O mundo não precisa de heróis.
Precisa de assassinos.
É pra isso que a Irmandade existe: para trazer luz a um mundo mergulhado em trevas.
Apenas três regras devem ser tidas como absolutas:
Manter sua lâmina longe de um inocente;
Manter-se escondido em meio à multidão; e
Nunca comprometer a Irmandade.
Disclaimer:- O jogo Assassin's Creed assim como o RPG Assassin's Blood não me pertencem. Essa história foi criada apenas para livre entretenimento, sem fins lucrativos. Antes de seguir com a leitura verifique a classificação indicativa.
Capítulo 1 – A Luz de Uma Estrela Cadente
"Uma vez que tenha experimentado voar,
andará pela terra com os olhos voltados para céu.
Pois lá você esteve,
e para lá desejará voltar" _DA VINCI, Leonardo.
A caravana já estava acordada antes mesmo do sol nascer. Lara foi despertada pelos sons de tendas sendo desmontadas e o cheiro de comida que fazia seu estômago roncar.
Se permitiu guiar pelo cheiro da comida até onde estava a fogueira da noite anterior, onde uma versão menor crepitava alegremente contra os fundos de um caldeirão de ferro fundido. Era do caldeirão que vinha o cheiro que despertava o apetite da loira. Não demorou muito para alguém estar empurrando um prato para sua mão com uma porção da massa amarela com aspecto levemente suspeito, mas o cheiro bom e a fome que sentia não a deixavam levantar qualquer questão sobre as origens desconhecidas daquele alimento, ela simplesmente o engolia ainda quente queimando um pouco a língua, mas nem se importando. Só se preocupava em saciar a fome.
Enquanto comia assistia a família de Petrus em seu ritual de todas as manhãs de desmontar suas tendas, guardar suas coisas e se preparar para continuar em sua jornada. Tudo com uma alegria que durante um bom tempo não acreditou que existisse, que era algo que leria em seus livros e só. A fantasia de algum escritor frustrado.
XXX
Acordou sentindo o rosto dolorido comprimido contra o travesseiro.
–Mas o que diab...? – foi a frase incompleta ao acordar e perceber que algo não estava certo.
Abriu os olhos, mas notou que tudo estava escuro, e ainda meio grogue de sono ele se perguntava se não havia amanhecido ainda, talvez apenas fosse cedo demais... Ergueu a mão pra coçar o olho quando a mão atingiu algo macio: seu travesseiro. Com um puxão o desgrudou do rosto onde havia ficado preso por causa do sangue e da pele machucada, a luz que entrava através da janela que acabou por passar a noite aberta ia direto em seu rosto o fazendo cerrar os olhos. Murmurou uma série de maldições num francês carregado com a voz ainda rouca de ter acabado de acordar. Levantou da cama ainda sentindo os membros do corpo pesados e olhando pra cama como se desejando poder ficar caído ali por mais algumas horas e se arrependendo de ter ficado a madrugada toda conversando com Stevan.
Dirigiu-se para a casa de banho onde a empregada havia deixado a bacia e o gomil com água que usou para lavar seu rosto. A água fria aliviava a sensação de dor sobre o hematoma agora roxo em seu rosto, porém secar a pele era quase tão ruim quanto ter o rosto ferido prensado contra o travesseiro. Tomou o cuidado de se assear devidamente e vestir uma roupa limpa, prendeu a espada ao cinto, calçou as botas um tanto já batidas e buscou sua mala. Deixou um suspiro cansado escapar, olhando para o teto onde a luz que atravessava as cortinas incidia no forro de madeira castanha descascada nos cantos. Certificou-se de que tudo estava certo antes de deixar o lugar em que estava hospedado. Pensou se valeria a pena ir se despedir de seu amigo, mas a verdade é que não seria capaz de aguentar um Stevan de ressaca incapaz de se lembrar em que dia estão e isso se for capaz de lembrar o próprio nome... E mais uma vez se indagava se essa amizade dos dois não era algum sinal do fim apocalíptico iminente.
Desceu dois lances de escada com tanto sono que focava apenas em pisar nos degraus corretos enquanto sua visão periférica registrava o papel de parede floral encardido próximo ao rodapé e como a luz clara da manhã atingia a poeira que flutuava no ar a sua volta. Quando chegou ao hall de entrada ficou surpreso ao ver que a senhoria já estava acordada e cuidando para que as coisas estivessem arrumadas. Na verdade a surpresa era que alguém naquela idade ainda estivesse viva...
A mulher -de cabelos brancos presos em um coque tão apertado que ele tinha certeza que deveria estar doendo e trajando um vestido escuro que graças aos deuses não mostrava nem um pouco de pele- se virou para ele com um olhar que por poucos instantes pareceu assustado, talvez ela não esperasse um de seus hóspedes de pé tão cedo, e perguntou:
– Sr. Hildinger. Belo dia, não acha? – disse em reconhecimento –Precisa de algo?
Outro daqueles suspiros cansados escapou silencioso por entre seus lábios. Sinceramente, ele preferia não ter que manter conversas desnecessárias quando tinha certeza que ela queria era perguntar o porquê da mancha roxa em seu rosto. Por alguns instantes, milésimos de segundos talvez, ele imaginou como seria engraçado se contasse a verdade para ela... Ok. Não seria engraçado, afinal talvez ela sofresse um ataque do coração. Mas pelo menos pararia de encarar o hematoma em seu rosto.
–Preciso de uma informação. – foi tudo que se arriscou a dizer.
XXX
Piscou algumas vezes para o quarto escuro.
Não tinha ideia de que horas eram, só esperava que não fosse muito tarde, pelo menos a semana que passou em Florença havia sido o bastante para conhecer um pouco da cidade e não teria problemas para encontrar o lugar onde ficava a casa de Connor e atual Instituto para treinamento de novos assassinos para A Ordem. Não conseguia evitar achar um tanto estranho, e quiçá ridículo eles precisarem estar em um lugar que fosse como uma escola de etiqueta para assassinos, o que houve com o bom e velho método de sempre? Mas não questionaria, não quando essa foi a única porta de saída para a vida medíocre que levava naquela ilha se prostituindo para homens que mal sabiam como tocá-la.
Ouvia o burburinho vindo dos outros quartos, as garotas já estavam acordadas. Sentia o corpo pesado, como se pudesse dormir umas boas horas a mais. Mas não podia. Tinha que ir para o Instituto.
Levantou preguiçosamente envolvendo o corpo no lençol e foi até a janela a abrindo e deixando a luz e o cheiro nojento daquela parte da cidade invadirem o espaço, essa deveria ser a única coisa da qual sentia falta da ilha: o cheiro da brisa marinha ao invés do odor de dejetos humanos e alimentos podres. Assim que o quarto foi iluminado pela luz natural se encostou ao beiral da janela voltando os olhos para a cama, ficou um bom tempo encarando a roupa de cama limpa até se perguntar o que estava procurando de errado. Estava tudo certo aparentemente... E esse era o problema. Já haviam passado quantos dias desde sua última regra? Dezesseis? Dezessete? Será que devia se preocupar? Por fim acabou espantando essas questões para longe enquanto ia para a casa de banho. Precisa se limpar, tirar aquele cheiro que impregnava sua pele e seus cabelos.
Encheu a banheira velha com água fria e entrou devagar aproveitando a sensação gélida em contato com seu corpo ainda rígido e se deixou afundar, ficou olhando para o forro velho e com manchas de mofo através do véu de água que ondulava com seus movimentos. O suor e a sujeira se desprendiam. Ela sabia muito bem que as pessoas lhe diziam para não tomar tantos banhos, que ela ficaria doente e mais um monte de coisa que ela não dava ouvidos, já que cresceu perto do mar, ela se sentia mal se ficasse muito tempo sem entrar na água, não tinha como evitar. Se manteve imersa na banheira até seus dedos enrugarem e a água já não aparentar estar tão limpa.
Voltou para seu quarto deixando um rastro de pegadas molhadas no assoalho de madeira. Procurou por suas vestes -a única vestimenta que tinha, já que abandonou a ilha com a roupa do corpo e escapou escondida em meio às sacas de mercadoria em um navio- e se aprontou sem demora.
Desceu para o primeiro andar, lá era mais parecido com uma taverna comum, com algumas mesas de madeira engordurada com bancos, uma lareira que ninguém parecia se incomodar em acender ou limpar as cinzas e um grande balcão tão engordurado quanto as mesas onde ficavam as bebidas e a entrada para a cozinha e a adega. Se dirigiu calmamente para a cozinha onde tinha certeza que encontraria Mme Jibril.
Não deu outra: abriu a porta e viu a mulher de cachos ruivos e corpo voluptuoso, trajada em um vestido verde que apertava suas curvas e fazia os seios saltarem através do decote generoso. Ela se movia de um lado para o outro preparando a comida já que logo iria abrir seu estabelecimento e o cozinheiro ainda não havia chegado por algum motivo.
– Mme Jibril. – a albina disse a guisa de bom dia.
A ruiva virou o rosto para a pequena garota a estudando rapidamente com os olhos verdes.
–Venha aqui e me ajude, Allegra. – disse fazendo um gesto e apontando para uma grande panela de cobre pendurada do outro lado da cozinha –Traga aquilo para mim.
Buscou a panela de cobre e a entregou para Mme Jibril. Aguardou até que a mulher parecesse estar menos ocupada.
–Ontem foi meu último dia. – avisou –Vim agradecer por ter me acolhido durante essa semana.
–Vai fazer falta aqui, garota. – ela sorria enquanto mexia –Você tem pra onde ir?
–Sim. – disse se sentando em um banquinho baixo e tosco de madeira –Vou para a casa de Signor Connor.
–E que tipo de lugar é esse que precisa de uma cortesã própria?
Quem fez essa pergunta foi uma das garotas que entrou pela porta pegando o final da conversa entre as duas.
Allegra respirou profundamente antes de se forçar a responder. Tudo que ela queria era agradecer e avisar que estava de saída, não queria ter que dar explicações a outras pessoas, isso parecia desnecessário, porém o protocolo social a forçava a ter de responder.
–Não se preocupe. Não é pra isso que irei lá, então não vou roubar seus possíveis clientes. – respondeu seca.
XXX
Alexander estava meio dormindo sentindo um corpo contra o seu. Não tinha ideia de em que momento da noite acabou encontrando alguma mulher, mas pelo menos isso lhe garantiu um lugar para dormir.
–Acorda! Você precisa ir! – a mulher que estava com ele praticamente o empurrava para fora da cama tentando fazê-lo despertar.
Ele piscou algumas vezes até estar meio acordado. Um grande bocejo escapou enquanto lutava pra manter os olhos abertos.
–Mas nem tomamos café da manhã... – permitiu que outro longo bocejo escapasse.
A mulher quis rir, dava pra ver isso no rosto dela, porém o barulho das carruagens na rua e um portão batendo fez com que o medo retomasse seu semblante e ela voltasse a sacudi-lo.
–Você tem que ir! Meu marido está chegando! – ela desistiu de sacudir o rapaz e o empurrou para fora da cama finalmente o fazendo acordar.
Alexander pegou suas roupas, armas e alaúde e saiu pela janela aterrissando em um canteiro de flores quase no mesmo instante em que o portão da frente foi aberto. Pensou se valia a pena perder um pouco de tempo se vestindo ali ou se manter sua cabeça sobre os ombros valia mais que sua suposta e muito raramente vista dignidade... Sua cabeça no lugar valia mais.
Escalou o muro, nu, com alaúde pendurado no ombro e roupas e armas nas mãos. Correu por vielas ouvindo gritos escandalizados de mulheres, e gritos incompreensíveis de homens que se dobravam de rir já tendo uma ideia do motivo do albino estar correndo despido pelas ruas de Florença logo cedo pela manhã. Entrou em um beco onde finalmente se vestiu. Estava com fome e sono o bastante para dormir por uns dois dias seguidos, sendo assim só havia um lugar para onde poderia ir: a casa de Jack Connor.
XXX
Lara já estava montada em Coronel seguindo em um trotear lento. O sol tinha despontado há certo tempo e não demorariam a chegar a Florença.
XXX
Foi preciso toda a noite cavalgando até que a ruiva estivesse tranquila de que não a perseguiram até tão longe. E mesmo assim Cristal e sua égua Perséfone descansaram por pouco tempo próximas a um córrego escondido por uma ribanceira que as mantinha ocultas de viajantes curiosos. Quando se encostou ao cavalo para dormir o céu já mudava de cor e quando acordou o sol tinha se erguido, não muito, talvez houvesse dormido por uma ou duas horas. Guiou Perséfone para que a égua bebesse do córrego, e acabou seguindo o mesmo exemplo, bebendo um pouco da água fria que corria rápida pelas pedras lisas e jogando um pouco em seu rosto para tentar despertar e ficar mais alerta.
Os pássaros cantavam de forma estridente e davam voos curtos de umas árvores para outras fazendo os galhos farfalharem sobre sua cabeça.
Deu alguns minutos a mais para que Perséfone se recuperasse e logo a estava montando novamente. Queria chegar o quanto antes na casa de Connor. Esperava que lá se sentisse mais segura...
XXX
Aubert saiu para as ruas após pegar as direções e pagar pelo quarto que utilizou nos dois últimos dias. Aquela área não era a pior da cidade, estava cheia com pessoas ocupadas com seus trabalhos, guardas e um ou outro mendigo esmolando nas calçadas por onde mais pessoas passavam.
Em um ato quase que inconsciente ele enfiou a mão no bolso e puxou de lá o papel onde estava o endereço e a curta nota de seu pai que dizia: "Coragem, meu filho."
Deixou a polpa do dedo deslizar por cima da caligrafia clara e uniforme de seu pai, um pequeno sorriso se formando em seus lábios enquanto continha a vontade de deixar um riso escapar. Até parecia que seu pai ainda achava que ele era um garoto, com toda essa preocupação. Achava que isso não era necessário. Quando seu pai lhe disse para ir ao Instituto de Connor ele aceitou como faria com qualquer outra missão. Não era algo que ele iria discutir, ou mesmo que precisasse ser discutido, acataria como qualquer outra ordem vinda de um superior.
Sua primeira impressão da casa de Jack Connor foi algo um tanto quando surpreendente. Era uma mansão mediana, seu exterior pouco diferia da arquitetura de outras casas daquele porte. Na frente da varanda havia um jardim razoavelmente bem cuidado, o muro estava coberto por algum tipo de musgo que crescia nas pedras avermelhadas, um portão de grades de ferro ornado que apresentava uns poucos sinais de ferrugem. Olhou melhor para as paredes de cor clara, a grande porta de madeira nobre e aparência pesada decorada com uma espécie de vitral no topo, se indagando se estava no lugar certo. Não via nenhum símbolo nem nada pelo tipo que pudesse, por mais que remotamente, sugerir que fosse um local pertencente A Ordem.
Caminhou até a porta em duvida se devia ou não bater.
XXX
Conseguiu esfriar um pouco a cabeça, mas pra isso teve que andar até o amanhecer. Robert definitivamente não faz o tipo calmo.
Seguia pelos telhados sem se preocupar em ser visto. As pessoas abaixo não são como ele, elas são limitadas pela vida ordinária que levam constantemente encarando o chão pra não pisar em merda e incapazes sequer de almejar os céus então nem mesmo olhando para cima. Se olhassem veriam como ele e muitos outros assassinos além dele caminham entre gárgulas como aves de rapina em busca de suas presas. O céu já não estava mais com aquelas cores incertas das primeiras horas do dia quando o escarlate tinge a linha do horizonte e se desfaz em um tom celeste, que sinceramente: é estranho, como escarlate vira aquela cor sem que seja possível ver onde alguém errou a cor na pincelada?
Por sorte as nuvens ocultavam o sol para que não se tornasse insuportável. Ali de cima a brisa era mais limpa, sem o cheiro nojento das ruas abaixo.
Parou próximo a um ornamento de telhado que lembrava uma espécie de lança rebuscada.
Seria melhor voltar, logo os pirralhos aspirantes a assassinos estariam chegando em sua casa e seu pai já estaria estressado o bastante com isso e ele não estar lá só pioraria tudo. De um jeito ou de outro ia acabar sobrando pra ele... Apenas pensar nisso o fazia querer socar alguma coisa que pudesse sentir dor.
Correu o caminho de volta para a mansão, seus passos nas telhas castigadas pela chuva e sol eram praticamente inaudíveis. Sem grande demora estava alcançando o portão dos fundos e entrando sem chama grande atenção de dentro da casa. Foi direto pra cozinha, era melhor que começasse a preparar algo para o almoço antes de ter de dar explicações sobre onde estava.
Decidia-se sobre o que fazer quando a porta foi aberta ruidosamente por Jack.
–Onde estava?! – foi a primeira coisa que ouviu de seu pai e quanto abriu a boca para responder foi cortado –Não importa, já está de volta. – o homem loiro passava a mão nervosamente pelo cabelo –Já começou a preparar o almoço? – lançou um olhar para as panelas.
–Ainda não... – engoliu em seco –Tem preferência por alguma coisa?
O homem olhou em volta para as panelas e o armário onde estava a louça e prataria antes de finalmente responder:
–Uma sopa. – falou simplesmente –Quando terminar vá para a sala e espere lá. – instruiu enquanto bagunçava gentilmente o cabelo escuro do garoto.
O moreno mordeu a parte interna da boca com força até sentir a pele machucar e o sangue tocar sua língua.
–Certo. – foi tudo o que disse enquanto pegava uma panela e enchia de água.
XXX
Quando o efeito do ópio passou ela foi ficando mais desperta, porém o uso recente estava visível pelo modo como suas pupilas ficavam, as olheiras profundas circundando seus olhos, a cor em seus dentes que ficaria impregnada ali por alguns dias. O vício era um pouco evidente.
Tentava ignorar a voz em sua mente a mandando se matar e a infernizando até ela começar a pensar que aquela poderia ser uma boa ideia.
"É uma boa ideia. Você sabe que é... Ninguém vai sentir falta. Ninguém vai chorar por você. Sua existência nesse mundo é insignificante..." – a voz dizia de forma enjoativamente meiga.
E mesmo assim, mesmo se amaldiçoando por permitir que essa voz a dominasse desse modo, ela continuava no caminho para a casa de Connor. Não tinha ideia se estava realmente sóbria o bastante para tal, mas aquele era o único lugar que tinha para ir.
XXX
Quando Cristal chegou à mansão ela não sabia o que esperar, só não esperava aquilo. O lugar parecia uma mansão mediana como qualquer outra encontrada em Florença, se ela não soubesse o endereço pela carta de Jack jamais encontraria o local, não havia nada que indicasse o que é aquele lugar, nenhum símbolo, nenhuma faixa gigantesca escrito "Bem-vindos, novos assassinos!" em letras grandes e chamativas... Ok. Isso seria ridículo e pedir demais. Mas acreditava que pelo menos algo ali devia ter.
Na porta da frente um senhor loiro estava parado, ele a olhou por um instante pensou em dizer algo, mas no fim acabou apenas fazendo um sinal para que ela se aproximasse.
–Senhor Connor? – indagou um tanto quanto incerta, afinal seu único contato com esse homem fora uma carta.
–Imagino que seja Senhorita de La Merce. – ele lhe dava um sorriso afável –Entre e espere na sala com os outros, logo tenho algo importante a lhes dizer.
Apenas assentiu para quando a chamou pelo nome e em seguida fazendo o que ele lhe pediu.
Foi para a sala de paredes verdes e móveis feitos em madeira que pareciam antigos e pesados, passando um ar caloroso ao ambiente, as estantes apinhadas de livros em capas de couro e pequenos objetos os quais não dava pra se ter certeza se tinham alguma finalidade útil, ou se eram apenas enfeites curiosos. As janelas acortinadas iam do chão ao teto servindo como fonte de iluminação para o aposento já que o lustre estava apagado. Ali não havia ninguém além de um garoto moreno com o cabelo preso em uma espécie de coque frouxo e bagunçado, suas roupas impecáveis, porém não ostentosas.
–Olá. – cumprimentou primeiro, afinal ele já estava lá quando ela chegou então o mais correto seria ela se apresentar primeiro –Sou Cristal. – evitaria se possível dizer seu sobrenome.
–Aubert. – foi a resposta simples dele.
Apenas pela pronúncia foi capaz de identificar de qual país ele era e inconscientemente se agradecer por não ter dito qual era seu sobrenome.
XXX
A primeira coisa que Lara fez ao chegar no lugar e avistar do lado de fora foi levar Coronel para o estábulo onde o deixou em uma baia ao lado de uma égua branca, pegou sua parca bagagem e foi de encontro a Connor.
–Bem vinda, criança. – ele sorriu para ela antes de posar a mão em seu ombro –Fez uma boa viagem?
–Sim, . Obrigado pela preocupação. – ela sorria de forma tímida e não parecia capaz de olhá-lo diretamente nos olhos.
Lara estava tão acanhada que nem parecia a mesma garota que na noite anterior estava dançando com os ciganos na fogueira.
–Vá para a sala com os outros. Só falta mais um para chegar e logo tenho algumas coisas importantes pra dizer a vocês.
–Tudo bem. – falou ajeitando sua bagagem para que o peso não incomodasse tanto e atravessando a grande porta de entrada.
Estudou com cuidado as paredes vermelho púrpura, a moldura dourada de um grande espelho pendurado atrás de uma estátua sobre a cômoda de madeira escura a sua esquerda. A direita estava um grande armário, que devia servir como um closet onde guardar casacos e capas de uso diário, o chão frio de ladrilhos decorados sob seus pés e o lustre sobre sua cabeça, tudo tão limpo e preservado que se sentia intimidada em estar em um lugar assim. Respirou fundo se recordando das palavras de Petrus na noite passada, engoliu sua maldita insegurança e voltou a caminhar para onde ela era capaz de ouvir um burburinho baixo que supôs ser dos outros neófitos. Na sala estavam: duas garotas ruivas, sendo que uma trajava vestes impecáveis e que por mais que tivessem um corte simples deixava mais do que claro que ela não era alguém 'comum', e outra com a aparência que ela só viu poucas vezes no lugar onde ela morava, quando tinha de fazer tarefas na cidade para seu senhor, lá ela chegou a ver o estado em chegavam alguns usuários do pó da papoula; uma loira de vestido escuro com o cabelo longo trançado cuidadosamente, a trança caia por seu ombro direito; uma albina que se mantinha calada e parecia não se incomodar em ao menos tentar qualquer aproximação com os demais, tão pequena e magra que ela pensou que se tratasse de uma criança, e chegou a se perguntar se A Ordem estava tão necessitada assim de novos assassinos a ponto de usar uma criança; e um rapaz moreno que estava tão alheio aos demais quanto a albina e mantinha os olhos analisando cuidadosamente e de forma demora a lombada de cada livro naquela sala, não conseguia deixar de olhar para o hematoma escuro no rosto dele por um pouco mais de tempo do que pede a etiqueta. Ocupou um lugar no sofá ao lado da loira e aguardou a última pessoa que faltava chegar.
Foi um tempo até o último que faltava chegar, mas logo Jack vinha até eles acompanhado de um albino (se perguntou se por acaso pessoas assim eram comuns nessa parte do país, se era apenas uma coincidência ridícula, ou se talvez fossem parentes...), deu escolha a deixar as questões de lado esse concentrar no que Jack iria lhes dizer, e mesmo assim notou como o rapaz que acabou de chegar encarou a albina antes de ir para o lado oposto de onde ela estava.
–Robert! – a voz de Jack reverberou ao chamar por alguém que não parecia estar na sala.
XXX
Esperou seu filho estar na sala com os demais, e mesmo que o garoto não dissesse uma palavra sobre o assunto desde que os anciões d'A Ordem decidiram por essa medida, ele sabia que Robert estava insatisfeito em permitir estranhos na casa deles. Mas aquilo era algo necessário.
Olhou para todos e cada um deles.
–Agora vou falar e não quero ser interrompido. – não disse isso de forma bruta ou algo do tipo, mas sua voz mesmo quando calmo possuía um tipo de autoridade que só é adquirida com anos de experiência, o tipo de autoridade que se torna inquestionável com o passar dos anos –Cada um de vocês tem seus motivos para estar aqui. Eu não vou perguntar, e vocês não precisam contar a ninguém a menos que queiram. A partir do momento em que se tornaram assassinos, as pessoas que um dia vocês foram não importam, não existem. Vocês vão viver pela Ordem, e morrer por ela. – cruzava os braços atrás das costas antes de prosseguir –Vou deixar isso claro agora: assim que passaram por aquela porta já não tem mais volta. Só existe um jeito de deixar de ser um assassino: morrendo.
Não dizia aquilo para assustá-los, apenas queria que eles tivessem total conhecimento da decisão que tomaram. Porque eles são assassinos, são as pessoas a quem foi entregue a missão de reescrever a história da forma correta, com sangue se necessário.
–Enquanto estiverem sob meu teto serão treinados e educados nos preceitos d'A Ordem. Aqui nesta casa estarão seguros, porém deverão seguir minhas regras. – tudo era dito com calma em um tom que não chegava a ser alto, no entanto o silêncio em que se encontravam era tal que se ele erguesse um pouco mais a voz pareceria estar gritando mesmo se não estivesse –Ah sim. – se lembrou pouco antes de finalizar sua curta explicação –Os quartos serão divididos.
Foi até um dos armários e abriu uma porta puxando de lá uma caixa de madeira com fechos de ferro, não havia qualquer decoração na caixa, era simples e quadrada de cor castanha avermelha e brilhante, como o corpo de um violino. Ele abriu a caixa e tirou de lá relógios de bolso. Todos idênticos, entregou para os jovens os relógios.
–É isso que identifica um assassino. – falava enquanto entregava os relógios –Aqueles de vocês cujos pais foram assassinos podem se lembrar de já terem visto um desses. Por enquanto não tem nada gravado, mas quando se tornarem assassinos reconhecidos pela Ordem o nome de vocês estará gravado aí. Por enquanto mantenham com vocês. Vão precisar deles mais para a frente. – foi tudo o que disse, não era necessário ficar dizendo sobre os futuros treinos e missões, deixaria isso para o dia seguinte –Podem ir comer, devem estar famintos. – disse lhes dando as costas e subindo para seu quarto.
Precisa de uma dose, ou três... Não tinha ideia de que teriam tantas garotas na casa. Aquilo ainda podia acabar dando problema se ele não mantivesse um olho nessas crianças. Passava a mão nervosamente pelo cabelo, só de pensar nos problemas que viriam ele começava a se questionar onde estava com a cabeça quando aceitou essa missão.
XXX
Todos iam para a sala de jantar quando se sentiu ser puxada e logo suas costas baterem contra uma parede, o impacto não foi forte, apenas a pegou de surpresa.
–O que faz aqui? – a voz de Alexander tinha um quê de curiosidade –Por acaso Connor achou que com tantos homens seria necessário ter uma prostituta no Instituto? – dava pra notar o ar de zombaria em suas palavras.
Allegra ignorou o tom com o qual ele falava com ela e sem alterar a expressão ou erguer a voz lhe respondeu:
–Estou aqui para me tornar uma assassina, assim como meu pai.
–Você é filha de uma prostituta, duvido que saiba quem é seu pai.
Isso era verdade. Ela não tinha ideia de quem era seu pai. Mas Jack a encontrou. Lhe disse que ela tinha a chance de seguir os passos do pai, na época ela não se preocupou de perguntar por um nome, e mesmo agora não acha seja algo tão necessário. Seu pai era um assassino, e isso é o máximo que ela acreditava precisar saber.
–Ao menos terei algo com o que brincar aqui. – Alex sorria enquanto deixava a mão passear pelo rosto dela, a polpa de seu polegar traçava o contorno do lábio inferior dela.
Logo ele a soltava e ia para a sala de jantar onde os outros estavam.
Passava as costas da mão pelo rosto como se pudesse apagar qualquer rastro dele que estivesse em sua pele. Não foi pra isso que aceitou vir pra esse lugar. Foi justamente o oposto. Jack havia dito que quem eles foram antes de chegar ali não importava, mas era mentira... Parecia que ela jamais seria capaz de se livrar desse estigma, o carregaria até o túmulo.
XXX
Perguntava-se se valia a pena contar o número de corpos na abadia.
A luz do dia atravessava os vitrais com passagens bíblicas lançando luzes coloridas em tons frios por todo o chão de pedra agora lavado de sangue. Ela estava sentada em um banco de mogno polido há uns bons metros de distância do altar, mas dali podia ver a mancha vermelha na toalha de renda branca que encharcava e gotejava. Havia uma bíblia caída com páginas arrancadas, tentava se lembrar em que momento aquilo aconteceu, mas tudo foi tão rápido que organizar os fatos em ordem podia dar um pouco mais de trabalho do que contar o número de corpos ali. O som dos sinos tocando era algo tão esperado estando dentro da abadia que apesar de ser um barulho alto seguido pelo bater de asas de umas dezenas de pássaros que deviam estar dormindo no alto da torre, não a surpreendeu.
Com cuidado se ajoelhou ali do banco onde estava mesmo. Posicionou as mãos em prece e começou:
–Pai, perdoe, pois eu pequei. Matei um homem... Alguns homens. – se corrigiu.
O som da porta sendo aberta e fechada não quebrava a concentração de Noir von Keres em sua oração, nem mesmo os passos contra a pedra fria e dura. Ela reconhecia aquele ritmo de caminhar.
–Não entendo por que ainda se preocupa em pedir perdão. – Suzume falava pra ela enquanto se sentava no banco ao lado de onde Noir estava ajoelhada em prece –Mesmo que nos digam que o fim que A Ordem almeja justificará o que fazemos hoje, não muda aquilo que somos. Não passamos de assassinos. Não que isso não seja algo do que se orgulhar, mas a verdade é mais sangrenta e menos glamorosa do que nas aventuras que escutamos dos veteranos.
Noir não respondeu até terminar sua oração, só então erguendo a cabeça, e mesmo assim o rosto por baixo do capuz era oculto por uma máscara sem expressão.
–Somos mais do que apenas assassinos. Somos os anjos da morte, enviados para igualar a balança antes que o mundo caía nas trevas. – ao menos era assim que ela enxergava a missão d'A Ordem.
"Volunteers are soon forgotten
And many more of us shall die
The sick still feed the hungry
And the last battle song has cried
But if there's a reason
I don't need to know right now
And the light of a fading star
Is what you were, is what you are
Like the glow that christens the moon
You shown too soon, you shown too soon"
_Light of a Fading Star (Flogging Molly)
Bípedes: desculpem a demora, mas esse capítulo foi mesmo um pouco difícil de escrever, me custou muito café de madrugada e vinho quando faltava inspiração. Eu sei que ficou curto e tudo o mais (prometo me esforçar ainda mais no próximo) u.u
E como sempre... Qualquer dúvida, reclamação, sugestões e afins que quiserem deixar é só comentar XD
Obrigado por lerem u.u
