*A quinta coelha desaparecida*

Judy não despertou devagar; seus sentidos retornaram num instante fugaz e, num repente, ela abriu os olhos e arreganhou a boca, aspirando o máximo de ar que seus pequenos pulmões eram capazes de conter.

Percebeu, antes de tudo, que estava deitada. Depois, que estava num lugar muito escuro, pois não sentia nenhuma venda sobre seus olhos e não era capaz de enxergar nada além de vultos e fracos contornos na penumbra. Por último, sentiu frio, e foi só aí que notou que estava sem roupa. Seu primeiro impulso nesse momento foi de se mover, todavia, descobriu-se completamente imobilizada, seu corpinho atado ao que parecia ser uma maca, e perceber-se naquela pavorosa condição de súbita e indesejada impotência assustou tanto a coelha que seu coração começou a bater desenfreado em seu peito e sua respiração se acelerou muito, tornando-se, ao mesmo tempo, sôfrega e laboriosa.

— Vejo que já está desperta.

Ela não só ouviu como reconheceu a voz e, num grande esforço, ergueu um pouco a cabeça, tirando-a um mínimo da maca. Viu um vulto locomover-se por aquele cômodo escuro e desconhecido onde se encontrava, caminhando em sua direção até que seus contornos se tornaram menos difusos e mais distinguíveis no breu.

Era ele, Judy tinha certeza. Era a raposa de pelo vermelho que batera a sua porta. Sam.

— Como está se sentindo, Judy?

— Sam — Sua fala não passou de um sussurro, pois sua garganta doía bastante e sua língua parecia estar flácida e esponjosa.

Uma sensação extremamente desagradável.

— Onde e-estou?

— Em algum lugar — A raposa respondeu, e Judy notou bem o tom de escárnio e zombaria presente na voz que, no seu apartamento, mostrara apenas gentileza. — Mas você não deveria se preocupar com isso, coelhinha.

— Não? Você... você me drogou — Ela conseguiu falar, apesar da dificuldade, suas palavras se arrastando pela sua língua e escapando frouxamente pelos seus lábios. — Me trouxe até esse lugar contra a minha vontade... ...e me amarrou. Por que f-fez isso? — Tentou soar firme e mandona, porque ela era uma oficial do Departamento de Polícia de Zootopia, porém, o pavor que sentia aliado a dor em sua garganta fizeram sua voz falhar e soar fraca e lamuriosa.

A raposa, que agora estava bem visível ao seu lado, riu alto.

— Não é nada pessoal, querida Judy — Respondeu o mamífero, seus olhos cor de carvão cravados nos olhos amedrontados e enormes da oficial. — Nós só temos uma quedinha por coelhas. Adoramos tê-las por perto. Vocês são tão divertidas.

Ela não soube ao certo se foi o "nós" ou o "coelhas" que mais lhe chamou atenção. Apesar do medo – ou melhor, do pânico –, ainda conseguia pensar com clareza suficiente para compreender as informações e conectá-las.

— É você — Murmurou num misto de horror e surpresa. — Você sequestrou as outras coelhas.

Ele não falou nada, mas nem precisou. O sorriso deturpado que brotou em seu focinho confirmou a suspeita de Judy.

Sim. Sua intuição lhe dizia, e com certa insistência, de que era mesmo ele o envolvido no caso do sumiço daquelas quatro coelhas – ou, pelo menos, ele era um dos envolvidos, a julgar pelo "nós" que deixara escapar antes –, e Judy estava muito, muito certa de que ou ela era o mamífero mais azarado de Zootopia ou o destino tinha o pior senso de humor do universo.

Judy estava há quase duas semanas envolvida até a ponta das orelhas na investigação do caso do misterioso desaparecimento das coelhas e, durante todo esse período não encontrou uma única pista sequer. E, no instante em que entrou de férias, viu-se focinho a focinho com o sequestrador... e da pior maneira possível.

Pelo visto, ela tinha acabado de se tornar a quinta coelha desaparecida.

— O que fez com as outras? Diga, Sam! O que fez com as outras coelhas? — Perguntou e se assustou um pouco ao ouvir um barulho vindo do outro lado daquele cômodo.

Risadas abafadas e cochichos.

O outro envolvido, talvez, ou um provável cúmplice, ela logo pensou.

— Vocês por acaso mataram as outras coelhas? Foi isso o que fizeram? E eu? Por acaso vão me matar? É isso o que pretendem fazer?

A raposa gargalhou.

— Te matar? Você é muito engraçadinha, Judy — O bandido sacudiu a cabeça para os lados, e Judy viu quando ele pegou alguma coisa sobre uma bancada que ficava ao lado da maca. Alguma coisa que lembrava muito uma injeção. Outra droga, muito provavelmente — Nós tivemos sim algumas casualidades... mas isso faz parte do jogo, não é mesmo? A verdade, querida, é que não pretendemos matar ninguém, mas essas coisas acontecem. Não podemos evitar, afinal, apenas os mais fortes sobrevivem... essa é a lei da natureza. E a sua sobrevivência no jogo, veja bem, vai depender apenas de você, minha cara presa. Responda-me, coelhinha, o quão rápido você acha consegue correr?

Ele sorriu cruelmente, expondo uma fileira de dentes afiados, e o terror que a coelha sentiu naquele momento, vendo-o rir daquele jeito ameaçador e chamando-a de presa, foi tanto que quase fez o coração dela parar de bater.

— Presa...? — Sussurrou Judy, apavorada, seu corpinho estremecendo e seu pelo cinzento todo eriçado por causa dos calafrios sinistros que aquela raposa lhe provocava.

Ao ouvir o medo na voz da coelha e o modo como os tremores percorriam o corpo dela, a raposa sorriu ainda mais, como se mergulhada num momento de infindável êxtase.

Como se a cena que testemunhava fosse algo que lhe desse enorme prazer.

— Você será uma ótima presa, tenho certeza disso — Disse ele de uma forma que era esperançosa e doente ao mesmo tempo e pressionou a ponta da agulha contra o braço de Judy, fazendo-a choramingar de dor e terror.

— Não faça isso — Ela implorou, porque não lhe restava alternativa senão implorar. — Por favor, Sam, por favor... eu peço que não faça isso.

A raposa, contudo, não ouviu as súplicas da policial e empurrou o êmbolo da seringa bem devagar, injetando o seu conteúdo na veia de Judy.

— Shh, minha cara — Pediu ele, divertindo-se com o desespero mais do que visível no semblante da coelha. — Você será uma presa tão boa, Judy — Sussurrou. — Estou certo de que vai nos garantir uma excelente caçada. A melhor de todas, tenho certeza.