As mesas, impecavelmente decoradas, davam lugar a uma pequena porção de pessoas. Viu o Conde aproximar-se de uma delas, onde alguns indivíduos ainda permaneciam de pé, em conversas polidas, ao lado de suas cadeiras vazias e a simples ideia do lugar que ele faria o detetive tomar lhe pareceu absurdamente suspeita – mas ele não devia pensar nisso agora. Todas as outras pessoas a sua volta também estavam correndo perigo – ainda assim, as cadeiras vazias ao lado dele eram bastante incômodas.

Sherlock seguiu cada um dos passos do Conde, como se os imitasse; não sem manter Watson sob o seu olhar de soslaio. Aquele ritmo não durou; pouco antes de tomar qualquer lugar, volteou o corpo em uma espécie de ação incompleta, da qual visivelmente faltava um pedaço. Não havia ansiedade em seus movimentos, tampouco pressa ou indecisão, apenas uma inquietude que lhe era particular. Era impossível dizer se ele iria para o lado, se daria meia-volta ou se seguiria para sentar-se mais adiante. Só voltou a retomar rigidez, quando percebeu Watson perto de si. Espalmou a mão no peito do doutor com um toque súbito.

– Está ao menos uma hora mais cedo que o de praxe para servir o jantar em um evento desse tipo, não está?

Antes que Watson respondesse, voltou a falar.

– Reparou o suficiente em nosso Conde? Você com certeza percebeu seu sorriso forçado, mas reparou na tensão em seus maxilares quando sorri? O suave umedecer de suor acima das têmporas? Seu figurino está impecável; mas o bolso da lapela tem um ponto de descostura. Pelo estado do fio solto, recente. Nesse bolso, ele guarda seu relógio.

Ainda não havia sobrado intervalo para que o doutor respondesse.

– Com licença, senhor Holmes? Doutor? – A voz do Conde fez-se à suas costas, um suave toque em seus ombros – Essa é minha esposa, Annabeth.

Uma mulher de cabelos longos, negros e encaracolados, em um vestido demasiado antiquado; tecidos magenta e grená, a gola alta marcando-lhe ao final do pescoço e armação tomando certo volume ao final de um espartilho. Tinha batom claro nos lábios fartos e muito pó de arroz pulverizando as curvas sinuosas de seu rosto, cobrindo-o de palidez. A cor em sua face era dada por pálpebras pintadas de terracota e certo excesso de rouge.

– Boa noite, senhores. – Ela suavemente inclinou-se para a direita, como em uma mesura. Seu sorriso parecia sufocado, e ela não lhes estendeu a mão.

Se eles falaram algo, Sherlock descartara por deficiência em importância. Já sabia o suficiente.

O movimento das pessoas tinha algo que lembrava uma dança de cadeiras, o que investia a toda a cena uma sensação de ponteiros acelerados. Mycroft, do outro lado da mesa, conversava com o Duque de Humpfrey e não demonstrava destinar sequer meia parcela de atenção. Contudo, havia perto dele duas cadeiras vagas, e Sherlock se preocuparia em tomá-las.

Com um arrastar de cadeiras, cada um ocupou seu respectivo lugar. A condessa cochichou algo breve para seu marido, e o olhar dele desviou-se, por uma fração de segundo, para Sherlock do lado oposto da mesa. Então o casal endireitou suas colunas; passaram a língua pelos lábios em um gesto quase sincronizado e voltaram a atenção para os presentes.

Em meio àquilo tudo, Watson se sentia um tanto desconfortável. Era uma grande peça teatral, e eles não estavam nem perto do final do primeiro ato. Annabeth e o esposo sustentavam um sorriso falso – sorriso que se abriu logo após algumas trocas de olhares entre ambos e os convidados. Os lábios morriam, no entanto, tão rápido quanto se abriam; sem dar necessariamente a intenção que deveriam.

O resto da trupe, enquanto isso, parecia se obrigar a aumentar cada vez mais o volume das conversas. O burburinho aumentava e, entre tantos rostos, o doutor tentava identificar quais seriam os mais nocivos. Desviou os olhos em direção ao detetive, apenas para percebê-lo analisar tudo ao seu redor do modo suavemente inquieto que era sua característica.

Unindo as próprias mãos, voltou a correr os olhos pelo aglomerado de indivíduos barulhentos e suas taças brilhantes. Anéis brilhantes. Tudo brilhava de um modo exagerado e, ali, aquilo era o disfarce perfeito.

Mais uma vez inesperadamente, Sherlock virou o rosto na direção do doutor, para mais uma observação antes de a janta ser servida. Deixou que seus dedos tocassem a perna de Watson sentado ao seu lado. Apoiou a mão em sua coxa e aproximou mais o rosto, para falar-lhe ao ouvido. Sua voz tomou um timbre baixo.

– Vê Annabeth? No momento em que o marido dela sentou ao seu lado, ela lhe passou um bilhete. Aquele pingo preto ao lado do pires? Ela apertou a caneta tinteira com mais força do que deveria. Durante todo o tempo em que esteve de pé, equilibrava o corpo em um pé, então no outro. Quando andou até a mesa, seus passos estavam tão duros que ela parecia incapaz de dobrar os joelhos para caminhar. As marcas avermelhadas de suas unhas nas costas de suas mãos e o ritmo de sua respiração dizem um pouco mais do que simples nervosismo. Os breves intervalos entre a inspiração, a profundidade do fôlego. Consegue identificar o que digo?

O doutor poderia analisar o fato da pele sob a maquilagem estar três tons mais clara que o normal, ou o fato de os músculos de seu queixo retesarem-se levemente em alguns instantes; poderia também falar sobre as gotículas de suor que se formavam sobre sua fronte – ainda que ninguém ali sentisse calor de fato.

Poderia confirmar o que o detetive dizia com várias coisas, mas o olhar trepidante da mulher fazia as vezes de qualquer outra característica.

– Sim. – engoliu em seco, voltando os olhos ao outro. Fez menção de dizer algo, mas apenas voltou a vislumbrar a Condessa.

– Lembra-se de que eu falei que duas pessoas ligadas a Wiltshire morreram em duas semanas? Um deles é o irmão dela. Por isso Mycroft sabia que eu gostaria de presenciar isso. Porque, afinal, você sairia de casa de luto para comparecer a uma comemoração social puramente ilustrativa? Ela também não sairia – se tivesse escolha. Por isso ela está em pânico. Não é tão boa atriz quanto o seu marido.

Os garçons com seus carrinhos se aproximaram como se os encurralassem; todos ao mesmo tempo, quase coreografados. Sherlock tirou a mão de sobre a perna do doutor e apoiou os dois pulsos na beirada da mesa. Permaneceu suavemente cabisbaixo, apenas o suficiente para desviar um olhar baixo para todos. Pratos e travessas eram desembainhados e reluziam prateados à frente da visão de todos – era o prato de entrada, com vários tipos de sopas e caldos. O som metálico de recipientes destampados rasgavam como o choque de duas lâminas. Tão logo os alimentos foram expostos, o aroma subiu como uma muralha.

Naqueles instantes, o olhar do Conde desviara para alguns determinados itens. Estava sendo servida a entrada, e, tão logo ele escolheu a sopa que tomaria, Sherlock fez o mesmo. Os mesmos gestos e palavras idênticas, como se fosse um jogo de imitar. Assim que terminaram de servir prato a prato, outro carrinho trouxe novas travessas, que seriam postas ao centro da mesa, para que se servissem à vontade.

Watson assistiu, estupefato, à cena. Alguns segundos foram necessários para que qualquer ideia surgisse à sua mente sobre o que raios significaria aquilo – mas, após o breve momento de confusão, algo começou a fazer sentido – e ele não sabia se gostava da resposta.

– Você não acha que está tomando riscos demais?

Sherlock não se moveu; seguiu com o rosto voltado para frente. O único olhar que desviou foi para o prato de Watson, praticamente intocado. Então, ergueu a voz um pouco mais do que o doutor esperava, e abriu um sorriso lúdico.

– Ah, você quer que eu te passe o molho de maracujá, Watson? – O detetive levantou um pouco o corpo, apoiou a mão na mesa e esticou um braço para a mesa.

Seus dedos seguraram uma vasilha pequena, igualmente em um prata faiscante, com um conteúdo amarelo. Com uma impetuosidade desnecessária, que poderia facilmente ser confundida com pressa, tirou-a da mesa e trouxe-a até a frente de Watson.

Seu braço descreveu um arco desajeitado. Esboçou trocar o pote de mãos, mas não o fez – tudo o que pôde ser visto foi um tremor falho em seus dedos e o oscilar do conteúdo desequilibrando o recipiente em suas mãos. Tão inesperadamente quanto possível, a vasilha escapou dos dedos do detetive e caiu sobre o prato do doutor ao seu lado.

Um som de louça se chocando sobressaiu-se a todo o burburinho, causando sobressalto em todos.

– Oh, não, que desastre! – Sherlock arregalou os olhos. Nada tinha se quebrado, mas o molho se misturara a toda a sopa de Watson e escorria pela toalha até o colo do doutor. Mais rápido do que a reação de qualquer um ali, a voz do Conde se fez prontamente.

– Sente-se, senhor Holmes. – A voz dele era linear enquanto ele chamava um garçom. Ele bem que tentou sorrir, mas seus lábios contorceram-se como uma linha feita às cegas – Os criados resolverão isso.

Watson, recostado à cadeira, ergueu os braços suavemente como quem tenta evitar piores danos. Ao menos não havia se queimado – podia ser pior. Olhou ao redor, percebendo a movimentação da criadagem; um homem, portando um guardanapo de tom róseo-antigo, veio em sua direção.

Tratando de, com cuidado, limpar as áreas atingidas pelo molho, o garçom parecia demorar mais que o necessário naquela tarefa. O doutor tentaria esquadrinhar as feições de Sherlock, como que para tentar fazer como ele – tentar perceber o que ele pensava daquilo; mas era impossível com aquele indivíduo bloqueando parcialmente seu campo de visão.

Sherlock encarava o Conde do outro lado da mesa. Primeiro, encontrara desafio em sua expressão; mas, em seguida, ele acenou lentamente com a cabeça. Muito lentamente, como se pedisse que o detetive não fizesse algo. Da mesma forma, seu olhar tomava súplica.

O garçom ao seu lado pareceu ter limpado o que podia, e havia um cheiro sutil de lavanda, uma nota abaixo do de maracujá. Pouco antes que ele se afastasse, Sherlock sentiu o movimento em seu bolso; a pinçada suave e a inserção mais ainda. Precisou baixar os olhos apenas por um instante para saber do que se tratava.

Não tomaria mais nenhuma atitude no sentido.

Assim que o garçom se retirou, o doutor levou os olhos a Sherlock. Qualquer um diria que sua expressão era nula, mas o doutor sabia não ser o caso. Desviou o olhar ao Conde, que abaixara a cabeça e agora conversava em meneios com sua esposa.

As pessoas ao redor iam silenciando de fato, o tintilar de talheres em pratos sendo mais óbvio a medida que o tempo passava: convidados eram servidos e se serviam, o cheiro intenso do vinho quase sobressaindo o perfumar quente da refeição.

Por mais atrativo que fosse, John não tocara em nada ainda.

Voltando o olhar para seu próprio prato, aproximou-se suavemente e, o mais discreto que pôde, pôs-se a falar com o detetive.

– Mas o que diabos foi aquilo? Aquele teatro todo?

A expressão de Sherlock era sólida, quase marmórea. Segurou seus talheres, passou a língua pelos lábios e deixou que sua voz se desprendesse da garganta, como um rosnado baixo.

– Sirva-se do que quiser dos pratos principais e coma.

O detetive cravou a colher em sua sopa como se ela fosse sólida, e seu maxilar marcava com força enquanto a tomava. Perfez um suspiro breve e nada mais disse.

Erguendo uma sobrancelha, o outro, como quem espanta uma ideia da cabeça, sacudiu-se num arrepio rápido. Encarou-o por mais alguns segundos antes de, embasbacado, começar a se servir.

Aquilo não era normal. Sim – era do feitio de Holmes agir como queria e sempre que queria, mas ele nunca ficara tão nervoso com algo tão rapidamente.

Não apenas nervoso, mas... ele não sabia – Watson não sabia do que se tratava; e isso o irritava profundamente, como em todas as outras vezes. Ele se acostumara a não entender rapidamente, e até se condicionara a algum sinal do detetive; mas, isso? Esse era o tipo de reação que ele odiava, porque estampava diante de seus olhos o quão incapaz ele era.

Incapaz de uma dedução.

Enquanto comia, não podia evitar o crescente desgosto consigo. Levar os olhos aos outros convidados era como assistir a uma peça e, uma vez que o Conde e a Condessa haviam se fundido à ela, não havia muito o que observar. Alguns suspiros furtivos escapavam dos lábios da mulher, mas eles não diziam muita coisa além do que Watson já sabia.

Evitava, contudo, encarar o detetive – era ainda mais frustrante ver como ele não expressava reação alguma além daquela inércia de quem esconde algo; mas, em alguns momentos, se pegara desviando vislumbres de soslaio, e chegava a ser engraçado como aquilo não servia para nada.

Finalmente, percebeu, havia acabado seu próprio prato.

Puxando o guardanapo a sua frente, limpou as pontas dos dedos – para logo em seguida puxar a taça de vinho e dela beber seus últimos goles.

Enquanto colocava o cristal sobre a mesa, com a mão livre puxava um relógio de dentro do casaco de seu bolso. Assim que viu quão tarde era, aprumou-se e, novamente, se aproximou do detetive.

– Sherlock, meu trabalho... – murmurou, estendendo o relógio em sua direção sob a sombra da mesa.

O detetive todo aquele tempo forçou-se a acabar logo de comer; movimentos rápidos, incisivos. Quando Watson terminara, pareceu-lhe que tinha se passado uma eternidade.

– Oh, claro! – Sua voz talvez jamais dantes tivesse soado tão interessada nos deveres de Watson. Levantou-se, e era curioso como o fizera tão calmamente e ao mesmo tempo tão de súbito. Virou o corpo de modo a quase tomara a frente de Watson. – Desculpem-me, senhores, mas o ofício de meu amigo doutor o está chamando... Não é algo que possa esperar. Estamos na mesma diligência.

Colocou uma mão no ombro de Mycroft, ao seu lado. Seu irmão ergueu a cabeça e também concluiu aquilo se tratava.

Ao ouvir aquilo, ergueu-se também e virou o corpo para as pessoas ao redor de sua mesa – duas, em particular-, e se deu às apologias.

– Conde, Condessa – solicitou a atenção com um meneio, e ambos tiraram os olhos estupefatos de Sherlock e passaram a encará-lo – ... sinto termos de REALMENTE nos retirar. Como Holmes disse, tenho um paciente em vinte minutos, e não posso deixá-lo esperando.

O homem pigarreou, estreitando ligeiramente os olhos antes de suavizar a expressão.

– Bem, se não há nada que possa ser feito... – rolou os olhos, parando-os na direção do detetive por alguns milésimos de segundo.

– Não, não há. Perdoe a falta de tempo. – afastou a cadeira, pondo-a em seu lugar enquanto se distanciava da mesa – Vamos, Holmes? Mycroft?

Mycroft engoliu em seco ainda uma vez antes de levantar-se. Não era o tipo de situação à qual se submeteria, mas, independentemente de todas as conversas que ainda precisava fazer, sentiu-se obrigado a levantar – que fosse para voltar a respirar, porque o ar estava tão denso naquela mesa que parecia passível de sufocá-lo. Dadas as circunstâncias, de fato torceu para que fosse puramente uma impressão de desconforto. Seguiu os dois enquanto, sob sorrisos amarelos e passos casualmente balançantes, eles se afastavam da mesa.

Quando alcançou seu irmão, Mycroft encostou-se ao seu braço e desviou-lhe uma pergunta em voz baixa.

– Quem vai ser? Vai ser alguém, não vai?

– Ainda não. Lá fora. – Sherlock endurecia cada vez mais a expressão a cada metro que eles ficavam mais longe da mesa.

– Diga-me que não sou eu.

– Se você não se calar, será todos nós. – Sherlock não mediu as palavras para rosnar com o outro Holmes. Enfiou a mão nos bolsos e, para os outros dois, novamente fez-se um momento de seguir aquele detetive em disparada pelo salão, que rumava diretamente para a saída. Cada uma das pessoas que estava ali agora tinham um espectro estranho para o detetive. Algo nelas era tão suplicante quanto o olhar do Conde, mas seguia cortando qualquer subjetividade e tomando distância do perigo. Atravessou a passagem alta para o saguão de entrada com um único objetivo nos olhos: a porta da frente.

Apressando-se a acompanhar o passo dos irmãos estava Watson, mas seu condicionamento físico deixara de ser perfeito já há algum tempo. Bem verdade era que o ritmo que Sherlock tomara tornar-se-ia doloroso se não fosse logo modificado – entre o caminhar e a correria, era uma área cinza que mais cansa do que é efetiva de fato.

Chegaram ao majestoso batente da porta e, tão logo passaram por ela, a brisa fresca da noite encheu seus pulmões numa lufada de vitalidade.

Esperaria alguns passos – mas só mais alguns passos; apenas os necessários – e então, convencera-se, iria voltar a questionar o detetive.

Só precisava da ausência do irmão.

Estavam na metade do caminho arbóreo que os levava até a rua quando o mais velho dos Holmes voltou a falar.

– Não quero ser cúmplice de nada disso. Então só me diga o que estou fazendo aqui fora.

– Só pegue a sua diligência e vá embora. Eles já estavam suficientemente alarmados comigo e com Watson. Afinal, ele é um médico, eu sou um detetive e você nos levou para dentro. Nós três naquela mesa éramos como fagulhas oscilando ao lado de um tonel de querosene. Não podemos voltar a entrar, em nenhuma hipótese.

Mycroft parou tão logo atravessaram os muros. Girando os calcanhares na calçada, direcionou-os um sarcasmo inconveniente.

– Um belo desastre para terminar o dia. Era bem o que eu estava precisando.

– Mas definitivamente não era como se não estivesse esperando. – Seu irmão respondeu.

– Imaginei que você pudesse pará-los, Sherlock.

– Se tivesse me dado mais informações, eu poderia ter feito mais antes de entrar em fogo cruzado com as mãos atadas.

– Alguém vai morrer hoje, não vai? Diga-me ao menos que não sou eu.

– Não é você, Mycroft. Pode dormir tranquilo hoje. – Sherlock estreitou o olhar e deu as costas. Segurou o braço do doutor e puxou-o, para que andasse ao seu lado – Venha, Watson.

Ao que Mycroft ficava para trás, o doutor encarava Holmes como quem vê um elefante dançando no meio da sala.

Bufou, apressando o passo.

Assim que chegaram frente à diligência, puxou o próprio braço, desfazendo o enlace entre os dois enquanto o encarava, olhos ligeiramente cerrados. Entrou, sendo seguido por ele e, assim que o fizeram, pôs-se a falar.

– Como é que você se expõe dessa forma?! E depo– e depois SIMPLESMENTE fecha a cara? Você tem a menor ideia do risco que estava correndo? É impossível que não tenha. Tão esperto, não é? – riu, desgostoso – Você sabia. Deve ter um motivo pra isso. Fez de propósito; se expôs de propósito.

Como se já não tivesse um alvo na sua cabeça desde que entramos naquela casa! – ele se curvou para frente, apoiando os cotovelos nas próprias pernas – Agora, qual? Qual o motivo?

Sherlock olhou pela janela, cruzando as pernas. Tomou fôlego e, em uma hesitação incomum, tornou a fechar a boca antes de resolver falar de uma vez.

– Não é como nós pensamos de início. Os Wiltshire não estavam sob ameaça de serem assassinados. Eles é que foram coagidos a envenenar alguém. Eles não ousariam fazer diferente, afinal, os dois outros Wiltshire que se negaram, tiveram um fim trágico. Estive esperando que algum dos olhares de Annabeth me contasse de quem se tratava, mas ela parecia absolutamente perdida. Ela não estava tentando esconder; a condessa simplesmente não sabia de quem se tratava. O papel deles era apenas encontrar as formas de colocar o pessoal para dentro e arquitetar tudo. O assassino precisava de contatos da nobreza britânica para se aproximar do Duque de Humpfrey.

O detetive voltou o rosto para dentro novamente, recebendo sobre si o olhar de fúria do doutor. Prosseguiu.

– Os próprios assassinos estavam correndo grandes riscos. Era uma noite decisiva e eles não deixariam que nada os atrapalhasse. Nós dois não deveríamos estar lá, e, ainda por cima, eu sou um detetive e você é um médico. Você poderia salvar o Duque, e eu poderia desmascará-los. E esse era um risco que eles não poderiam correr de jeito algum. Então, se existia mais algum prato que poderia ter sido envenenado, teria sido o nosso. Não se tratava do quê era servido, e sim a quem. Cada garçom nos servia a sopa de entrada separadamente; eu só imitei o Conde para que ele percebesse minhas desconfianças. Eu consegui perceber que não havia nada em meu prato, mas não estava certo quanto ao seu. Portanto, se esse fosse o caso e você estivesse exposto, eu arrumei uma maneira de que você voltasse a se servir; dessa vez, por conta própria, pulando a entrada. Assim você não... – cruzou as pernas para o outro lado – ...não corria o risco de ser intoxicado.

As palavras ecoaram por alguns instantes, apenas o som da respiração intercalado ao trepidar do veículo quebravam as ondas de tensão e vento que iam de encontro a seus corpos.

Watson levou as mãos ao rosto, passando-as por todo ele e depois as posicionando frente à própria boca, algo como uma concha.

Olhos fechados, cenho franzido e uma das sobrancelhas erguidas, ele se deixou cair para trás, recostando-se.

– Eles estão errados. Você não é genial. Você é um imbecil. – suspirou, levando as mãos à testa – Um imbecil. Como se fosse adiantar muita coisa se... Se eu não fosse envenenado, mas você fosse morto; por exemplo! – bufou, num riso fanho quase latido. Então, encarou-o. – Mas você comeu. O mesmo prato de sopa que lhe serviram; você comeu. Você pode estar morrendo nesse instante, e estava lá, fechando a cara por causa das minhas batatas! – rosnou – Vamos fazer exames. Você vai fazer exames.

O semblante de Sherlock permanecia indiferente; os punhos cerrados, os lábios em linha.

– Eu disse que não fui envenenado. E, mais: desde que eu fiquei sabendo das mortes entre os Wiltshire, eu analisei quais eram as toxinas que foram ministradas. Você acha que eu estava fazendo doces em casa? Estava testando o efeito dessas toxinas em alimentos, assim como provando antídotos. Estou imune.

– E eu devia...? Certo. – suspirou, inspirando fundo em seguida. Fechou os olhos, pressionando as têmporas com os dedos indicador e médio. Enquanto soltava o ar, as palavras saiam de seus lábios um tanto cansadas – Vamos pra casa, Sherlock.

– Já estamos indo. – O detetive respondeu-lhe com certa rispidez, e foi tudo o que disse até que o veículo parou à frente do 221B na Baker Street. O caminho, portanto, tornou-se uma ladainha dos cascos dos cavalos nas pedras, embalados por aquele sacolejar insistente. Nenhum dos dois olhava mais para dentro da diligência; ela parecia escura e pequena demais. Os detalhes do jantar rodavam na mente de Sherlock e uma mutiladora sensação de impotência diante do que sabia que iria acontecer era capaz de pinicar seus pensamentos.

O Conde percebera que o detetive havia compreendido seu plano. Sherlock não via problema nisso; era um tanto a sua intenção. Enquanto limpava o molho que ele tinha derramado, no entanto, o garçom deu um jeito de mostrar que ele não poderia mais levantar a voz sem que aquilo se tornasse uma ameaça. Havia olhos demais ali; não fosse pelo veneno, eles matariam de outras maneiras; mas não sem botar todos em risco.

E aquilo de repente importava mais do que devia. Estava se sentindo um pouco perturbado. Uma angústia incomum; talvez estivesse... tonto?

Assim que a carruagem parou, Sherlock levantou-se e abriu a porta. Botou-se para fora dela de um pulo, mas seus passos fraquejaram. Seu corpo oscilou para o lado e ele botou uma mão na testa, esticando o outro braço para se equilibrar.

Ao vê-lo cambalear, passos em corrida foram ouvidos. Ao seu lado, o doutor passou um dos braços por suas costas, puxando-o em direção a porta. Mãos trêmulas demoraram a encontrar seu caminho pelos bolsos até a chave mas, uma vez aberta a porta, entraram. – Sherlock? – retoricamente, sussurrou; levando as mãos à fronte do outro. Franziu o cenho, indo em direção à sala, o detetive sobre si.

– Aaaaaaaaaah, Sherlock... Mas é– eu não acredito nisso. Você sabia... Você sabia; não sabia? – cerrou os olhos enquanto se aproximavam de uma poltrona, Watson ajudando-o a ali sentar. – Sherlock, olhe para mim. – tomou o rosto do detetive entre as mãos, como se ele já estivesse bem pior do que realmente estava – O que era? Vamos! Sherlock, você não disse que estava imune?

– Isso era esperado. – O detetive insistiu em levantar-se, segurando com força o braço do doutor enquanto o fazia – Lembra-se de sua confusão quando descera da diligência? Chegou a até mesmo a acertar a cabeça no batente da porta. Foi bem mais leve, mas você tinha de fato ficado muito tempo na cozinha, onde eu estive lidando com tudo isso. Tudo o que eu andei testando também tem propriedades capazes de causar efeitos colater...

A voz de Holmes esmaeceu, tal como a força em seus dedos. Seus joelhos falharam e a imagem de sua sala escurecia pelas beiradas em seus olhos. Sem mais poder conter a vertigem, ele sucumbia a um desmaio, caindo para frente, na direção do doutor.