Parte II
Tosshi permaneceu sentado e em silêncio por longos minutos.
Nesse período de tempo, Kagura lavou o rosto e retornou para a sala vestida com seu conjunto chinês e pedindo pelo café da manhã. Gintoki viu ali sua oportunidade de retirar-se, e pediu que ela ficasse de olho no visitante enquanto ele prepararia o café. A despensa daquela casa nunca estava cheia, mas naquela manhã, em particular, ele deu o seu melhor em preparar a refeição, torcendo para que a demora fizesse o moreno se cansar e ir embora. Os olhos escarlates admiravam os pães na torradeira quando ele escutou a voz de Shinpachi na sala, e sua ansiedade diminuiu consideravelmente a ponto do restante do café ser preparado sem a pressão de precisar encarar alguém que vestia o corpo de seu amante, porém, cuja personalidade era totalmente diferente. É estranho. Eu já precisei lidar com o Otaku em várias ocasiões, mas agora não sei sequer iniciar uma conversa.
O cliente estava no mesmo lugar quando ele retornou à sala trazendo o café da manhã. O Líder da Yorozuya ofereceu uma tigela de arroz por mera educação e não se surpreendeu ao vê-la recusada. Tosshi parecia visivelmente incomodado em estar ali, no entanto, manteve-se imóvel até que a refeição terminasse. Kagura foi responsável por devorar mais da metade do que estava na mesinha de centro e, quando a louça foi retirada, o pseudo Vice-Comandante limpou a garganta e avisou que gostaria de contratá-los para um serviço.
"E-Eu preciso de ajuda," ele juntou as pernas, segurou o braço direito com a mão esquerda e pousou os olhos em Gintoki, "eu preciso voltar a ser quem eu era, d-digo, preciso que ele volte."
"Há quanto tempo isso aconteceu, Hij—, quero dizer, Tosshi-san?" Shinpachi era o único que levava aquela situação a sério.
"Alguns dias, eu acho. Eu sei que Hijikata-san foi dormir e na manhã seguinte fui eu quem acordou no quarto."
"Mas você não tem como falar com ele? Vocês têm o mesmo corpo-aru." Kagura alisava a barriga enquanto falava, como se estivesse grávida de seis bebês.
"Não... esse é o problema."
Gintoki engoliu seco. Ele não estava imaginando coisas.
Embora Shinpachi e Kagura estivessem na sala, o assunto era direcionado a ele. Algo aconteceu e ele não quer falar na frente de todos.
"Nós entendemos e aceitamos o trabalho." Ele ficou em pé.
"E-Eu pagarei em dinheiro." Tosshi fez menção de tirar algo do kimono, contudo, parou ao receber uma negativa com a cabeça por parte dos três.
"O pagamento vem depois de o serviço estar concluído, Cliente-san."
"Isso mesmo, Tosshi-san. Nós definitivamente vamos ajudar! Você e Hijikata-san!" Shinpachi estava animado com a ideia de um trabalho de verdade. "Eu vou voltar para a casa da minha irmã. Tenho certeza de que o Gorila-Stalker está por lá e deve ter alguma informação importante ou detalhe que passou despercebido."
"Eu vou com você!" Kagura pulou do sofá e pousou em cima de um dorminhoco Sadaharu. "Eu preciso de um segundo café da manhã."
Os três deixaram a casa e Gintoki conservou-se onde estava até ter certeza de que haviam se afastado e que não retornariam. Tosshi permanecia naquela clássica posição, que se tornara sua assinatura, e ele percebeu que não haveria outra forma de abordar o assunto além de ser direto.
"O que aconteceu?" O Líder da Yorozuya sentou-se ao lado de Tosshi com barulho e levou a mão até seu rosto. "Por que você se escondeu, Hijikata?"
A face tornou-se vermelha e sua companhia tentou várias vezes responder, entretanto, tudo o que conseguiu foi corar e gaguejar.
"D-Desculpe, Gintokicchi, d-digo, Sakatacchi..." As mãos dançavam no ar. "Eu não consigo falar com Hijikata-san. É como se ele houvesse sumido."
As palavras entraram por seus ouvidos e foi muito difícil não se importa com seu significado. A última visita de Tosshi, cerca de um ano atrás, durou alguns dias, mas nesse período de tempo Hijikata fez algumas aparições. Se o dono original daquele corpo havia realmente desaparecido o que aconteceria? Haveria alguma forma de trazê-lo de volta? E como isso aconteceu? Hijikata não trocaria de lugar com Tosshi por livre e espontânea vontade... certo? As desconfianças o fizeram esquecer-se momentaneamente de que ele não estava sozinho, e foi uma puxada em seu kimono que o trouxe de volta à realidade.
"Okita-san disse que você é a pessoa mais adequada para me ajudar, Sakatacchi."
"Eu?" Ele quase riu.
"S-Sim, ele disse que... que você e Hijikata-san são amigos muito íntimos."
Okita! Gintoki sentiu a veia tremer em seu sua testa. O modo como Tosshi o olhou denunciava que ele desconfiava do real significado daquela amizade, o que tornava a situação ainda mais humilhante. Meu amante tem dupla personalidade, e sua segunda personalidade resolveu aparecer. O que eu devo fazer? A diferença entre Hijikata Toushirou, Vice-Comandante do Shinsengumi, e Tosshi, bem, otaku, era tão gritante que felizmente não haveria como confundi-los. Todavia, da mesma forma como Gintoki sabia claramente que ele não era o homem com que costumava dividir horas passionais em motéis, aquele era o mesmo corpo que ele havia amado incontáveis vezes durante anos. Seu coração conseguia aceitar aquela distinção, mas seu corpo travava uma árdua luta em não reagir à proximidade.
"E-Eu estava pensando, se não for nenhum incômodo..." Tosshi mordeu o lábio inferior, desviando os olhos e parecendo escolher as palavras que usaria. "Já que você e Hijikata-san são tão a-amigos, que eu... digo, nós poderíamos passar algum tempo juntos. Eu acho que ajudaria. A proximidade e a a-amizade podem fazer com que Hijikata-san apareça."
O Líder da Yorozuya sentiu o exato momento em que o arrepio em sua nuca desceu por suas costas. O morno sentimento em seu peito alojou-se em seu baixo ventre e ele manteve-se imóvel, completamente surpreso por ter reagido a algo tão banal. Diante de seus olhos estava Hijikata, agindo e falando de modo diferente, não ralhando ou tentando acertá-lo com a espada, pelo contrário, pedindo por sua atenção e querendo que passassem algum tempo juntos. A requisição era tentadora demais para ser dispensada, ainda que ele suspeitasse que se arrependeria de tal escolha. Eu estou fazendo isso por ele! Eu estou sendo 100% altruísta! Sim! Gin-san jamais seria egoísta!
"O Gorila provavelmente disse para você não fazer o serviço do Shinsengumi por um tempo, não? Se você não tiver nada mais a fazer podemos passar algum tempo juntos, porém, eu aviso que não sou a pessoa mais divertida do mundo."
"S-Sim! E eu pago por isso!"
Tosshi tirou a carteira da manga do kimono e por algum motivo a cena desfez o sorriso dos lábios de Gintoki.
"Guarde o seu dinheiro, eu não sou uma prostituta. Você não precisa pagar pela minha companhia." Suas sobrancelhas se juntaram e ele não compreendia por que havia se ofendido.
"D-Desculpe, eu não tive a intenção, apenas queria dizer que estar comigo é parte do trabalho." O moreno abaixou os olhos. "Eu sei que deve ser difícil me tolerar. Eu sou inútil se comparado a Hijikata-san."
"Estar com você nunca será trabalho." A mão o segurou firme pelo queixo, impossibilitando-o de desviar o rosto como era seu costume. "Eu ficarei com você o tempo necessário para que aquele idiota retorne e não aceitarei um centavo por isso."
"E-Eu entendi."
Tosshi corou tão violentamente que Gintoki precisou soltá-lo. Aquelas reações tão sinceras e inocentes o faziam sentir coisas que ele não imaginou que sentiria, ainda mais por outro homem. É como ver um lado dele que eu nunca vi. Com tudo decidido, ele levantou-se e foi para o sofá da frente, deitando-se e correndo a mão para a parte de baixo. Dois exemplares da JUMP foram retirados e o da semana anterior foi jogado na direção de Tosshi, que o segurou sem dificuldades e cujos olhos brilharam ao ver a capa.
"Esta eu ainda anão li, Sakatacchi!"
"Se vamos passar o dia juntos você precisa saber que eu não faço nada além de ler a JUMP. Se o telefone não tocar é assim que passaremos o dia."
A ideia pareceu agradá-lo e aos poucos Gintoki conseguiu relaxar e focar quase toda a atenção na revista em suas mãos. Tosshi parecia concentrado, mesmo que muito mais comportado, as pernas juntas e um sorriso de felicidade em seus lábios ao invés do cigarro. A manhã transcorreu quieta, com exceção dos sons das páginas sendo viradas. Kagura e Shinpachi retornaram na hora do almoço, trazendo a refeição e não se surpreendendo ao ver o cliente na casa. A garota com roupas chinesas relatou o que escutaram de Kondou, e que Hijikata não havia participado de luta alguma, logo, a espada utilizada para trocar as personalidades não havia sido empunhada, o que os levava à estaca zero.
"A ideia de passarmos mais tempo com Tosshi-san é interessante, mas acho que seria mais efetivo se fosse com os membros do Shinsengumi, embora eu compreenda que talvez não seja possível." Shinpachi ponderou, no entanto, sorriu ao perceber a expressão aflita de seu cliente. "Mas não se preocupe! Nós ajudaremos no que for preciso, Tosshi-san."
"O-Obrigado."
O Líder da Yorozuya sorriu, sentindo-se um pouco mais aliviado ao vê-los empenhados em ajudar Hijikata, apesar de não desconfiarem sobre a sua real motivação. O almoço foi tranquilo, embora ele tenha ficado inquieto ao ver Tosshi comendo sem colocar maionese em nada. Seus olhos estiveram atentos a todo instante, esperando que o verdadeiro Hijikata aparecesse e lambuzasse o arroz com aquela porcaria amarela. Ele realmente se foi? O verdadeiro Hijikata jamais passaria a chance de me enojar, esfregando maionese em todos os lugares.
Após a refeição, o moreno não fez nenhuma menção em retornar ao Shinsengumi e Gintoki não se sentia inclinado em afastar-se daquela versão "domada" de seu amante, pelo menos por enquanto. Era um pouco desconcertante estar em sua presença sem que uma briga ou discussão surgisse. Normalmente, quando estavam um na companhia do outro, não havia conversas e as roupas sempre terminavam espalhadas pelo chão. De certa forma, tê-lo ao seu lado sem nenhum contato sexual não era de todo ruim, apenas peculiar.
O período da tarde prometia ser basicamente igual à manhã, contudo, Shinpachi jogou um balde de água fria em seus planos de terminar de ler a JUMP daquela semana. Havia um pequeno trabalho durante a tarde e que requeria a presença dos três. Gintoki tentou persuadi-lo a deixá-lo de fora, entretanto, foi impossível recusar após ouvir o quanto receberiam por algo tão simples quanto levar uma velhinha ao supermercado.
"Quer que eu te deixe na entrada do Shinsengumi?"
"Não... s-se não for incômodo, eu gostaria de esperar aqui."
"É melhor não mandá-lo de volta para o Shinsengumi, Gin-chan," Kagura disse do outro lado da sala, "se o Gorila e o Sadista não estiverem por lá é até perigoso deixá-lo a sós com os outros membros. Eles não devem saber sobre a troca de personalidade-aru."
"Você não se importa de ficar sozinho?"
"Não, eu ficarei bem. E-Eu lerei a JUMP e assistirei a-animes na televisão..."
Tosshi segurou o novo exemplar da JUMP com uma das mãos, enquanto a outra retirou um console portátil de dentro do kimono. Gintoki deu de ombros, avisando que não havia muito na geladeira, mas que ele poderia comer o que quisesse.
"E se você ler o capítulo dessa semana de One Piece eu NÃO quero saber, ouviu?"
"S-Sim."
Ele deixou a casa ao lado de seus dois fiéis escudeiros mais o gigantesco cachorro felpudo. O dinheiro que aquele trabalho traria era necessário, todavia, parte dele ficou para trás e pela primeira vez desde que entrou naquele ramo Gintoki ponderou recusar um trabalho que pagasse bem. Ele queria passar mais tempo a sós com Tosshi e não somente porque aquela proximidade poderia trazer o velho e rabugento Hijikata de volta.
"Gin-san, ele ficará bem." A voz o acordou de seus pensamentos e o meio sorriso de Shinpachi o pegou completamente desprevenido. "Hijikata-san não é o tipo de pessoa que desistiria de uma luta. Vamos acreditar nele!"
"Do que você está falando, Patsuan?" Ele tocou os cabelos do rapaz de óculos e os bagunçou, aumentando o ritmo e dando alguns passos à frente para esconder as bochechas coradas. "Eu não estou preocupado." Ele definitivamente voltará. E se não for por livre e espontânea vontade será à força.
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O trabalho foi muito mais complexo do que qualquer um deles poderia imaginar.
Primeiro, a velhinha não estava sozinha, mas acompanhada por um cachorro mais problemático do que Sadaharu. O que começou como um fácil trabalho de escolta se transformou em uma aventura e, enquanto Kagura e Shinpachi acompanhavam a velhinha dentro do supermercado, Gintoki conservou-se do lado de fora segurando a coleira do cachorro e garantindo que ele não fugisse pela terceira vez. Quando retornaram para casa o sol já havia se posto, e em sua mente só havia a necessidade de um delicioso banho para tirar o cheiro de cachorro que parecia ter se impregnado em todo o seu ser.
Tosshi o aguardava na sala e, ao vê-lo deixar o banheiro, levantou-se e pousou a JUMP sobre o sofá.
"Você leu?"
"S-Sim..."
"Então...?"
"Você disse para não contar."
A resposta o fez sorrir e a toalha que secava os cabelos foi jogada em cima da mesa.
"Vamos, eu vou acompanhá-lo até o Shinsegumi."
"Eu sei o que caminho e não quero incomodá-los mais do que já incomodei."
"Você é nosso cliente agora. A escolta faz parte do trabalho, Tosshi."
Kagura havia se deitado no outro sofá e avisou que esperaria o jantar naquela posição, e que de preferência fossem ovos mexidos. Gintoki sentiu o ar fresco da noite tocar seus cabelos úmidos, ainda que não conseguisse afastar a estranheza por deixar sua casa à noite e não ter como objetivo o pachinko ou algum bar na companhia de Hasegawa. Ele sabia que poderia ter deixado Tosshi ir sozinho até o Shinsengumi, seria mais fácil, porém, saber que passaria pelo menos vinte minutos ao seu lado valia a pena. A caminhada, como esperado, foi feita em silêncio e a única comunicação aconteceu quando estavam em frente ao largo portão da sede de polícia.
"Eu posso ir amanhã o-ou talvez você esteja ocupado? S-Sua TV é melhor para assistir meus animes..."
"Eu, não, a Yorozuya não aceitará mais nenhum trabalho enquanto o seu problema não for solucionado. É uma decisão que tomamos juntos."
"Eu não quero atrapalhar..."
"Não irá. O Vice-Comandante Demoníaco, de um jeito ou de outro, é um amigo. Mesmo sendo uma amizade, muito, muito diferente. Além disso, trabalho é trabalho, Otaku-kun, e já está tarde. Melhor entrar ou vai perder os animes da noite."
Tosshi meneou a cabeça em positivo e passou ao seu lado, no entanto, Gintoki percebeu quando os passos cessaram. Ele sentiu a garganta seca e não teve coragem de virar-se para encará-lo diretamente. Algo em sua mente dizia que aquilo seria perigoso.
"Você e Hijikata-san são bem mais do que amigos, não é?" A voz de Tosshi, mesmo que possuísse o timbre do moreno, soava totalmente diferente e quando não estavam frente a frente era mais fácil aceitar que eram pessoas diferentes. "Okita-san disse que vocês são... são... a-amantes."
Gintoki conseguiu ver claramente suas mãos apertando o fino pescoço de Okita até que ele desmontasse, como um boneco quebrado. A gota que escorreu por sua nuca não era da água do chuveiro ou de alguma chuva momentânea. Seu corpo virou-se devagar, embora ele não possuísse uma resposta para dar àquela pergunta. Entretanto, não seria preciso bolar argumentos mirabolantes ou mentiras fantasiosas para escapar da questão, pois, antes de ficarem frente a frente, Gintoki sentiu os lábios de Tosshi tocarem os seus enquanto seu kimono era puxado.
As mãos que o seguravam eram trêmulas, assim como a pequena boca junto à sua. Eu sei que vou me arrepender disso. Os olhos escarlates se fecharam e seus braços o envolveram em um apertado abraço, trazendo-o um pouco para cima para ficarem na mesma altura. Seus lábios moveram-se devagar e o modo como Tosshi gemeu quando as línguas se encontraram o fez pensar que talvez ele, ao contrário do dono oficial daquele corpo, nunca houvesse compartilhado aquele nível de tipo de contato com outra pessoa. O pensamento o fez corar, imaginando que tê-lo em seus braços era como viver uma fantasia, ainda que desconfiasse que isso lhe acarretaria, futuramente, muito mais do que um mero sermão.
Continua...
