
-Falando nisso, por que está tão pensativa nesse momento, Gerânia?- Balin se aproxima dela e se ajoelha na frente da lareira, ficando quase da altura dela.
Gerânia apalpa o pulso esquerdo, o pulso do bracelete, abaixando os olhos para ele.
- Até agora, nessa viagem, a rosa dos ventos não mostrou o caminho, nada... Gandalf disse para continuarmos a leste...
- Rosa dos ventos? - Dwalin pergunta, visivelmente interessado.
-É- disse Gerânia, rindo e olhando para o buscador- Eu sugeri o nome a Gandalf e ele aceitou, melhor que buscador, não acham? E rosa é por causa do desenho, lembra uma flor...
- Hunf, de qualquer forma é um nome bonito- sussurra Balin, concordando com a mudança de Gerânia.
À medida que a noite avança, a maioria fica muito sonolenta, apesar da boa conversa e das belas canções que recomeçaram a relembrar. Todos se retiram da sala, assim que apagam a lareira e vão dormir.
No dia seguinte, a jornada recomeçaria quando o sol estava alto e o ânimo de todos fortalecido:
- Bom, meus amigos- começa Gandalf, ao ver a maioria do grupo reunido na frente do Pônei Saltitante- agora que já se preparamos, vamos seguir até Valfenda. O caminho é longo.
Quando ele acaba de dizer essas palavras, Bilbo sai da hospedaria apressado com uma imensa bagagem, ele mal consegue segurá-la.
-Esperem um pouco! Acho que minha bagagem...Está...Um pouco pesada- Ele arqueja, com dificuldades.
-Mas, justo agora você reclama da bagagem?- comenta Dori incrédulo- E... Espere... Sua bagagem não era tão volumosa assim.
Bilbo prende a respiração.
-Oras, é verdade...- Glóin se aproxima dele- Deixe-me ver sua bagagem...
-NÃO!- Bilbo levanta a voz, instantaneamente e afasta, com esforço, a bagagem do anão.
Todos o encaram, confusos com sua reação. Bilbo percebe que agiu estranhamente e decide tentar justificar.
-Bom, eu... Não precisa me ajudar... Eu achei que a bagagem estava mais pesada, por causa que ficamos em Bri e me acostumei com as mordomias daqui. Mas logo faremos uma caminhada longa e cansativa e me acostumarei de novo...
Apesar de não acreditarem na desculpa de Bilbo, Bombur lhe disse:
-Como quiser, mestre Hobbit... Se não quiser ajuda, não vamos confrontá-lo, apesar da bagagem lhe parecer pesada...
Enaquanto andavam, Bilbo era o que mais ficava para trás, porque a bagagem o deixava muito mais vagaroso, tudo graças ao esforço que ela demandava. Estavam atravessando as fazendas próximas a Bri indo para terras mais desabitadas. Horas depois, na estrada principal:
-Com licença?- pergunta Gerânia a dois anões que conversavam baixnho entre si, Balin e Ori.
Os dois pararam e olharam para ela.
-O quê- Pergunta Glóin rudemente e surpreso. Gerânia se aproxima para falar sussurrando e ela tinha uma idéia:
-Um de vocês poderia ver a bagagem do Bilbo. Deve ter alguma coisa... Eu não posso ver, pois se eu me aproximar dele demais, poderá desconfiar mais de mim...
- Nós não podemos fazer isso, afinal a bagagem é de Bilbo... E ele quer que respeitemos...- Balin nega a proposta de Gerânia, da melhor forma que ele conseguiu encontrar.
Gerânia não se conforma. Ela aperta o braço:
-Já que vocês não querem, tudo bem! Desisto!- Ela sai, vomitando sua raiva, por não saber o que esconde Bilbo.
-Mas...- Balin tenta estancar a decepção de Gerânia, isso o incomodava- Hunf...- ele bufa, frustrado.
O grupo para, quando Gandalf diz para saírem da estrada. Entre as altas e numerosas árvores, um lugar que aparentava ser bastante seguro,o mago informa:
- Vamos passar a noite aqui!- O grupo largou as enormes bagagens no chão.
-ótimo- Bilbo está extremamente exausto e dolorido- Tirarei um cochilo!
Bombur resolve instalar suas coisas do lado direito do Hobbit:
-Eu vou para aquele lado e...- Antes de terminar a frase, o anão cai no chão, de barriga, quase cai em cima de Bilbo que além de levar um fortíssimo susto, fica atordoado.
-Ai! Acho que tropecei em algo- O anão diz, vendo-se estatelado no chão. Ele não havia percebido a bagagem de Bilbo no meio do caminho e seu pé se prendeu numa das cordas onde estava presa uma trouxa acolchoada e volumosa, provavelmente de roupas. Mas, assim que o pacote rolou e o Bombur arrancou a corda com o pé, todos perceberam que era uma gaiola que girava violentamente no chão.
O roedor de dentro dela, tenso, fez um barulho ameaçador.
-Mas, é um animal- Diz Bofur incrédulo- Esse tempo todo e era isso que Bilbo estava escondendo!
-Sim- disse Bilbo, nervoso, tentando encontrar as palavras certas para explicar o motivo de seu segredo-Eu a havia comprado, pretendia contar a vocês...Por favor deixem-me ficar com ela, o vendedor disse que era especial, muito inteligente...
Seus olhos imploravam deseperadamente, enquanto os anões não sabiam se deveriam ficar bravos ou rirem de tal situação.
Gandalf olhou para o animal, que o encarou de modo assustado e recuou. Ele lhe provocava um sentimento estranho, era como se fosse um nervosismo que lhe mexia o estômago, como se o animal lhe desse calafrios. Mas, ele guardou essa sensação para si e concentrou-se em esbravejar com Bilbo, descontente com o segredo que parecia uma grande desfeita para o mago:
-"muito inteligente"? Bilbo Bolseiro! Como pôde cair na lábia de um vendedor simplório?
-Mas ele é especial, eu juro!- Bilbo disse, entre lágrimas, pela primeira vez com medo de perder algo querido.
Gerânia a olhou, impressionada com a beleza de seus pelos. Sentiu um grande descontentamento pelo Hobbit tê-la em sua posse. Também queria estender a mão e acariciá-lo, mas apesar da crescente agitação de seus dedos por causa da vontade, não o fez. A doninha foi comprada por Bilbo.
-Hunf!- suspirou Dwalin, interrompendo as divagações de Gerânia. Ele resolveu não se importar- Não vamos reclamar mais, se esse animal não atrapalhar a viagem...
-Eu concordo- Gandalf se acalmou, resolvendo adotar a mesma postura de Dwalin - Sinto que não podemos se livrar dele. De qualquer modo, acho que seria um prejuízo para Bilbo, também.
-Então, eu posso ficar com ele?- Disse Bilbo, com alguma esperança.
Os outros anões concordaram, relutantes e hesitantes. Muita foi a felicidade de Bilbo. Mas Gerânia não disse nada e estava bastante contrariada. Ela viu a decisão por um lado negativo:
"Agora Bilbo tem uma doninha, isso vai causar problemas... Hunf, depois sou eu o peso da viagem...."
Bilbo foi até sua doninha,tão feliz estava, foi conversar com ela:
- Oi...Consegui fazer com que você ficasse junto comigo...
A doninha o encarou, fixamente em seus olhos. Bilbo continuou, falando ternuramente:
- Eu acho que você precisa de um nome...Qual?
Infelizmente, a idéia de um nome perfeito para seu novo amigo demorou para aparecer...Ele começou a pensar em coisas do mundo que poderiam ser a cara dele, disse tudo em voz alta, concentrado na desafiante busca de um nome:
-Hum.. Mesa, cama, comida, uva,tinteiro, tinto, maçã...
Então ele diminui sua voz e pronuncia sílabas inaudíveis. Por um tempo, está silencioso, até seus olhos ganharem um brilho diferente, mais forte:
-Já sei!- Ele exclama. Então pronuncia o nome, tão especial quanto sua doninha, o vencedor dentre todas as palavras do mundo- Tinto!
A doninha mexe a cabeça. Bilbo pergunta, feliz em tê-lo batizado com um belo nome, que combinava com seu pêlo ruivo:
-Gostou de seu nome, hein, rapaz?
A doninha o olhou indiferente, enquanto Bilbo sorria satisfeito. Então, o sorriso sumiu de sua face e ele lançou o mesmo olhar de antes, o olhar da dúvida, só que acompanhado agora com o temor:
-E se...Talvez eu soltasse você dessa gaiola, um pouco...- Sim, Tinto precisaria esticar as pernas, ou melhor as patas, um pouco. Preso nessa gaiola, poderia estar se sentindo meio desconfortável, o Hobbit chegou a esta conclusão. Porém, Bilbo temia aquele momento.
-Tudo bem, vou te soltar! Mas você não vai poder fugir. Eu estou confiando em você!
A doninha o olhou, parecendo animada e esperançosa. Por causa de sua imensa vontade de se libertar, Bilbo começou a ficar inquieto e nervoso. Suas mãos tremiam, enquanto ele pegou a chaves e passava pelo cadeado:
"não vá! Fique!"
A doninha saiu da gaiola, feliz, mas ela nem foi para muito longe de Bilbo ou correu até sumir entre as árvores:
-Bom, mesmo! Sabia que você nunca iria me deixar, Tinto!- ele se sentou, mais relaxado.
A doninha se alojou do lado do Hobbit, sentado na grama. Sua pata roçou sua calça , na altura do joelho:
-Opa! Quer ficar aqui comigo, Tinto?-Ele sorriu, tão espontaneamente.
Bilbo, enquanto a acariciava, sentia suas pálpebras mais pesadas. Ele armou seu colchão e seu travesseiro, se deitou e dormiu com o animal, nos braços.
Gerânia olhava as montanhas em um fino e alto penhasco. Eram tantas e estavam cobertas por nuvens nos cumes. Uma voz, dentro de sua cabeça,como a de Gandalf, só que mais profunda e ecoava, lhe dizendo:
"É como se você estivesse no ponto mais alto de toda a terra média..."
Ela estava vestida com um tecido leve e claro como o céu, um capuz que só cobria o ombro direito, preso no pescoço por uma flor dourada. Em seu braço, a rosa dos ventos, a voz continuava a falar:
"você tem algo que permite enxergar mais longe que outros..."
Ela ergueu, indecisa, o braço com a rosa dos ventos na altura dos olhos. O bracelete faiscou e ela teve que erguer mais o braço. A voz em sua cabeça continuou, pesarosa:
"Mas tudo o que você pode alcançar..."
Gerânia prendeu a respiração, como se estivesse se sentindo mal e pressentindo algo:
"pode ser a ruína de outros..."
A voz saiu definitivamente de sua mente e Gerânia olhou, confusa para os lados, procurando por algo, alguém, ela não sabia. Só então, viu que as nuvens se dissiparam e de baixo de seu penhasco, ela viu Bilbo, Gandalf, anões que pareciam ser Balin, Bombur e Dori, estirados no chão, cruelmente amontoados e feridos.
Estavam com sérios corte e deles saiu muito sangue, sangue vermelho vivo, o que lhe chamou muito a atenção. Pareciam estar dormindo, vivendo pesadelos pela face carregada de sofrimento, mas...Ela não conseguiu evitar a trágica idéia... não se moviam, não... não estariam mortos?
As lágrimas caíram do alto penhasco. Gerânia gritou de terror.
A Hobbit pulou do chão, assustada, quando seus olhos castanhos se abriram. Seu cabelo estava mais embaraçado do que normalmente. Ela esfregou, a testa:
"Em toda a minha vida eu... eu nunca tive um sonho assim!"
Mas, era um alívio ter acordado. Ela olhou ao redor e algo lhe chamou a atenção. E ela se sentiu feliz pelo que ia fazer, Bilbo ia ficar tão irritado...
-Que bela visão!- Ela comentou sarcasticamente, enquanto o sacudia. Ele acordou bravo e ergueu seu tronco, imediatamente-Você e a sua lagartixa peluda, dormindo! Em plena luz do dia!
Bilbo tinha que revidar, é claro.
-Não xingue o Tinto, Gerânia! E você também estava dormindo, todos ouviram seus roncos, que trariam inveja a um troll!
Gerânia nem deu atenção ao comentário de Bilbo, tão feliz estava. Ela continuou a despejar comentários:
-Você e seu animalzinho só vão trazer problemas, mas eu nem quero saber! Hoje eu estou de bom humor e você não vai destruir minha felicidade! Hey, lá,lá,lá,lá,ho!
E ela começou a cantarolar, enquanto se afastava do amigo, mal humorado. Tão feliz Bilbo lhe fazia!
Ele a olhou se afastar, incrédulo com sua petulância e falou, acariciando as costas da sua doninha:
-É o que ela pensa! Quem traz mais problemas para nós é Gerânia com certeza! Não é, Tinto?
A doninha tinha um olhar perdido para o horizonte.
Esse capítulo deveria ter ficado maior, na minha opinião... Enfim, espero que tenham gostado dessa parte, também. Se não, poderiam me responder o que eu faço para melhorar... Bilbo Bolseiro e seu inseparável bichinho, o Tinto, agradecem por mostrar a sua valiosa opinião!
