Capítulo 2
Jensen esperava, impaciente, próximo ao bar da boate. Como combinado, saíra pela porta para funcionários por primeiro. Misha sairia alguns minutos depois, para não levantar suspeitas.
Deu uma olhada para o relógio de pulso, e depois para o balcão do bar. Apenas Sera Gamble e Mitch Pillegi bebiam ali, agora. Falando em Sera, era impressão sua ou ela o olhava com certo interesse?
Jensen virou o rosto, antes de dar uma boa olhada em sua fantasia. Vestia uma camisa de manga-cumprida listrada horizontalmente, vermelha e preta. Calça marrom-escura, com um cinto preto. Sapatos marfim. O chapéu de época na cabeça escondia a cabeleira loira. Colocara algumas próteses de queimadura no rosto, não o bastante para tirar o interesse e a concentração de Misha e a idéia de beijá-lo se tornar repugnante, mas também não tão poucas a ponto de qualquer um identificá-lo. A fantasia original vinha com algumas unhas exageradamente cumpridas, mas Jensen não as colocara para não machucar Misha, nem nada do tipo.
Era impossível Sera ter o reconhecido naquele disfarce.
-Oi! – Chamou Misha, aparecendo entre a multidão.
De repente, Sera ou sua fantasia pareciam ser pensamentos de um sonho distante.
-Demorou. – Comentou Jensen, fazendo bico.
-Desculpe! Mas agora estamos quites. – Misha enlaçou a cintura de Jensen com um dos braços, puxando-o para mais perto.
-Não desculpo, não. Você vai ter que fazer por merecer. – Jensen sorriu.
Misha lascou-lhe um beijo profundo.
-Estou desculpado agora? – Misha perguntou, a outra mão também enlaçando o corpo do loiro.
-Ainda não, mas está no caminho certo. – Jensen provocou, atacando a boca do moreno avidamente.
Os beijos se tornaram mais quentes, mãos enlaçando costas, nucas e cabelos. Jensen mal acreditava que estava beijando Misha em público, depois de tanto tempo que tinham um caso. A sensação era simplesmente inexplicável, uma mistura de felicidade, paz, conforto, amor. Sentia-se como um homem verdadeiramente livre. Vestia um disfarce, mas estava mostrando sua verdadeira face agora.
-Jen. – Misha sussurrou.
-Sim? - Jensen se conteve, antes que beijasse os lábios do outro novamente.
-Que tal irmos para um lugar melhor, como a pista de dança? – Misha moveu a cabeça para o lado, discretamente.
Jensen olhou na direção apontada. Sera Gamble parecia estar comendo o casal com os olhos, e Jensen quase podia sentir um calor iminente percorrendo o corpo da mulher.
-Você não é nenhum pé-de-valsa, mas eu topo. – Jensen caçoou, se desvencilhando do outro e desejando que uma parede brotasse da terra entre eles e Sera.
-Não me subestime, Freddy. – Misha pegou em sua mão e puxou-o para a multidão.
Halloween Jensha
A música da boate era rápida, com várias batidas por segundo, mas o ritmo da dança de um casal em especial começou lento.
Misha segurava nas mãos de Jensen e as fazia balançar para esquerda e para direita, num movimento um tanto excêntrico. De repente, as mãos fizeram um arco ao redor de Jensen, virando-o de costas para Misha ao mesmo tempo em que juntava seus corpos. As mãos de Misha se entrelaçavam nas de Jensen em um abraço íntimo.
-Quem disse que eu não sabia dançar? – Misha provocou, dando beijos nas bochechas do loiro.
A seguir, as mãos desfizeram o arco, deixando Jensen de frente. Misha, então, ainda de mãos dadas com o outro, puxou-o para junto de si. Os corpos se chocaram e as mãos de Misha levaram as de Jensen até o traseiro do bostoniano.
Jensen apalpou-o, sem delongas, para sua própria surpresa, ao mesmo tempo em que o beijava na boca avidamente. Jensen nunca fora do tipo que se agarrava à pessoa amada em público, mas... Droga, naquela noite, ele não era Jensen! Uma força maior, talvez muito amor ou muito tesão, ou as duas coisas, o impeliam de comportar-se adequadamente com Misha naquela festa. Talvez fossem as fantasias e a clareza da possibilidade de que, pela primeira vez na vida, poderia dar alguns amassos em público sem ninguém o notar, e, mais importante, poderia dar uns amassos em Misha sem ninguém o notar. Estar assim com Misha era melhor do que qualquer sonho que já tivera. Era quase como se... Como se fossem namorados desde que nasceram. Mas a idéia era estúpida, Jensen não acreditava em almas gêmeas, e sabia muito bem que ele o moreno não namoravam. Era mais um caso sem compromissos, propriamente dito. Nunca haviam falado sobre a possibilidade de largarem esposas e firmarem um compromisso sério, até porque, Jensen tinha certeza, Misha não largaria Victoria por nada no mundo. Concordara em deixar as coisas acontecerem naturalmente, e, pela experiência que estava tendo, aquilo fora uma ótima decisão.
As mãos de Misha envolveram as costas de Jensen e passaram a balançar o corpo do loiro em um ritmo lento, como o de uma balada romântica, mas este começava a se acelerar.
-Hora de balançar o esqueleto, não acha? – Misha perguntou, roçando o nariz no de Jensen.
-Não, ta bom assim... – Jensen franziu o cenho e fez cara de birra. Deu um beliscão sugestivo numa das nádegas, que ainda segurava, do outro.
Misha não retrucou, apenas se afastou.
-Amor! – Jensen murmurrou em desaprovação
Misha segurou as mãos do loiro novamente, fazendo um sorriso vitorioso brotar dos lábios do texano. Mas o sorriso não durou muito tempo, porque logo Misha o empurrava e o afastava com as mãos, em uma dança um tanto esquisita.
A mente de Jensen ainda parecia estar perdida naquele abraço íntimo de outrora, porque, de repente, Misha não era mais do que um borrão, indo para lá e para cá em uma dança espalhafatosa. De vez em quando, o loiro sentia a cintura ser enlaçada e seu corpo ser girado, ou uma mão que o empurrava de encontro ao corpo do moreno e depois o afastava. Aos poucos, Jensen foi entrando no clima e no ritmo daquela dançando, dando-se por vencido.
Jensen sentiu as mãos de Misha segurarem as suas e ambos girarem como se estivessem em uma ciranda. No movimento seguinte, Jensen estava sendo girado feito um pião, uma mão segurando a de Misha, que o puxou de encontro a si quando Jensen parou de girar, em uma espécie de tango modernista. Misha deu-lhe um beijinho de canto de lábio antes de se afastar novamente.
Agora Misha voltava a ser um borrão, dançando pra lá e para cá espalhafatosamente. Jensen entrou no ritmo e passou a dançar sozinho, com o moreno circulando-o em seus próprios passos.
De repente, a música cessou. Misha fez o último movimento abraçando Jensen, com força suficiente para quebrar as suas costelas, e erguendo-o do chão. A boca de ambos se juntou de maneira ávida, ambos os corações acelerados.
Aos poucos, Misha foi perdendo a força e Jensen voltando ao chão.
-Preciso ir ao banheiro. – O moreno anunciou, entre beijos.
-Quer uma ajudinha? – Jensen tinha um sorriso maroto nos lábios.
-Não, obrigado. O banheiro da boate não é o melhor lugar para fazermos o que queremos fazer.
Jensen ergueu uma sobrancelha.
-Ah, é? E qual seria o melhor lugar?
-Surpresa! – Misha encerrou, com um selhinho. Se distanciou, antes que Jensen o forçasse à falar.
Jensen, por sinal, esquadrinhava Misha se afastar, quase hipnoticamente, quando percebeu que uma figura o encarava. Parecia estar ali a um bom tempo, provavelmente antes mesmo da dança terminar, olhando o casal com um misto de curiosidade e estranheza.
A figura vestia calça social preta, camisa de manga cumprida branca, também social, e uma camisa de moletom preta. O moletom tinha uma listra vermelha na altura da cintura, quase escapando do tecido. Usava uma gravata listrada na diagonal, bordo e amarelo-ouro. Tinha um óculos de fundo-de-garrafa em frente aos olhos e uma cicatriz desenhada na testa, em forma de raio. Segurava uma varinha preta e tortuosa, de uns 30 cm, em uma das mãos, enquanto a outra estava ocupada segurando uma sacola em formato de abóbora.
-Gostosuras ou travessuras? – A figura perguntou, e Jensen reconheceu a voz como pertencendo a Chad Lindberg.
-Desculpe, Harry Potter, não estou participando do joguinho. – Jensen disse, com certo alívio na frase.
-Ah, tudo bem... – Chad se afastou, cabisbaixo.
Por um momento, e por algum motivo, Jensen lembrou-se de Victoria Vantoch, a esposa do seu amante, ao ver a figura se distanciar. Alguma coisa fez seu coração doer, como se uma ponta de um alfinete o tivesse atingido. Remorso, talvez?
Se encaminhou para o bar da boate, ainda pensando na mulher que ele enganava.
Halloween Jensha
-Um ponche especial, por favor. Sou convidado do Jared. - Jensen pediu ao barman.
-Me desculpe, mas o ponche já acabou.
-Me veja um whisky então, ok?
O homem concordou com um aceno de cabeça.
Jensen ainda pensava em Victoria enquanto o barman servia um copo cheio do líquido alcoólico. Tinham, ele e Misha, mandado mensagens de texto para os celulares das esposas com desculpas esfarrapadas, do tipo ''não estou me sentindo bem'', e avisando que haviam saído da boate mais cedo e pegado um táxi, e que elas poderiam ficar com o carro. Não era nenhuma desculpa genial, e provavelmente haveria perguntas e questionamentos, mas era o melhor para o momento. Perguntas poderiam vir depois, o importante agora era a noite especial que teriam, juntos. Mas agora, Jensen começava a ficar em dúvida se o que fizera, e o que estava fazendo durante meses, era certo. Era um pensamento bobo, mas...
-Já chega! – Um homem bradou, do outro lado do balcão, e Jensen notou que era Robin, ou melhor, Jared. Ele e a esposa pareciam estar discutindo.
-Jared, você sabe muito bem que esse sumiço do Jensen é muito suspeito! – A mulher também aumentou o volume da voz.
-Suspeito como? Genevieve, você sabe que Jensen não chifraria Danneel...
-Ah, claro, porque a imagem de ''bom esposo'' dele está super em alta, né? – Genevieve retrucou, sarcástica.
-A minha também não é lá essas coisas, e daí? – Jared explodiu. Genevieve olhou-o de algum modo inquisidor, pois logo Jared acrescentou. – E nem começa de piração, Gen. Já conversamos sobre isso, e eu e ele não temos nada, ok?
-Quem me garante isso, hein? – Genevieve soltou. – Quem me garante que ele não está esperando você no banheiro para dar uma bela trepada hoje à noite, hã?
Jared levantou a mão, mas parou-a no meio do caminho. Fingiu pegar a taça de ponche à sua frente. Parecia estar se controlando para não estapear a esposa.
-O Misha também sumiu do nada, vai ir atazanar a esposa dele também? – Jared provocou.
-Não, sabe por quê? Porque o casamento deles não me interessa! Estou te atazanando por que...
-Não confia em mim. – Completou Jared. –Já entendi.
Genevieve ficou sem palavras por um momento. Suspirou profundamente e tomou um grande gole de seu copo, com um provável suco de morango.
-Eu sabia que era má idéia convidar ele para esse ano, sabia! Jay, você sabe muito bem que não é bom para o bebê que eu fique me estressando. E você sabe que sempre que o Jensen...
-Vou ao banheiro. – Cortou Jared, antes que a discussão se alongasse. –Vai querer me seguir e vasculhar o recinto para ver se o Jensen não está escondido lá, também? Quem sabe eu não tenha escondido o Misha também, e esteja planejando uma trepada a três no banheiro?
Genevieve não respondeu ao sarcasmo do marido. Apenas bebericou mais do seu suco enquanto Jared se afastava. Por fim, ao final do suco, decidiu seguir pelo mesmo rumo que o homem tomara.
-Jesus, ainda bem que minha esposa não está grávida... Que inferno!- Comentou o barman para Jensen.
-É, ainda bem que a minha também não está. – Concordou Jensen.
O loiro por um momento pensou em como seria sua vida se fosse casado com Genevieve, ou se Danneel fosse igual à morena. Provavelmente seu romance com Misha seria desmascarado sem nem ao menos começar direito, se fosse casado com aquele tipo de vadia piscótica. Mas, no fundo, seria Genevieve mesmo tão doente? O problema não estaria no marido infiel?
Quando Victoria voltava à sua mente, Misha apareceu.
-Sentiu saudades de mim? – Misha perguntou, pondo uma mão na coxa do loiro e beijando-o.
-Estava contando os segundos para você voltar. – Jensen respondeu, sem ânimo.
Misha pareceu notar isso, pois distanciou a sua mão da coxa do loiro.
-Jen, o que houve?- Misha tinha um olhar preocupado no rosto.
-Nada não... - Jensen desconversou, bebendo do seu whisky.
-Jen, eu conheço você bem o bastante para saber que algo o incomoda. – Misha pontuou, alisando uma bochecha do outro amorosamente.
-É só... Bobagem.
-Do tipo? – Misha insistiu.
-Mi, estamos fazendo a coisa certa? – Jensen se deu por vencido. – Quero dizer, se esgueirando por aí, chifrando esposas, etc.
Misha pegou um banco próximo e se sentou. Pressionou os lábios, mas nada disse.
-Mi... –Jensen chamou, o silêncio do amante matando-o por dentro.
-Jen, você quer parar com tudo? – Misha soltou, fitando-o nos olhos. – Porque se você quiser, é só dizer. Vai ser difícil, mas podemos parar se você...
-Não, não, não. – Jensen pontuou. Separação jamais passara por sua cabeça. – É só que... Não sei, às vezes...
-Jensen, eu sei que o que estamos fazendo não é a coisa mais correta do mundo, e nem que temos caráter fazendo isso, mas... Não há outro jeito, e você sabe disso.
Jensen concordou com um aceno de cabeça.
Silêncio. Até o próprio barman parecia estar constrangido.
-Droga! Eu estraguei a noite toda, não é? – Jensen riu, de repente. Riu de nervosismo, riu de quão estúpido e idiota fora.
-Não, imagina... – Misha sorriu, sem-graça. – É só que...
-Psh, - Jensen pôs um dedo em seus lábios e calou-o. – não diga nada.
O loiro beijou vagarosamente, se aproximando com cautela, como um cãozinho manhoso pedindo desculpas ao dono por algo que aprontara. O dono, dando-se por vencido, correspondera ao agrado.
-Gostosuras ou travessuras? – Três vozes perguntarem em uníssono, próximas.
Jensen e Misha estavam tão entretidos um no outro que quase deram um pulo de susto ao ouvirem as vozes tão próximas.
Eram três mulheres, as três com sacolas em formato de abóbora, uma no meio com os braços envoltos na nuca das outras duas.
As duas em cada ponta eram Cindy Sampson e Alona Tal, vestidas de Xena e Gabrielle, em quem Jensen já esbarrara momentos antes. Apenas a do meio, Julie McNiven, ele ainda não vira naquela noite. Essa estava vestida com uma espécie de sutiã sem-alças no formato de duas conchas de ostras, lilás. Vestia uma espécie de saía extremamente cumprida, que cobria até os seus pés, em cujo tecido havia detalhes de escamas. Tinha uma tiara dourada em cima dos cabelos ruivos, soltos. Jensen segurou uma risada ao pensar que a Pequena Sereia deveria ter comido algum marisco extremamente azedo, ao julgar pela cara de Julie.
- Gostosuras ou travessuras, rapazes? – Elas repetiram, soltando risadinhas bobas e olhares safados uma para a outra. Jensen admitiu que a encenação delas era um ótimo flerte para pegar homens tarados. Com certeza o time adversário teria problemas para ganhar com aquele tipo de estratégia das mulheres.
- A festinha aí é convidativa, eu tenho que admitir. – Brincou Misha. – Mas, desculpe garotas, eu prefiro ter outro tipo de festa.
Jensen enrubesceu, mesmo sem querer, ao olhar intimidador de Misha pairando sobre ele.
-Não sabe o que está perdendo. – Retrucou Alona, azeda.
-Você também, não sabe o que está perdendo. – Jensen provocou, sentando-se no colo de Misha e beijando-o.
As três se afastaram, a passos pesados.
-Oh, aquilo foi maldoso! – Brincou Misha, entre beijos.
Jensen riu.
-Anda, vamos dançar, antes que elas voltem. – Jensen se levantou e segurou as mãos de Misha, conduzindo-o. – Mas dessa vez, sou eu quem irá te ensinar alguns passos.
-Sim, senhor. – Brincou Misha. – Eu faço o que você quiser...
Jensen sorriu travesso.
-Não fale este tipo de coisa, Mi! Vai que eu levo a sério?
-You're the boss! * – Misha brincou.
Halloween Jensha
-Então, como essa dançar vai ser? – Perguntou Misha, quando já estavam na pista de dança.
-Eu te mostro. – Jensen abraçou-o pela cintura, de frente. Tomou os lábios carnudos do outro nos seus.
Misha enlaçou a nuca do loiro com uma mão, tomando o cuidado para não derrubar o chapéu de Jensen.
-Gostosuras ou travessuras? – Uma figura perguntou, próxima.
Jeffrey Dean Morgan usava um uniforme vermelho-sangue, botas e luvas roxo-berrantes. Vestia uma cueca na mesma tonalidade de roxo, por cima da calça vermelha, assim como uma capa esvoaçante, presa em uma espécie de colar extremamente grande ao redor do seu pescoço. Um capacete um tanto modernista, também roxo, cobria a sua cabeçorra. Tinha uma sacola em formato de abóbora em uma das mãos.
Jensen, identificando a voz, lembrou-se da conversa com Sera Gamble sobre a pessoa vestida de Magneto e resistiu ao ímpeto de vibrar e cumprimentar o homem, que conseguira achar uma brecha em sua agenda corrida para estar ali.
-Desculpe, já estou tendo ambas as coisas. – Misha cortou antes que Jensen se entregasse, fazendo carinhos no rosto do loiro.
Jeffrey olhou para Jensen com um olhar ao mesmo tempo charmoso e curioso, como se o loiro fosse dizer ''sim'' ao flerte e largar o suposto namorado de mãos abanando.
-Desculpe, eu também. – Jensen lançou um olhar para Misha, mas ainda esboçava um sorriso cativante no rosto.
-Hum, entendo. – Jeffrey concordou com um aceno de cabeça, dando-se por vencido. –Só me façam um favor: Digam ''não'' a três garotas supostamente bêbadas quando elas lhe fizeram essas perguntas, ok? Não sei se vocês são do tipo que gostam das duas coisas, mas...
-Entendido. – Cortou Misha, sem evitar que o ciúme pela reação de Jensen transparecesse no tom de voz.
Jensen, ao ver Jeffrey se afastar, só pode concluir que o time das três mulheres teria problemas com aquele olhar charmoso e espírito de presença do quarentão. Com certeza, naquele ano, a disputa daquele estúpido jogo estava sendo acirrada.
-Então, não ia me ensinar a dançar? – Misha voltou-se para ele.
Jensen sorriu.
-Eu vou te ensinar a dançar. – Jensen pontuou.
Halloween Jensha
Aquela definitivamente era uma noite fora do normal, e a dança de um certo casal representava isso. O par dançava a passos lentos, dois para lá e dois para cá, num ritmo mais lento que uma valsa, embora todo o salão tivesse infestado de ritmo e requebrados, e a música fosse cheia de batidas alucinadas. O único detalhe que tirava a formalidade da dança eram dois pares de mãos travessos, cada um apalpando um par de nádegas alheias.
-Então essa é sua dança? – Misha não tiraria os olhos de Jensen nem que um meteoro caísse no meio do salão.
-O quê? Vai dizer que não prefere ficar assim, grudadinho comigo e com as ''mãos cheias'', se é que me entende, do que ficar pulando feito um louco para lá e para cá?
Misha pareceu pensativo por um momento.
-É, seu argumento é bom mesmo...
-É por isso que eu te amo. - Riu Jensen.
-Não é por isso não... – Misha comentou, pontuando a frase com um leve beliscão em uma das nádegas de Jensen.
Jensen enrubesceu.
-Mi, se continuar me provocando assim, eu juro que nem vou fazer questão de trans...
-Gostosuras ou travessuras? – Outra vez, uma voz interrompia. Dessa vez, Jensen nem ouviria o gracejo e terminaria a frase, mas fora obrigado a dar atenção à figura que invadira àquele momento dos dois, quando a invasão assumiu outra proporção: uma mão agarrou a nuca do moreno e beijou-o.
A figura vestia a fantasia de Chapeuzinho Vermelho mais deturpada e desavergonhada que Jensen já vira. Era composta por um vestido curto, que ia das coxas até o busto, vermelho-vivo, com lantejoulas vermelhas que ofuscavam a vista. A única diferença deste vestido para um vestido comum era que este tinha um capuz vermelho costurado à parte de trás do decote. Mas o capuz vestido não foi suficiente para esconder, embora essa não parecesse a real intenção, os cabelos loiros e um sorriso jovial, com um batom vermelho-sangue, que Jensen identificou como pertencentes à Katie Cassidy. A loira segurava uma cesta de palha de piquenique em uma das mãos, parte da sacola-abóbora se despontando de dentro dela.
Por um momento, Jensen não reagiu, em choque pelo atrevimento da mulher. Misha parecia compartilhar do mesmo choque, pois não reagira, por bem ou por mal, ao beijo inesperado.
-E você, gostosão? – Katie se voltou para Jensen, com um sorriso bobo.
Ao julgar pelo hálito de ponche batizado da mulher ao falar, Katie estava legitimamente bêbada, Jensen notou, ao contrário das três mulheres que encontrara outrora. Parecia que Richard e Corin haviam tido sucesso em embebedar alguém daquele joguinho.
-Gostosuras ou travessuras, baby? – Katie repetiu, voltando-se para Misha e avançando para a boca do moreno novamente.
-Hey! – Dessa vez a reação foi imediata e Jensen afastou a mulher com as duas mãos. –Vá caçar outro!
Katie riu, cambaleando e quase caindo próxima aos dois.
-Pra quê? Se eu já achei o que queria?- A mulher agarrou a fantasia do moreno e passou a língua nos lábios borrados de batom.
Misha afastou a mulher com um empurrão.
-Ele já tem dono!- Bradou Jensen, arregaçando as mangas da fantasia.
-Não me importo de dividir. – Katie ria.
-Mas eu me importo de ser dividido com você. – Misha resmungou.
-Ah, qual é! Até parece que vocês, caras, não curtem dividir uma gostosa de vez em quando.
Jensen ergueu a mão, furioso.
-Isso! Lutem entre si! Uma chupada pra quem ganhar! – Katie gritou, quase histérica. Por sorte, o volume do som da boate ajudou a abafar o tumulto.
-Cala a boca! – Gritou Jensen, avançando.
-Jensen, já chega! – Misha interviu, ficando entre os dois.
-Como? – Jensen parecia estar em choque.
-Vamos tomar um pouco de ar fresco, ok? – Misha finalizou, agarrando Jensen pelo braço e levando-o para longe dali, sem esperar resposta.
Katie ainda riu mais um pouco, como uma deficiente mental, antes de se sentir nauseada e correr para o banheiro feminino.
Halloween Jensha
Os dois irromperam duas portas nos fundos da boate. A porta dava acesso há uma espécie de alpendre da boate, com uma sacada delimitando a área ocupada pelos fundos do edifício e um terreno baldio à frente. O alpendre tinha dois sofás aqui e ali, e alguns pufes coloridos pelo caminho. A área fora decorada com lanternas de abóbora pelos cantos. A maioria dos assentos estavam ocupados por pessoas que Jensen nunca vira na vida. Um homem com fantasia de fantasma vomitava em uma lixeira, próximo do casal.
-Jenny, o que foi aquilo? – Misha desvencilhou Jensen do apertão no braço.
-O que foi o quê? – Jensen retrucou, o rosto vermelho de fúria. - Como esperava que eu agisse com uma vagabunda no teu cangote?
-Não precisava ter aquele ataque de ciúminho. Você sabe muito bem que...
-Ah, eu sou o ciumento agora? – Jensen elevou o tom de voz, fazendo cabeças se virarem para a discussão. – Só eu? E você quase botando uma parede entre mim e o Jeff mais cedo? Ou pensa que eu não vi o jeito que você ficou quando...
-Isso é diferente! – Argumentou Misha. – Eu nunca avançaria em alguém porque confio...
-Diferente nada! – Jensen quase cuspiu as palavras, com desprezo. - Ou melhor, é diferente, sim! O Jeff não tava babando no meu pescoço como aquela vadia.
-Vadia? Jenny, ela estava bêbada! E não me venha dizer que não percebeu...
-Ah, é, bebida, esqueci! – Jensen tinha um tom sarcástico na voz. – Eu me esqueci que a pessoa bêbada pode sair beijando todo mundo que tiver afim, afinal, ela está bêbada, não é? Bebida é a chave para se perdoar toda galhinhagem!
-Não sei por que está dizendo isso, afinal, dois anos atrás, você fez muito mais que a ''vagabunda'' para cima de mim...
Jensen perdeu o senso de direção, as palavras. Só pode olhar Misha como se tivesse levado um murro no rosto.
-Mas aquilo... – Jensen tateava as palavras para justificar seus argumentos, sem sucesso.
-Aliás, eu deveria até ficar grato pelo o que você fez. Graças aquilo eu fiquei todo abalado e percebi que estava apaixonado por você. E foi graças aquela bebedeira que estamos juntos até hoje.
-Vai acontecer o mesmo com a Cassidy? – Jensen olhou nos olhos de Misha. – Daqui a alguns meses, você vai bater na porta dela e dizer que a ama também?
Misha riu. Riu de nervosismo e riu de quão patético, no fundo, Jensen estava sendo.
-Isso não tem graça, idiota. – Jensen soltou. Acertaria um murro em Misha, ou entraria na boate e nunca mais iria querer olhar na cara do amante, se algo não o impedisse. Se o sentimento por aquele homem não fosse tão forte.
-Jenny, nós estamos juntos à quase um ano. Nos vemos no mínimo uma vez por semana, com exceção das épocas em que ambos viajamos para lugares diferentes, como recentemente. E mesmo assim, devemos contar o tempo que passamos juntos quando trabalhamos, em que essa freqüência de encontros acontece todo santo dia. E você ainda acha que eu tenho olhos para Cassidy, ou seja lá quem mais?
-Você tem olhos para Victoria, não tem? – Jensen não conseguiu soltar a língua.
-Sim, tenho. Não vou mentir. Já conversamos sobre isso, e você concordou com todos os termos.
-Porque eu estava apaixonado por você...
-E não está mais? Porque se não tiver, pode ir embora que eu não te perturbarei mais.
Jensen ficou sem palavras pela segunda vez.
-Não, eu... Não é isso...
-Já entendi. – Misha acenou com a cabeça. - Se queria se separar, devia ter falado antes, de preferência quando te perguntei isso, no bar.
O moreno virou as costas. Mas, antes que partisse, Jensen segurou o seu braço. Virou-o e puxou-o, com leveza e força ao mesmo tempo, de encontro a si. Selou as bocas em um beijo calmo e preciso, mas revigorante e cheio de sentimentos.
Se as palavras não saíam da boca de Jensen, aquele era o melhor método de se desculpar, de provar que ainda amava Misha, muitas vezes até incondicionalmente.
-Desculpe pela Cassidy, não foi a intenção, mas você sabe que...
-Eu sei. – Cortou Misha, com um sorriso quase vitorioso nos lábios. –E acho que, no fundo, teria feito o mesmo.
Jensen riu.
-E desculpe por estragar a noite, de novo. – O loiro enlaçou a cintura de Misha manhosamente.
-Uma noite contigo nunca é uma noite que se possa rotular ''estragada''. – Misha pontuou, enlaçando a nuca do loiro e beijando-o profundamente.
Os beijos se intensificaram, e quando deram por si, já pareciam duas cobras em acasalamento, se entrelaçando. Misha sentava em um pufe e Jensen em seu colo, de frente para ele.
Pararam quando precisaram de ar, os peitos arfando. Jensen alisou o peitoral de Misha, que subia e descia, sorrindo. Depois fitou os olhos azuis, iluminados pelas velas de abóbora.
-Eu já disse que você fica lindo nessa fantasia, todo de azul? Realça seus olhos... – Jensen riu consigo mesmo, de tão boba que a frase soara.
-E você fica lindo de qualquer jeito. – Misha pontuou, retomando os beijos. – Com ou sem fantasia.
Jensen riu, travesso.
Os beijos ardentes retornaram, e dado o clima, Jensen se surpreendeu pelo autocontrole de não acabar fazendo algo até depravado com Misha, ali mesmo. Uma ereção já apertava contra suas calças, ao mesmo tempo em que ele sentia um volume se intensificar na região do amante.
Não duraria muito até calças e cuecas voarem, o que Jensen a fazer uma manobra diferente.
-Hey, eu ainda não te mostrei toda a minha dança. – Jensen não tinha a mínima intenção de voltar a dançar, mas essa era uma ótima desculpa para Misha voltar para dentro da boate. Da pista de dança até o banheiro masculino seria uma jornada que pretendia durar segundos, mesmo que Misha afirmasse que o banheiro não era o melhor lugar para aquilo. Não esperaria pelo ''lugar ideal'' de Misha, pois não podia se dar ao luxo de esperar, era mais forte que ele.
-Isso é um convite? – Misha acariciou o queixo de Jensen.
-O que acha? – Jensen segurou a mão do moreno e se levantou.
-Não sei, está ficando tarde. Mamãe vai acabar ficando brava comigo. – Misha brincou.
- Aliás, que horas são?
Jensen riu.
-Se alguém não tivesse confiscado meu celular, desligado e guardado em uma certa maleta, eu saberia...
-Talvez esse alguém quisesse que você se desapegasse do tempo, e de outras coisas mais, ao menos por hoje. – Misha teorizou.
-Bom, mas acho que esse alguém não tinha que se preocupar com isso. Afinal, eu não me distrairia com nada no mundo que não tivesse relação a este alguém, não hoje.
Misha fez um muxoxo, finalmente vencido na argumentação.
-Então, vai me ensinar a dançar ou não? – Trocou de assunto.
-É pra já, senhor! – Jensen fez uma mesura militar, antes de segurar a mão do moreno novamente e levá-lo para a boate.
Halloween Jensha
Jensen e Misha se acotovelaram entre a multidão de dançantes, em busca de um lugar mais calmo para dançar.
-Jensen, você não está planejando, realmente, dançar de novo, não é? – Misha soltou, com um sorriso alegre.
Jensen se virou para ele, sem diminuir o ritmo em que andava, rindo.
-O que você acha? – Jensen perguntou, faceiro.
Foi neste momento, em que Jensen olhava para Misha e Misha olhava para Jensen, que o mundo dos dois virou de cabeça para baixo.
Primeiro veio Genevieve Cortese, apressada e com cara de poucos amigos, sozinha, na direção oposta em que Jensen andava.
O loiro, admirando Misha, não notou a mulher que se aproximava.
A mulher, perdida em sua própria frustração e pensamentos, não notou a figura, ou o par de figuras, no seu caminho.
O esbarrão foi inevitável.
-Olha por onde anda, idiota! – A mulher esbravejou, o ombro dolorido pelo encontro com o corpo do loiro.
Jensen quase se desequilibrara após o encontro, mas, por sorte, não caíra. Foi ao virar-se para frente, ao direcionar a sua atenção ao caminho que percorria, após um palavrão sonoro escapar de sua boca dirigido à mulher, que quase esbarra em outra figura.
Sebastian Roché, procurando Danneel, após sair do banheiro masculino, a quem estivera servindo de ombro amigo pela noite inteira, pagando os pecados do casal que ele acobertava, não notou o casal à frente.
Os dois loiros só notaram a presença um do outro quando já estavam a centímetros de distância. Uma distância curta o suficiente para, no menor dos movimentos, os dois se beijarem.
Sebastian fitou os olhos de Jensen, fitou o rosto de Jensen, tão perto do seu. No começo, veio a raiva pelo quase esbarrão. Depois, as sobrancelhas se estreitaram, curiosas, para logo depois se erguerem, surpresas.
Jensen prendeu o fôlego, assim como Misha. Poderia ter corrido dali, poderia ter virado o rosto, poderia ter evitado que uma mão vespertina do francês levanta-se ao seu lado. Mas neste momento, o mundo parou. Nesses momentos de pânico, sempre param. Nunca há reação imediata, o corpo nunca responde corretamente. O cérebro parece morto e não há nada o que se fazer para ressussitá-lo.
O francês levantou mais a mão. Por um momento, o cérebro agora deficiente de Jensen chegou a cogitar que o outro encostaria em seu rosto, em um agrado do tipo que Misha fazia. Mas a mão se ergueu mais, passando pelo seu rosto. E ergueu mais, e mais, e mais. Atingiu seu chapéu de época, e tirou-o de sua cabeça loira.
A boca de Sebastian se abriu, confirmando o que as sobrancelhas já suspeitavam. A cabeça loira de Jensen estava ali, exposta. O corte de cabelo era o mesmo, a cor dos olhos era a mesma, a tez da pele era idêntica, a altura idem, e os lábios eram gêmeos. Não havia outra explicação.
Sebastian repôs o chapéu, sem jeito.
Jensen soube, com todas as suas forças, que tudo acabara ali. Que a noite acabara. Que o caso dos dois acabara. Que seu mundo acabara.
* You're the boss é uma expressão americana que quer dizer, traduzida, ''você é o chefe'', ou ''você é quem manda''. Porém, não achei que as duas expressões traduzidas soariam boas naquele diálogo.
Nota do Autor: Está aí! Demorou mais do que previsto (novidade...), mas o cap. 2 da fic de Halloween está aí. Espero, em breve, postar o terceiro e último capítulo dessa fic. Agora, sejam bonzinhos e deixem review, ok? Grato...
