É SEMPRE ESCURO ANTES DO AMANHECER
Diretamente de si, Caos cortou dois filhos: Nyx, a deusa da Noite, e Érebo, o deus da Escuridão. Apaixonados um pelo outro, eles se tornaram também marido e mulher, e deram origem aos demais descendentes do Caos.
Posteriormente, quando a Desordem já não mais reinava, as outras divindades foram surgindo e lutando umas contra as outras. Primeiro, foi Cronos quem derrubou Urano. Depois, Zeus uniu-se aos irmãos para derrotar Cronos. Iniciou-se, então, a Titanomaquia, ou seja, a luta entre os deuses e os titãs pelo poder. Tal luta durou dez anos, e, ao perceberem a derrota, os titãs de pediram socorro ao filho do Caos. Érebo resolveu ajudá-los libertando do Tártaro os titãs que já haviam sido aprisionados. Porém, antes que ele conseguisse, foi surpreendido por Zeus e Hades.
Aprisionado no Inferno, Érebo aguardou o momento da sua vingança contra o Olimpo. E, no momento em que seu pai retornou, ele encontrou o poder necessário para libertar-se.
Tártaro, Inferno.
Érebo era uma figura alta e pálida. Os seus cabelos eram completamente escuros e longos. Por sobre os ombros largos, ele levava um manto negro que esvoaçava violentamente. Na sua mão direita, havia uma espada prateada envolta num pedaço escuro do Caos, simbolizando que o deus saíra diretamente de seu pai. Ao seu redor, vários espectros de Hades estavam caídos e derrotados.
_Diga ao Imperador do Submundo que eu não mais me curvo aos desígnios do Olimpo – falou o deus da Escuridão ao segurar Aiacos de Garuda pelo pescoço.
Com dificuldade, o Juiz disse enquanto tentava livrar-se da mão que lhe prendia:
_Tu não podes sair do Inferno.
_E quem aqui irá me impedir?
Numa demonstração de força descomunal, Érebo lançou Aiacos ao longe, assim como todos os outros espectros que ainda tentaram lhe impedir. Com a sua espada, abriu uma fenda para o Caos, e deixou a sua prisão enquanto Hades estava no Olimpo para o Conselho dos deuses.
Em algum lugar sobre o Oceano Pacífico...
Caos era uma enorme mancha escura e revolta a qual parecia sugar lentamente tudo ao seu redor. Perto de si, ele mantinha todos os seus descendentes. Dentre eles, estava a deusa Nyx, que aguardava impacientemente o retorno do seu amado esposo. Ela tinha o rosto pálido, e ondulados cabelos negros. Os seus olhos mais pareciam duas órbitas prateadas, e ela vestia uma túnica escura. O seu manto era a própria noite, com todas as suas estrelas. Nas mãos, ela trazia um cetro sobre o qual flutuava também um pedaço de Caos.
_Érebo!
_Nyx... É bom regressar. É bom estar livre para ti outra vez – respondeu ele ao abraçá-la com força, tocando-lhe os cabelos.
_Nós teremos a nossa vingança, meu amado. E a Noite não mais ficará longe da Escuridão outra vez – ela tocou os lábios finos dele com as pontas dos dedos.
_Estão todos aqui?
Nyx olhou para os seus filhos. Percebeu a falta de dois deles, mas respondeu:
_Sim. Aguardamos apenas que se realize o tolo Conselho dos deuses.
Nyx e Érebo beijaram-se apaixonadamente, quase com fúria. Esperaram por aquela batalha durante muito tempo, e se prepararam para alcançar a vitória. Tanto que incentivaram uma traição dentro do próprio Olimpo.
_E o nosso traidor? Conseguiste convencê-lo?
_Sim. Não foi difícil trazê-lo para o nosso lado. Eu precisei apenas estimular as rivalidades já existentes entre os deuses desde os tempos mitológicos. Começo a pensar, meu amado Érebo, que o Olimpo se encarregará da própria queda.
O deus da Escuridão deu um mórbido sorriso. Depois, disse:
_De fato. Que os deuses olimpianos caiam, então. Nós estaremos aqui para garantir isto.
Entrada do Santuário de Athena.
Shina de Cobra havia sido avisada acerca de possíveis perturbações do Caos. Sendo assim, quando ela viu um barulhento grupo formado por mulheres, homens, sátiros, centauros e ninfas, ela não hesitou:
_Garras de Trovão!
Antes, todos pareciam enfeitiçados pelo vinho e pelo prazer. Entretanto, após o ataque da amazona, o grupo dispersou com gritos de pavor. Shina estava prestes a exterminá-los quando alguém segurou seus braços por trás e disse:
_Como tu ousas atacar o meu séquito, humana?
Ela não quis saber quem estava atrás de si. Simplesmente girou-o e lançou-o ao chão num golpe rápido.
_Quem é você? – perguntou a amazona ao ver que não se tratava de alguém comum.
Dionísio estava surpreso e ao mesmo tempo furioso:
_Como ousas me atacar?!
Shina percebeu o brilho divino e perolado que o envolvia.
_Um deus?
_Sim, eu sou Dionísio, um dos filhos de Zeus!
Ela ficou alguns segundos sem saber o que fazer ou dizer, porém...
_Filho de Zeus ou não, você está no Santuário de Athena. E bacanais não são permitidos aqui – ela falou em tom altivo.
O rosto de Dionísio inflamou-se de ira. Ele ergueu-se do chão e tirou a poeira das suas vestes. Shina não parecia disposta a ceder, e também estava com um humor daqueles, típico dos dias em que acordava querendo matar Seiya pela milésima vez.
Jabu de Unicórnio e Geki de Urso aproximaram-se para ver o que estava acontecendo.
_Isso não vai acabar bem – disse o primeiro.
_Eu vou até o Grande Mestre.
_É melhor correr – pediu Jabu.
As ninfas e mulheres correram até Dionísio, como se buscassem a proteção do deus. Shina revirou os olhos e disse:
_Se você está aqui, deve ter a permissão de Athena. Mas esse grupo de bêbados e bacantes deve ser mandado embora agora mesmo.
_Estás me dando ordens ou é "impressão" minha?
_Estou apenas avisando.
_Com qual autoridade? – Dionísio aproximou-se da Cobra.
_Você é surdo ou o que? – ela deu alguns passos na direção do deus.
Dionísio riu, esquecendo-se da sua ira. Não imaginara que encontraria uma mulher tão ousada naquele Santuário entediante.
_Mortal... Qual é o teu nome?
_Isso não importa.
O deus deu um sorriso e fitou a máscara da amazona. Estava disposto a ver o rosto dela, no entanto, antes que pudesse tentar...
_Dionísio... Há regras rígidas neste Santuário que devem ser respeitadas a todo custo, esteja Athena no Olimpo ou não – Shion disse ao chegar.
O deus mordeu os lábios ao ouvir a voz do Grande Mestre. Estava farto dele e de suas regras, mas resolveu concordar:
_De fato. Acontece que eu me sinto tão à vontade na morada terrena da minha irmã que me esqueço de que não estou em casa – disse descaradamente ao fazer surgir a sua taça e ao beber um pouco de vinho. Em seguida, ele moveu a outra mão e fez com que o seu séquito desaparecesse.
_Folgado – murmurou a amazona.
_Eu ouvi isso, mulher – o deus advertiu.
Shina cumprimentou Shion com um gesto respeitoso e se foi. Curioso, Dionísio perguntou ao Grande Mestre:
_Bonita ou feia?
_O que? – Shion estava perplexo com a pergunta.
_O que tem por baixo daquela máscara? Espere... Quer dizer que você nunca viu?
_Há uma regra bastante clara sobre as amazonas de Athena, e...
_E lá vem mais uma regra entediante e estúpida.
Dionísio bebeu mais do seu vinho e tomou o caminho do Templo, deixando Shion sozinho.
_Ela deve ser feia. Por qual motivo teria um temperamento ruim daqueles? De todo jeito, não custa nada conferir assim que eu tiver uma oportunidade – sorriu.
Monte Olimpo.
Athena e Hermes caminhavam pelo céu, como se este fosse um caminho feito de um fino e invisível cristal. Sob seus pés, bem abaixo, estava a terra. Em silêncio, ambos fitavam o Monte Olimpo, a morada mais elevada dos deuses, encoberta por densas e escuras nuvens. Repentinamente, alguns raios rasgaram os céus e trovões ressoaram de forma estrondosa - até o sol pareceu um tanto tímido ante a expressão da fúria de Zeus.
_Ele está impaciente – disse Hermes.
_E você está bastante tenso, meu irmão.
_Temos motivos para tanto, não acha, Athena?
_Sim, mas... Eu ainda creio num milagre.
Hermes parou a sua caminhada. Fitando seriamente a irmã, falou:
_Um milagre como aquele realizado pelo teu cavaleiro de Pegasus, o que feriu Hades nos Elíseos? Não creio que algo assim bastará.
_Tenha fé, Hermes.
De repente, ambos ouviram passos delicados ao seu redor. A deusa do amor e da beleza, então, apareceu. Era deveras formosa, com cabelos ruivos e brilhantes que desciam até os quadris, adornados por seu cinto dourado e ricamente trabalhado. O seu rosto era realmente divino, parecendo mais um convite ao amor: sua boca era sedutora, seus olhos tinham a cor de safiras, e as maçãs do seu rosto a valorizavam ainda mais. Trajava uma túnica de tecido verde claro e sedoso, a qual destacava muito bem seus atributos físicos. Num de seus delicados ombros, trazia pousado um pássaro totalmente branco, ou melhor, uma pomba de olhos vivos e negros, um de seus símbolos.
_Não deixe que Hermes te impregne de pessimismo, minha irmã. Ele anda um tanto diferente nos últimos tempos.
Afrodite abraçou delicadamente Saori. Hermes, então, respondeu:
_Apenas sei a gravidade da situação. Caos é um deus poderoso e o seu poder cresce a cada dia.
_Prefiro não desgastar a minha beleza pensando nisto – ela brincou com os cabelos.
Mais raios furiosos cortaram os céus. Os três deuses, então, reiniciaram lado a lado o restante da caminhada até o Olimpo. Ao alcançarem as nuvens, estas se abriram para dar-lhes passagem, e lá estava a gigantesca construção. Era possível ouvir o barulho do martelo de Hefesto, que trabalhava incansavelmente. O cheiro de ambrosia, o alimento dos deuses, invadiu as narinas de Athena, fazendo com que ela finalmente se sentisse em casa após tanto tempo.
Hermes deixou que ela seguisse adiante na magnífica escadaria. O primeiro deus a receber-lhe no Olimpo foi Apolo. Ambos concordavam em muitas coisas antes, sendo conhecidos pela sabedoria e moderação. Sendo assim, ele não hesitou em dizer:
_Finalmente tu regressaste. Juntos, poderemos evitar que alguns lancem este lugar ao Caos – disse ele ao olhar de relance para Ares, que estava mais atrás. O deus da guerra violenta deu as costas para Athena de maneira brusca e insolente.
_Ares nunca esqueceu o fato de você ter sido escolhida como deusa de Atenas em vez dele – Apolo cochichou para Saori.
Ele tinha uma beleza luminosa: seus cabelos eram loiros e o seu rosto era formoso. Vestia-se com uma túnica cor de vinho, bordada com o que mais pareciam ser fios de luz. Numa das mãos carregava uma lira, na outra, um arco. As flechas em sua aljava eram douradas, indicando que ele era o deus do sol.
Ares, por sua vez, vestia sua armadura, que misturava tons de dourado e bronze avermelhado. Levava seu grande escudo e a sua lança, sempre pronto para a batalha. Seu rosto era másculo e seu corpo era musculoso; o seu olhar parecia arder em chamas de violência.
Saori lembrou:
_A questão sobre Atenas foi há bastante tempo.
Mais uma deusa chegou. Era Ártemis, irmã gêmea de Apolo. Ela era uma deusa alta e que portava também um magnífico arco. Nas costas, a aljava com suas flechas de prata, que lhe identificavam como a deusa da caça e da lua. Ela vestia uma túnica mais curta e clara, calçava sandálias que lhe subiam pelos tornozelos e panturrilhas, e trazia as madeixas loiras presas numa grossa trança. Seriamente, ela disse:
_As rivalidades aqui ainda permanecem inalteradas. Porém, seja bem vinda de volta ao Olimpo, Athena.
_Obrigada, Ártemis.
A deusa deixou o irmão gêmeo e dirigiu-se ao Salão do Conselho. Ela sabia da gravidade da situação e tinha pressa. E nunca havia perdoado completamente Apolo pelo que acontecera a Órion. Saori a seguiu, e acabou encontrando-se com Hera, a esposa de Zeus, que lhe dirigiu apenas um olhar forçosamente cortês. Hera sempre fora contra a compaixão de Athena pelos humanos, e não admitia que uma deusa pudesse viver por opção as experiências mortais. A sua postura régia, bem como a coroa que carregava em sua cabeça, representavam o quanto Hera prezava pelo posto de mulher do grande Zeus. Seu vestido misturava tons de azul e verde, como se fosse uma cascata luminosa e perfeita. Nas mãos, ela tinha algumas penas de pavão. Seus cabelos escuros caiam-lhe pelos ombros até a cintura.
O deus Hefesto chegou também ao salão. Com o dorso nu e trazendo o martelo que usava no seu ofício de deus ferreiro, via-se claramente o motivo da infelicidade matrimonial da deusa Afrodite: sendo cultuada pela beleza, ela não se contentava em ter um bom, porém feio marido. Por isso era conhecida por suas traições, especialmente as cometidas com Ares.
_Seja bem- vinda, Athena – Hefesto disse.
_Obrigada. É bom voltar, mas eu gostaria que para tanto o motivo fosse outro.
_Não consegue enxergar o bom lado disto, Athena? Não fosse Caos, os deuses não teriam a chance de experimentar a união. Vivemos em conflitos uns com os outros desde os tempos mitológicos, mas agora, somos forçados resolver as diferenças – o deus ferreiro disse com a sua habitual simplicidade.
Ares entrou no Conselho dizendo:
_Eu não teria tanta certeza acerca disto, Hefesto. Nós estamos prestes a entrar em um desacordo que pode custar as nossas existências.
_Tranquilize-se, meu filho – disse Hera para Ares.
Ele fitou Athena com olhos cheios de ira. Disse:
_Alguns podem querer mediar o conflito, minha mãe. Porém, o que nós temos a oferecer a um deus primordial que pode arrastar-nos e engolir-nos?
Um raio rasgou o céu. Os que já estavam no Conselho pareceram tremer quando o seu estrondo foi ouvido em seguida. Longe da vista dos demais deuses, Zeus desentendia-se com Hades.
Posseidon, entretanto, inundou o Salão com a sua presença. Logo pousou os seus olhos sobre Athena, e lhe deu um inesperado e estranho sorriso. Ela limitou-se a fitar o jovem Julian Solo, novamente sob o domínio do deus dos mares. Hades foi o próximo a integrar o Conselho, trajando a sua armadura divina e com sua espada numa das mãos. Ainda ressentia-se com a derrota na Guerra Santa, onde fora ultrajado ao ser ferido por um dos simples humanos de Athena.
Zeus foi o último da grande tríade a chegar. Era uma enorme figura, tanto em tamanho quanto em presença. Trajava uma túnica branca e brilhante, tinha braços bastante fortes e levava em sua cabeça uma coroa de raios; a sua barba e seus cabelos eram prateados e longos. O seu rosto estava tremendamente severo, e o grande raio em sua mão direita faiscava revoltosamente. Quando o ergueu no ar, todos se sentaram em seus respectivos lugares. Sua voz ecoou no salão:
_Posseidon e eu chegamos a um entendimento, mas Hades diverge de nós. Ele deseja atacar o Caos imediatamente.
O Senhor do Inferno ficou de pé para falar:
_Sinto uma enorme perturbação nos meus domínios: Érebo está agora livre e deixou o Tártaro.
O espanto de alguns deuses contrastou com a naturalidade dos que já aguardavam por isto.
_Devemos atacar enquanto podemos. Quem é favorável a isto? – Ares perguntou impacientemente.
Ártemis, Hades, Hefesto e Hera ergueram suas mãos. Eram cinco dos onze votos presentes.
_Qual é a outra proposta? – perguntou Afrodite.
O Imperador dos Mares respondeu:
_Queremos impedir o conflito antes que se inicie.
_Bobagem – gritou Ares.
Zeus quis saber:
_Quem é favorável a isto?
Hermes, Apolo, Posseidon, Zeus e Afrodite ergueram as mãos. Cinco dos onze votos. Empate.
Decidido a não deixar que Athena exercesse o seu voto de Minerva, Hades perguntou:
_Onde está Dionísio?
_Enviei-o numa missão – respondeu Zeus.
_Não é motivo para que ele falte ao Conselho!
_Ele somente voltará ao Olimpo com as nove Musas – decidiu o senhor do Olimpo.
Hades, então, irou-se:
_Entendo o que pretendem fazer. Querem que Athena decida o impasse ao seu favor, mas digo desde já que se arrependerão desta decisão!
Saori, então, ficou de pé. Ela disse:
_Se uma guerra começar contra o Caos, a terra e os seus habitantes sofrerão. Se há uma chance de evitar tal conflito, digo que devemos tentar.
Zeus dirigiu um olhar à Athena. Um lapso de ternura passou por seus olhos poderosos quando ele perguntou:
_Minha filha... É a tua decisão final?
_Sim. Sou a favor de irmos até os filhos do Caos para tentar mediar o conflito – ela respondeu ao apertar seu báculo com força.
Ares bateu violentamente a lança em seu escudo. Hades não se surpreendeu com a decisão, mas ergueu-se para dizer:
_Se vocês decidiram abrir mão de um tempo valioso, não espere que fiquemos inertes. Tão logo os mediadores partam, Ares e eu nos posicionaremos para uma luta contra Caos. Porém, somente iniciaremos o ataque após a falha inevitável de Athena.
Hades envolveu-se em seu cosmo púrpura e deixou o Olimpo. Ares ergueu a sua lança, chamando a sua carruagem de guerra, puxada por um par de cavalos que soltavam fogo pelas narinas e escoiceavam o ar vigorosamente. Ele também se foi. Posseidon agitou o seu tridente e desapareceu em seu cosmo da cor do mar.
Zeus, então, decidiu:
_Que Athena e Hermes partam imediatamente.
Casa de Gêmeos, Santuário de Athena.
O dia parecia atrasado, pois a escuridão da noite ainda tomava conta do céu apesar da hora avançada. Isso era bastante estranho, todavia, não impediu a vontade que Saga tinha de rever a misteriosa estranha para descobrir quem era ela. Sem trajar a armadura de Gêmeos, ele se dirigiu à entrada da sua Casa. Lá, surpreendeu-se ao encontrar Kannon de vigia, que disse:
_As suas saídas durante a noite e antes amanhecer começam a me deixar curioso.
Saga sorriu para disfarçar a sua preocupação.
_É assim que me sinto também: curioso.
Kannon balançou a cabeça negativamente e sorriu. Em seguida, falou:
_Eu cuidarei de Gêmeos.
Saga assentiu, mas algo lhe prendeu nos degraus da escadaria. Ele precisava dizer:
_Você não imagina o quanto estou satisfeito por te ter aqui, Kannon. Antes da luta contra Hades, jamais imaginei que você pudesse ser leal à Athena, e estou bastante orgulhoso disso.
Os olhos do mais novo brilharam com tais palavras. Entretanto, evitando demonstrar totalmente a sua emoção, ele perguntou descontraidamente:
_Você não está atrasado para o seu encontro misterioso?
Saga balançou negativamente a cabeça e respondeu:
_Não é um encontro. E eu não estou atrasado, pois o dia ainda não nasceu.
Kannon ponderou:
_O que é estranho, por sinal.
_Sim, mas eu pretendo descobrir o motivo disto.
Saga deixou Gêmeos. Entretanto, Kannon ali permaneceu vigilante, tal como o legítimo cavaleiro de Athena que agora era.
Em algum ponto sobre o Oceano Pacífico.
Os filhos de Caos viram um portal perolado surgindo no ar. Dele saíram Hermes e Athena.
_Vieram implorar por misericórdia? – brincou Nyx ao se dirigir para Saori.
_Não. Nós viemos negociar a paz antes que se inicie a guerra – falou Hermes.
Hades e Ares, então, apareceram. Érebo olhou para o Senhor do Submundo com um olhar mortal, e disse:
_A paz não é uma opção.
_Não permitam que Caos transforme tudo em desordem outra vez – rogou Athena.
_Não poderia ser outra pessoa a nos pedir isto, afinal, não és tu que protege aos homens da fúria dos teus próprios parentes deuses? – perguntou Nyx.
_Os humanos não tem nada a ver com as nossas tolas rivalidades. Por isso, eu imploro: fazei com que Caos se contenha.
Hermes olhou para a irmã. Ele já estava descrente na tentativa de paz, portanto, seu caduceu brilhou. Érebo notou e disse, fazendo um sinal a Nyx:
_Esta é a tua declaração de guerra, Hermes? Deixe-nos mostrar a nossa!
A deusa da Noite tomou o cetro e o ergueu no ar, lançando-o firmemente na direção de Athena. Hermes, porém, foi mais rápido e sofreu o ataque no lugar dela, sendo atingido no ombro esquerdo. Ele despencou do céu em direção ao mar, que começava a ficar tempestuoso.
_Hermes! – gritou Athena, desesperada. Porém, o carro de Apolo surgiu brilhante como o sol. Ele alcançou Hermes antes que este colidisse com nas águas.
Foi a vez de Ares investir, indo na direção de Nyx. Porém, Érebo agitou sua espada, fazendo no céu um buraco negro o qual tragou o deus da guerra.
_Tu foste o primeiro a adentrar no Caos, Ares – disse o deus da Escuridão com um sorriso malévolo nos lábios finos.
Ao ver que o deus da guerra desaparecera, Hades usou a sua espada para cortar o enorme poder de Érebo ao meio. Em seguida, desafiou:
_Venha lutar comigo, filho da Desordem!
Espadas se chocaram num estrondo terrível. Enquanto isso, Apolo apontava o seu arco dourado para Nyx, que disse:
_É inútil, Apolo.
A flecha partiu, porém ela desviou-se. Todavia, Hefesto surgiu ao lado da filha mais velha de Caos, atingindo-a com o seu martelo. Nyx rodopiou no ar, surpresa e furiosa com o golpe. Vendo que os demais descendentes de Caos começavam a vir para a luta, Athena ergueu o seu báculo, formando uma barreira dourada para que não se intrometessem. Foi neste momento que as nuvens do céu ficaram escuras e tempestuosas. Delas saiu o poderoso Zeus, lançando raios ameaçadores e chamando por seus inimigos com a sua voz de trovão:
_Filhos do Caos!
_Vejo que o senhor do Olimpo resolveu aparecer – falou Érebo ao rebater um golpe da espada de Hades.
Nyx deu um sorriso sombrio e segurou Hefesto pela garganta, lançando-o numa distorção do espaço que ela própria criara. Zeus desfez a distorção ao lançar dois raios, impedindo que Hefesto fosse tragado. Aproveitando a distração da Noite, Apolo atirou mais uma flecha, que atingiu a coxa esquerda da esposa e irmã de Érebo.
Ela gritou ao arrancar a flecha de si:
_Maldito Apolo!
Hades tentava subjugar a Escuridão, porém, foi atingido no braço pela espada do inimigo. O Senhor do Submundo, contudo, não desistiu e investiu mais uma vez o filho de Caos. Enquanto isso, Athena seguia usando o seu cosmo para sustentar a barreira, e um pensamento otimista transformou-se em palavras:
_Nós podemos vencê-los.
Casa de Gêmeos, Santuário de Athena.
Kannon sentiu a presença de Sorento de Sirene. Aborrecido e disposto a continuar sozinho, ele ameaçou:
_Vá embora, se não quiser ser mandado para Outra Dimensão.
_Não, Dragão Marinho. Antes eu preciso dizer-te a mensagem do Imperador Posseidon.
_Eu não quero ouvir. Saia!
Kannon estava disposto a atacar o general, porém, sentiu o seu corpo paralisado. O vento frio que rondava o Santuário na noite anterior balançou-lhe os cabelos e o fez estremecer.
_O que está acontecendo?
Sorento ficou frente a frente com o segundo cavaleiro de ouro de Gêmeos, e disse:
_Posseidon não se esqueceu da tua traição, e deseja vingança.
Kannon podia sentir agora uma fatal e inevitável presença. Enquanto lutava para se mover novamente, ele perguntou:
_Quem mais está aqui? O que... O que está acontecendo comigo?
_Acalma-te, Dragão Marinho – disse a mesma voz que falara com Athena antes.
_Quem é você? – o geminiano perguntou ao deus invisível.
_Eu sou um dos filhos de Nyx, portanto, um descendente do Caos.
Luta entre os deuses do Olimpo e os filhos do Caos.
Quando um redemoinho gigantesco formou-se no mar, até mesmo Zeus e Hades demonstraram sinais de vitória em seu rosto:
_Posseidon está aqui – disse o Senhor do Olimpo enquanto erguia um raio em cada mão, os quais seriam destinados a Nyx e Érebo.
Entretanto, o Imperador dos Mares não se posicionou ao lado dos irmãos. Ao contrário: fez ondas gigantescas atingirem Zeus.
Hades rebateu um golpe de Érebo e foi ao socorro do irmão atingido, bradando:
_O que estás fazendo, Posseidon?
_Estou mudando de lado. Apesar da aparente chance de vitória, ninguém pode se erguer contra o Caos. E eu quero um lugar de honra na nova Ordem que ele criará após destruir esta em que existimos.
Athena fitou Julian Solo com lágrimas nos olhos. A sua barreira que prendia demais descendentes de Caos pareceu ceder. Apolo foi até a irmã, levando Hermes consigo. Ele disse:
_Acabou, Athena. Devemos voltar ao Olimpo agora se quisermos lutar novamente.
Ela ergueu o báculo outra vez e negou-se a ir:
_Não.
No entanto, Zeus e Hades já se retiravam. Hefesto fazia o mesmo. Athena percebeu que não teria outra escolha, mas, antes de ir, ela viu no horizonte a grande massa disforme e revolta, de um brilho intenso e escuro. Era um vazio infinito, um estado não organizado que continuava a sugar lentamente tudo o que existia ao seu redor. Era o Caos, o deus primordial cujas forças começavam a agir outra vez. Nyx, Érebo e os seus demais descendentes uniram-se a ele, cercando-o após a vitória naquela batalha.
_Será mesmo o fim de tudo? O que o Destino quis me dizer na noite passada? – sussurrou Athena antes de ser levada por Apolo.
Casa de Gêmeos, Santuário de Athena.
A presença invisível apareceu. O deus Destino usava um capuz negro que cobria os seus olhos brancos e cegos, e da sua túnica saíam fios os quais eram tecidos pelas Moiras, deusas que lhe seguiam todo o tempo. Cloto tecia as linhas, Láquesis as separava, e Átropos segurava uma tesoura nas mãos, pronta para cortar o que o Destino determinasse.
Com muito esforço Kannon conseguiu dar um passo na direção dele, que se surpreendeu:
_Não podes lutar contra mim, Dragão Marinho. Deves lutar ao meu favor.
_Eu jamais trairia Athena e aos demais cavaleiros, e eu não sou mais o Dragão Marinho de Posseidon!
Láquesis separou o fio da vida de Kannon, Átropos ergueu a tesoura. O Destino, entretanto, ordenou com um gesto que Cloto seguisse tecendo o fio da vida do irmão de Saga. A moira obedeceu imediatamente, então, o deus aproximou-se do cavaleiro e disse:
_Posseidon terá a sua vingança. Este foi o preço pedido por ele para trair ao Olimpo. Você voltará a servi-lo como um dos seus generais, e lutará contra aquela que jurou proteger.
Kannon ainda estava paralisado, porém, com esforço ele conseguiu dar mais um passo. Disse:
_Nunca! Se o Imperador dos Mares está se voltando contra os demais deuses, eu devo fazer alguma coisa!
Ele tentou explodir uma galáxia na direção do filho de Nyx, mas não conseguiu. Destino sorriu e falou:
_Não há como impedir a minha ação, humano. Tudo acontecerá como planejei.
Destino tocou a testa de Kannon com o dedo indicador, e os olhos do cavaleiro ficaram completamente brancos por alguns segundos. Uma lágrima escorreu de um deles.
_Obedeça-me.
Kannon foi envolvido pelo cosmo do deus e gritou antes de perder a consciência.
Na Casa de Touro, Aldebaran sentiu a presença de um inimigo. Ele correu para Gêmeos. Ao chegar lá, também foi paralisado.
_O que está havendo...? Quem é este que invadiu o Santuário, Kannon?
O irmão de Saga ignorou o taurino. Destino, então, abriu uma fenda no espaço e se foi seguido por suas Moiras e pelos dois generais de Posseidon.
Ao amanhecer, em algum lugar do Santuário.
Ela estava distraída naquela manhã, mas não deixou de perceber a chegada de Saga. Num misto de contentamento e surpresa, ela ficou de pé e disse:
_Você veio.
_O Santuário inteiro está em alerta, sendo assim, preciso saber se você é ou não uma inimiga.
Ela aproximou-se de Saga, retirando do pescoço o seu pingente brilhante. Apertando-o em uma das mãos, disse:
_Cavaleiro de Athena, eu te compreendo. Tu não desejas o meu mal, eu posso ver isso em teus olhos. Porém, como a guerra começou, tu ainda queres redimir o teu passado sombrio e repleto de traição.
_Como sabe tanto sobre mim?
Ela deu um triste sorriso:
_Eu tenho te observado, cavaleiro. Nós dois somos criaturas atormentadas. Tu pelo teu passado e eu pelo meu futuro.
Saga pôs-se em posição de luta e perguntou:
_Quem é você?
_O meu nome é Hemera. Sou a deusa do Dia, filha de Nyx e Érebo, descendente do Caos.
Um brilho forte começou a emanar dela. Saga teve de cobrir os olhos com as mãos. Ela, entretanto, seguiu falando:
_Ontem não éramos inimigos, mas agora somos. E eu sou aquela que será conhecida na nova Ordem como a deusa que eliminou os perigosos humanos de Athena. Dentre eles, tu, Saga de Gêmeos.
O pingente transformou-se numa lança. E a luta entre os dois começou.
_Explosão Galáctica!
Hemera protegeu-se num escudo de luz e não foi atingida. Porém, Destino surgiu e disse:
_Não é a hora ainda, Hemera. Este humano não deve morrer agora.
Saga sentiu o seu corpo paralisando. Foi quando viu o irmão ao lado de Sorento.
_Kannon? – perguntou.
_Não. Eu sou o Dragão Marinho de Posseidon – respondeu ao irmão.
Hemera lançou a Saga um olhar de compaixão, todavia, envolveu a todos com a sua luz e deixou o cavaleiro de Gêmeos sozinho.
No próximo capítulo, a primeira Musa irá aparecer. Espero que este capítulo tenha ficado legal. Até mais!
P.S: Hades está tão 'cabra ômi', não acham? Chamou mesmo o Érebo para a briga! Eita... XD
