DIA 01
- O FIM COMEÇA -
Esse lugar está sempre iluminado por esse
mesmo pôr-do-sol escarlate. Aonde era mesmo
esse lugar? Deve ser a Cidade Crepuscular.
- Lexci -
Quem será que falou comigo? Eu não me
lembro o nome da pessoa que está parada na
minha frente, vestindo um casaco negro. Eu devo
ter recebido um nome lá. E então eu o conheci.
Ele — o homem de cabelos vermelhos, obviamente
vestido em um casaco negro. E então, nós dois
tomamos picolé. Eu me lembro. Eu me lembro disso,
eu não me esqueci. E eu não me esquecerei.
{ . . . }
As preparações para o seu despertar já estavam completas. Como um Sem-Coração, ele já havia desaparecido, restando apenas seu Incorpóreo — mas então, lá estava ele, retornando ao normal.
O som das ondas podia ser ouvido. A maré se movia lentamente, molhando a areia da praia. O corpo do garoto afundava na água, bem devagar. Ou, quem sabe, ele poderia estar tentando ser pego pelas ondas.
E então, o garoto abriu os olhos. Uma sala completamente branca. Nela, uma cama completamente branca. Através da janela adiante, o céu extremamente negro e os arranha-céus de néon podiam ser vistos.
Quer lugar mesmo é esse? Este é o meu
quarto. Esse lugar é chamado de "O Mundo
que Nunca Foi". E o meu nome é Lexci.
Sim, este é o meu nome. Eu sou o número
XIII da Organização. Eu sinto como se
estivesse sonhando todo o tempo. Não, eu
também sinto como se estivesse acordado
todo o tempo. Ontem — ontem eu estava num
oceano negro. E eu o conheci. Nosso chefe.
Depois disso — eu não me lembro bem.
Talvez as coisas que aconteceram ontem
não tenham realmente acontecido.
Talvez eu ainda esteja sonhando.
{ . . . }
O garoto — Lexci levantou da cama, deixando seu quarto. Ele seguiu por um corredor, tão branco quanto seu quarto, e feito de algo inorgânico. Parecia de rocha, mas também lembrava um pouco algo artificial — Lexci não sabia o que era. Só que havia um caminho que seguia por ali. Havia muitas portas, como a de seu quarto, alinhadas pelo corredor. O designe dos quartos do outro lado das portas também deveria ser igual. Sendo assim, dentro deles, provavelmente deveria haver pessoas como ele.
Pouco depois, o caminho se abria um pouco mais, e ele começou a descer por um corredor inclinado. No final, ele se deparou com o Jardim de luz e trevas Entrelaçadas — como era chamado o salão. Lhe havia sido dito para ir até lá. Por quem? Ele não se lembrava. O salão de fato era bastante frio, fechado por um vidro transparente, pelo qual podia-se ver que não havia nada lá fora, exceto pela total escuridão da noite e alguns edifícios brancos.
?: Eww. Resolveu acordar, é?
Lexci se virou. Uma mulher loira, que se vestia com o mesmo casaco negro que ele, o encarava. Lexci não soube exatamente como responder, e ela — Nerlaxe lhe lançou um olhar de desprezo, antes de repousar seus quadris ao lado do sofá. Lexci não fazia ideia do que poderia significar essa mudança em sua expressão. Mas no momento em que viu aquele olhar, ele se sentiu meio desconfortável.
Dentro do salão, havia outras três pessoas fora Nerlaxe que se vestiam com aquele mesmo casaco negro, passando seu tempo extra, do qual não sabiam como aproveitar. Lexci, então, se aproximou de alguém que observava o escuro total que havia do outro lado da janela — um sujeito de cabelos vermelhos.
Talvez houvesse alguma razão para ele ter sido escolhido para formar uma dupla com Lexci, talvez não houvesse. Lexci também não sabia muito sobre isso. Mas assim que Lexci se aproximou, o sujeito logo se voltou para ele, um grandioso sorriso estampado em seu rosto.
?: E aí, Lexci!
Lexci: ...
Lexci lançou o olhar para baixo. Ele não sabia bem o que dizer em retorno.
?: Posso te ajudar com alguma coisa, tagarela?
Na verdade, eu não preciso de nada,
mas estava pensando que talvez fosse
bom conversar com alguém, só isso.
O sujeito de cabelos vermelhos — Alex olhou para Lexci, que continuava de cabeça baixa.
Isso me lembra — isso
mesmo, naquele dia, acho que
o meu primeiro dia, a pessoa
que estava comigo era —
Alex: Ah, acabei de me lembrar. Era pra gente se reunir na Távola Redonda, hoje. Blegh, essas reuniões...
Lexci: Távola... Redonda...
Eu me lembro do lugar que eles
chamam de Távola Redonda. Eu
estive lá também no meu primeiro
dia — não, não foi depois disso?
Lexci voltou a olhar para Alex — ele parecia um pouco desnorteado, confuso.
Alex: É. Parece que o chefe tem grandes notícias. Vamos indo?
Alex ergueu uma de suas mãos e uma forte escuridão se formou diante dele.
Oh, é verdade. Nós, que somos membros
da Organização, podemos manipular a
escuridão de acordo com a nossa vontade.
Essa escuridão só pode ser um —
Alex: Vamos, abra logo o seu Corredor das Trevas.
Lexci: Corredor... das Trevas...
Isso mesmo, um Corredor das Trevas.
Do outro lado da escuridão, outros
mundos se abrem. É uma forma de
substituir o uso de portas, podemos dizer.
Alex: Eu odeio essas reuniões, meu traseiro sempre fica todo dolorido de tanto ficar sentado naquelas cadeiras duras...
Alex deu uma breve risada — mas foi interrompido por uma pessoa parada ao centro do salão.
?: A reunião de hoje é muito importante. Espero que todos cheguem em tempo.
Alex e Lexci eram os únicos restantes no salão, fora este homem, de longos cabelos azuis e com uma grande cicatriz no centro de seu rosto — Asïx. Nerlaxe já havia partido. Os outros, a esta altura, provavelmente já tinham partido para marcar presença na Távola Redonda, também.
Alex: Tá, tá — vamos, Lexci. Abra logo o seu Corredor das Trevas, também...
Lexci: ...
Alex seguiu pela escuridão que ele havia formado. Então, diante dos olhos de Lexci, a escuridão se fechou, desaparecendo.
Asïx: Apresse-se.
Asïx logo desapareceu em sua própria passagem negra. Agora, Lexci era o único que restava no salão. Ele encarou a própria mão.
Como eu faço para abrir
as trevas desse jeito?
Lexci ergueu a mão, como Alex havia feito antes, e fechou seus olhou por um instante. Ele reinvocou aquela mesma escuridão.
Eu tenho que ir para aquele
lugar — a Távola Redonda.
Diante de Lexci, a escuridão abriu sua escancarada boca. Ele a observou.
Será que a Távola Redonda
estará mesmo ao fim deste caminho?
Sem perder mais tempo, ele entrou na passagem obscura.
{ . . . }
O salão que eles chamavam de Távola Redonda era completamente fechado por uma parede circular. As paredes eram feitas do mesmo material que as outras salas. No meio da sala, havia uma mesa circular — uma mesa que lembrava muito um palco, com treze assentos a cercando. As cadeiras eram bem altas, mas cada uma tinha um tamanho diferente — dessas treze, doze delas já estavam ocupadas por outras pessoas de casacos negros.
Lexci não conseguia lembrar os nomes deles muito claramente, e vagamente desviou o olhar para a Távola Redonda no meio da sala. Marcado nela, estava um símbolo muito similar a uma cruz — ele estava também marcado na cama de Lexci. O jovem sabia o que ele significava.
Este é o selo da Organização — dos
Incorpóreos. Mas eu não me lembro muito
bem de quem foi que me disse isso.
?: Boas notícias, meus amigos. Hoje é um dia grande dia.
O ar se agitou com a voz ressonante e intimidadora. Ela pertencia ao homem que ocupava o mais alto dos assentos.
Oh, eu sei. Essa voz
pertence — àquele cara, o
nosso chefe, Milnuxos.
E então, uma única pessoa surgiu no meio da Távola Redonda, andando a passos lentos e sonoros.
Milnuxos: Tenho o prazer de anunciar que um novo camarada foi escolhido para vestir o casaco.
Não sei dizer como é o rosto
desta pessoa, está muito escondido
por baixo do seu capuz...
Milnuxos: Número XIV.
Uma coisa repentinamente se passou pela mente de Lexci. Uma memória de apenas alguns dias antes — provavelmente uns seis dias. Alex lhe vestiu em um casaco negro, e então lhe levou para o seu quarto.
"Vamos todos dar as boas vindas a um dos escolhidos da Chave-Espada —"
Milnuxos deve ter me dito isso,
naquele dia. A Chave-Espada? Eu
nem mesmo sei o que é isso.
Lexci olhou para a pessoa parada na Távola Redonda. Ela ergueu o rosto por um momento, e Lexci sentiu um calafrio — lhe parecia que ela estava olhando para ele. Lhe parecia que sua boca, que deveria estar oculta e invisível sob seu capuz, estava sorrindo.
Eu sinto como se já tivesse visto esse
sorriso em algum lugar antes. Mas
não me lembro onde. Até agora, nesses
sete dias que se passaram, eu não me
senti com medo de coisas sobre as quais
não consigo me lembrar em momento
algum. Mas agora, eu estou, de alguma
forma — com medo. Medo? Mas o
que significa estar com medo, afinal?
Lexci sentiu alguma coisa brilhar por um momento, e então olhou para cima. Milnuxos havia desaparecido, envolto em trevas. E assim, um após o outro, todos os demais membros da Organização desapareceram. Mas o membro Número XIV continuava olhando para ele. E então, não mais que de repente, Lexci apagou.
{ . . . }
O que vai acontecer comigo—?
Estou—ca—indo—nas trevas...
{ . . . }
Milnuxos observava Lexci, que havia sido posto de volta em sua cama, para que pudesse dormir e descansar.
Milnuxos: — Vamos logo, já é hora de despertar.
Não houve resposta. Logo em seguida, a figura de Milnuxos desapareceu do quarto de Lexci.
{ . . . }
O ar na Távola Redonda se agitou. Como se a escuridão fosse queimar tudo ao redor, vários Corredores das Trevas se abriram nos assentos ao redor da sala, e a figura de alguns dos membros, cobertos por seus casacos negros, surgiu. Eram sete deles, que apareceram quase simultaneamente — os sete membros entre o Númer Número VII, em outras palavras, Milnuxos, Braxig, Dilxan, Xeven, Aelexus, Ixenzo e Asïx.
Xeven: Então permitiram que o novato comparecesse.
O mais novo dentre os membros presentes — Asïx olhou fixamente para o centro da Távola Redonda, sem mostrar nenhuma reação em particular às palavras de Xeven.
Braxig: Conseguimos extrair a "chave"?
Xeven: A chave? Oh, você deve estar falando dos fragmentos. Se forem apenas os fragmentos, podemos consegui-los sem a ajuda dos poderes da bruxa.
Ixenzo: São necessários mais fragmentos?
Aelexus: Mais importante do que isso — os movimentos dos heróis estão sendo propriamente monitorados?
Asïx: Luxarmia recebeu ordens de atuar sem cometer erros.
Dilxan: O aparecimento do Incorpóreo do herói em si, aliás, foi bastante irregular. A existência do Incorpóreo do herói não torna sem sentido a continuidade do plano?
Braxig: Bem, precisamos de alguma garantia, é só o que eu digo.
Milnuxos: O plano já foi iniciado.
Com a interrupção do Superior, todos os seis o encararam.
Milnuxos: Para assegurarmos nosso novo poder, colocaremos nosso plano inicial em ação.
Todos os membros consentiram, em conclusão ao encontro.
{ . . . }
Ele abriu os olhos, e se encontrou deitado em sua cama. Sua cabeça doía, ele se sentia desorientado.
O que aconteceu ontem? Não
consigo me lembrar, como sempre.
Lexci levantou-se da cama, e deu uma olhada pela janela, tentando pensar um pouco, libertar sua mente.
O céu está tão negro quanto sempre
esteve — então, eu não posso ter certeza,
mas me parece que o dia já se passou.
Tenho que ir ao salão, já que eu acordei. Até
agora, isso é tudo o que eu consegui entender.
Lexci deixou seu quarto e caminhou pelos corredores como havia feito no dia anterior, seguindo para o salão.
?: Lexci.
O jovem ouviu o chamado no exato instante em que pisou em seu destino. Era Asïx, sem dúvidas. Lexci vagamente desviou o olhar para ele.
Asïx: Seu trabalho vai começar hoje. Eu lançarei missões, as quais a Organização espera que você cumpra.
Missões. De alguma forma, eu sinto que não
deveria simplesmente estar aqui. Eu, na verdade,
não entendo porque estou aqui. Como sempre.
Asïx: Pense nessas primeiras missões como exercícios. Você ainda tem muito para aprender, antes que o coloquemos em um teste de verdade. Alex se juntará a você na sua primeira saída. Não é mesmo, Alex?
Lexci lançou o olhar para o lado de Asïx, e lá estava Alex, parado. E, atrás dele, Lexci viu mais um membro. Era o Número XIV.
Alex: Aff... o que foi, tá querendo que eu seja o mentor do garoto agora?
Alex levou a mão até a cabeça, coçando-a por um instante.
Asïx: Você certamente não se importa em mostrar ao Lexci aqui como funcionam as coisas, certo? Ensine-o bem, Alex.
Alex: Não se preocupa. Vou me certificar de ele vai se dar bem.
Completamente desligado da conversa de Alex e Asïx, Lexci observava com atenção o Número XIV. Como sempre, seu rosto continuava completamente coberto pelo capuz, e Lexci não podia dizer nada sobre ele.
Alex: Vem, Lexci. Você ouviu o cara. A partir de hoje, eu serei sua babá.
Aproximando-se de Lexci, Alex o encarou nos olhos. Seguindo seu olhar, ele se voltou para o Número XIV.
Alex: Qual o problema? Tá interessado no membro novo? Pois é, como que era o nome mesmo —?
Alex coçou a cabeça novamente. Asïx quietamente abriu sua boca.
Asïx: Número XIV — Onix.
Alex: Isso, eu já sabia.
Lexci parecia estar distante, com o olhar longe. Ele apenas murmurou.
Lexci: Onix...
Alex: Deu pra memorizar, Lexci?
Lexci encolheu os ombros e Alex voltou a olhar para ele. Por algum motivo, a voz de Lexci pareceu fraquejar.
Lexci: — Aham.
{ . . . }
Alex o encarou. Onix não saía de sua vista. Entretanto, também era possível que Lexci não estivesse olhando para Onix. Notando isso, Alex parecia perdido em seus pensamentos.
Os olhos azuis do Lexci refletem a visão
do que há em volta, mas por alguma razão,
parece que ele não está olhando para
nada. Esse vazio é o que se espera de um
Incorpóreo que acaba de despertar? Eu
queria que ele me respondesse uma coisa...
Alex: Então, qual que é o meu nome?
Lexci: Alex...
Parecia que, de alguma forma, Lexci não havia se esquecido disso.
Quero perguntar mais uma coisa...
Alex: E o nome do nosso chefe?
Lexci: Milnuxos...
Alex: Muito bem, Lexci! Não tem mesmo como esquecer o nome dele, né? Bom, já tá na hora de irmos.
Um largo sorriso surgiu nos lábios de Alex, enquanto ele abria um Corredor das Trevas diante de si.
{ . . . }
O Corredor das Trevas que fora aberto levava às passagens subterrâneas da Cidade Crepuscular.
Alex: Muito bem. Vamos começar falando sobre o que fazemos em missões...
Alex se voltou para Lexci, que lhe estava seguindo.
Alex: Bem... missões são — uhh... bem, você sabe... hrm...
Enquanto tentava explicar, Alex levou uma mão até a cabeça e, coçando-a, suspirou. Os olhos de Lexci, como sempre, se mantinham indiferentes, como se ele não estivesse vendo nada.
Alex: Quer saber? Ficar falando é besteira. Vamos seguir em frente e botar a mão na massa, beleza? Siga-me.
Alex começou a correr. Ele não tinha visto Lexci se mover rápido antes, mas para sua surpresa, Lexci o seguiu depressa. Subindo um nível, Alex parou no meio do caminho e se virou para Lexci.
Alex: Não vá pensando que missões só consistem em ficar correndo e pulando por toda parte. Você tem que ficar atento!
Lexci: — Como... assim?
Essas palavras que o Lexci acabou de
dizer são as mais "atentas" que eu já lhe
vi falando até agora. Talvez seja porque ele
tá movimentando o corpo. Mesmo que ainda
não esteja perfeito, o Lexci, que não tinha
dito nada além do nomes de coisas e pessoas
até agora, está enfim juntando as palavras.
Alex: Você tem que olhar ao seu redor. Às vezes, o que você tá procurando pode estar bem debaixo do seu nariz. Deu pra memorizar?
Lexci: É — acho que sim.
Alex: Beleza, então acho que é hora de um teste de estrada.
Lexci consentiu, obedientemente — Com um brilho no olhar, Alex começava a crer que aqueles olhos enfim o estavam acompanhando.
Alex: Tem um baú do tesouro em algum lugar dessas passagens. Quero que você o encontre.
Lexci: Isso é tudo o que temos que fazer?
Alex: Pois é, cuidado pra não se machucar. Enfim — não se esqueça de olhar ao seu redor.
Lexci olhou em volta, procurando pelo baú.
No início, o Lexci parecia um quadro
completamente em branco, que precisava
ser pintado. Algumas das suas reações
são lentas, mas me parece que há
uma razão maior por trás disso. Desde
o dia em que nos conhecemos,
noto que há algo nele que, de alguma
forma, é diferente dos outros.
{ . . . }
Alex observou o Corredor das Trevas que se fechava, enquanto coçava sua cabeça. Do outro lado do Corredor, partia o chefe da Organização — Milnuxos —, com quem ele havia acabado de se encontrar.
Alex: Por que eu sempre fico com o trabalho sujo? Do nada, o cara chega e me diz pra levar o novato pra casa.
Alex encarou o garoto que estava parado diante de si, ainda nos restos das trevas formadas pelo portal que acabara de se fechar. O garoto vestia uma camisa branca e era uns dez anos mais novo do que Alex, ou pelo menos era o que ele imaginava — apesar de idade não ser algo existente, para os Incorpóreos.
Eu não sei nem o nome desse garoto.
Talvez ele seja um Incorpóreo que
nasceu hoje mesmo, aqui nessa cidade.
Eu conheço essa cidade, é aquela que
chamam de Cidade Crepuscular — é um
lugar especial. É uma cidade do crepúsculo,
localizada entre a luz e a escuridão.
A escuridão dos crepúsculos borra esse
horizonte, assim como a sua luz.
Nesse lugar, aqueles que não pertencem
nem à luz e nem à escuridão — até mesmo
os Incorpóreos, tem permissão para existir.
De tal forma, toda vez que tinha um tempo livre, Alex vagabundeava por esta cidade. E um dia, enquanto andava preguiçosamente como já lhe era de costume, Milnuxos repentinamente apareceu em sua frente. Mas só o que Milnuxos fez foi meramente dar a Alex uma ordem, sem nem se aproximar.
Milnuxos: É um novo membro. Leve-o até o castelo, prepare suas vestes, e então, traga-o para mim.
Alex: Huh?
Antes que Alex pudesse perguntar qualquer coisa, um Corredor das Trevas se abriu atrás de Milnuxos, que desapareceu como se houvesse sido devorado.
Pensei em dizer "Ah, leva ele você", mas
eu não estou em posição de dizer algo assim...
Diante de si, o garoto não moveu nem um músculo. Alex deixou escapar um pequeno suspiro.
Alex: Siga-me.
Ele abriu um Corredor das Trevas, mas o garoto não reagiu.
Alex: — Ow.
?: ...
Alex fechou o portal, sem nada a fazer, e se aproximou do garoto. Ele enfim se moveu, apenas para olhar para Alex.
Alex: Qual é o seu nome?
O garoto piscou.
Não sei dizer se essa
piscada foi uma reação.
Alex: Vou perguntar de novo. Qual é o seu nome?
?: L— L-Lexci.
Eu sei que foi Milnuxos quem lhe deu
esse nome, e não deve fazer muito tempo.
Eu recebi o meu nome do mesmo jeito.
Alex: Beleza, Lexci. Meu nome é Alex. Deu pra memorizar?
O garoto — Lexci não fez nada além de continuar a encarar Alex.
Alex: Enfim, vamos para casa.
Bem, eu duvido que a atmosfera sombria
do castelo seja um lugar ideal pro Lexci,
que acabou de surgir, chamar de "lar" — só
que não há mais nada que se possa fazer.
Em seguida, o olhar de Lexci se desviou.
Olha — é a primeira vez que
ele demonstra alguma reação direta.
Alex: Hm? O que foi?
Ao fim do olhar de Lexci, estavam algumas das crianças da cidade.
Eu os vejo o tempo todo. Um grupinho de
crianças barulhentas daqui da cidade.
Eles devem ter a mesma idade que o Lexci.
E cada um deles carregava consigo um picolé de sal-marinho. Ele tinha um sabor especial — um picolé de cor azul-gelo, doce, mas com um pequeno toque de sal. Alex não desgostava do picolé — na verdade, ele até que gostava. Ou melhor, lembrava de já ter gostado.
Alex: — A gente vai pra casa depois de tomarmos um picolé, beleza?
Alex começou a andar, seguindo para a loja ao centro da praça da cidade.
Alex: Vem comigo, Lexci! Vou te mostrar até o meu lugarzinho especial!
Lexci continuava sem mover um músculo.
Alex: Aff, acho que não tenho escolha.
Alex deu a volta e pôs a mão sobre o ombro de Lexci. Ele tremeu, surpreso, e voltou a olhar para Alex.
Alex: Vem.
E, em seguida, Alex voltou a caminhar. Dessa vez, Lexci foi junto. Sentindo-se um tanto aliviado, Alex seguiu para a pequena loja de doces ao centro da praça.
{ . . . }
Lexci: É esse o baú?
Ouvindo o tom de preocupação na voz de Lexci, Alex rapidamente se virou. E sim, aos seus pés, estava o baú do tesouro.
Alex: Pode apostar! Muito bem.
Lexci ficou olhando para o baú do tesouro, sem se mover.
Alex: — Uhm, tá esperando o quê?
Lexci: A missão era para encontrar o baú. Já não terminei?
Como imaginei, o Lexci ainda
é... um pouco avoado, eu acho.
Alex: Uh, Lexci... tem uma coisinha sobre baús que talvez ninguém tenha contado pra você, mas... costuma ter coisas dentro deles.
Lexci: Então eu tenho que abrir o baú?
Alex: Sim, é o que geralmente costumamos fazer.
Foi quando uma chave brilhante surgiu nas mãos de Lexci.
Cada membro da Organização tem a
sua própria arma, mas será que
isso é mesmo — uma Chave-Espada?
Lexci tocou o baú do tesouro com a chave, e o mesmo se abriu numa forte onda de luz.
É uma Chave-Espada, sem dúvidas.
É verdade, naquele dia, quando eu
levei o Lexci ao castelo, para se
encontrar com o Milnuxos, ele disse
algo a respeito. "Um dos escolhidos da
Chave-Espada". Se isso é mesmo
verdade, quer dizer que o Lexci é o
Incorpóreo do Mestre da Chave-Espada?
Eu não ouvi nada sobre o herói ter
se tornado um Sem-Coração.
De dentro do baú do tesouro, Lexci tirou — uma poção. E logo em seguida, a chave desapareceu de sua mão. Alex tentou se recompor.
Alex: Bom trabalho! E você pode até ficar com o que encontrou. Mas enfim, tá na hora de RAC.
Lexci: — RAC?
Alex: Retornar Ao Castelo. Mas antes, me diz uma coisa.
Lexci encarava Alex nos olhos.
Alex: Quê que você achou? Deu pra pegar o jeito dessas missões?
Lexci: Aham.
Alex: Sinto muito, o que disse? Acho que não entendi.
Lexci: Eu disse —
Alex: — Uh?
Lexci: Que poderia ter feito isso de olhos vendados.
Lexci abaixou de leve a cabeça, um tímido sorriso em seu rosto.
Essa reação foi completamente
diferente de tudo até agora.
Alex também se permitiu um breve sorriso, com uma estranha sensação que ele nunca havia sentido antes.
Alex: Ha, ha! Não sei se eu quero um zumbi de olhos vendados a solta! Muito bem, espertalhão, você foi ótimo. E nenhuma missão bem sucedida está completa sem a sua cereja em cima do bolo. Vem comigo.
Lexci: Mas a gente não tinha que — RAC?
Alex: Depois. Não se lembra do nosso lugarzinho especial?
Alex sorriu — ele não precisava mais se virar para saber que Lexci lhe estava seguindo.
{ . . . }
O lugar especial — a grande torre do relógio acima da estação de trem da Cidade Crepuscular. Dava para ver toda a cidade dali. Alex se sentou na frente da torre, e olhou para Lexci, que continuava de pé.
Alex: Senta aí também.
Ouvindo as palavras de Alex, Lexci se sentou ao seu lado.
Alex: Aqui está, a cereja em cima do bolo..
E então, Alex deu a Lexci um picolé de sal-marinho. Lexci continuou parado, apenas encarando o picolé.
Alex: Você se lembra como se chama esse picolé?
Lexci: Uhm...
Lexci inclinou a cabeça para o lado, como se tentasse se lembrar.
Alex: Se chama picolé de sal-marinho — qual foi, eu já te disse isso uma vez. Vê se memoriza, véi.
Alex deu uma mordida em seu picolé. Lexci fez o mesmo com o seu próprio picolé, imitando-o.
Lexci: É bem salgado — mas é doce, também.
Alex: Ha, ha. Lexci, você disse exatamente a mesma coisa da última vez.
Lexci: Eu disse? — Eu não me lembro disso...
Lexci desviou o olhar vagamente para o pôr-do-sol. Seu cabelo se movia com o vento — e ele não tirava os olhos do horizonte.
Alex: Ei, já faz o quê, uma semana desde que você apareceu?
Lexci: Talvez...
Alex: "Talvez"? Qual foi, pelo menos disso você tem que se lembrar.
Lexci desviou o olhar novamente, sua visão agora declinando.
Alex: Bem, tá de boa. Afinal, é hoje que tudo realmente começa.
Lexci: Ah é?
Por alguma razão, Lexci estava com uma expressão esquisita no rosto.
Alex: Mas é claro! Aqui está você, em campo, trabalhando pra Organização — hoje, você é um de nós.
Lexci: Acho que é um começo —
Lexci voltou a olhar para seu picolé.
Alex: Se você não tomar isso logo, o picolé vai derreter e pingar em cima de você.
Lexci: — Tá bem.
Lexci deu mais uma mordida no picolé. Foi quando o sino da torre do relógio tocou, anunciando a hora, um trem correndo ao longe.
Essa é a Cidade Crepuscular — A
cidade do crepúsculo.
E aquela torre do relógio — ainda era um lugar especial apenas para Alex.
