Disclaimer: Naruto não me pertence.
''Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.''
- Clarice Lispector
A menina que tinha a morte como companhia
Aos oito anos, Hinata possuía um vocabulário um tanto quanto amplo, mas quase não falava. Era gaga. Ao invés de tratar sua gagueira ela se isolara. Dedicava-se a tornar-se um gênio solitário. Devorava os livros grossos de seu pai enquanto as outras crianças de sua sala liam vagarosamente livros de 20 páginas lotados de ilustrações. Deliciava-se com as enciclopédia e obras de grandes escritores repletas de letras pequenas durante as tardes quentes de verão sentada no chão da biblioteca lendo em voz alta para Hiashi, afinal não podia sair para brincar e não possuía amigos, e alimentava-se de thrillers no inverno.
Ela era uma estranha naquela sala de aula lotada de alunos. Era excluída veemente por todos, mas ela gostava disso. Ah! Como gostava de saber detalhes e segredos de todos enquanto não passava de uma pequena incógnita para eles. Entre eles muitos sequer sabiam qual era seu primeiro nome, ela era a menina Hyuuga para todos sem exceções. Mas no meio da chuva de falsidade e maus sentimentos em relação a ela, havia um garoto que ela chegava a gostar. Ele tinha cabelos dourados como ouro e olhos azuis como o céu ao meio dia sem nuvens. Ele era como o dia, brilhando como o sol e derretia a neve que ela era. Neve que fora depositada durante a noite, horário em que o céu tomava a cor dos cabelos dela emprestados e se pintava, roubava seu olhos e os expunha no céu para ser admirado e chamado de lua. O garoto louro era o único que chegava a enxerga-la ali e a presenteava com enormes sorrisos de orelha a orelha.
Ele sequer chegava a saber seu sobrenome como os outros. Mesmo que fossem da mesma sala.
Ele era apaixonado por uma ruiva falsificada chamada Sakura Haruno.
Falsificada porque ninguém nasce com cabelo rosa chiclete naturalmente.
Ah, menino tolo, se ele pudesse prever o futuro saberia que perseguir a rosada não seria nunca a melhor opção. Mas ele não podia.
Naquela época ele não sabia que a moreninha tímida não iria chorar ao vê-lo morrer. Ele não poderia saber, pois o dia em que o azul celeste daria lugar a cor das nuvens ainda estava para chegar. Pois naquela época ela ainda estava viva para observa-lo.
Desde que sua irmã nascera suas doenças reduziram consideravelmente. Hanabi nasceu quando ela tinha cinco anos, mas não puderam se ver até que a menor completasse um ano. A caçula se tornou o maior objeto de seu amor desde que pode toca-la pela primeira vez. Gostava, mas não amava, seu pai e tampouco o fazia com relação a mãe ausente. Mas como primogênita tomou como missão de sua vida proteger sua irmãzinha. Ela acabou por se tornar a mãe da mais nova e tomou o lugar de Satsu como segunda voz de comando dentro da casa. Era ela quem cozinhava, quem organizava a lista de compras que o pai devia fazer, que limpava a casa ou que notificava que precisavam substituir algum eletrodoméstico. Era ela que dava banho na irmã e a alimentava.
Hinata e seu pai pouco se falavam e mais raramente ainda trocavam afetos. Só se dirigiam um ao outro quando ela assumia a culpa por alguma besteira que a irmã fez e ele começava a brigar com ela. As coisas em geral terminava iguais, uma menina de três anos amedrontada se escondendo atrás da saia da mãe ou debaixo da cama, uma mulher negligente fingindo lavar roupa e uma Hinata estirada no chão com algumas poucas lágrimas em seu rosto, sem se mover e com o olhar fixo no nada.
Aos dez anos foi arrastada para fora de casa pela mãe. Hiashi gritava com a mulher enfurecida enquanto tentava tirar sua filha mais velha dos braços dela. Dizia que a menor era filha de outro homem e que havia se casado com uma meretriz. A cada palavra proferida pelos dois a menina sentia seu corpo ser dilacerado sem haver sangue. O pai tentou mante-la ao seu lado, mas Satsu jogou Hanabi no colo dela e as puxou até o carro, empurrando as filhas dentro e travando a porta. O pai avançava enfurecido mancando tentando alcançar sua filha e tirar o vidro que a mulher enfiara na sua perna ao mesmo tempo.
Foi naquele dia que ela conheceu a morte.
A primeira vez que a neve assistiu a morte da menina de cabelos meia-noite. Mas ainda não era literalmente.
Hinata assistia os flocos de neve caírem violentamente ao seu redor desde que perdera a figura de seu protetor ensanguentado e derramando lagrimas enquanto gritava o nome dela. Ela não estava em conflito, não queria ficar com sua mãe, mas se ela não ficasse, quem iria cuidar de Hanabi? Foi quando ela decidiu desviar o olhar da neve que o carro bateu em algo e derrapou. Satsu saiu do carro dizendo que devia ter atropelado algum animal e iria tira-lo do caminho.
O local ficou mudo por alguns segundos e o único barulho era o de sua respiração e a respiração de sua irmãzinha.
Então houve um som alto e oco seguido por um grito:
- Hinata, pegue Hanabi e corra!
Ela não pensou duas vezes antes de se jogar para frente e destravar as portas, pegou a menor no colo e pulou para fora do automovel. Saiu correndo em direção a floresta da reserva, mas estavam no meio de uma clareira.
A neve era socada pelos seus pés.
O vento se intensificava.
A nevasca se intensificava e ela corria sem ter folego.
Um celular tocava uma cantiga lírica de amigo. Na tela a foto de Hiashi Hyuuga aparecia.
Três tiros e um coração foi perfurado.
Tudo que a menina viu ao se virar para trás foi a neve rubra e cinco silhuetas negras. Então ela ouviu mais daquele som ensurdecedor e oco. Tiros.
- Nada de sobreviventes! - um deles gritou.
Ela era uma garotinha doente correndo com a irmã no colo.
O céu chorava cristais de gelo por ela.
Mais um tiro.
O calor atingiu seu rosto ferido pelos flocos de neve e ela caiu no chão. A realidade era cruel demais com as duas. O sangue tingia-as em um contraste digno de uma obra de arte. Uma parou de se mover imersa no mais completo terror. A outra a fitava com um olho cor de espelho opaco e outro exibia um buraco por onde o líquido quente e rubro escorria em direção a terra congelada como um rio corre em direção ao oceano.
Naquele mesmo dia encontraram Hanabi Hyuuga e Satsu Hyuuga mortas no lindo manto branco. Mais alguém havia falecido ali, mas quanto a ela, não havia necessidade de enterros.
No funeral os dois caixões desceram rumo a terra sendo observados por dois pares de olhos cor de vidro. O viúvo e sua filha assistiam tudo inexpressivos. Nas casa deles jaziam duas cartas sobre o balcão que haviam sido a causa daquela insanidade toda. Na primeira havia o nome de Hinata e ao decorrer da página as letras formavam a palavra positivo, na segundo estava o nome da outra irmã e as letras traíam os corações dos que ainda estavam vivos.
''Negativo'' era o que estava escrito.
Esse capítulo é minúsculo! Desculpa pelo tamanho e etc., mas no meu caderno pareceu tãão maior que isso.
Obs: bem, eu gostava de ler enciclopédia quando tinha uns nove anos, era legal, então porque não deixar ela ter essa vontade também? Quanto aos livros de suspense, considero que alguém que lê enciclopédias não negaria nunca um bom Jo Nesbo ou Sidney Sheldon.
Sasatogether, muito obrigada pelo seu apoio e pelos elogios - eu cheguei a corar!-. Espero que aprecie esse novo capítulo.
Miya, ainda bem que gostou. E concordo que o Hiashi sempre paga de lobo mal, mas eu acho que ele só é um pai meio perdido. Nem todos os homens são criados aprendendo a cuidar de uma filha direito e como nessa fic a mãe da Hinata é ausente durante a infância dela, ele basicamente teve que se virar para trabalhar e cuidar dela. Eu meio que tenho dó do Hiashi que construí, mas eu acredito que ele realmente seja assim. Lembro que no episódio 322 - eu acho- ele fala que quem vai representar o clã na guerra é o Neji e não a Hinata, quando perguntam o porque se ele sabe que ela é forte, ele responde que é porque ela é gentil, o que me faz pensar que ele só é duro com ela para protege-la de alguma forma, pois ele sabe que todo mundo vai tentar pisar nela e afasta-la de ser humilhada por todos os que a conhecem reprimindo-a sozinho é realmente a melhor opção. Ah, imaginar a gente trabalhando juntas em um hospital é meio louco,mas não impossível. Seria muito legal.
Obrigada por favoritarem ou seguirem esta fanfiction. Eu agradeço muito.
